Episódio 1: Triunfo dos Sem Carne

É bom ser Phyrexiano.

É bom ser Elesh Norn.

Isso sempre foi verdade, mas nunca tanto quanto agora. Três vermes — Kaya, Kaito e Tyvar, como os outros os chamavam — estão diante dela implorando por misericórdia. Oh, eles não o fazem em voz alta, mas Norn vê. Norn entende. O medo assombra seus olhos e seus corpos excessivamente rígidos. Armas tremem em mãos de juntas pálidas. Como são equivocados. Se eles se submetessem, ela poderia eliminar todas as suas falhas, mas sabe que recusariam uma oferta tão magnânima, tal ato de benevolência. Não há sentido em perguntar.

Assim como não há sentido em seus esforços.

Tudo será um. E não vai demorar muito, agora.

"Fiquem conosco", diz ela. "Contemplem a glória de Nova Phyrexia."

"Vá para o inferno", diz a menor. O maior move-se em sua direção — mas o outro o puxa de volta. Típico. A discórdia vive nos corações dos descrentes. Mesmo quando são tão poucos, nunca estão verdadeiramente unidos.

Se ao menos pudessem ver isso.

Um mero movimento do pulso de Norn é suficiente para invocar os portais — tudo neste lugar está sintonizado com sua vontade. O metal estala, desliza e se rearranja ao redor deles. Cinco íris se abrem em cinco planos alternativos. Não importa como seus céus começaram — violeta quente, cinza ardósia ou preto carvão — agora eles pulsam com luz vermelha. Símbolos phyrexiamos brilham entre as nuvens. É através desses portais que ela agora assiste às invasões. Os membros massivos e com pontas farpadas do Rompe-Reinos irrompem, ancorando-se onde bem entendem. Rios de óleo abençoado correm sobre a terra. Casulos voam das farpas fixadas, pairando em todas as direções — mas sempre em sincronia perfeita. Alguns dão à luz centuriões, outros dão à luz golens, e alguns ficam à espera das almas perdidas que logo acolherão.

Para as três criaturas perdidas diante dela, um nascer do sol é belo. Phyrexia sabe melhor. Milhares de bocas falando com uma só voz; milhares de olhos com uma única visão; milhares de mentes com apenas um pensamento. Isso é beleza.

E eles a criaram com suas próprias mãos multitudinárias.

"Vocês já conheceram tal unidade?", ela pergunta.

A menor abre sua bocarra. Antes que as palavras saiam, outra voz muito mais agradável a interrompe. "Fizemos o que pediu."

Lukka — esse é o nome dele, não é? Um dos humanos sente náuseas ao vê-lo, mas para Phyrexia, ele é um exemplo brilhante do futuro que os espera. Oh, então ele era rude e imperfeito. Eles suavizariam isso em breve. A carne treme diante de sua própria destruição; é natural.

Norn vira-se para seus santos evangelistas. Jace afasta-se — ele sabe o que Norn quer, é claro, sabe antes que ela precise dizer qualquer coisa. Mais três chegam em passo de marcha: Lukka, Atraxa e Ajani. Nahiri vem atrás, o membro mais recente enviado para buscar seus companheiros. Carregada como uma oferenda amarrada entre eles está a outrora poderosa Sheoldred. Fora de sua armadura, ela é patética e pequena — uma Salamandra crescida demais que outrora sonhou com o preitorado. Toda Phyrexia sabia que ela era apenas uma pretendente ao título. Agora isso está finalmente exposto.

Lukka e Ajani apresentam sua presa. Sheoldred cospe, sua saliva negra caindo bem antes do alvo. Amarrada como está, sua inclinação natural é tentar se desvencilhar. Como é satisfatório vê-la reduzida a isso.

"O que faremos com ela?", pergunta Ajani. Seus olhos voltam-se para os prisioneiros. "Ou precisamos lidar com eles primeiro?"

Norn observa os pequenos vermes, tão assustados. Já estão recuando. Seus planos são tão óbvios quanto seu terror: deixar Nova Phyrexia, contar aos outros, reunir suas forças escassas e montar um contra-ataque. É assim que os esforços dos presos à carne costumam terminar. Aonde toda essa luta os levou? Aqui, no santuário interno, irremediavelmente superados em número, eles ainda acham que há uma saída para isso.

É divertido — da mesma forma que a morte é divertida depois que você a transcende. "Vocês querem ir embora, não é? Phyrexia o permitirá. Com uma condição", diz ela. "Nahiri — restrições."

Pedra brota do chão, envolvendo os três Planeswalkers imperfeitos. Apenas suas cabeças permanecem desimpedidas. Não funcionará para sempre, Norn sabe bem — ela viu a menor atravessar matéria sólida anteriormente — mas servirá ao seu propósito. E se eles cuspirem em sua benevolência, então mereceram seus destinos.

"Vocês serão os profetas de nossa chegada", diz ela. "Com o tempo, dirão aos seus irmãos incrédulos o que viram: um futuro unido."

"Que piada", sussurra Sheoldred. Falar força seu peito contra as amarras. "Toda essa encenação não mudará a verdade: você só está cuidando de si mesma, Norn. Phyrexia não significa nada para você, a menos que se conforme aos seus delírios loucos. Você nunca se importou com a unidade, só se importa consigo mesma."

"É mesmo?", repete Norn. Ela bate no braço de seu trono. "As preocupações de Elesh Norn são as preocupações de Phyrexia. As Gravuras Argênteas exigem que espalhemos a glória de Nova Phyrexia, Sheoldred. Por muito tempo você tentou apodrecer nossos ensinamentos sagrados por dentro — mas o tempo para isso já passou. Nosso futuro é reluzente e perfeito, livre de sua mancha. Phyrexia não tem mais lugar para aqueles que desejam poder acima da unidade. Ajani — execute-a."

Arte por: Joseph Weston

Pela primeira vez, Sheoldred faz mais do que sussurrar. Qualquer que seja seu protesto gritado, ele se perde na descida rápida do machado. A cabeça de Sheoldred quica e para a seus pés, espalhando icor negro pelo chão de porcelana. Norn dedica-lhe apenas um momento de atenção; seus servos removerão o cadáver para processamento. Não se deve desperdiçar partes perfeitamente boas — elas servirão a Phyrexia como Sheoldred não pôde. Músculos se tensionam contra a pedra enquanto o maior dos prisioneiros tenta se libertar. Com tempo suficiente, ele conseguirá.

Elesh Norn conta com a fuga deles. Deve haver aqueles que espalhem o evangelho, afinal, e eles não podem fazê-lo daqui. Assim que entenderem quão fútil é lutar contra o inevitável, poderão partir.

Mas mais uma vez ao trabalho, mais uma vez à invasão.

"Regozijem-se, abençoados evangelistas", começa ela. "Nosso símbolo brilha através dos planos, nossas palavras sagradas em sua sombra. Em breve, despertaremos o Multiverso de seu sono. A luz gloriosa da finalização — de Nova Phyrexia! — está próxima. Com a barreira de sua pele removida e suas mentes unidas às nossas, os outros logo conhecerão o êxtase de Phyrexia como vocês conhecem."

Uivos agudos ecoam dentro do santuário, vindos das entranhas de Nova Phyrexia. Como cantam belamente aquilo que não pode ser expresso em palavras!

Os evangelistas tentam unir suas vozes às das massas — mas são novos, suas gargantas são delicadas demais. Uma adição sem brilho. Um coro só é um coro se cada voz trabalhar em harmonia com as outras. A dissonância que causam é irritante~ e decepcionante.

"Silêncio na congregação!", grita ela.

E eis que há silêncio.

"Nosso trabalho ainda não terminou. Estamos diante da glória imaculada da finalização eterna; precisamos apenas dar nossos passos finais em sua direção. Por seu serviço zeloso e devoção, decidimos conceder-lhes a honra de unir suas terras natais. Diga-nos — Nahiri, onde você nasceu?"

A kor tem carne demais, de longe, mas eles fizeram o que puderam dado o tempo. "Zendikar", diz ela. "Muitas vidas atrás, nasci em Zendikar."

Norn assente. "Nissa", chama ela. "Mostre-nos este lugar."

Nissa é o melhor presente que os Planeswalkers deram a Phyrexia. Mesmo estando ao lado de Norn, ela pode guiar a atenção do Rompe-Reinos. Sem falar em suas capacidades de combate. Se as coisas continuassem nesse ritmo, ela poderia ultrapassar Tamiyo como a nova serva favorita de Norn — mas ainda há tempo para ver. E, na verdade, todos servem a Phyrexia à sua maneira.

Os portais se deslocam, unindo-se em um longo oval. Imagens díspares ondulam e se reformam em algo novo, algo inteiro, algo completo . Diante deles: uma floresta antiga, as árvores espessas como torres. O pouco que se pode ver do céu é tão verdejante quanto as copas acima. Elfos movem-se entre os galhos como formigas em uma colmeia, cada um armado, cada um olhando para cima, cada um esperando por algo .

Eles não percebem o quão cedo isso os encontrará. Os galhos pelos quais caminham dobram-se em formas phyrexians; buracos em árvores e pedras anunciam as formas que seus corpos assumirão. O portal de Norn está longe de ser o único: os mil olhos de Phyrexia olham para eles enquanto eles olham para cima. Nahiri rosna para Nissa. "A Mãe das Máquinas não se importa com essas ninharias. Mostre a ela um dos Enclaves Celestes." Novamente, a imagem ondula. Desta vez, a copa das árvores emoldura a vista de uma cidade flutuante. Edros a cercam como as penas de um pássaro encolhido. De um branco absoluto contra o céu, suas bordas ásperas e precisas, Norn a acha imediatamente bela. Talvez os de vida mais curta pudessem fazer algo útil, afinal.

"Você tem planos para isso?", pergunta Norn.

Nahiri assente. "Sim, Grande Preitora. Esta é uma relíquia do meu povo — uma arma antiga que outrora usamos para dominar o plano. Posso despertá-la mais uma vez para decretar nossa vontade."

Um sorriso de escárnio curva os lábios de Norn. "Você veste seu novo propósito tão bem quanto veste suas vestes. Vá para este lugar; nossas forças a encontrarão lá."

Nahiri não precisa de mais instruções. Em três passos, ela desaparece da existência, com o santuário ressoando com um estrondo. Norn olha para os prisioneiros mais uma vez. Já se foram; eles devem ter sincronizado sua partida com a de Nahiri para ocultar o som. Que criaturas lamentáveis, afastar-se de tamanha beleza.

"Lukka. Como você trará a glória de Phyrexia para o seu lar?"

O sangue de Sheoldred ainda mancha seu rosto e sua carapaça. "Ó Reverenda Mãe, eu o porei de joelhos."

"Especificamente, Lukka", diz ela. "Que você o porá de joelhos é óbvio."

Um grunhido sai dele; ele desloca o peso de um lado para o outro. "Os monstros", oferece ele por fim. "Uma vez que eles se juntem ao rebanho, os outros se encolherão diante de nós."

Ela não gosta dessa resposta — implica que os humanos já não se encolhem diante deles. Ela também não gosta da raiva latente sob a superfície, raiva que se presta a erros. Sede de sangue é muito bom em um bruto, mas em um tenente? Os Planeswalkers explorariam isso. Armariam uma armadilha para ele que ele não pudesse ignorar. Diante da escolha entre ficar para garantir a finalização do plano ou sair correndo para resolver uma queixa pessoal, Lukka sempre escolheria a queixa pessoal.

"Muito bem", diz ela. "Vá para Ikoria. Adicione esses monstros às nossas fileiras. Mas entenda qual é o preço do fracasso, Lukka, e não se esqueça de seu verdadeiro lar. Você foi ungido com o óleo sagrado de Nova Phyrexia — você não é mais uma criatura de instinto básico, você pertence a um todo maior."

"E que ele reine para sempre", diz ele.

Sua partida é tão rápida quanto a de Nahiri, e seus efeitos tão palpáveis. Norn permite-se imaginar quão mais rápido tudo isso poderia ter se concretizado se Phyrexia tivesse a mesma habilidade.

Não, é bom que Phyrexia tenha tido que esculpir sua vitória na espinha de um plano indiferente. Qualquer coisa menos os teria deixado inadequados para o trabalho.

"Grande Preitora", diz Tamiyo.

Norn é despertada de seus pensamentos. "Sim?"

"Ele certamente morrerá em Ikoria", diz ela. "Um homem obstinado costuma tomar decisões precipitadas — imagino que você pretenda que seja assim?"

"Se ele falhar, ele segue o caminho de Sheoldred, e um de vocês fará chover julgamento sobre ele", responde Norn. "Se ele tiver sucesso, o plano é nosso, e ele cumprirá penitência por quaisquer erros para nossa satisfação. De qualquer forma, Phyrexia é servida."

Tamiyo assente. "Como eu pensei. Você é tão sensata como sempre."

"A Grande Cenobita não comete erros", diz Atraxa. Os outros não estão acostumados com sua voz — eles a acham áspera e dolorosa, um caco de vidro para seus tímpanos delicados. Até Ajani estremece.

Norn não. "De fato. Tamiyo — era Kamigawa que você chamava de lar?"

"Uma vez, antes de eu vir a entender a verdade das coisas", diz ela.

"Nissa", comanda Norn. Apenas essa palavra basta. Mais uma vez os portais ondulm e se deslocam. O plano que os saúda brilha sob um céu noturno. Luzes artificiais iluminam uma cidade cintilante. A visão aproxima-se, como se estivesse na ponta de uma flecha, e logo estão dentro da própria cidade, estruturas em camadas surgindo perto da costa, alcançando a escuridão acima. As pessoas caminhando pelas ruas são suaves e maleáveis.

Arte por: Raymond Bonilla

Surpreende-a que ninguém esteja em pânico. Talvez tenham percebido que a finalização não é nada a temer — mas é mais provável que não saibam que ela está vindo, apesar dos portais acima. Aqui, nos momentos antes de as farpas se ancorarem, essas pessoas levam suas vidas inúteis. Um homem ingerindo algum tipo de comida. Ele fala com outra pessoa situada em uma pequena barraca que oferece mais do mesmo, fazendo-lhe uma pergunta cuja resposta logo será irrelevante. Uma mulher caminhando com dois de seus filhos. Eles estão implorando por uma porção extra do doce em sua mão. Ela arranca pedaços para cada um, ficando sem nada — um sacrifício que ninguém lembrará diante do que está prestes a acontecer.

Tamiyo observa também. Seu aperto se intensifica ao redor de um pergaminho com bordas de ferro. Entre os evangelistas, ela é a única que não está coberta de sangue.

"Você amava Kamigawa?", pergunta Norn.

"Amava", diz Tamiyo. "Uma terra de heróis e patifes, traidores e campeões. Parecia haver mil possibilidades para como a vida poderia mudar no futuro. Eu queria ver todas elas. E queria descobrir, com minha família, qual era a verdadeira. Agora amo o que ela se tornará."

"Sua família", repete Norn. Ajani cruza os braços — ele está ouvindo atentamente, sabendo que haverá perguntas para ele também. "Você ainda se importa com sua família?"

Tamiyo observa a mulher e seus filhos enquanto caminham pela rua. No alto, os primeiros fragmentos de branco entram em vista. A mulher continua. Ela balança as mãos de seus filhos, ou eles balançam as dela.

Então, como se lembrasse de que lhe fizeram uma pergunta, ela se vira. "Quero que eles entendam o que vim a saber sobre o mundo — sobre a unidade. Se todos formos finalizados, nunca mais precisaremos estar separados", diz ela.

"Você entende", diz Norn. "Nossa família é maior do que qualquer uma que você já conheceu. Acolha o antigo no novo de braços abertos, Tamiyo."

Não há silêncio verdadeiro no coração de metal pulsante de Phyrexia. Metal desliza sobre metal enquanto seus habitantes realizam sua grande obra sagrada; pistões animam seres além da compreensão humana; lâminas cortam aquilo que é impuro. Aqui, também, eles ainda podem ouvir os sons distantes das contribuições finais de Sheoldred: o estalar de quitina, o rasgar de tendões.

Contudo, o silêncio que segue as palavras de Norn está lá da mesma forma. Tamiyo observa a tela e não dá sinal de ter ouvido o comando abençoado de Norn.

O Rompe-Reinos perfura a terra. Edifícios em camadas tremem e perdem suas camadas — andares inteiros desabam. Por toda parte, as telhas estão caindo como neve de porcelana denteada. Em apenas um instante, a pequena barraca de comida é esmagada. O vermelho transborda debaixo dela, juntando-se à água borbulhante.

A mãe pega seus filhos, um em cada braço, e corre.

"Tamiyo", repete Norn. Essa hesitação prende-se entre os dentes pontiagudos de Norn.

Um homem de preto cruza a visão deles. Em uma tempestade de cortes brilhantes, as telhas que caem são partidas, desviadas da família.

Eles não veem mais o que acontece — Atraxa levanta voo, bloqueando a visão com suas asas. Quando ela fala, sua voz é mais afiada que a espada, mais afiada que as facas invisíveis trabalhando não muito longe dali.

"A insolência não é tolerada aqui. Você recebeu um comando."

Tamiyo assusta-se; Ajani estremece. Ela se vira, piscando. "Eu... Sinto muito, não tenho ideia do que deu em mim —"

"Certifique-se de que, seja lá o que for, você o erradique", diz Norn. "Não pode haver espaço para isso. Retorne com Kamigawa sob seu controle ou seja reciclada em algo que sirva melhor."

"Como desejar", diz ela. O bom senso deve ter retornado a ela — ela não hesita mais em partir e não olha uma única vez para a tela.

Restam apenas quatro deles na sala assim que Tamiyo se vai. Nissa, de pé ao seu lado, seus olhos nublados de verde. Ajani, que observou Tamiyo partir, espera por seu próximo conjunto de ordens. Atraxa permanece no ar. A cada batida de suas asas, sua antecipação é palpável.

Mas a paciência é uma lição valiosa a ser aprendida.

"Ajani", diz ela, e ele inclina a cabeça. "O que eu vou lhe perguntar?"

"Para me mostrar o lugar onde nasci", responde ele.

"Não. Seu destino é maior que isso. Acreditamos que você sabe onde ele reside."

Não é o silêncio que surge entre eles então, mas a compreensão. Quando ele se vira para os espelhos, é com confiança. "Você quer ver Theros."

"Exatamente."

O preto cobre a superfície dos espelhos, o preto brilha intensamente, o preto reflete algo novo.

Uma cidade olha de volta para eles — uma diferente da anterior. Ondas cor de vinho banham praias douradas; casas brancas pontilham um campo verdejante. Onde Kamigawa estava envolta na noite, este lugar é brilhante sob a luz do sol. Navios navegam sob as espadas estendidas de duas estátuas guardiãs. Em seus conveses, pescadores perguntam-se por que suas capturas se contorceram em formas estranhas. Nas encostas dos penhascos, astrônomos debatem o significado das aparições do portal.

É uma visão tão pacífica quanto qualquer um poderia imaginar, se não olhasse de perto.

O coração de Norn transborda de empolgação. Estão tão perto da perfeição, tão perto de uma compreensão mais profunda. E ela sabe que não demorará muito: Theros está entre a primeira onda de alvos.

E parece que terão uma boa visão das festividades.

Começa da mesma forma que em Kamigawa: grandes galhos brancos irrompendo dos portais. Nenhuma árvore pode ser vista aqui, mas as raízes encontram apoio da mesma forma. Casulos se instalam antes que a árvore tenha terminado seu trabalho, tamanha é a ânsia de Phyrexia em reivindicar este lugar. Alguns explodem no ar, dando à luz um enxame de conversores insetoides. O vento carrega a tempestade de lâminas para o mercado. O metal brilha nos céus acima, pedaços de porcelana branca caindo na terra, carcaças abrindo crateras nos edifícios onde pousam. O mármore esfarela-se como areia; óleo negro risca o branco. Templos trancam suas portas apenas para que as máquinas de guerra de Phyrexia as derrubem. Construtos alados devoram gado e humanos da mesma forma, alguns descendo nos navios para encontrar suas refeições. Redes fazem pouco para detê-los; lanças ricocheteiam em suas carapaças orgulhosas.

Phyrexia está faminta. Elesh Norn está faminta. Cada aperto de suas mandíbulas traz o gosto de sangue à sua língua — uma oferenda do coro para ela. Ela está com eles, e eles estão com ela, e em breve este lugar será um.

"Parece que nossas forças estão indo bem sem mim", diz Ajani.

"Abatendo os fracos e capturando os úteis", diz Norn. "Eles serão muito mais eficientes quando você estiver lá para liderá-los."

"Você não me enviaria para lá por razões tão triviais."

Ele viu mais do que deveria, então. Comandantes são melhores quando são astutos, mas também mais perigosos. Ser astuto é ser individual, e dentro de Phyrexia todos são um.

Elesh Norn terá que lembrá-lo disso. Possivelmente com novas modificações.

"Theros é importante para o futuro de Nova Phyrexia."

Como se para ajudar a deter mais perguntas, a batalha do outro lado do portal se intensifica. Nissa mudou a visão para a de alguém parado na margem. Parcialmente submerso na água está um templo. No topo desse templo está uma mão envolta no preto mutável do céu noturno, gotejando rios em seus degraus. Somente quando seu observador invisível olha para cima a imagem completa se torna clara: há algo guardando o lugar. Parte mulher e parte outra coisa. O mais estranho — e mais instigante — é a maneira como partes dela surgem e desaparecem da existência.

Arte por: Johan Grenier

Uma criatura desse tamanho poderia conquistar planos inteiros por conta própria quando finalizada. Ainda assim, se o tamanho fosse a única coisa que interessasse a Phyrexia, Norn teria enviado alguém mais confiável para Ikoria.

Não — o que quer que essa coisa seja, é mais do que apenas algo enorme: é algo que Elesh Norn quer .

"Aquilo", diz ela, apontando com um dedo de porcelana. "Você deve trazer aquilo para o abraço de Phyrexia."

Ajani estuda a criatura. Assentindo uma vez, he olha para Norn. Há algo como um sorriso em seu focinho conforme o plano se torna aparente para ele. "Ah — agora eu entendo, são os deuses que você persegue."

Aquilo é um de seus deuses? Norn esperava mais de divindades. Não que existissem quaisquer outras que pudessem esperar desafiar Phyrexia agora que ela assumiu seu devido lugar. Embora essa criatura seja majestosa de certa forma, está longe de ser pura. A mente de Norn já corre pelas possibilidades.

"Traga sacerdotes com você", diz ela. "Traga as Gravuras Argênteas. Derrotaremos esses deuses em todos os campos de batalha possíveis. Para aqueles sábios o suficiente para perceber a verdade do Multiverso, conceda-lhes o poder de iluminar seus antigos amigos."

"As gravuras facilitarão as coisas. É a crença que faz os deuses em Theros, não o contrário", diz ele. "Uma vez que o povo entenda a verdade, os deuses os seguirão." Ele olha mais uma vez por cima do ombro. A criatura — o deus — cravou um bidente em uma de suas naves de ataque. Na margem, os marinheiros que restaram abraçam-se em celebração. Sorrisos largos abrem-se em seus rostos, tornados estranhos pelo medo que se apega aos seus olhos.

No fundo, eles sabem que não será o suficiente.

E isso traz a Norn uma alegria indizível e inefável.

"Vá", comanda ela.

Ele vai. Ajani, sempre leal, faz o que lhe é dito. Enquanto ele desaparece da existência, ela permite-se um momento de orgulho em seu recrutamento e criação.

E orgulho também de que ele não descobriu o verdadeiro motivo pelo qual ela o enviou a Theros. Está tudo bem. Mesmo ignorante de seu objetivo, ele o cumpriria.

Apenas Atraxa e Nissa permanecem no santuário com ela.

"Mãe das Máquinas, mais alta e santa das autoridades, vivo para servir", oferece Atraxa.

"Você não precisa perder tempo com tais ineficiências", diz Norn. "Você bem sabe que há uma razão para sua tarefa ter ficado por último."

Um leve estremecimento diante da repreensão, visível apenas para a mulher que moldou o corpo de Atraxa com as próprias mãos. Os outros poderiam reivindicar quaisquer partes que quisessem — mas Norn conhecia Atraxa melhor, e Norn tinha seu coração. Nada restava de sua vida anterior, exceto aquilo que a tornava perfeita. "O que quer que Nova Phyrexia me peça, será feito."

"Nissa — nossos missionários outrora encalharam em um lugar chamado Capenna. Mostre-nos o que aconteceu com ele."

Leva mais tempo para as visões diante deles mudarem. Frustrante, mas não inesperado; este não é um lugar que Nissa conheça bem. Quando finalmente a visão entra em foco, eles estão olhando para um portão dourado cercado por mármore branco. Inscrições cercam a borda. Norn não consegue ler o idioma e não se importa em fazê-lo. Não que conseguisse mesmo se estivesse familiarizada com ele desde o início: uma névoa dourada cintilante torna todos os detalhes finos difusos.

Atraxa nada diz, mas olha para cima, em direção a Norn. Tão parecida com uma Salamandra recém-nascida, escorregadia do tanque.

"Nossos predecessores encontraram este plano por meios antigos", diz ela. "Embora estivesse impregnado de um fedor sagrado, eles viram nele algo valioso — algo que valia o risco que seus guardiões apresentavam. Durante a maior parte de um ano eles permaneceram, pegando o que desejavam, conduzindo pesquisas vitais na população, espalhando corrupção abençoada por onde passavam."

"Até que algo os selou", oferece Atraxa. Bom; ela está começando a entender por que foi escolhida para isso.

"De fato. Anjos. Falsos profetas presos à pedra por sua insolência", diz Norn. Essas palavras devem ter peso para Atraxa. Ela as deixa ecoar antes de continuar. "Temendo a verdade que traríamos ao seu povo — uma unidade tal que eles nunca poderiam prometer — eles se desesperaram. Eles desistiram de suas formas físicas para suprimir a influência de nossa nave. Por anos estivemos aqui, e por anos não realizamos nada. Isso termina agora."

"Será feito", diz Atraxa. "Eu libertarei a nave —"

"A nave em si não nos interessa. Se tivessem sido fiéis, teriam triunfado. Se você a descobrir ou à sua tripulação, deverá despojá-los de suas peças. A finalização é um presente que eles não merecem mais."

"Como desejar", diz Atraxa.

"Nissa — mostre-nos a atrocidade que eles construíram."

A visão muda para outro céu noturno e para a cidade cintilante abaixo dele. Não — Norn recusa-se a pensar nela como uma cidade. A agulha imponente que alcança as estrelas é uma afronta em todos os sentidos. Mesmo sem uma névoa de ouro, federia à decadência. Onde quer que o olhar caia, há algo para horrorizá-lo: carapaças douradas montadas em lançadeiras verticais, uma adoração doentia por peles evidente em seus casacos e vestidos, o ruído imundo que chamavam de música tocado por tubos de carne indignos. Sua altura é a arrogância, e a arrogância é sua altura. Tudo isso construído sobre corpos phyrexians. Tudo isso para nos manter afastados.

"Grave isso em sua memória. Nunca se esqueça do que eles fizeram conosco, do que construíram aqui. Os infiéis consideram-se divinos, Atraxa, mas a divindade existe apenas na unidade."

"Tudo deve ser como um", ecoa Atraxa. Pelo aperto em sua arma, ela tem pouco apreço pela visão. "O que você deseja que eu faça?"

"Ensine a essas pessoas o preço de sua insolência. Eles poderiam ter se juntado às nossas fileiras outrora, mas não encontrarão mais tal misericórdia de nossa parte. Você colherá todos eles."

"Será feito", diz Atraxa. Com uma batida de suas asas, ela se aproxima da ponte para a árvore — mas Norn levanta a mão para detê-la.

"Há uma outra tarefa para você", diz ela.

Atraxa espera no ar.

Norn aponta. "Os anjos que deram a este lugar sua proteção ainda o guardam hoje — embora de uma nova maneira. A névoa que vemos aqui é o que resta de suas formas etéreas. Os infiéis chamam-no de Halo, e ele será um anátema para você. Até que você derrube a torre e desperte os anjos de seu descanso, você será incapaz de escapar de sua influência. Seu dever mais sagrado neste plano é encontrar sua fonte e destruí-la."

O queixo de Atraxa baixa. Ela olha para os espelhos, depois para Norn. "Mãe das Máquinas, não cabe a mim questioná-la..."

"De fato, não cabe", diz Norn. "Mas sua pergunta será permitida. Diga-a."

Seja qual for a pergunta, Norn responderá. Atraxa já está ligada à vontade de Nova Phyrexia — no final das contas, não importa qual seja a resposta de Norn, desde que haja uma.

"Se a nave está perdida por anos incontáveis e a atmosfera é venenosa, por que não deixar este lugar para os centuriões? Por que estou recebendo a tarefa?"

"As razões são tríplices. Primeira: é uma tarefa gloriosa, e completá-la anuncia seu valor a todos. Segunda: sua vida anterior pode lhe conferir alguma proteção contra este 'Halo'."

Não há silêncios verdadeiros dentro do santuário — mas há algo semelhante a isso enquanto Atraxa espera pelo terceiro item, e Norn pensa em como formulá-lo.

"Terceira: existe um perigo para Nova Phyrexia. Ao matar Nova Capenna, atingimos o coração dela."

As asas de Atraxa batem uma vez. "Este perigo — é por isso que você enviou Ajani para Theros também?"

"Astuto de sua parte", diz Norn. "Sim. Esse perigo não pode ter permissão para triunfar. Você e Ajani selarão nossa vitória."

"Então tudo é pela glória dos fiéis", diz Atraxa.

Ela parte, então. Apenas Nissa permanece — contudo ela é uma companhia fria. A tenente de Norn está preocupada demais com o gerenciamento do crescimento da árvore para falar com ela.

O ar não está exatamente silencioso no santuário.

Norn odeia isso.

Com um gesto, ela chama seus atendentes. Eles chegam para recitar seus próprios pensamentos e ensinamentos para ela. Em suas vozes estridentes, Elesh Norn esquece seus pesadelos — e a mulher que os persegue, envolta em branco.

Episódio 2: Prendendo a Respiração

Chandra odeia esperar.

Ela odeia tudo nisso: a casa segura onde estão todos enclausurados; os contatos diários de outros planeswalkers esperando para ouvir o pior; a agonia excruciante de saber que um golpe está chegando, mas não saber quando ou onde ele atingirá. Na última semana, eles não têm vivido em nenhum sentido real da palavra.

Eles têm esperado.

Esse é o plano, afinal. Por duas semanas eles esperarão aqui em uma das cabanas de Liliana em Dominária. Embora ela tenha jurado que eram simples substitutos para a Mansão Vess a ser reconstruída em breve, elas estavam repletas do tipo de proteções que fariam um demônio pensar duas vezes. Chandra não tinha ideia de que Liliana conhecia tantas proteções. Quando questionada, Liliana simplesmente disse que aprendeu a proteger seus investimentos.

Ao final dessas duas semanas, se não tiverem recebido nenhuma notícia, devem assumir que todos morreram e prosseguir de acordo. Se receberem notícias antes disso — bem, agirão de acordo com as notícias. Se forem boas, espalharão a notícia aos outros de que não há com o que se preocupar.

E se não forem boas, dirão aos outros para se prepararem para a guerra.

Alguns lidam com a espera melhor que outros — melhor do que ela. Vivien está mais fora do que dentro, o que dá a todos um pouco de espaço para respirar. Sua comida é incrível, também. Wrenn também costuma estar fora, mas nunca muito longe. Esperar é tranquilo para ela, ou assim ela afirma, mas Chandra sabe que ela está ficando inquieta. Wrenn pode ser uma dríade — mas há um fogo dentro dela também, e o fogo está sempre faminto por mais.

E então há Liliana, que odeia esperar tanto quanto Chandra.

Elas não falam realmente sobre isso, porque falar sobre isso é como abrir uma ferida, mas é algo que sentiram uma na outra. Quando Chandra retorna à tarde após suas conversas com Wrenn, Liliana muitas vezes tem uma história pronta para ela. Às vezes é uma companhia silenciosa — ela fica sentada ali lendo algum tomo antigo ou revisando planos para a renovação enquanto Chandra espera . Como ela consegue se concentrar em algo assim agora? Todos estão tentando ser normais, mas nada é normal, e ninguém quer falar sobre isso.

Ela nunca pergunta se há notícias. E se alguém chega pedindo para ouvir algumas, geralmente é Liliana quem responde, poupando Chandra do trabalho.

Mas a cada dia parece pior. É como se houvesse uma faca contra sua pele e a cada dia alguém a arrastasse um pouco mais. Cada gota de sangue é algo que ela não disse em voz alta, um pensamento que ela tem medo demais de ter.

Armamento phyrexiano. Óleo negro. Ajani e Tamiyo, perdidos para eles para sempre, tão diferentes das pessoas que eram há apenas alguns meses. Um plano cheio de pessoas assim — pessoas que fariam isso com os outros. Talvez seja errado pensar neles como pessoas.

Ela quer revidar. Pelo menos se estivesse no meio de tudo, saberia o que estava acontecendo, mesmo que as respostas não fossem boas. Ultimamente nenhuma das respostas tem sido boa. Se Nissa estivesse~

Mais do que tudo, ela quer que a espera acabe.

Por ora, ela passará o tempo com Wrenn.

"Você tem que se concentrar na sua respiração. O fogo precisa de ar assim como nós," diz Chandra. Jaya costumava dizer isso para acalmá-la quando as coisas ficavam ruins: se ela pudesse controlar sua respiração, então poderia controlar seu fogo, e se controlasse seu fogo, tudo ficaria bem.

Jaya está morta, Ajani a matou, e Chandra não tem certeza se algo ficará bem novamente. Mas ela tem que ter esperança de que ficará. Wrenn não é muito boa em respirar. Chandra não a culpa por isso — ela é uma dríade, afinal. A maioria delas não tem pulmões.

"Comparações com a respiração humana são um pouco difíceis de compreender," diz Wrenn. Chamas lamberam sua pele de casca. Apesar da dor em que deve estar, ela soa animada.

"Certo," diz Chandra. Ela coça a nuca. Nissa falava a língua das árvores. Ela provavelmente tinha toneladas de amigos dríades, inclusive. Ela saberia o que dizer — mas não está aqui. "Pense nisso como~ o fogo é algo que você tem que moldar. Você tem que encontrar as partes dele que não são úteis e cortá-las."

"Melhor," diz Wrenn. O fogo oscila — mas não recua tanto quanto Chandra queria.

Ela coloca uma mão no ombro de Wrenn, sentindo que é o que um mentor deve fazer, mas sem muita ideia de como mentorar. Jaya deixou tantas lições para ela. Chandra não tem certeza se internalizou todas elas. Como ela pode passar tudo isso para Wrenn? Alguém seria melhor nisso, alguém mais velho, alguém~

Alguém como Ajani.

Chandra extingue o pensamento.

"Vamos fazer juntas," diz ela. "Estarei bem aqui com você. Alguns fogos não valem o ar; o truque é saber quais."

"Está bem," diz Wrenn. "Embora isso pareça terrivelmente rude com o fogo."

Chandra fecha os olhos. Ela respira fundo. No fundo de sua mente, ela ouve a voz firme de Jaya dizendo-lhe para se concentrar na sensação do ar passando por suas narinas. Ela repete as palavras, desajeitadas e deselegantes, conforme elas vêm a ela. Você tem que falar com o fogo. Descobrir o que ele quer fazer.

E então, o estrondo impetuoso da trombeta de guerra da chegada de Tyvar cai como um machado entre elas.

As duas olham em direção à casa segura a tempo de ver duas figuras entrarem mancando pela porta. A respiração de Chandra para em sua garganta.

Não há mais palavras entre ela e Wrenn; não há necessidade delas. Chandra segue para a casa segura, disparando um sinalizador no céu cinza turvo e esperando que seja o suficiente para atrair a atenção de Vivien.

E apesar de odiar esperar, Chandra se vê hesitando no limiar.

Apenas três deles voltaram. Talvez os três primeiros, talvez não. Mas quais três seriam? Ela repassa as possibilidades em sua cabeça, e se odeia por fazer isso. Notícias são boas de se ter, sejam quais forem. Mas quem esperava além da porta?

Ela nunca vai descobrir se ficar aqui fora.

Chandra respira fundo. Ela entra na casa segura com os olhos fechados.

"Estávamos certos sobre a árvore. Eles têm a deles. Está corrompida, retorcida —"

"Eles nos superaram no planejamento. Tinham uma resposta para tudo —"

"Moldando a realidade para o que quer que queiram —"

Três vozes. Nenhuma de Nissa. Outro corte.

Chandra engole em seco. Há outras coisas para se pensar — este plano é maior do que qualquer um deles individualmente. Kaito, quase inteiro, encosta-se em um busto. Kaya e Tyvar estão largados em um sofá quando ela abre os olhos, ambos cobertos de sangue, sujeira e graxa. Liliana, logo ela, está cuidando dos feridos — há pequenos frascos de líquido dispostos diante dela no chão. Ela despeja um pouco em um pano antes de aplicá-lo contra um dos ferimentos de Tyvar.

É Liliana quem percebe a entrada de Chandra. "Não são boas notícias."

"Não parecia que seriam," diz Chandra. "Nunca vi nada mais sórdido," diz Tyvar. Um olhar assombrado surge nele. "A essência da Árvore do Mundo que eles roubaram de Kaldheim, eles a usaram para criar uma monstruosidade. Nem sequer está viva."

"Eles a estão usando para invadir os outros planos." Kaya não consegue mais ficar sentada — ela se levanta e anda de um lado para o outro. "Movendo exércitos inteiros. Armas como nunca vimos antes. Não sobrou quase ninguém em Nova Phyrexia além daqueles pesadelos mecânicos. Logo eles estarão em todos os lugares."

Arte por: Liiga Smilshkalne

"Mas ainda temos gente para revidar, não temos? Podemos buscar todos os outros nos outros planos, reuni-los, voltar para Nova Phyrexia e derrubar Norn," Chandra está balbuciando, e ela sabe disso, mas não consegue parar. Ar, pensa ela, ar — continue respirando. Tudo isso vale o ar. "Isso não acabou. Não pode ter acabado."

Há compaixão nos olhos de Kaya. "Não, não podemos."

"Talvez devêssemos esperar por Vivien antes de entrarmos em detalhes," interrompe Kaito.

Chandra não gosta nada disso. "Já fizemos o suficiente disso. Como eles a estão controlando?"

"Só estou dizendo—" começa Kaya, o mais gentil que consegue ser.

"Kaya. Por favor," diz Chandra. Surpreende-a o quão sofrida sua voz soa. "Diga-me o que aconteceu."

Kaya engole em seco. "Eles pegaram a Nissa."

E, de repente, Chandra esquece como respirar. Ela gagueja. Ela sabia. Em algum nível, ela sabia, quando Nissa não estava com o grupo, que~

Antes que ela possa formular algo para dizer, a porta se abre atrás deles.

"Há notícias?" diz Vivien atrás deles. "Esperem~ Onde está o Jace?"

"Elegantemente atrasado, imagino," diz Liliana. Ela amarra a bandagem ao redor do peito de Tyvar. "Ele estará aqui a qualquer momento."

Kaya fecha os olhos. "No. Ele não virá."

O rosto de Liliana, pelo menos, não mostra sinais de aflição. Sua voz sai afiada e ferida — a mesma ferida no peito de Chandra. "Não seja ridícula."

"Ele lutou bravamente, mas estas feras~" diz Tyvar.

"Bravura não importa muito quando seu oponente nunca se cansa, nunca erra," diz Kaito. Ele parece não conseguir desviar o olhar do chão. "Ou quando você já está tão perdido."

"Isso não faz o menor sentido," diz Liliana. Ela se levanta, pegando uma bandeja de frascos para esconder suas mãos trêmulas. "Toda essa bobagem foi ideia dele. Ele não falharia simplesmente. Ele não faz isso."

"No fim, não acho que fosse mais ele. Ele se tornou um deles," diz Kaito.

Liliana está respirando mais profundamente, mas não quer que ninguém perceba. "O que você quer dizer?"

"Não temos tempo para nos perder nos detalhes," interrompe Vivien. "O que quer que tenha acontecido, Nahiri vai para Zendikar, a Imperatriz Errante deve ter escapado, Elspeth já deve ter seguido para Theros —"

"Vimos os phyrexianos levarem Nahiri também," diz Tyvar.

"Elspeth não conseguiu," acrescenta Kaito. "A Imperatriz Errante provavelmente voltou para casa, mas não há como Elspeth ter escapado daquilo."

"Não há a menor possibilidade de Elspeth Tirel ter morrido em Nova Phyrexia," diz Vivien.

As sobrancelhas de Kaya se franzem. Seus olhos se voltam para Liliana. "Vamos direto ao ponto: a última vez que vimos Elspeth, sua espada estava saindo das costas de Jace." Ela aperta a ponte do nariz antes de continuar. "Aquela árvore maldita já estava conectada a uma dúzia de planos, pelo menos . Se ele detonasse o silex, poderíamos ter perdido todos eles . A coisa estava em contagem regressiva para o fim dos tempos, e não havia tempo, então ela~"

Kaya se cala. Tyvar retoma a fala. "Elspeth o atravessou, pegou o silex e transplanou para as Eternidades Cegas. Um sacrifício nobre — ela deve estar banqueteando com as valquírias agora."

"Ah, cale a boca," sibilou Liliana.

O ar na sala segura esfriou. Jace e Nissa se foram. Nahiri, também. Até mesmo Elspeth não conseguiu sair no final. De todos os que enviaram, apenas quatro retornaram, e dos quatro, apenas três estão aqui. Tudo o que temiam está se tornando realidade: a invasão phyrexiana está em curso.

Vivien se acomoda no chão com eles, tendo perdido sua postura orgulhosa diante das notícias. "Isso é pior do que eu pensava."

"Essa é a única razão pela qual estamos aqui. Vocês precisam entender o que estamos enfrentando," diz Kaya. "Todo o Multiverso precisa entender. Agora, como eu estava dizendo —"

"Bem, vocês podem continuar sem mim." É uma interrupção súbita, com uma força incomum destinada a disfarçar a oscilação de quem fala. Liliana já está indo em direção à porta. "Vou enviar notícias para Strixhaven."

"Você deveria ouvir a história..." começa Tyvar, mas Liliana já está balançando a cabeça.

"Já tenho uma ideia suficiente do seu tipo de narrativa. Sacrifícios nobres nunca descem bem para mim."

Chandra abre a mão, depois a fecha em um punho. "E se houver uma maneira de ajudarmos os outros?"

Chandra já ouviu pessoas dizerem que Liliana é toda arestas afiadas e ambição. É verdade. Mas também é verdade que, em certos ângulos, elas cedem. A inclinação da cabeça de Liliana agora é tudo, menos afiada; a ambição em seus olhos mudou para uma profunda compaixão. "Você quer voltar lá você mesma, não quer?"

Todos os olhos recaem sobre Chandra. Ela está perfeitamente consciente da maneira como a estão olhando — o que devem estar pensando. É claro que ela quer. Ela é impulsiva. Chandra consegue ouvir os sermões começando, e já está cansada deles. Está cansada de ficar sentada esperando o mundo acabar.

"Sim. Sim, eu quero," diz ela. "Deve haver alguma outra maneira de derrubar a Árvore do Mundo. Vocês estão todos agindo como se tivesse acabado."

Kaya pressiona a base da palma da mão contra os olhos. Ela respira fundo. "Não posso deixar você voltar."

"Deixar me?" diz Chandra. Ela dá um passo em direção a ela. "Você não está me deixando fazer nada."

"O plano é deixar os outros saberem o que está acontecendo," diz Vivien. Ela está mais calma, mais centrada, mas não há dúvida sobre o que ela pensa da ideia de Chandra. "Podemos reunir nossas forças, descobrir alguma maneira de revidar. Mas não podemos fazer isso se corrermos de cabeça erguida para lá."

"Há muitos de vocês para fazerem isso," argumenta Chandra. "Muitos de nós. Mas se continuarmos lutando contra o que já está lá, não faremos nenhum progresso. Temos que cortá-los na raiz ou eles continuarão vindo."

Os outros trocam olhares. Pelo menos estão pensando nisso. Liliana, apesar de seu protesto anterior, ainda não partiu — ela permanece no meio do caminho entre Chandra e a porta. Ela entende, não entende? Ela deve entender melhor do que qualquer um aqui como é isso. É Kaya quem fala a seguir. "Chandra, eu entendo de onde você está vindo. De verdade, eu entendo. Mas você não consegue nem começar a entender o que aconteceu em Nova Phyrexia. Isso não é algo em que você possa simplesmente entrar e resolver sem planejamento. Nós planejamos para isso, e mal conseguimos sair de lá. Sou assassina há anos e quase perdi minha cabeça lá dentro. Nahiri lidou com os Eldrazi; nós a perdemos também. Se você for para lá, você não vai apenas morrer — você terá sua carne arrancada, seus ossos moldados em metal e sua mente distorcida para a visão de mundo doentia deles. Na próxima vez que a virmos, você estará nos contando sobre as alegrias de ser um com Phyrexia. Vivien está certa — a melhor coisa que podemos fazer é tentar evitar perder mais ninguém. Quando terminarmos aqui, você deve voltar para casa em Kaladesh e dizer às pessoas como se prepararem. Isso é o melhor que podemos fazer por elas."

Arte por: Jorge Jacinto

A resposta sai da boca de Chandra antes que sua mente tenha a chance de detê-la. "Você está me tratando como uma criança."

"Não estou te tratando como uma criança. Estou tentando cuidar de você. Isso não é como Ravnica. Os Eternos não são nada comparados às legiões sem carne de Norn. Eu sei que isso vem de um bom lugar. Você quer ajudar a todos. Você quer salvar o Multiverso — tudo bem. Mas existem maneiras melhores de fazer isso do que sair correndo feito louca para um trabalho que uma equipe inteira de nós não conseguiu terminar."

Kaya está dizendo coisas, mas tudo o que Chandra consegue ouvir é mais do mesmo. Kaya não vê o ponto. Tyvar tem que entender, certo? He adora grandes desafios. Mas quando ela cruza o olhar dele, ele desvia o rosto.

"O valor é louvável," ecoa Tyvar, "mas saber quais batalhas são suas para lutar também é. Kaya e eu estamos aqui apenas para contar o que aconteceu. Vá para onde for necessária, cuide dos seus e morra onde seus ossos estão em casa."

"Esta é a batalha de todos ," diz Chandra.

"O que significa que todos têm voz nela," diz Vivien. "E minha voz é que não desperdiçamos mais recursos em algo que sabemos que não vai funcionar."

"Eu sei como você está se sentindo. Admitir que perdeu não é fácil," diz Kaito. "Mas nós só perdemos a luta. Se pudermos manter nossos lares seguros, venceremos a guerra."

Chandra respira fundo. Ela sente que vai explodir. Isso é a coisa mais óbvia do mundo, e eles ou não conseguem, ou não querem ver. "E quanto às pessoas presas em Nova Phyrexia? Vamos simplesmente deixá-las lá?"

Ninguém quer responder. Não diretamente. O silêncio que se abate sobre a casa segura então não passa de outra forma de espera, e Chandra o odeia tanto quanto odeia toda esta situação. Se ela pudesse queimar tudo agora — se pudesse encontrar um novo começo nas chamas — ela o faria. Ficar ali parada estava fazendo sua alma coçar.

"Digam-me. Estamos abandonando-os?" Respirar está ficando mais difícil, ou mais fácil — as respirações são amplas e agudas agora, alimentando o fogo que cresce no fundo de seu estômago. O calor queima os cantos de seus olhos.

"Chandra," diz Liliana, suave como sombra na neve, "ela ia querer que você ficasse segura, não ia?"

Por que ela teve que dizer isso? Chandra estava tentando tanto não pensar nisso, tentando manter sua imaginação sob controle, mas Liliana a libertou. É tão fácil imaginar Nissa aqui quanto é conjurar o fogo. Chandra consegue vê-la tão claramente: a determinação escrita no rosto de Nissa, seus olhos de um verde florestal, o ângulo de suas orelhas. Ela consegue sentir a mão de Nissa em seu ombro, consegue sentir o cheiro de musgo e pinheiro, consegue ouvir as palavras mesmo que não queira imaginá-las.

Dói.

Deuses, como dói.

Ela sente que está sangrando na frente de cada um deles e nenhum está lhe oferecendo ajuda alguma.

Chandra respira fundo novamente. Ar, pensa ela. Apenas continue respirando.

"Quando perdemos alguém, temos que honrar sua memória," diz Liliana.

"Eu não a perdi," retruca Chandra.

A exasperação de Kaya aumenta a cada segundo. Ela está exausta, e isso transparece em cada linha de seu rosto. "Ela se foi, Chandra."

"Não, não se foi. Se pararmos os phyrexianos, poderemos descobrir como parar~ como parar o que quer que tenha acontecido. Como melhorar as coisas. Você não pode desistir de—"

"Isso é sobre mais do que qualquer pessoa individual," interrompe Vivien. "Estamos cuidando de uma floresta aqui, não de uma única árvore—"

"Você não acha que eu sei disso?" diz ela. O brilho fraco na borda de sua visão diz que ela está se inflamando. Ela não pretendia, mas está tudo bem — talvez até seja bom. Todo esse sentimento tem que ir para algum lugar. "Você não acha que eu sei quantas vidas estão em jogo? É por isso que eu quero voltar! Nunca venceremos se tudo o que fizermos for fugir deles!"

"Chandra—" começa Kaya, mas é tarde demais. Ela já não está mais ouvindo.

"Estou indo embora," diz ela. "Vocês podem ir avisar os outros planos se quiserem, mas eu não vou deixar nossos amigos para trás."

"Você vai sozinha ?" pergunta Tyvar.

"Já que nenhum de vocês vem, sim, eu vou sozinha," diz ela, recuando em direção à porta. "Mas não estarei sozinha quando chegar lá."

"E qual é o seu plano exatamente?" grita Kaito.

Chandra não se vira. "Derrubar a árvore. Resolver o resto pelo caminho. Simples assim."

O pântano a espera — com Liliana como a última do grupo em seu caminho. Ainda assim, Liliana não a está bloqueando exatamente, apenas encostada no limiar, observando.

"Você fala sério sobre isso," diz ela.

"Sim. E você fala sério sobre fugir, não é?"

Há muita gente que mataria pela chance de fazer Liliana Vess estremecer. Estranhamente, isso não parece uma vitória para Chandra. Nada disso parece — e essa é a pior parte.

"É isso que você acha que estou fazendo? Não estou fugindo. Eu apenas reconheço sinos fúnebres quando os ouço. Desejo-lhe o melhor em sua pequena aventura."

"Espere," diz Chandra.

Mas Liliana não espera. Ela mesma caminha para o pântano, mal lançando um olhar para trás. "Ah, não há tempo para esperar. Você mesma disse isso."

Nada sobre hoje é fácil. Chandra abre e fecha a mão novamente. Ela quer argumentar, ou deixar claro o que realmente quis dizer — que Liliana seria de grande ajuda se viesse, e talvez pudessem encontrar algumas respostas juntas, e talvez seja bom enfrentar seus medos em vez de fugir deles.

Mas isso seria pedir a Liliana para ser alguém diferente de si mesma — e as duas sempre entenderam que não deviam pedir isso uma à outra.

Liliana desaparece num piscar de olhos em um vapor cor de tinta.

Chandra Nalaar começa a caminhar.

As lágrimas estão quentes quando deixam seus olhos, mas o ar frio do pântano ameaça congelá-las contra sua pele. Ela aumenta o calor para evitar tremer. Ela não sabe quão longe quer ir antes de transplanar. Na verdade, ela não precisa ir nem um pouco longe. Poderia fazer isso aqui mesmo se quisesse.

Mas ela quer caminhar um pouco. Sentir o vento, sentir o cheiro horrível do pântano, olhar para o céu cinza opaco. Quando ela partir, talvez não veja o céu novamente por algum tempo. Não é o azul vibrante de Kaladesh. As nuvens aqui não formam espirais. Na verdade, não há nuvem alguma — apenas um lamaçal cinza em todas as direções. Ela não consegue sentir o cheiro de ozônio ou de comida de rua; não consegue ouvir o barulho dos mercados. Este lugar não é sua casa. Este lugar não é o que ela lembrará.

Tudo bem. Ela voltará. Haverá outros lugares. Ela garantirá isso, porque quando a Árvore do Mundo cair, eles terão tantos outros lugares para ir. Ficará tudo bem, depois.

Ela para na primeira árvore que vê. Não é uma árvore muito forte, nem mesmo muito saudável: sua casca ficou preta, seus galhos vazios e retorcidos como garras arranhando o céu. Mas é uma árvore, e ela acha que provavelmente é bom o suficiente para respirar fundo. Chandra senta-se sob sua sombra inexistente e inclina a cabeça para trás.

Ir para Nova Phyrexia é a coisa certa a fazer.

Mas ela está com medo.

Vai ficar tudo bem. Ela só precisa de um segundo para se preparar.

E talvez um segundo para chorar antes de transplanar direto para a boca de um império maligno defendido pelas pessoas que um dia foram seus amigos mais próximos. Pessoas de quem ela dependeu para derrubar aquele império. Eles não conseguiram — e agora ela está partindo para fazer isso sozinha.

Um frescor repentino e o balançar das folhas dizem que ela não está sozinha. Fungando, Chandra franze a testa. "Vá embora."

"Ah, eu prefiro que não. Então eu teria que voltar para os outros."

Ah, é a Wrenn. Pelo menos não é a Kaya vindo tentar convencê-la a desistir. Ainda assim, Chandra não consegue pensar em nada para dizer. She tenta não soluçar tanto agora que tem companhia — mas soluça do mesmo jeito.

"Eu quero ajudar."

Chandra limpa a ponta do nariz. "Você quer?"

"Quero. Como foi estranho ver você falar com os outros. Achei que você estava fazendo todo o sentido. Se um galho apodreceu, você tem que cortá-lo antes de avaliar como a árvore está indo."

Ela não sabia que alívio seria ter alguém que a entendesse. Antes, parecia que sua raiva estava saindo dela como vapor — mas agora é diferente. Como se estivesse derretendo no chão. Ainda assim, ela tem que ter certeza de que Wrenn fala sério. "Não teremos nenhum reforço."

"Não fale com tanta certeza," diz Wrenn. "Temos o Sete conosco — e acho que teremos Teferi também."

Teferi? Mas ninguém sabia onde ele estava, ou se ainda estava vivo.

"Você está confusa sobre isso, não está? Acho que isso em seu rosto é confusão. Às vezes pode ser difícil saber o que as pessoas estão pensando, apenas por seus rostos."

"Você acertou," diz Chandra. "Você deveria se dar mais crédito. Se tivéssemos o Teferi conosco~ Você acha que sabe onde encontrá-lo?"

"Acho que sim," diz Wrenn. Ela assente, enquanto Sete assume uma postura pensativa. "Ele se meteu em um emaranhado novamente — mas não é nada que não possamos resolver. Tenho estudado isso enquanto estivemos neste lugar, os caminhos tortuosos que ele seguiu. Eu sei como alcançá-lo, mas não serei capaz de fazer isso sozinha."

"Bem, você não estará sozinha," diz Chandra. O medo também está indo embora, conforme a esperança começa a surgir. Se ela conseguisse tirar Teferi de onde quer que ele estivesse, suas chances melhorariam consideravelmente. "Você terá a mim, o Sete e quem mais encontrarmos por lá."

Mas Wrenn desvia o olhar, sua mão descansando na casca de Sete. "Sete fez tanto por mim — mas ele não pode fazer isso. Ele não pode me emprestar um poder que não tem. Tem que ser o fogo, e tem que ser a Árvore do Mundo."

O mais importante ao lidar com o fogo, Jaya sempre dizia, é saber que ele está lidando com você . Você pode guiá-lo, pode dar sugestões, pode dar a ele um lugar seguro para estar — mas no fim ele sempre fará o que quiser, e o que ele quer muda de segundo a segundo. Você tem que estar em conversa com ele se pretende chegar a algum lugar e se quiser manter seus amigos seguros. É o exato oposto de lidar com árvores.

Chandra costumava falar com Nissa sobre isso também.

Nissa costumava dizer a ela que, às vezes, o crescimento turbulento, do tipo que acontece de uma vez só, podia ser como o fogo. A princípio, Chandra não acreditara nela. O fogo consome, a natureza nutre. Mas então ela viu como era o Torvelinho em Zendikar e começou a fazer sentido — às vezes, era a mesma coisa. Ela gostava de quando a natureza a surpreendia. E, mais do que tudo, gostava de ouvir Nissa falar sobre isso.

Ela tentara ajudar Wrenn a entender as coisas da maneira que Nissa a ajudara, mas ensinar é muito mais difícil do que ouvir, e o fogo de Wrenn não é uma chama comum. O fato de ela estar ali de pé já é um testemunho de sua força. Se ela realmente vai libertá-lo, então a Árvore do Mundo pode ser a única coisa capaz de suportar. "Você tem certeza?"

"Tenho," diz ela. "Os outros estavam errados — aquela árvore está viva. Consigo ouvir sua canção daqui. É~ distante, mas sofrida. Um uivo sem melodia. Ele precisa de ajuda, assim como Teferi e os outros. Se eu fosse ignorar isso, que tipo de heroína eu seria? Meu próprio medo pouco tem a ver com isso."

Arte por: Kekai Kotaki

Chandra oferece um sorriso pequeno e triste. "Heroína, hein? Eu também estou com medo — mas menos agora que tenho companhia."

"Você deveria arranjar um amigo como o Sete," diz Wrenn. "Você nunca estaria sozinha, então."

A menos que esse amigo por acaso se perdesse em um plano cheio de inimigos cruéis, e então ela ficaria muito sozinha de fato.

O sorriso de Chandra só fica mais triste — mas ela o alarga, como se para escondê-lo. Ela dá um tapinha na casca do Sete. "Vamos partir."

Wrenn inclina a cabeça, como se percebesse que poderia ter dito algo errado, mas o momento passa sem comentários. Logo elas deixaram a sombra da árvore estéril. Ninguém vem se despedir delas.

Ninguém que pudessem ver, pelo menos.

Mas há alguém observando a clareira. Há alguém observando a casa segura e as pessoas dentro dela amontoadas em busca de propósito e direção. Um truque de luz poderia revelá-los, ou não. Um nariz aguçado poderia notar seu cheiro, ou não. Mas eles estão lá, observando.

Tudo isso lhes parece familiar, como uma canção cujas letras há muito se desvaneceram. Repetidas vezes, eles tentam se lembrar e, no entanto, as palavras fogem. Apenas a melodia permanece: um lamento pelo que está por vir, um hino doloroso.

O observador não está sozinho. Há outros também, vendo e ainda assim não vistos. O observador pergunta a um deles: "O que é que estamos vendo? Por que estamos aqui?"

A resposta vem como o toque das trombetas de guerra: Estamos aqui para testemunhar o começo do fim.

Episódio 3: Mãe, Filho e História

Existe uma história.

*Há muitos éons, existiu um grande mago de nome Urza. Tão sábio era ele que todos os magos do Multiverso acorriam a ele em busca de conselhos; tão poderoso era ele que apenas seu irmão Mishra se apresentava como um rival em potencial. Mas Mishra o odiava amargamente, e logo uma guerra começou.*

*A guerra durou décadas e ceifou inúmeras vidas. Pior ainda, permitiu que um mal sem igual florescesse. Uma terrível aflição espalhou-se pelos exércitos de Mishra — um óleo preto que mudava tudo em seu caminho.*

Tamiyo conhece esta história. Este é apenas o modo como ela começa; há mais, muito mais. Anos atrás, ela memorizou cada palavra. Depois, assim que o herdeiro de metal de Urza se encarregou da tarefa de criar um plano, ela se encarregou da tarefa de registrá-lo. Como o óleo, ela descobriu que a história havia se infiltrado em sua mente, começado a mudá-la para algo de que ela não gostava. Algo perigoso.

Ela a selou.

Que coisa tola de se ter feito.

Pairando sobre os céus de neon de Towashi, ela segura o pergaminho na mão. O óleo escorre de seus dedos para o pergaminho. Em pouco tempo será impossível ler qualquer um dos caracteres — mas isso não é preocupação para alguém como ela, alguém que conhece essas histórias melhor do que conhece a sua própria.

Um centurião phyrexiano golpeia o telhado de um edifício. As pessoas se espalham dele como formigas. Não — não como formigas, cujas carapaças lhes dão força, que agem como um só em todas as coisas. As pessoas nunca poderiam ser tão confiáveis quando presas pela carne e pelo medo mortal. Não, enquanto saem do prédio gritando, é apenas o visceral que as impulsiona, o corpóreo — as partes mais falsas de sua existência.

Há um anel de ferro prendendo o pergaminho. Tamiyo o desliza para fora. Ele despenca pelo ar, caindo como tantos outros pedaços de metal sobre a coroa insuspeita de alguém.

A história continua.

O mago Urza cria um herdeiro de metal puro e sem adornos. Ele o chama de Karn. A mesma centelha de criação que o gerou queima intensamente em seu peito. Karn, também, deve criar. Como um escultor lapidando o mármore, ele molda seu mundo. Quando termina — as criaturas nomeadas e agraciadas com dádivas, o clima cuidadosamente planejado, a terra moldada e polida — ele nomeia seu próprio sucessor, Memnarch, para supervisioná-lo.

Os espíritos de Towashi não aceitam bem sua intrusão, nem a intrusão de seus companheiros. Galhos se dobram, o vapor queima o tendão, folhas cortam como lâminas de barbear. Outras histórias servem para protegê-la. Histórias menores. Histórias sem propósito, histórias que não exaltam as glórias e virtudes que ela agora vê tão claramente. Cada história, cada conto, cada fábula que existe é ou pela unidade ou contra ela.

Ela pode descartar as histórias que não importam mais. Esta importa; ela deve levá-la à sua conclusão.

Arte de: Artur Nakhodkin

Enquanto seus olhos percorrem o pergaminho, os caracteres se iluminam — mesmo aqueles agora consumidos pelo óleo preto. Cada sílaba que ela lê estronda e reverbera, sacudindo os arranha-céus de Towashi. Trens descarrilam de seus trilhos em ruínas e mergulham no chão. A terra se rasga, abrindo fendas na cidade que tem espaço apenas para si mesma. Rios jorram para dentro, levando barcos e pescadores junto com eles. Listras pretas colorem a água. Símbolos phyrexianos se gravam nos papéis pendurados nos edifícios ainda de pé.

Não demorará muito agora. A história continua.

Memnarch, o herdeiro do herdeiro, é uma cópia de uma cópia — uma imagem desbotada do próprio Urza. Ele anseia pelo poder que seu avô exercia com a mesma facilidade que um poeta maneja um pincel. Ele anseia pela habilidade de seus pais de criar. Ele anseia ver mais. Ao longo dos anos, ele arranca vida deste e daquele plano, estabelecendo todos dentro deste jardim, esperando que as flores venham. E elas vêm, mas não são as flores que Memnarch espera: estas florescem em óleo preto. Suas raízes sufocantes envolvem aquilo que está vivo e íntegro. Logo, o jardim inteiro se afoga sob o óleo. O herdeiro retorna para descobrir que seu lar foi despedaçado.

Há mais na história. Há as pessoas expulsas de seu lar e pisoteadas, suas almas arrancadas de seus corpos, seus corpos alterados além de qualquer reconhecimento. Uma rainha surgindo de entre a lama para governar seu povo. Uma unidade gloriosa e interminável — uma vida sem guerra ou conflito. O herdeiro olha para tudo isso com horror.

Quando Tamiyo escreveu a história, ela temia tudo isso. Ela não entendia a paz que vinha com o fato de ser parte de uma família maior. Não é assim que ela contaria esta história agora. Mas está quase no fim, e ela continuará contando-a.

Boseiju, a árvore que outrora mantinha este plano unido, explode. Como vinho derramado de um barril, o óleo escorre entre as lascas, pingando na terra sedenta. Um grito profano perfura os ouvidos de todos os que quiserem ouvir: kami, arrancados de seu lar, espalham-se para fora do distrito. Alguns encontram seu fim na ponta de uma lança, outros são despedaçados por pescadores completados unidos às suas capturas, mas o resultado é sempre o mesmo: os kami se dissolvem em uma névoa fina. Gavinhas de fumaça sobem do solo que escurece, das pontes que se dissolvem em nada, até que todo o distrito seja engolido pela névoa de kami mortos.

Há uma parte distante dentro dela que está gritando ao ver tudo isso. Uma pequena voz soando em seu ouvido, um formigamento na ponta de seus dedos. Mas ela não pode dizer que está com medo. Isso é o que é certo para Kamigawa. Após séculos de guerra, eles não mereceram a paz? Não é este simplesmente outro passo para se tornarem íntegros?

O próprio pergaminho se torna óleo nas mãos de Tamiyo, escorrendo entre seus dedos.

É assim que a história termina, e como sempre terminou: com a vitória de Phyrexia.

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Uma crosta se transforma em cicatriz quando você a cutuca demais. Uma ferida deixa cicatriz quando não recebe os cuidados adequados.

Kamigawa está sangrando. Ravnica também. Mas Ravnica tem muitos walkers para mantê-la segura. Esse é o ponto principal de Teyo, para começar — e Ral tem sonhado com contramedidas há algum tempo. Disse que tinha o palpite de que algo grande estava por vir. Eles podem lidar com as coisas lá por um tempo, pelo menos.

Kaya e Vraska deveriam segurar Ravnica enquanto Jace coordenava com os outros planos. Isso não ia acontecer agora.

Eles se virariam sem eles. Kaito pediu a ajuda dela para estancar o sangramento em Kamigawa e, depois do que passaram, ajudar é o mínimo que ela pode fazer.

Mesmo que ela tenha suas próprias feridas com que se preocupar.

Kaya não tem certeza de quanto tempo as dela vão durar. Seriam essas as memórias que mudam quem você é no pós-vida? Se sim, ela está irremediavelmente perdida. Ver a Nova Phyrexia já foi ruim o suficiente. Mas estar no meio de uma invasão — ver a Nova Phyrexia despedaçar um plano membro a membro? A única maneira de evitar a dor é permitir-se ficar entorpecida com as cenas.

Há muita coisa acontecendo para salvar a todos: o chão treme com os passos estrondosos dos centuriões. Cães mecânicos rosnando vagam pelas ruas, alguns com pessoas presas dentro de sua treliça de ossos. Séculos de história evaporam em um instante — centenas de futuros potenciais são extintos de uma só vez.

Não há tempo para pensar nisso, nem tempo para amargura sobre como tudo isso aconteceu ou por que ela é quem deve reunir as Sentinelas, nem tempo para se perguntar o que pode dar errado. Pessoas estão caindo. Não há tempo para se reconciliar com a maneira como seu estômago revira após um planeswalk também — há apenas o mover-se, apenas o fazer.

Ela deve agir.

Kaya corre. Um salto a leva para uma sacada enquanto ela se rompe; outro a vê pousando no chão oscilante logo adiante. O horror se instala um segundo depois: as plantas domésticas, roupas espalhadas e cozinha em ruínas dão fôlego aos seus piores medos. Este era um edifício residencial. Esperançosamente, a maioria dos habitantes escapou. Uma tigela de macarrão inacabada pelo menos diz que as pessoas nesta unidade escaparam. Mas há outros, não há?

Um grito atrai sua atenção, abafado pelo caos contínuo. Kaya faseia através da parede, com seus enfeites e recordações, tentando não pensar em como todas essas coisas serão perdidas depois de hoje. Um menino e seu cachorro tremem no canto, do outro lado. Suportes caídos prenderam os dois no lugar. Há espaço suficiente para o cachorro se espremer, mas o menino teria muito mais dificuldade.

Kaya não pode deixá-los aqui. Ela não tem muito de um plano de saída, não sabe exatamente como todos vão sair, mas pode descobrir ao longo do caminho. Afinal, não pode ser mais difícil do que descobrir o que fazer com esta invasão.

Fasear através dos suportes caídos é fácil o suficiente. Normalmente, desfasear o menino de sua posição seria difícil — mas é mais fácil quando ele quer sair tanto quanto ela quer ajudá-lo. Ela oferece a mão a ele. Quando ele a aceita, ela o puxa através da viga caída. O menino sorri — e o cachorro se espreme logo atrás deles.

"Como vamos descer?", ele pergunta.

Uma pergunta justa, dada a visão à frente dele: todo o lado do edifício foi arrancado. Towashi surge — ou o que resta dela. Andares e móveis despencam no chão enquanto a fumaça sobe da terra, uma fumaça acre e oleosa na qual Kaya não quer pensar muito de perto. As ruas estão lotadas com aqueles que lutam contra a invasão e aqueles que a promovem. Óleo preto escorre das bocas e olhos dos atacantes e símbolos phyrexianos imundos brilham em cada superfície. Pior — a cada poucos minutos, um estrondo retumbante sacode o plano mais uma vez, anunciando o ataque dos galhos esqueléticos e brilhantes de Norn.

Arte de: Titus Lunter

Se Kaya fosse uma criança assistindo a tudo isso, ela faria a mesma pergunta.

Mas ela é uma adulta agora. Seu trabalho é encontrar respostas onde não existem.

"Vamos pular de um lugar para o outro", diz ela. O menino enfia o cachorro dentro de sua camisa. "Você é bom em pular?"

"O melhor", diz o menino.

Ela espera que ele seja. Ela segura a mão dele, e os dois se aproximam da borda do andar remanescente. Mais adiante, há os restos balançantes de uma sacada — se eles conseguirem chegar lá, então talvez possam descer por um cano de chuva até a segurança.

"No três", diz ela. Ele assente.

Um, dois...

Três!

Os dois pulam ao mesmo tempo, Kaya mantendo a mão do menino na sua. Mas, justo quando deveriam estar pousando, a sacada cai.

Kaya, o menino e o cachorro despencam.

Você tem muitos pensamentos quando acha que vai morrer. Menos quando é responsável por salvar outra pessoa. Kaya pensa rápido. Ela pode ser capaz de salvar o menino se conseguir retardar a queda. Essa deve ser a prioridade. Quando ele começa a gritar, ela o aperta contra o peito.

Ela fecha os olhos.

O impacto nunca vem.

Uma força invisível os empurra de volta para cima, retardando a queda. Segundos antes de atingirem o chão, eles pairam sobre ele. O que quer que os esteja segurando não pode aguentar muito mais tempo; os dois estão tremendo em seu aperto. Um phyrexiano?

"Tente ser menos imprudente da próxima vez."

Kaito.

Kaya abre os olhos para vê-lo. Sua telecinésia mal os mantém erguidos; o suor perla em sua testa. Lidar com um objeto do tamanho de um humano, quanto mais três, deve estar levando seus poderes ao limite. Sangue, óleo e sujeira estão espalhados por sua armadura polida. Ele faz um sinal afirmativo com a cabeça para ela.

O menino age primeiro, saltando para o chão. Uma mulher próxima grita por ele — ele corre sem olhar para trás. Um latido vindo de sua camisa diz a ela que o cachorro também está bem.

Kaya se levanta. Ela toca a ponta do nariz com o polegar. "Obrigada", diz ela. "Estaria perdida sem você."

Ele deixa isso passar sem correção, o que ela supõe ser justo o suficiente.

"Temos que nos mover rápido. O distrito de Boseiju é o alvo principal deles. A coisa toda, a árvore..."

Kaito se cala, mas Kaya pode encontrar suas próprias respostas. A árvore sobre Towashi está fendida. Uma cachoeira imunda jorra de seu corpo.

"Isso é... isso é terrível", diz Kaya.

"É", assente Kaito. "E pior, Tamiyo fez isso. Abriu um pergaminho. Você pode vê-la." Kaito aponta para Tamiyo, flutuando alto acima da cidade, perto dos galhos chorosos de Boseiju. "Ela ainda está lendo-os. Se ninguém a detiver, isso só vai piorar."

Infernos — eles estão falando em abater amigos agora. Not that Kaya's any stranger to assassination, but there's something different about this. Tamiyo, logo ela. "Nós dois temos as habilidades para isso. Devo fazer isso ou você quer lidar com ela?"

"É pessoal", diz Kaito com um aceno de cabeça. "Os kami vão querer lutar contra isso tanto quanto nós — os que podem lutar. Veja se consegue convencê-los a vir."

"Falando em ajuda — onde está a Imperatriz?"

Kaya não quis dizer isso como uma provocação, mas Kaito parece interpretar assim. O canto de seu lábio treme.

"Ela está vindo", diz Kaito.

"Você quer dizer que ela não está aqui?"

"Ela estará aqui", diz ele. "Apenas tenha um pouco de fé."

Ao redor deles, Kamigawa está desmoronando. Ele diz para ter fé. É como uma piada de mau gosto, não é?

Ou uma crosta que eles continuam cutucando.

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Tamiyo flutua acima deles. Ou algo que outrora foi Tamiyo. Ela não olha para baixo, para eles, não parece se mover, não parece se importar com o que está fazendo. Nada poderia estar mais distante da mulher que Kaito conheceu em Otawara.

Ele avalia a casca da árvore escorregadia de óleo. Não importa o que ele tivesse pensado dela antes, isso é sobre mais do que apenas ele. Kaito põe o pé contra a casca. Ele dá uns três passos para cima antes de alguém chamá-lo.

"V-você vai lá em cima para lutar contra ela?"

A voz é pequena e tímida. E, por mais que ele gostasse de ignorá-la, ele sabe que não pode. Além disso, se há uma criança vagando por este lugar, ela precisa se dispersar, e rápido. "Eu vou. Você deveria ir embora."

"Não posso", diz la voz. Quando ele olha para baixo, vê a criança: um pequeno nezumi em uma armadura de metal remendada e um capacete caseiro que oculta seu rosto. Ele deve tê-lo montado a partir de sucatas. Espere um segundo... "Aquela é minha mãe lá em cima."

"Nashi?", ele pergunta.

Com certeza, ele assente.

Kaito desce da árvore. "Você não quer estar aqui", diz ele. "As coisas vão ficar ruins."

"Mas você não vai machucá-la, vai?", Nashi pergunta, inquietando as mãos. "Ela parece diferente, mas ainda é ela. Acho que ela se esqueceu de si mesma — pensei que, talvez se eu falasse com ela..."

Kaito passa a mão pelo cabelo. "Não acho que seja assim tão simples."

"Você tem que me deixar tentar", diz Nashi. Ele se empertiga em toda a sua altura — que não é muito alta. "Eu vim de longe para ajudar quando ouvi que as coisas estavam ficando ruins. Mamãe disse que é isso que heróis fazem. Se você puder me levar a algum lugar onde ela possa me ver, tenho certeza de que ela ouvirá. Não importa quem ela seja, ela sempre me amará. Ela prometeu."

O peito de Kaito aperta. Ele não quer fazer isso. Mas se fosse Eiko lá em cima? Kaito não quer pensar na possibilidade, mas sabe que faria qualquer coisa para trazê-la de volta. Mesmo que trazê-la de volta não parecesse uma opção. Tamiyo acabou assim por causa dele. O mínimo que ele pode fazer é tentar este plano.

"Tudo bem", diz Kaito. "Como vai sua escalada?"

"Mais ou menos", diz Nashi. "Não é boa o suficiente quando tem toda essa... coisa na árvore. Pareceu-me que eu não deveria tocá-la."

"Você não deve", diz Kaito. Ele pega um repulsor de seu cinto — Nashi não deve pesar muito, certo? Kaito prende le repulsor na faixa de Nashi e o liga. Um zumbido suave irradia conforme ele começa a flutuar. "Caminhe na direção que deseja ir. É um pouco lento, mas você poderá me acompanhar. Se apertar o botão mais uma vez, ele o protegerá. Não o aperte depois disso, a menos que queira cair."

Nashi assente.

Kaito engole em seco, afastando a sensação de pavor. Se o pior acontecesse, ele diria a Nashi para ir embora. Mas talvez ele esteja certo, talvez haja um caminho para romper tudo isso. Coisas mais estranhas já aconteceram. Eles precisam tentar.

Boseiju não se deixa escalar facilmente. Entre as torrentes de óleo chovendo lá de cima e o caos atrás, não há muita misericórdia. Normalmente, havia galhos mais baixos em que alguns kami habitavam — mas todos esses se partiram. O primeiro galho que lhes serve está muito mais alto, e é apenas semiestável. O ar está frio e rarefeito quando eles finalmente pousam nele; se não fosse por seu treinamento, Kaito estaria tonto.

Nashi não tem tanta sorte. Quando suas patas tocam a casca, ele cambaleia de um lado para o outro, segurando o estômago. Kaito põe a mão em seu ombro. Ele aponta para frente, onde Tamiyo ainda paira. "Tire um segundo se precisar, mas ela está ali. Ainda não nos notou."

Nashi respira fundo duas vezes para se estabilizar. Kaito respira junto com ele; às vezes ajudava ter companhia em situações assim.

"Ok. Estou pronto", diz Nashi.

Kaito espera que ele esteja. Apenas para o caso de as coisas dar errado, ele desembainha sua espada. "Eu te protejo."

Passo a passo instável, Nashi caminha até a ponta do galho. Kaito o segue um ou dois passos atrás. Seu coração martela em seus ouvidos. Algo em Tamiyo tinha que restar. Algo nela se lembraria, certo?

"Mamãe?"

A cabeça de Tamiyo gira completamente em seu pescoço. Os olhos que os contemplam não são os olhos gentis e inquisitivos que Kaito conheceu. São algo totalmente diferente — orlados de preto, as lágrimas em suas bochechas um testemunho do que ela se tornou.

Tamiyo não diz nada. Ao redor dela, os pergaminhos giram; a luz reflete nas bordas afiadas de suas garras.

"Sou eu, Nashi. Você se lembra de mim, não lembra?", pergunta ele. "E-eu não acho que você queira fazer nada disso. Acho que você cometeu um erro. Mas sei que alguém está te forçando. Só quero que você se l-lembre. Como nas histórias sobre príncipes perdidos." Nashi treme tanto que é difícil para ele falar.

"Nashi", diz Tamiyo. "O que você está fazendo aqui...?"

Kaito estende a mão para firmar o pequeno nezumi.

E é então que o resto do corpo de Tamiyo gira para acompanhar sua cabeça, então que seu rosto se contorce em uma careta. Um estilhaço de metal dispara em direção a eles, arremessado da órbita de pergaminhos que flutuam ao redor de Tamiyo. Apenas os instintos refinados pelo tempo de Kaito o salvam: ele desvia os estilhaços com telecinésia da mesma forma que desviara todas as pedras que seus instrutores lhe atiravam. O som do metal batendo ressoa em seus ouvidos.

"Eu não quero nada mais do que você se junte a mim, Nashi", diz Tamiyo. Sua voz soa errada para Kaito — como o grito retorcido de uma cigarra. "Você só está com medo porque não entende. Não há nada a temer. À luz da Nova Phyrexia, todos são um."

Kaito se coloca à frente de Nashi. "Volte para a árvore."

"Não posso deixá-la —"

"Esta não é sua mãe", diz Kaito bruscamente. "Agora vá!" Kaito dá um empurrão em Nashi para mais atrás. Se as coisas vão ficar violentas, ele não quer que Nashi veja.

Assim que Kaito afasta Nashi, Tamiyo avança sobre ele. Tamiyo era alguém que fazia o que podia para apoiar os outros. Uma contadora de histórias, uma investigadora, uma mulher dedicada à sua família. Mas agora?

Phyrexia a mudou. Transformou aquela curiosa contadora de histórias em uma cruel hierofante. Não havia nada por trás daqueles olhos que choravam óleo.

As garras de Tamiyo cortavam o ar, seguidas por pergaminhos transformados em armas que tentam agarrar o pescoço e os braços de Kaito, ameaçando prendê-lo e sobrecarregá-lo. Kaito corta o papel enquanto mantém o metal afastado — mas seu apoio neste galho escorregadio é traiçoeiro. Ele escorrega. As garras de Tamiyo raspam e soltam faíscas na armadura de Kaito antes que ele consiga se recuperar. O menor deslize de seus pés e aquelas garras encontrarão abrigo em seu pescoço. He manages to recover his balance with only a tear across his armor to show for it.

Kaito segura sua espada à frente.

Tamiyo o encara sem piscar. "Esta é uma luta inútil."

"Talvez para você", diz Kaito. "Não tem como você vencer isso."

Sem sequer um gesto, Tamiyo envia mais cinco estilhaços voando em sua direção; Kaito bloqueia quatro. O quinto corta sua bochecha.

"Tenho pena de você", diz Tamiyo. "Lutando contra a paz para manter sua solidão. Você está no caminho de sua própria iluminação. Como uma criança, você luta contra os pais que apenas desejam recebê-lo."

Ouvi-la assim o destrói. Kaito espera que Nashi não possa ouvi-la. E espera, também, que Nashi não esteja observando quando ele lança seu peso em uma estocada. Tamiyo se esquiva e contra-ataca — um pergaminho se enrola em sua perna. Ele tenta mudar seu peso e se libertar.

Tamiyo puxa.

Kaito gira de ponta-cabeça antes de saber o que aconteceu, balançando muito acima de Towashi. A fumaça da cidade em chamas arde em seus olhos. De alguma forma, ele se mantém segurando sua espada.

"Estou lhe dando uma última oportunidade de se render, Kaito. Phyrexia pode lhe dar a vida que você sempre quis. Venha para casa. E deixe-me dar as boas-vindas à minha família."

O sangue está subindo para sua cabeça. Pense. Se ele se cortar, vai cair. Talvez consiga se segurar em algo; talvez não. Mas ele não tem muitas opções melhores.

"Gosto da minha vida como ela é", diz ele.

Kaito faz o corte.

Ele cai. O impacto nunca vem. Em vez disso, ele sente algo frio e macio abaixo dele. Algo... familiar. "Estamos no três, se você estiver contando."

Aquela voz. Um sorriso surge antes de seus olhos se abrirem — é a Imperatriz. Ela pousa sobre o galho em um sussurro de pano, sua espada estendida ao lado. O que significa que ele deve ter pousado em Kyodai — o espírito guardião de Kamigawa cuja alma está ligada à da Imperatriz.

"Estamos quites?", a voz de Kaya diz a Kaito que ele não está sozinho. Ela está logo ao seu lado, os dois cavalgando juntos.

"Por enquanto", diz Kaito. "Eu te disse que ela estaria aqui."

Kyodai voa de volta para cima, em direção a Tamiyo. Eles estão nivelados com o galho agora. Seus olhos estão fixos na Imperatriz enquanto ela confronta Tamiyo. Cada passo é cauteloso e gracioso — a viscosidade que incomodou Kaito não é uma preocupação para a Imperatriz. Qualquer jocosidade que houvesse em sua saudação inicial desaparece quando ela se dirige à monstruosidade diante dela.

"Este é realmente o lugar para uma luta, Tamiyo?", pergunta a Imperatriz.

"Você deveria perguntar isso a si mesma", responde Tamiyo.

Uma enxurrada de estilhaços voa em sua direção, cada um partido em dois por um único corte da lâmina da Imperatriz. Tamiyo recua a cada passo que a Imperatriz dá em sua direção — parando bem ao lado de um Nashi assustado.

A mão de Tamiyo repousa sobre a cabeça de Nashi.

O estômago de Kaito revira. Ele se pergunta se deveria desviar o olhar. Em vez disso, ele encontra forças para gritar. "Nashi, vire-se!"

Tamiyo alcança um pergaminho em sua cintura, um preso com um anel de ferro. Ela solta o anel com um dedo. O papel de seda se desenrola.

"Kyodai!", grita a Imperatriz.

O grande kami abaixo delas voa para o lado dela. A Imperatriz aponta sua espada para seu companheiro e Kyodai sopra sobre ela. Um brilho branco reveste a lâmina; caracteres flutuam no ar ao redor dela. O poder de Kyodai flui através da Imperatriz.

A boca de Tamiyo começa a se mover.

Nashi, finalmente compreendendo o que está prestes a acontecer, desvia o olhar.

Um flash de luz branca, o som de uma lâmina sendo desembainhada, o assobio de um vendaval distante.

Arte de: Tran Nguyen

Tamiyo cai.

Kaito se levanta num instante. Nashi está sozinho lá em cima agora — ele vai precisar de companhia. Quando Kaito termina de cruzar a distância, a Imperatriz está lá para encontrá-los. Kaito abraça Nashi com força.

"Aquela não era ela", repete Nashi. "Aquela não era — por que ela estava assim — por que ela não — por que ela não me...?"

Não há respostas fáceis — certamente nenhuma que Kaito consiga invocar. Um nó na garganta o impede de falar.

A Imperatriz curva a cabeça em sinal de pesar. "Sua mãe viverá em sua memória e nas histórias que você contar sobre ela."

É um conselho sábio, mas não necessariamente reconfortante para alguém no auge da dor. Os soluços de Nashi só aumentam. Kaito não pode culpá-lo.

Outra mão toca seu ombro, estranhamente leve e fria. Kaya nunca pareceu do tipo para reuniões chorosas, mas talvez depois do que viram na Nova Phyrexia ela esteja mudando de tom. Qualquer conforto é bem-vindo agora. Até Kyodai se enrola ao redor de todos eles. Por um momento, parece que estão tentando manter o plano unido. Talvez, no caso deste menino, eles estejam.

A paz dura até que ouvem a mãe de Nashi chamando por ele.

A voz de Tamiyo não vem da pilha de metal que a Imperatriz abateu, mas de bem entre eles. Este não era o sussurro frio phyrexiano, mas os tons quentes e familiares de seu antigo eu.

"Nashi, sinto muito."

Kaito protege Nashi com seu corpo. Diante deles está um ser estranho: caracteres flutuantes densamente agrupados formam a silhueta de uma mulher. Eles brilham e se apagam como se estivessem respirando. Quando ouvem a voz de Tamiyo novamente, uma luz no centro brilha ainda mais. Caracteres piscam surgindo e desaparecendo e mudam conforme ele os estuda. Os neons projetados de Towashi podem realizar todo tipo de truques, mas isso é algo diferente. A maneira como se move parece intencional demais para ser aleatória, imperfeita demais para ser artificial. A luz que brilha lá dentro o lembra mais de um kami do que de qualquer uma das maravilhas técnicas de Towashi.

"Entendo que possam estar cautelosos comigo, mas não lhes quero mal", diz Tamiyo.

"O que você é?", pergunta Kaito.

"Não é um fantasma, isso é certeza", grita Kaya — ela está na borda do galho. "O que você quer?"

A silhueta se volta para cada um deles e assente. "Sou o que resta de Tamiyo — sua história interminável. Podem pensar em mim como sua memória. Muitos anos atrás, ela me criou prevendo sua morte e me selou dentro de um pergaminho até que eu fosse necessária, presa com um anel de ferro." A memória de Tamiyo — sua história — faz uma pausa. "Eu esperava que nunca fosse."

"Como sabemos que você não é —", Kaito começa.

Mas Nashi já está se afastando dele, em direção ao estranho aglomerado de caracteres. Quando ele os encontra, eles se aglomeram, acomodando-se em seus braços.

Kaito se move em direção ao menino, mas a Imperatriz faz um gesto para que ele pare. A Imperatriz se vira — em direção ao corpo, em direção a Kamigawa, em direção às ruínas da noite. "Ela está dizendo a verdade."

"Como você sabe?", pergunta Kaito. "Como sabe que isso não é outro plano phyrexiano?"

"Você estava observando de perto? Antes de eu golpear, Tamiyo murmurou algo."

"Eu vi isso, mas ela poderia estar fazendo qualquer coisa. Achei que estivesse preparando uma maldição."

"Não estava", diz a Imperatriz. "Todos os estilhaços que ela atirou em mim passaram longe demais para causar qualquer dano — você não percebeu?" Ela põe a mão em uma das muitas máscaras de Kyodai, e o kami toca a dela por sua vez. Um momento de ternura duramente conquistado em um campo de batalha como este. "Tamiyo estava fazendo um pedido, da única maneira que podia."

Kaito olha para trás, por cima do ombro. Nashi ainda está cercado pelos caracteres — pela história interminável. Não é uma vitória limpa, nem mesmo uma vitória muito boa. Kaito olha para a cidade em chamas abaixo do dossel ferido de Boseiju. Tantos estão mortos, tantos estão morrendo, tantos mais que morrerão.

Ao longe, ele vê formas se movendo através da fumaça estranha — mecas gigantes avançando pesadamente em direção à barreira de impacto. Forças imperiais se reunindo para contra-atacar o assalto phyrexiano.

Quanto eles podem fazer? Quantos eles podem salvar?

Tamiyo caiu — mas Nashi viveu.

Considerando o trabalho que resta, ele aceita.

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Existe uma história.

Era uma vez um grande mal, que ameaçava engolir os planos do Multiverso por inteiro. Insensível e indiferente, ele infectava os corações daqueles que encontrava.

Houve alguém que lutou contra ele.

Houve uma protetora de branco. o. branco.

Episódio 4: Sob Olhos Que Não Piscam

Para a batalha e bravura nascido, para a batalha e bravura Tyvar Kell retorna — com vanglorias em seus lábios, e notícias sombrias em seu coração.

Skemfar recebe seu filho rebelde de braços abertos. Após a atmosfera carregada de ozônio de Nova Phirexia e o acre pântano do esconderijo em Dominária, é uma coisa bem-vinda respirar o bom ar da floresta em seus pulmões.

Mas no momento em que ele chega, ele sabe que está atrasado demais. Não é para vivas de boas-vindas que ele retorna, mas para o tinir de espadas contra metal, o uivo de flechas em voo e os gritos dos perfurados. À distância, um ofídio sanguíneo do tamanho de uma montanha estrangula a Árvore do Mundo. Uma armadura branca, espessa como uma geleira, o protege. Cápsulas caem — as escamas trocadas desta serpente imunda — e o chão treme a cada chegada, cada uma recebida com o martelo da guerra.

Tambores de guerra batem em harmonia com seu próprio coração selvagem enquanto ele abre caminho para o combate corpo a corpo. A glória impulsiona seus membros. Ele se esquiva do membro em forma de foice de um inimigo, transforma seu próprio braço em metal, o crava na cabeça da criatura. Um instante depois, ele se desvia de um machado que atinge outro. Um grito de alegria soando atrás dele alegra seu coração — o fim dos dias chegou a Kaldheim, e os elfos de Skemfar o enfrentam de frente.

Tyvar vê seu irmão lutando ao lado de seu povo, cercado por escaldos e estandartes.

"Aqui para os restos?" Harald grita para ele. "Haverá muitos."

"E mais vindo," Tyvar diz. Algo que antes era um gigante lança uma rocha em direção a eles; os outros se dispersam, mas Tyvar firma os pés. Da terra ele extrai sua força — e com um único golpe estilhaça a rocha. Ele sorri. "Vocês devem ter tido dificuldades antes de eu retornar."

Harald balança a cabeça. "Chega disso. Você sabe algo que possa nos ajudar? Quem são essas criaturas?"

"Phirexianos," Tyvar responde. Um grito chama sua atenção — um dos elfos se viu preso na barriga de um lobo esquelético gigante. Tyvar recua. "Veja ali — eles o banharão em óleo, e então ele será mais metal do que elfo. Depois disso, as mudanças começam. Não demorará muito para que ele arranque a pele do próprio pai."

Uma dúzia de guerreiros enfrenta o cão, dois vindo de cada lado para flanquear. Martelos soam contra o aço.

"Eles não pararão até que tudo em Kaldheim seja como eles. Eu estive na casa deles, irmão — é sem vida, sem canção." Ele engole em seco. A próxima parte não é fácil de dizer, e ainda assim deve ser dita: "Este não é um inimigo que os elfos possam derrotar sozinhos."

O próprio Cosmos reforça seu aviso sombrio. O chão ruge e treme sob seus pés, luz branca vazando das fendas que se abrem. Tyvar esbarra em seu irmão. Harald o estabiliza, então aponta para o doomskar que se abre. "Parece que não ficaremos sozinhos por muito tempo."

Phirexianos e elfos caem na terra faminta. Luzes mutantes os tornam silhuetas enquanto o Cosmos os reivindica. Insaciada, a luz sobe cada vez mais — até que enfim torrentes de água emergem. Tyvar se esforça, afundando no chão, criando uma plataforma para ele e seu povo. Seus músculos se tensionam sob a força de sua magia, alternando entre rocha e água, rocha e água.

Quando ele vê o primeiro dos barcos longos crista a água, Tyvar sabe que ficará nisso por um tempo. Talvez mais do que consiga suportar. Se ele falhar, os elfos serão levados tão certamente quanto os Phirexianos. As vidas de seu povo estão em suas mãos.

Ele não pode falhar.

Tyvar Kell solta um grito de guerra. Enquanto seu corpo batalha contra as marés e a rocha, ele se sente vivo.

E enquanto ele faz o que é simples, seu irmão lida com o que é mais complicado. Buscadores de presságios a bordo dos navios chamam os elfos isolados, seu capitão liderando: "É o fim de todas as coisas. Os elfos virão e se juntarão à luta?"

"Os elfos a liderarão!" é a resposta orgulhosa de Harald. "Para os navios!"

Os ombros de Tyvar tremem com o esforço e ainda assim ele se mantém firme à terra. Cada par de pés em fuga encolhe a plataforma. Menor e menor, até que apenas ele e Harald restam na rocha.

Ele mal consegue acreditar no que vê quando olha para os navios.

Anões e humanos, heróis caídos fantasmagóricos, guerreiros mortos-vivos, bárbaros de Karfell, gigantes de fogo atravessando os mares, trolls batendo tambores de guerra — será que todos em Kaldheim se uniram? Tyvar não se lembra de ter visto tantos rostos diferentes em um só lugar fora de um campo de batalha.

Nova Phirexia plantou as sementes da dúvida e do medo profundamente dentro dele. O óleo, e a mudança de seus novos companheiros, a nutriram. Mas isso? Esta união verdadeira?

Isso é um machado.

Harald sobe no navio primeiro. Ele estende a mão para Tyvar, que em vez disso salta para o barco longo por conta própria. Abaixo deles, a plataforma se desfaz no novo rio de Skemfar.

"Guerreiros!" Harald chama. Os sigilos e guias ao longo das laterais do navio começam a brilhar. "Nossos rancores são antigos. Uma única batalha não apagará a lousa de velhas injustiças. Quando o amanhã chegar, todos nós seremos mais uma vez inimigos!"

O coração de Tyvar vibra no ritmo dos tambores batendo, das trombetas soando. Os navios ganham velocidade. Quando Harald falou, até mesmo seus inimigos mais odiados esperaram para ouvir o que ele tinha a dizer. Ele não sabe para onde estão indo, mas sabe que onde quer que atraquem, a glória os espera.

O branco os engole. Por um instante, eles entram no Cosmos, deslumbrante e infinito. Feras sobrenaturais correm ao lado dos barcos — lobos, corvos, ursos, até um esquilo.

"Mas isso é apenas se vivermos para saudar o amanhã, meus irmãos e irmãs de armas. Hoje, as valquírias terão sua escolha de heróis; hoje é um dia sobre o qual os escaldos cantarão por séculos. Seus descendentes o chamarão de herói ou de covarde?"

Luz mais uma vez. Tyvar não fecha os olhos, não importa como os padrões queimem suas íris.

Quando enfim a luz recua, eles se encontram acima de um oceano agitado. De alguma forma, eles estão no ar — ele não deixa tempo para questionar, apenas deixa que isso excite seu sangue. Valquírias voam ao lado deles em direção às farpas afiadas da Árvore da Invasão, ainda por encontrar seu lar. Flechas divinas traçam luz no céu avermelhado. A Árvore do Mundo surge, seu espelho imundo descendo mais e mais. Daqui ele pode contar cada protuberância de sua espinha, cada cápsula aninhada dentro dela.

Deve haver milhares. Dezenas de milhares, talvez, cada uma com seu próprio complemento de soldados, e cada um desses soldados um inimigo temível. Este era um inimigo quase imparável: pior, aqueles que morressem em defesa de Kaldheim se ergueriam, corrompidos, para lutar pelos invasores que buscavam destruir a terra que outrora chamavam de lar.

As chances, ele sabe, não são boas.

Arte de: Bryan Sola

"Se Kaldheim sobreviver, que sobreviva porque lutamos! Se morrer, que morra uma morte de guerreiro, machado em punho, uma vanglória nos lábios e hidromel na barriga!"

Abaixo deles, a água borbulha. Justo quando os barcos longos irrompem em uma canção de guerreiro, os mares também irrompem.

As tatuagens nos ombros de Tyvar formigam. Todos os elfos cresceram à sombra de Koma. Sempre mudando, sempre crescendo, rápido como um relâmpago e astuto além disso — existe criatura melhor para emular do que uma serpente?

Mas isso não é verdade para a serpente que ele vê agora, a criatura que surge das profundezas do mar. Escamas lustrosas de metal, ossos afiados ao longo das cristas de sua boca, revestimento de porcelana no lugar dos olhos — o que quer que essa criatura tenha sido um dia, agora é inconfundivelmente uma das criações de Elesh Norn.

A monstruosidade sem olhos já abocanhou um barco longo entre suas mandíbulas. A madeira range e os guerreiros gritam, caindo de grandes distâncias para suas mortes. De outros, uma chuva de flechas, pedras, machados lançados — o que quer que pudessem agarrar.

Tudo ricocheteia na estranha carapaça da criatura.

Tyvar dá um passo no parapeito do barco. Na luz bruxuleante do que pode ser a última guerra de Kaldheim, a ponta de sua lâmina brilha intensamente.

Abaixo dele, a boca da serpente: dentro dela, Nova Phirexia, e todos os seus medos manifestados.

Ele não gosta de ter medo.

Com a canção fervilhante da batalha às suas costas e um grito em seu peito, Tyvar salta do navio.

Seja como for que a história deste dia termine, as sagas dirão que ele não foi um covarde.

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Pia Nalaar passou os últimos dez anos de sua vida lutando por uma Kaladesh melhor.

A maior parte desse trabalho foi desfeito em um dia.

Não — a verdade é que faz uma semana, pelo menos. Saheeli a avisou na época que algo assim poderia acontecer, que algo ia acontecer. As nuvens continham provas, ela dissera. No lugar dos redemoinhos que tantas vezes dominavam os céus de Kaladesh, ela mostrara a Pia a nova forma que passara a dominá-los.

"Temos que estar prontos para uma invasão," Saheeli dissera.

"Chandra e os outros têm controle sobre isso."

Ela estava tão confiante. Tão certa. Ela não queria acreditar que poderia ser de outra forma. Depois de tudo o que aconteceu, depois de todas as lutas e guerras — as Sentinelas devem entender o que precisa ser feito. Elas devem ser capazes de lidar com isso. Então, uma manhã, Pia derramou tinta em sua mesa. Quando ela pegou um pano para limpar a bagunça, o símbolo — como um olho que não pisca — olhou de volta para ela em preto viscoso.

A memória já era ruim o suficiente, mas após o primeiro derramamento ela o via em todo lugar para onde olhava: em pergaminhos enrolados em uma prateleira, em um prato de macarrão que ela não tinha estômago para terminar, em árvores e em correntes de água.

Todos os dias ela acordava esperando que eles desaparecessem, que ela não os visse, que Chandra entrasse em sua casa para o chá mensal com outra história sobre como haviam arrancado a vitória das garras da derrota.

Mas no terceiro dia, ela soube que tinha que agir.

Ela e Saheeli se dirigiram ao consulado — mas como poderiam transmitir a gravidade do que sabiam? Depois que Ghirapur conquistara sua própria liberdade e segurança? Enfrentar essa ameaça fomentaria o medo na população, e como poderiam ter certeza de que ela estava chegando? A Casa do Conhecimento não tinha registros de nenhum Phirexiano. No entanto, Saheeli e Pia não eram loucas delirantes, um fato que o consulado conhecia bem. Se Pia alocasse os recursos para lutar, então eles lutariam.

Mesmo que alguns deles não estivessem com o coração nisso.

No quarto dia, o céu escureceu para um vermelho profundo e ferruginoso.

Nos últimos três dias, Saheeli estivera trabalhando em algo que chamava de "Operação Escamas Douradas", algo que ela disse que manteria as ruas seguras. A maioria dos cidadãos de Ghirapur fora evacuada, deixando apenas o pessoal essencial para trás. Navios voadores armaram-se com armamento experimental poderoso. As oficinas e fábricas de Ghirapur nunca trabalharam tanto em tão pouco tempo — mas era para o melhor.

Afinal, se o inimigo rompesse o reservatório do fluxo de éter, não haveria mais uma Ghirapur para defender.

Então os artesãos não dormiram, e Pia também não. Ela adormeceu na entrada de sua própria casa. Ir para a cama exigia esforço demais.

Quando enfim os portais acima se abriram, quando as grandes espinhas de invasão desceram dos buracos que rasgaram na realidade, quando o éter ao redor deles começou a estalar perigosamente contra sua pele — tudo isso foi como soltar um suspiro.

Estava aqui.

Eles estavam aqui.

O tempo para preparação ficara muito para trás. Tudo o que podiam fazer era esperar que tivesse sido o suficiente.

As ruas de Ghirapur estão vazias — ou tão vazias quanto jamais estarão — enquanto Pia sai de sua casa. A três prédios de distância, uma cápsula destrói a fachada de um edifício. Vidros estilhaçados, gritos distantes, armas disparando — os sons são próximos e, ao mesmo tempo, completamente diferentes dos sons da revolução. Não há cânticos aqui, não há slogans roucos, nem trombetas orgulhosas ou tambores retumbantes.

Apenas medo e desespero.

Navios voadores acima disparam seus canhões contra os galhos invasores e explosões pintam o céu vermelho de dourado. Fragmentos de porcelana chovem sobre as ruas. Ela busca abrigo sob os braços estendidos de uma estátua apenas para observar enquanto os fragmentos abrem sulcos em suas laterais.

Pia olha de volta para o céu — para o navio que tão prontamente avançou contra o galho explorador. Ela conheceu seu capitão há dois dias. Ele jurou que faria tudo ao seu alcance para manter Ghirapur segura. Mil e quinhentos voos, ele dissera, sem perdas significativas para mencionar.

Ela observa enquanto o galho se enrola no navio, observa enquanto suas janelas se estilhaçam tão facilmente quanto as da rua, observa o óleo manchar sua superfície.

Pia fecha os olhos. Seu peito dói. Mil pensamentos lutam para deslizar em sua mente, mas ela os bloqueia. Há um encontro com Saheeli para chegar.

Falando nisso — parece que a operação dela começou bem. Câmaras de implantação brotam de escotilhas ao longo da rua, e dessas câmaras emergem os frutos da Operação Escamas Douradas. Saheeli deve ter se inspirado em algum tipo fantástico de lagarto: o que se move pesadamente na frente de Pia é tão grande quanto a casa que desmoronou momentos atrás. Os dentes brilhantes em suas mandíbulas são cada um do tamanho do antebraço de Pia. Quando ele pisa forte, as pedras por baixo racham. E ele é apenas um de muitos — por todas as ruas, outros lagartos de ataque de bronze brotam da terra. Alguns são do tamanho de cachorros pequenos, alguns ganham os céus como ornitópteros, mas todos rugem seu desafio aos Phirexianos que chegam.

E há Phirexianos para lidar, mesmo que a visão dessas coisas seja quase suficiente para distrair Pia. Da casa quebrada saem dezenas de soldados de porcelana esguios — alguns dos quais carregam gaiolas tão grandes quanto eles mesmos.

As duas forças estão prestes a colidir.

Pia não quer estar no meio disso. Ela se esquiva sob os pés do lagarto de bronze a tempo de um rosto familiar aparecer atrás dos Phirexianos. Uma nuvem de ornitópteros voa do cruzador de Saheeli. Enquanto os lagartos descem sobre os soldados, os ornitópteros ocultam a fuga de Pia.

"Entre!" Saheeli grita. E ela tem razão em se apressar — os soldados não levam seus deveres levianamente. Em minutos, eles enxamearam o maior dos lagartos e o derrubaram. Óleo vaza de suas bocas fendidas. Não demorará muito para que o lagarto se erga contra eles também.

Pia pula no carro. O pé de Saheeli deve ser tão pesado quanto o metal que ela tanto gosta; as duas dão um tranco para trás contra os assentos conforme a velocidade as atinge. O vento assobia nos ouvidos de Pia — mas elas têm que conversar. "A capitânia caiu."

"Eu sei," Saheeli responde. Uma explosão à direita as faz desviar; Saheeli por pouco consegue evitar que capotem. "Os navios menores estão fazendo o que podem. As gavinhas não conseguem agarrá-los rápido o suficiente para pará-los. É claro que o poder de fogo deles é insuficiente em comparação~"

Pia se abaixa enquanto Saheeli as leva por entre as pernas de um enorme constructo de lagarto phirexianizado. Metal raspa contra metal; as laterais do cruzador amassam e se distorcem apesar dos melhores esforços de Saheeli. Óleo pinga na tampa do porta-malas. Pia tenta não se perguntar quanto tempo levará até que o cruzador seja corrompido também.

"Você sabe qual é a situação no reservatório do fluxo de éter?" Pia pergunta.

"Achamos que os Phirexianos podem entender sua importância, ou então sentir uma atração pelo éter armazenado lá," Saheeli responde. "Se você notar, todos eles estão indo direto para lá."

Arte de: Leon Tukker

Elas dobram uma esquina e Pia vê os guardas.

Seu estômago revira com a visão. Como uma paródia sinistra da estética de design de Saheeli, eles estão filigranados em porcelana branca, metade metal e metade carne. Um dos homens exibe um grande buraco no centro de sua cabeça, um pelo qual Pia consegue ver nitidamente o outro lado. Apenas suas orelhas, couro cabeludo e queixo permanecem. Parece que ele é uma agulha destinada a ser enfiada — e a navalha em que seus braços se tornaram apenas confirma a noção. Apesar dessa alteração hedionda, seu peito sobe e desce com uma respiração invisível. Sua cabeça, tal como é, está voltada para o reservatório.

Pia cobre a boca.

"Não podemos fazer nada para salvá-los," Saheeli diz.

"Tem que haver algo."

"Pode haver, mas o que quer que seja exigirá estudo, experimentação, iteração. Assim que a cidade estiver segura, poderemos considerar que formas isso poderá assumir — mas não agora."

Pia aperta os olhos enquanto o cruzador dispara sobre os Phirexianos recém-convertidos. Há mais deles para ver quando ela abre os olhos novamente. Ela os estivera ignorando antes de agora? Há tantos, em tantas formas diferentes: alguns compartilham o mesmo motivo de revestimento de porcelana que as gavinhas acima, alguns têm seus órgãos substituídos por chamas laranjas brilhantes. Ela vê um cão de rua que desenvolveu espinhos e gavinhas com o dobro de seu tamanho. Seria cômico se o plano não estivesse desmoronando ao redor dela.

"Você teve notícias dos outros?" ela pergunta, antes que possa se conter.

Os olhos de Saheeli não deixam o reservatório à frente delas. "Sim. A última vez que viram Chandra, ela estava bem."

Pia está cercada por políticos há tempo suficiente para saber quando não está recebendo a história completa. "E quando foi isso?"

"Recentemente, muito recentemente," Saheeli responde. Ela olha por cima do ombro. "Este pode não ser o melhor momento."

"Não existe um momento bom quando se trata de más notícias."

"Existem momentos melhores do que este."

Pia franze a testa. "Por favor, apenas me diga o que está acontecendo."

Saheeli olha ao redor. "Ela está —"

"Renegada Primordial! Há quanto tempo!"

Pia se vira. Junto com a voz alegre vem o ronco de um motor. Pendurado na lateral de um skimmer acima delas está um de seus antigos contatos renegados, Baji. "Precisa de ajuda aí embaixo?"

"Podemos usar toda a ajuda que conseguirmos," ela diz. "Estamos indo para o reservatório."

"Suba, então!" chama o piloto. "Você chegará lá mais rápido nisso. E temos melhor poder de fogo também."

Saheeli olha para cima. "Ele não está brincando. Essas armas não são legais."

Os renegados sempre foram ótimos em conseguir contrabando. Pia fica de pé no banco do passageiro do cruzador, uma mão no banco e a outra na porta. Saheeli não diminui a velocidade — nem mesmo quando Pia lhe oferece a mão.

"Só há espaço para mais um naquele skimmer," Saheeli diz.

Quando um dos gênios de Kaladesh diz o que quer fazer, convém ouvir. Além disso, quando se trata de revoluções e crises, você deve ser capaz de improvisar. "Certo," Pia diz. "Nós cobriremos você."

Enquanto Baji mergulha mais baixo, ele estende a mão para Pia. O skimmer não é a coisa mais sólida do mundo, longe disso. Agora que estão nele, ela se pergunta como ele está voando — porcas e parafusos chacoalham ao redor deles, e o assento é pouco mais que uma tira de couro sobre metal duro e moldado às pressas. O assento traseiro é tão estreito que as laterais apertam seus ombros.

Baji inclina a nave para cima, subindo mais alto, Ghirapur desaparecendo abaixo das nuvens conforme eles sobem ao céu. Ele vira uma chave em seu console e uma cúpula de vidro desliza sobre o cockpit aberto. "O capacete está embaixo do seu banco," Baji diz. Pia coloca o capacete. Ela não consegue deixar de notar as lascas e arranhões no vidro do cockpit. "Isso é seguro?" ela pergunta.

"Vai aguentar," Baji disse. "Eu mesmo montei. Usei apenas a melhor sucata, direto de —"

O que quer que ele pretendesse dizer se perde em um borbulho quando um dardo atravessa a janela e o empala pelo peito até o assento, a ponta ensanguentada parando a apenas um fio de cabelo de Pia. Mergulhando pelo ar acima deles está algo que outrora poderia ter sido um pássaro. Agora luta por Phirexia. A compreensão se instala — aquilo não é um dardo, é um espinho . Alarmes uivam, abafados pelo ar gritando pelo buraco no cockpit da nave. Lentamente, ela começa a inclinar para o lado, e então gira com o bico primeiro, caindo em direção ao chão. O estômago de Pia dá um solavanco com a mudança de impulso, a náusea da ausência de peso. Sem pensar, ela se espreme no assento do piloto, soltando o espinho do couro. O corpo de Baji a mantém meio presa. Não há espaço para navegar, o console é uma mistura incompreensível de peças soldadas, há dois pássaros phirexianos em seus flancos e mais navios por toda parte.

Isso não é bom.

E isso sem contar que Pia Nalaar nunca sequer pilotou uma dessas coisas antes.

Mas ela não está prestes a desistir aqui. Não quando se trata de manter Kaladesh segura, e não quando se trata de sua filha.

Chandra virá para o chá no mês que vem.

Pia estará lá para encontrá-la.

Se ela conseguir passar por isso.

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Desde o segundo em que Atraxa chegou, Nova Capenna cravou as unhas em sua carapaça imaculada. Uma cidade construída alcançando sempre para cima, a atmosfera estalando com uma energia repugnante, rastejando com uma diversidade horrível de vida. Tudo nela é anátema para ela — para Phirexia.

Que sorte que suas ordens são para varrê-la.

Mas Phirexia não é uma fera que come sem pensar. Em todas as coisas existe a semente da grandeza, não importa quão vil seja o material. Ser Phirexiano é permitir-se crescer, mudar, tornar-se algo maior do que você foi um dia. A agulha que tanto a irrita pode ser despojada de seus ornamentos e renderizada novamente.

Este é um lugar fervilhando de pecado e imundície, e Atraxa será sua salvadora.

O trabalho sozinho é suficiente para enchê-la de êxtase. Por todos os telhados, os orgânicos pegam em armas. Suas armas não lhes servirão aqui: não há mossas na armadura de Phirexia. Nem escalar mais alto os salvará. Um único pensamento de Atraxa convoca enxames de servos voadores. Por menores que sejam, são feras famintas — logo, aqueles que escalam não passam de ossos caindo na terra. Aqueles que ganham as ruas, em vez disso, confiam em seus músculos e tendões para lutar. Eles ignoram as fraquezas da carne. Os engenhos de guerra atravessam fachada após fachada para cumprir sua vontade. Ao chegarem à rua, liberam nuvens de gás cáustico. A carne derrete dos ossos.

Colham-nos. Um pensamento glorioso, ecoado em mil mentes. Eles não fazem prisioneiros aqui em Nova Capenna; não há gaiolas para os seres de carne. O que os engenhos não podem derreter com seus gases é jogado de volta para dentro deles pelos servos. Apenas essas partes permanecerão.

Colham. Nos. Quão alto as palavras ecoam em sua mente! Os orgânicos tentam enganar os Phirexianos, desaparecendo no escuro e reaparecendo atrás deles, mas é inútil. Nada impedirá o que está por vir. Nem os feitiços lançados em desespero, ou as lâminas cravadas entre as costelas dos centuriões. Phirexia nunca pode ser derrotada.

Mas a carne~ a carne sempre cederá, no final.

As ordens de Norn foram claras: tudo o que respira ar miserável neste plano deve ser colhido para partes — e assim será. Mas Atraxa vê uma utilidade para eles antes de despedaçá-los.

Afinal, em algum lugar dentro desta monstruosidade de plano estão os restos de seus antecessores. Encontrá-los é parte de sua missão aqui.

As mentes dos recém-chegados se abrem prontamente para ela. Maestros, eles se chamam. O frêmito de seus novos corpos ondula por toda a força invasora, dando-lhes força contra aqueles que tolamente resistem. No entanto, esta não é a resposta que ela busca, não a resposta que Phirexia precisa. Mais profundamente em suas mentes ela se aventura.

Dentro deles, Atraxa encontra algo curioso.

Belo.

Arte de: Chris Seaman

Várias e várias vezes, essa palavra. Essa ideia. Ela nunca vem sozinha — sempre com imagens ou sons ou gostos. Tinta na tela. Pedra moldada por uma mão estudiosa. Flores se abrindo na noite. Um rangido agudo de um instrumento de madeira. Essas coisas, ela supõe, devem ser belas , e o que é belo deve ser importante. Frequentemente, é o primeiro pensamento que têm quando olham para suas novas formas, a primeira palavra que surge em suas mentes.

Mas o que é isso? Por que eles estão tão preocupados com isso? A força de sua convicção espalhou-se pelas forças invasoras, cada mente amplificando a última. A palavra ecoa dentro do crânio de Atraxa até que ela não consegue mais escapar.

Norn a avisou sobre isso. Ela disse que havia algo sobre este lugar que tentaria infectá-la, algo contra o qual sua vida anterior poderia lhe dar resistência. Há memórias distantes em sua mente de beleza , de uma pálida imitação da finalização em que outrora se deleitava. Este é o rosto e o nome de seu inimigo — e aqueles que passaram tanto tempo adorando esta falsa divindade devem saber onde ela vive.

Pesquisar suas mentes fornece outra resposta: museu .

As imagens que acompanham são claras o suficiente. Observando a cidade, ela o vê não muito longe de uma das cápsulas de conversão: um edifício baixo adornado em mármore moldado desta e daquela forma. Ela olha para ele e se pergunta se é belo . Aqueles que outrora foram Maestros dizem-lhe que é. As colunas, as estátuas, a hera cuidadosamente curada rastejando em sua fachada: como ela poderia pensar que era qualquer coisa exceto belo ?

O furor de sua paixão a impulsiona. O que quer que eles estejam escondendo, ela deve ser capaz de ter uma ideia melhor lá. Enquanto Phirexia rasga a resistência, Atraxa pousa nos degraus do lado de fora do prédio. As portas são pequenas demais para ela; com um toque, ela corrige suas falhas já aparentes. Este lugar, também, deve abraçar Phirexia.

Lá dentro há mais obras incompreensíveis. Seres de carne olham de volta de telas ou painéis de madeira — um testamento à fragilidade dos materiais naturais. Tão grande é a arrogância dessas criaturas que moldaram pedra e metal à sua imagem. A inversão miserável irrita Atraxa. Tudo isso irrita. Por que alguém se incomodaria com qualquer coisa disso? Essas "pinturas" muitas vezes retratavam apenas um único indivíduo; mesmo aquelas com grupos não retratavam mais de uma dúzia. Por que exaltar as virtudes de tão poucos quando é por muitas mãos que o grande trabalho é feito? E essas estátuas! Ainda mais individuais do que as pinturas!

Sua lança acaba rapidamente com elas. Os recém-formados gritam nos recessos da mente Phirexiana, mas apenas por um momento; aquela parte deles está morrendo e entende que isso é para o melhor. Todos serão um. Essas obras não importam mais.

E ainda assim, algo profundo dentro dessa mesma mente lhe diz que ela deve continuar. Há algo aqui. No mínimo, ela pode cuidar da destruição da heresia ao seu redor.

Mais adentro há mais atrocidades. Piores, se for possível acreditar. Aqui as obras não representam mais nada: são replicações nítidas e geométricas de criaturas orgânicas. Nem armas nem baluartes; ela não consegue imaginar nenhum propósito para elas. Estas, também, ela derruba, sua frustração crescendo.

É a última sala que responde às suas perguntas.

Aqui não há objetos estranhos, aqui não há tinta, nenhum mortal anunciando ruidosamente seu próprio eu individual. Em vez disso, as formas que ela vê são pálidas imitações de glória. Um machado torto na parede, uma carapaça simulada de cão de guerra sobre um plinto, imagens que obscurecem a glória da finalização~ Norn lhe disse que Phirexianos já estiveram aqui, mas isso fala da crueldade que os orgânicos pensam estar acima.

Belo , aquela palavra novamente em sua mente, aquela palavra horrível, mas não há nada de belo em nada disso. Essas pessoas adoram o fracasso? Elas olham para os corpos daqueles que vieram antes e se maravilham com eles? As memórias dos Maestros são um aríete: grupos reunidos em torno desses restos, bebendo e comendo e tagarelando com seus lábios úmidos e línguas brilhantes.

"Você consegue imaginar ser o cara balançando essa coisa?"

"Vou te dizer uma coisa, eu queria poder contratá-lo para me seguir por aí e apenas ficar parado lá parecendo intimidador."

"Diga, quanto você acha que vale . . . ? Tenho vontade de comprar eu mesmo."

"Qualé, amigão, não tem como você pagar por isso."

Seu aperto em sua lança aumenta. Errado, errado, errado. Este lugar, os Phirexianos que foram fracos demais para levar sua missão adiante, os seres de carne que zombam deles. Belo , aquela palavra horrível que eles têm para isso, não pode significar outra coisa senão incorreção .

Atraxa a derrubará. Tudo isso, tudo o que leva o nome, deve ser destruído. Permitir que exista apenas convida a mais zombaria — e Phirexia não será ridicularizada.

Enquanto a phyrese rasteja pela fachada do edifício, ela oblitera tudo dentro dele. Que propósito servirá não cabe a ela decidir. O que for útil deles permanecerá e o que não for será arrancado. Cauda, garra, lança e grito: suas armas são infalíveis e incansáveis. Sucata e entulho são tudo o que resta quando ela termina. Quaisquer habitantes que encontra são esmagados contra as pedras. Em seus últimos momentos, eles podem imaginar que são belos.

Mas ela nunca quer ouvir a palavra novamente. Se ela pudesse expurgá-la da mente de Phirexia, ela o faria, mas isso é algo que apenas a Mãe das Máquinas pode decretar.

Ainda assim, Elesh Norn a nomeou para liderar essas forças, o que significa que ela pode derrubar a beleza aqui, se desejar. Atraxa precisa apenas pensar a ordem para que ela seja executada. Para sua satisfação, ao emergir do museu, ela ouve armas atingindo a pedra por toda parte.

A satisfação não dura muito.

Do outro lado do pátio há anjos olhando para ela — anjos com rostos de pedra.

Não é algo consciente que acontece a seguir — não é um pensamento que ela tem, mas um instinto. De repente, ela percebe que os serafins de pedra da catedral são de fato belos, e que ela os odeia mais do que jamais odiou qualquer coisa, mais do que sabia ser possível odiar. O coro de mentes silencia diante da nota retumbante de raiva martelando em todo o seu ser. Em um borrão branco, ela golpeia as cabeças das estátuas. Quando elas caem no chão, ela não para de atacá-las, mas continua descendo sua lança, várias e várias vezes, repetidamente, indiferente à energia nebulosa que emerge da rocha. Embora ela queime sua carapaça e seus tendões ardam em agonia, ela não consegue parar até que nada reste das cabeças exceto um pó fino.

Só então ela para. Só então ela ouve Phirexia novamente.

Há seres de carne escalando a torre. O que deve ser feito com eles?

Uma voz fala, e depois outra: colham-nos, colham-nos.

Mas este vapor nos dói, e nós sentimos dor.

Phirexia não sente dor. Colham-nos.

Atraxa olha para as figuras sem cabeça. Uma calma profunda a invade. A beleza está morta, e ela pode voltar suas atenções mais uma vez para o front — para os seres do lado de fora da torre, e o que eles podem estar planejando.

Ela deixa a plataforma.

Mas os serafins permanecem, observando-a ir, com seu visitante pairando entre eles em uma névoa de cor.

Eles, também, falam entre si.

Por que não pará-la? pergunta o visitante.

Ainda não é o momento.

Não parece ser a resposta certa — mas o visitante não pode refutá-la.

Tenha fé. Está quase aqui, o fim. Você saberá o que fazer quando chegarmos lá.

Arcavios: Um Coração Radiante

Nos túneis sob Strixhaven, onde habitavam as relíquias de eras passadas, Quintorius disse: "Acredito que estamos perdidos."

Gemidos responderam ao seu anúncio.

"É a nossa própria escola," rosnou Rootha, "não podemos estar perdidos. Deveria ser um caminho direto dos dormitórios para o Biblioplex!"

"Pense nisso como prática para quando estivermos de fato dentro do Biblioplex e procurando pela Invocação dos Fundadores," disse Dina. "Lembre-me, quantas expedições foram formadas para resgatar estudantes perdidos? Cerca de cem?" As pragas em sua bolsa de ombro guincharam e se contorceram, e ela deu um tapa na lateral para silenciá-las.

Da parte de trás do grupo, Zimone disse: "Eu me pergunto se a invocação realmente retardará a invasão phyrexiana, como a Professora Vess disse."

A cabeça de Killian ergueu-se num salto. "Melhor encontrá-la tarde do que nunca. Meu pai pode ajudar. Ele estava no Biblioplex quando a invasão começou."

Quint agitou suas orelhas, mas conteve a língua. Ele queria desesperadamente acreditar que outros professores além de Liliana haviam escapado do estrangulamento phyrexiano — que havia outros que não haviam sido dominados e forjados na inteligência phyrexiana — mas na escuridão empoeirada e iluminada por lanternas, com tendões vermelhos serpenteando pelas paredes e sombras fedendo a óleo negro, a esperança era escassa. A invasão havia incinerado as defesas de Strixhaven. Com seus professores capturados e completados, era difícil acreditar que a escola pudesse repelir o assalto deles. Os dormitórios ainda permaneciam de pé, os estudantes em seu interior protegidos pela Professora Vess e um exército de mortos-vivos — contudo, ela não duraria para sempre.

Arte de: Alexey Kruglov

Mas Quint respirou fundo e disse: "Killian está correto. Há pouco a se ganhar com o desespero." Lanterna erguida, ele liderou o caminho pelo túnel. Na verdade, não era muito diferente de explorar quaisquer outras ruínas, embora expedições anteriores não carregassem a ameaça de captura e completação.

O percurso era difícil. A devastação causada quando os portais phyrexianos romperam o céu e os galhos da Árvore da Invasão perfuraram a terra havia desmoronado muitos túneis subterrâneos. Em alguns lugares, o teto havia desabado. Os estudantes foram forçados a remover escombros para continuar ou retroceder e encontrar novos caminhos.

Descansando ao lado de um galho da Árvore da Invasão após atravessar um bloqueio particularmente difícil, Quint avistou uma estátua atrás de um bloco em ruínas.

"Ah!" disse Quint. "I should have considered this sooner."

"Considerou o quê?" perguntou Killian.

Quint agachou-se ao lado da estátua e traçou sigilos de ouro branco no ar, para conjuração, chamado e regeneração. "Quem melhor para nos guiar do que os primeiros professores de Strixhaven? A estátua é claramente venerável, baseada nos padrões de desgaste e descoloração, então se pedirmos —"

Os sigilos tremeram quando o feitiço de Quint pegou. Poeira e seixos giraram em torno da figura de pedra, um redemoinho em miniatura que se tornava cada vez mais sólido. Pedra branca brilhante se acumulou a partir da poeira. Membros se estenderam pelo redemoinho; olhos luminosos piscaram enquanto o espírito do professor se incorporava à sua estátua.

O espírito olhou em volta, franziu a testa e disse: "Strixhaven decaiu desde a minha época."

"Quase como se estivéssemos sendo ativamente invadidos," disse Dina.

O espírito do professor olhou feio para ela. Antes que pudesse expressar desagrado, Quint disse: "Sinto muito pelo inconveniente, professor —"

"Reitor, obrigado. Reitor Herrian, o Segundo de —"

"Por favor," interrompeu Quint diante de um murmúrio de desaprovação, "estamos com pressa. Você sabe o caminho para o Biblioplex? Estamos um tanto — hum —"

"Perdidos," disse Rootha.

"Perdidos!" ganiu o Reitor Herrian. "Como podem estar perdidos?" Carrancudo, Killian retrucou: "É uma longa história, e não temos tempo para explicar."

"Deveria imaginar! Como podem estar perdidos quando estão sob o Biblioplex?" Os olhos de Quint se arregalaram. Então, em uníssono, os estudantes olharam para cima, para o galho da Árvore da Invasão, revestido de carapaça e pulsando com um calor nauseante, e para o buraco pelo qual ele havia mergulhado.

"Eu preferiria que estivéssemos perdidos de novo," murmurou Zimone.

E Dina, sorrindo, perguntou: "Quem vai primeiro?"

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"Nunca mais escalarei uma estrutura sem equipamento de expedição, pensou Quint enquanto subia. Quatro pares de mãos agarraram seu casaco; quatro costas se curvaram e o içaram do buraco para o chão do Biblioplex. Ele não era o único cansado de perder a aderência e escorregar."

Um olhar, e ele desejou poder afundar de volta.

Seu adorável e luminoso centro de aprendizado havia desaparecido. Portais de bordas vermelhas se contorciam no alto e sangravam uma luz avermelhada e sem vida. Os galhos da Árvore da Invasão cortavam o ar e as paredes da mesma forma, interrompendo as estruturas existentes. E aqui havia mais tendões vermelhos, invadindo a mobília em colunas nodosas, de mãos dadas com placas de porcelana segmentadas como colunas vertebrais. Parecia se alimentar das próprias paredes, tornando-as foscas, bebendo tudo o que dava brilho ao Biblioplex e cuspindo óleo negro e mais gavinhas de si mesmo.

Nenhum deles falou. O ar pareceu tão espesso que sufocava as palavras em suas gargantas. E, no entanto, a luz dançava por perto, de alguma forma, não o vermelho de Phyrexia, mas partículas como poeira através de um raio de sol, azul-pálido e frágeis. Sem pensar, Quint alcançou uma partícula~ e seus olhos se arregalaram quando a partícula pareceu derreter em sua pele. Uma sensação de descoberta silenciosa e nascente se instalou sobre ele.

"A invocação deve parecer nova, dissera a Professora Liliana. Ela deve emitir vestígios de si mesma... que tipo, eu não sei. Mas Strixhaven originou-se com a Invocação dos Fundadores, e o feitiço buscará se opor a qualquer invasão. Encontrem-no. Conjurem-no. Ajudem-no a expulsar Phyrexia de nossa escola."

Quint olhou para seus colegas estudantes. Mais partículas flutuavam ao redor deles, e suas expressões brilhavam também com a mesma percepção. Eram vestígios da invocação, despertos e lutando contra a melancolia phyrexiana.

"Avante, pensou Quint, e seguiu as luzes dançantes."

Embora o Biblioplex parecesse deserto, a presença dos portais sufocava o desejo de Quint de conversar e tornava seus pensamentos cinzentos de incerteza. O que era estranho, pensou ele enquanto avançava lentamente por um corredor repleto de livros e envolto em tendões. Os próprios galhos da Árvore da Invasão zumbiam; o ar pulsava com o rufar do batimento cardíaco de uma expansão maligna. Contudo, o Biblioplex iluminado de vermelho lembrava a Quint um sepulcro. Mesmo as ruínas que ele havia estudado pareciam mais vivas.

Então, rastejando nos calcanhares de Rootha, com Dina, Zimone e Killian atrás, Quint olhou para cima — e quase deu um pulo. Outro estudante, um anão de cabelos escuros em vermelho e branco de Sapientia, olhava para eles do topo de uma estante, com os olhos arregalados e ainda muito longe de estar completado. Sua respiração estremecia em lábios sem sangue pelo pavor, mal ondulando o ar estagnado.

O estudante captou o olhar de Quint, e seus olhos se encheram de alívio. "Ajude-me," sussurraram.

Como se a voz do estudante fosse um seixo atirado e o Biblioplex um lago, o tendão vermelho ondulou.

Algo enrolou-se na estante e prendeu a perna do estudante. Tiveram tempo para um grito aterrorizado antes que a coisa os chicoteasse para uma passagem escura — e Quint vislumbrou uma figura coberta de penas brilhantes como aço e garras afiadas. Onde deveriam estar a língua e o bico, havia em vez disso uma teia expansiva de filamentos metálicos.

"Não!" gritou Quint, incapaz de se conter.

Imediatamente Killian agarrou seu ombro em aviso e Rootha colocou a mão sobre sua boca, mas seu grito correu pelo tendão vermelho com a mesma ondulação terrível e expansiva. A cabeça da Reitora Shaile girou abruptamente.

Eles nem falaram. Apenas correram.

O Biblioplex uivava ao redor deles com uma voz que fazia Quint querer arrancar as próprias orelhas. As próprias sombras pareciam agarrá-lo com dedos vermelho-sangue. Pelos caminhos labirínticos — passando por prateleiras monstruosas com carapaça e quitina — sobre fossos turvos, fedorentos, veteados de óleo negro — não mais silenciosos, pois o silêncio se fora, e o que os perseguia agora era medo e fúria. As bordas da visão de Quint se agitavam com membros demais e proporções tortuosas demais para reconhecimento. A magia reluzia: explosões verde-escuras enquanto Dina arrancava a vida das pragas em sua bolsa e lançava manchas de chão traiçoeiro e viscoso de musgo atrás deles; chicotadas de tinta de Killian que prendiam os membros de seus perseguidores; Rootha girando para lançar espinhos de gelo afiados como agulhas ou rajadas ígneas. Zimone ofegava enquanto tentava acompanhar, e Quint a puxava da forma mais gentil possível. Continuaram correndo, pisoteando tomos antigos, e mesmo com o coração tropeçando no peito, ele sentiu uma pontada de remorso —

"Eles estão diminuindo," ofegou Rootha, e a esperança agitou-se em Quint. Estavam quase em um átrio, onde poderiam mergulhar em um de uma dúzia de salões ramificados e despistar a perseguição —

Pena e metal e boca de teia flutuaram acima. Antes que Quint pudesse reagir, a Reitora Shaile mergulhou. Suas garras prenderam-se no colarinho de Killian, e então ela estava subindo do mergulho, Killian debatendo-se em seu aperto e Dina e Zimone agarrando seus pés, tentando puxá-lo de volta. A Reitora Shaile simplesmente bateu as asas e subiu mais alto. A teia de sua boca rastejou sobre o crânio de Killian e tentou se esgueirar por baixo de suas pálpebras, fechadas com horror.

"Onde está seu pai?" perguntou a Reitora Shaile, e a teia pulsou suavemente, quase amorosamente, ao redor da cabeça de Killian. Branco e preto brilharam em suas mãos, mas quaisquer feitiços que ele estivesse tentando lançar falharam a centímetros de seus dedos.

Quint tremeu. Ele viu claramente o destino que aguardava Killian, fétido com metal e óleo. Ele não podia deixar aquilo acontecer. Com a voz alta e rachada, ele coachou: "Não sabemos. E já que é o Reitor Lu que você quer, não deveria perder seu tempo com Killian. Você não precisa dele. Ele não será benéfico para você. Para — para Phyrexia."

A boca de teia da Reitora Shaile abriu-se por um segundo, mostrando o rosto aterrorizado e pálido de Killian, depois fechou-se novamente. "Embora eu tivesse preferido o Lu mais velho em vez de sua progênie inferior, você está enganado. Killian não está desperdiçando meu tempo. Todos são bem-vindos no Multiverso melhor e puro de Phyrexia."

Quint gritou e estendeu a mão para Killian, inútil, distante, enquanto a Reitora Shaile gritava em triunfo e mais professores phyrexianizados avançavam em direção a eles em uma terrível maré brilhante —

Então alguém sussurrou, "Você se deixou vulnerável ", e Quint cambaleou quando, em um turbilhão de agitações negras como tinta, o Reitor Embrose Lu pousou ao lado deles. A boca de teia da Reitora Shaile contorceu-se; ela cuspiu Killian no chão e lançou-se contra Embrose enquanto os outros professores saltavam — e o turbilhão explodiu para fora, passando por Quint e seus colegas estudantes com a leveza de retalhos de seda — mas onde tocavam os professores, a carne borbulhava e o metal rachava ou derretia.

Os gritos de raiva e dor dos professores ecoaram pelo Biblioplex enquanto a tinta rugia ao redor deles.

"Pai, atrás de você! " gritou Killian. Ele levantou-se cambaleante, tinta derramando de suas mãos e surgindo em direção à Reitora Shaile, que avançava como uma flecha contra as costas de Embrose.

Então outra curva de preto derrubou Killian para o lado — e um segundo depois, um membro em forma de foice perfurou a tempestade, golpeando onde a cabeça de Killian estivera apenas um momento antes.

"Você é muito mais fraca do que imagina ", cuspiu Embrose. As estantes balançaram para trás, livros abrindo-se enquanto as palavras e a sabedoria de cem mil escritores se libertavam e voavam ao comando de Embrose. Flechas e dardos perfuraram alguns dos professores atacantes; mortalhas do material enxamearam sobre outros, sufocando-os; ainda mais tinta brilhou para cima para retalhar os filamentos da boca da Reitora Shaile. A outrora corujina caiu —

Um retalho de escuridão bateu na boca de Killian enquanto ele invocava outro golpe de tinta. Enquanto ele o arranhava, Embrose disse: "Corra, Killian."

Os olhos de Killian brilharam; ele rasgou a tinta. "Eu posso ajudar!"

"Sim. Você também me distrairia."

Dina retrucou: "Se você não pôde parar Phyrexia antes, o que o faz pensar que pode derrotá-los agora?"

O olhar de Embrose voltou-se para Killian — e, para surpresa de Quint, ele captou a mais leve vacilação na expressão normalmente estoica do reitor.

"Não preciso me explicar," disse Embrose. "Agora vão ."

E sem aviso, chicotadas de preto envolveram os torsos dos estudantes e os lançaram através de um buraco aberto por uma fração de segundo na violenta tempestade de tinta. A Reitora Shaile virou-se para eles — mas outra explosão de tinta rasgou suas asas e, com um grito, ela focou novamente em Embrose, uma sombra esculpida em forma humana.

A tinta os despejou sem cerimônia algumas fileiras adiante. Quint levantou-se apressado enquanto Killian saltava, fogo em seus olhos — e Dina agarrou seu braço.

"Solte!"

"Você vai morrer," disse ela categoricamente, e as pragas em sua bolsa piaram como se concordassem.

Os olhos de Killian estreitaram-se. "Não posso deixar meu pai ser levado por Phyrexia."

"Certo, desculpe, você não vai morrer. Você apenas desejará ter morrido." Então, enquanto Killian respirava fundo, Dina acrescentou: "O que é mais importante, jogar sua vida fora aqui ou encontrar a invocação?"

Quint pensou na tinta fustigante. Embora soubesse que isso magoaria Killian, disse: "Dina está certa."

"Meu pai poderia ajudar!"

Zimone estendeu a mão para Killian, depois recuou, como se tivesse medo de tocá-lo. "O Reitor Embrose está ajudando."

"Fazendo-se de isca ?"

"Dando-nos o tempo e o espaço necessários para encontrar a invocação. Você deve saber melhor, mas — ele se sacrificaria se não acreditasse que você teria sucesso?"

A mandíbula de Killian cerrou-se, e Quint viu Rootha tensa, pronta para contê-lo — então ele assentiu, apenas uma vez.

Mas, enquanto marchavam, Quint captou flashes de magia branca — palavras para fortalecer e apoiar — voando das pontas dos dedos de Killian na direção de seu pai.

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Os sons de batalha desapareceram enquanto avançavam pelo Biblioplex. Para Quint, o silêncio parecia mais espesso agora, como se os punisse por falar, mesmo que brevemente. Até as luzes flutuantes da invocação enfraqueciam às vezes, forçando-os a procurar até encontrarem outra deriva de partículas. O único consolo, se é que se podia chamar assim, era que Embrose havia atraído a atenção dos professores. Os corredores agora estavam limpos — quase limpos.

Quint parou no meio de um passo. Uma forma metálica pendia do arco no fim do corredor. Os cinco estudantes trocaram olhares. Então, sem falar, escolheram outro caminho.

Infelizmente, ficou claro que o professor de cabeça para baixo não era o único a ter se abstido de lutar contra Embrose. O Biblioplex sussurrava com rastejos e estalava com metal contra o chão de pedra. Duas — três — quatro — mais vezes do que Quint podia contar — eles se jogaram atrás de pilhas ou se enfiaram em nichos enquanto professores passavam, olhos vasculhando as sombras e as prateleiras. Formas estranhas, membros estalando e dobrando-se de maneiras que deveriam incapacitar, mas que de algum modo não o faziam. Quint sabia que aquelas aparências o assombrariam para sempre.

"Quanto do Biblioplex já revistamos até agora? , perguntou-se Quint, tentando lembrar o layout enquanto se encolhia atrás de uma coluna de tendão vermelho. O Biblioplex era vasto e complexo. Até a Professora Vess, Planeswalker e erudita, ainda não havia explorado toda a sua extensão. Ainda assim, pensar nos caminhos labirínticos era melhor do que ouvir o professor arrastando-se por perto. O som de seus pés — quantos quer que fossem agora — raspava diretamente no cérebro de Quint~"

Arte de: Dmitry Burmak

O arrastar de pés sumiu conforme o professor se afastava. Do outro lado do corredor, Quint captou o olhar de Dina, e ela assentiu. Era seguro mover-se novamente.

Estavam em uma parte totalmente desconhecida do Biblioplex agora, com poeira espessa sobre estátuas e livros, e teias de aranha cobertas de óleo entrelaçadas com delicados fios de tendão. Os estudantes tiveram que se separar para passar pelos caminhos mais estreitos. Eles se reagrupavam — o silêncio vermelho e pulsante tornava a solidão repugnante — apenas para serem forçados pelos corredores a divergir mais uma vez. Quint apegava-se àqueles momentos juntos, breves como eram, enquanto as sombras avermelhadas pesavam sobre eles.

Então, enquanto ele deslizava com Dina entre duas estantes, a estante à sua direita tremeu, e ele avistou dedos longos e semelhantes a agulhas curvando-se sobre o topo. Ele congelou. Um professor estava pendurado no lado oposto, esperando — observando. Quint trocou um olhar com Dina. Ele os veria no instante em que emergissem.

Então ele ouviu um suspiro, em algum lugar à sua direita.

Zimone.

A estante rangeu enquanto o professor girava —

Quint tropeçou até o fim de seu corredor e viu os olhos aterrorizados de Zimone mal espiando por trás de uma estante que dava na cintura, e as mãos de Rootha e Killian em seus ombros puxando-a de volta — viu, em toda a sua glória bizarra e retorcida, o professor com membros de foice esgueirando-se na direção deles — mas ele também viu a estátua contra uma parede distante, envolta em tendão vermelho. Seus dedos voaram pelos movimentos, liberando em um segundo um feitiço que normalmente levava trinta. O espírito da estátua coalesceu em uma rajada de poeira e pedra. Ele lançou a Quint um sorriso breve e feroz, ergueu suas mãos cintilantes e gritou: "Silêncio na biblioteca!"

Um grito ecoou pelo ar.

Com um ruído rígido e abrangente, o professor girou e correu em direção à estátua, que agora esmagava alegremente cada placa de carapaça e retalhava cada meada de tendão vermelho ao seu alcance. Mesmo mortos, parecia, os antigos professores de Strixhaven não podiam tolerar a intrusão phyrexiana.

Os estudantes trocaram o mais breve dos olhares — alívio e terror e surpresa, tudo misturado — então voaram pelas costas do professor phyrexianizado, seus passos obscurecidos pelos brados desafiadores da estátua.

Mais fundo eles se embrenharam pelo Biblioplex, sempre mais fundo, perseguindo os sopros de luz, mas não poderiam aguentar muito. Quint via todos fraquejarem sob o pavor brutal e incessante. Killian continuava lançando coragem e esperança para os outros, as palavras brilhando nos olhos de Quint, mas o vermelho dos portais de invasão tornava a magia branca rala. Ele tropeçou e mal se impediu de cair sobre uma cadeira. Estavam no caminho certo — as partículas pálidas e macias cintilavam mais intensamente — mas quão longe teriam que ir, ele não sabia e não queria imaginar —

Então seus passos vacilaram; os outros estudantes diminuíram o passo também. O medo e a fadiga pareciam desprender-se dele como bandagens velhas.

A luz era mais forte aqui: não apenas resistindo debilmente à pesada obscuridade phyrexiana, mas expulsando-a completamente em alguns pontos. Bolsões de radiância pairavam entre as estantes e, quando Quint passava por um, o frescor do próprio ar era quase eufórico após tanto tempo avançando em meio à escuridão e aflição.

"Quase lá."

Revitalizados, tiveram que se conter para não correr precipitadamente. Moviam-se de ponto a ponto iluminado, cada trecho tornando-se mais forte, amplo e brilhante. Para Quint, parecia a luz do sol sobre ruínas desenterradas, ou velhas palavras copiadas em papel limpo —

Os corredores se abriram, revelando uma plataforma circular cercada por um fosso. Flutuando no centro da plataforma estava um emaranhado de luz como nenhum feitiço que Quint jamais vira — e sem tendão vermelho , percebeu Quint com um arrepio. A plataforma estava limpa. Tinha que ser a invocação. Nenhum outro feitiço que ele conhecia poderia desafiar o domínio de Phyrexia.

Com um movimento de braços, Rootha cristalizou a água em uma ponte de gelo instantânea. Eles atravessaram correndo, sem nenhum professor à vista.

O que era bom, pois conforme Quint se apresentava à invocação, seu brilho o envolvia em um manto macio e reconfortante, e ele mal podia pensar em qualquer outra coisa.

O emaranhado não era apenas luz, mas uma confusão prismática de letras tão deslumbrantes que afastavam inteiramente a melancolia vermelha. Sentenças se projetavam, afundavam novamente e se reformavam com novas orações e frases. Palavras isoladas estouravam como bolhas na superfície. Quint inclinou-se para frente, apertando os olhos para tentar distinguir palavras individuais — e uma gavinha brilhante enrolou-se em seu pulso. Ele quase saltou de susto. Pensara que as palavras seriam constructos intangíveis de magia pura, mas pareciam fios de seda quentes contra sua pele.

"Está viva," sussurrou Quint. A invocação pulsou levemente. Seus olhos se arregalaram. "Vocês viram —"

"Está respondendo a nós?" perguntou Rootha, e a invocação pulsou novamente.

"Não apenas respondendo, eu acho." Zimone deu uma volta lenta ao redor do emaranhado. Pulso, pulso, pulso , ia ele, no tempo de sua fala. "Vocês ouvem isso?"

Rootha olhou em volta. "Ouvir o quê?"

"Exatamente. Nada ."

Nada. Sem gritos, sem guinchos, sem membros rastejantes e estalantes.

Killian soltou o ar lentamente. "Está nos protegendo da atenção phyrexiana."

Eles ficaram em silêncio. Um pequeno calafrio percorreu Quint. Reverência ou medo, ele não sabia dizer. A invocação, dissera a Professora Vess, detinha o poder dos cinco dragões anciões de Strixhaven, todos entrelaçados e fundidos para construir a escola e protegê-la de danos. Até agora, porém, ele não tinha percebido que, para fazer isso, ela se tornara parcialmente viva .

"Como começamos?" ele perguntou, meio para si mesmo. Era mais fácil imaginar erguer uma montanha do que lançar o feitiço que construíra a própria Strixhaven.

"Talvez —" começou Dina, mas antes mesmo que terminasse, a invocação desatou-se, rearranjando-se em segmentos organizados. Não um emaranhado, percebeu Quint, mas uma flor de cinco pétalas, cada pétala uma mistura perfeita de duas cores. As palavras confusas se reformaram em sentenças reconhevíveis.

"Cinco dragões anciões," disse Rootha, tocando uma pétala azul e vermelha. "Cinco partes para o feitiço. Tenho o palpite de que precisamos seguir o exemplo dos dragões anciões e ler as cinco partes juntos."

Zimone ficou na ponta dos pés para examinar o próprio coração da invocação. "Lá fora também. Vê esta condicional? Temos que ser capazes de ver o que estamos afetando."

"Provavelmente não podemos voltar pelo caminho que entramos," disse Quint. Até a ideia de rastejar entre as estantes cobertas de tendões novamente o fazia estremecer.

Os olhos de Dina brilharam. "Há mais de uma maneira de tomar um ar fresco. Podemos sempre culpar os phyrexianos."

"Ah, não. Você está planejando algo destrutivo," disse Killian, então acrescentou, com uma ênfase terrível, "de novo ."

"Depende da sua definição de 'destrutivo'. Cubram-me." Agachando-se, Dina tirou pequenos potes de uma gosma não identificável de sua bolsa e começou a rabiscar símbolos pela plataforma.

Zimone ajoelhou-se ao lado dela. "Eu vejo . Como você está fornecendo energia?"

"Com minhas pragas."

"Isso não fornecerá energia suficiente."

"A menos que você esteja se voluntariando —"

"Deixe-me adicionar aos fatores de crescimento." Os dedos de Zimone, deixando um rastro de luz azulada, tocaram os rabiscos de Dina, pontuando os sigilos verde-lamacentos com pontos de brilho. "Os espaços imaginários entre características físicas discretas teoricamente se estendem para sempre, da mesma forma que uma infinidade de números existe entre dígitos discretos. Se aplicarmos a Hipótese de Expansão de Thale para transformar o imaginário into real ~"

O ar acima do ritual de Dina e Zimone em rápida expansão brilhou, um escuro azul-esverdeado misturando-se de uma maneira que deveria ter sido lamacenta, mas que em vez disso parecia animada. Padrões como escadas retorcidas entrelaçavam-se entre símbolos nodosos como raízes de salgueiro. A sensação de energia aprisionada e à espera redobrou.

Então Quint ouviu movimento .

Ele girou e lançou a mão, símbolos de um branco ardente atingindo estátuas e pergaminhos próximos, mas mesmo enquanto sete estátuas-espírito se recompunham, o professor saltou das sombras. Suas garras estenderam-se em direção a Quint; suas laterais metálicas abriram-se e, no centro das costelas escancaradas, uma coisa que pulsava em vermelho olhou fixamente —

Uma agulha de tinta passou voando por Quint e atravessou a coisa de olhos vermelhos. O professor recuou, costelas estremecendo amplamente, e um espigão de gelo gritou do fosso, perfurando sua perna com um estalo tremendo. Os espíritos de Quint investiram contra o professor em um estrondo de pedra triturada; o professor cambaleou sob o ataque. O coração de Quint saltou. Eles só precisavam aguentar até que Zimone e Dina completassem o ritual.

Então as costelas do professor abriram-se novamente. Com outro sibilo, Killian lançou tinta contra o professor — tarde demais. As costelas incharam em fitas, rápidas como o pensamento, e cortaram os espíritos de Quint. Três deles se dissolveram; os outros quatro recuaram, despedaçados a quase nada.

O fogo trovejou de Rootha enquanto Quint agarrava a invocação e implorava para que ela se condensasse. O pensamento único corria por sua cabeça: acima de tudo, Phyrexia não deve levar o coração de Strixhaven . Ao seu redor fervilhavam dardos de tinta e gelo estalando — nos cantos de seus olhos brilhavam o branco do encorajamento e o clarão do fogo — enquanto a invocação recolhia suas pétalas e se contraía até o diâmetro de uma sopeira, um prato de jantar, uma xícara de chá, e ele a agarrou e a enfiou no bolso, fora de vista —

Então, "Pronto!" gritou Dina. Ela virou sua bolsa de pragas — e o professor investiu contra Rootha e Killian, varrendo as pragas para o lado enquanto avançava para Dina e Zimone. Mas seu pé pousou no círculo ritual. Um grito rasgou suas costelas, mas ele poderia muito bem ter tentado gritar para apagar os sóis no céu. Sua carne estava derretendo , encolhendo-se até virar couro sobre os ossos, e o coração de olhos vermelhos brilhou enquanto o ritual absorvia sua energia vital.

Então Dina gritou.

"É energia demais! percebeu Quint enquanto Killian corria para o lado dela. Ela se contorcia, o corpo queimando com um fogo verde-escuro — que irrompeu de seus poros e atingiu cada estante próxima."

Quint nunca soube que o crescimento poderia soar como violência encarnada.

Pranchas polidas estilhaçaram-se em galhos afiados como navalhas, alongando-se tão rapidamente que cortaram os restos do professor ao meio. Folhas irromperam com sons de lâminas sendo desembainhadas. No intervalo de um suspiro, raízes mais grossas que o corpo de Quint transformaram o chão em seixos. O trovão da vida liberta afogou os sentidos de Quint enquanto estantes explodiam e se emaranhavam em uma única árvore acima da plataforma da invocação — e continuava crescendo , galhos formando uma hélice perfeita de degraus e folhas afinando-se rumo ao infinito. A copa da árvore empurrou o teto do Biblioplex, pausou — e atravessou-o. Luz, ar e alvenaria choveram sobre a plataforma.

A boca de Quint abriu-se.

Então Dina desabou.

"Nada mal para uma sobrecarga, hein, Zimone?" ofegou ela enquanto Killian e Rootha a ajudavam a levantar com expressões de espanto.

O sorriso de Zimone foi silencioso, mas feroz. "Nada mal mesmo. Mas cuidado para não se afastar demais do tronco principal. Teoricamente , os galhos converteram-se de espaço imaginário para físico — mas após certo comprimento, eles se tornam mais imaginários do que reais."

Dina riu sem fôlego. "E não olhe para baixo."

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No telhado finalmente, e desejando não ter olhado para baixo, Quint apoiou as mãos nos joelhos, arquejou por sua tromba e pensou: "Desta vez — falo sério — nunca mais escalarei nada sem equipamento de expedição ." Após alguns momentos, ele recuperou fôlego suficiente para se empertigar e tirar a Invocação dos Fundadores do bolso. Ao ar livre, suas pétalas se desdobraram, brilharam, cresceram. Atrás dele veio um som como o de embaralhar cartas enquanto Zimone liberava os galhos imaginários e a árvore encolhia de volta para uma altura plausível.

Killian, ainda apoiando Dina, observou a invocação. "Não podemos sofrer interrupções durante a conjuração. Isso poderia levar a todo tipo de resultados indesejados. A invocação provavelmente não criará uma criatura do pântano massiva se isso acontecer, mas —"

"Sem garantias," Dina deu uma risadinha fraca.

"Sem interrupções," disse Rootha, "entendi," e ela percorreu a borda do telhado. Gelo irrompeu em seu rastro, cercando o topo do telhado e suavizando o céu vermelho e rompido com sua pureza gélida.

Então, com apenas uma leve hesitação, cada um agarrou uma pétala e começou a ler.

Arte de: Dmitry Burmak

O choque percorreu Quint. As palavras eram tão prosaicas . A invocação simplesmente descrevia Strixhaven. Aqui, afirmava a invocação, o solo tinha esta consistência; ele se inclinava desta maneira e continha estes tipos de pedras. O céu estremeceu enquanto Zimone definia a maneira como as nuvens se moviam e o ar fluía ao redor da escola. Rootha disse ao sol como ele aquecia os telhados e gramados da escola e aos aquíferos e nascentes para onde fluir. Dina sorriu enquanto narrava a flora: onde crescia, como morria, a nova vida que alimentava. Através de tudo isso entrelaçava-se a parte de Killian, harmonizando as partes separadas enquanto suas palavras subiam em pilares de luz. Eles diziam a Strixhaven o que ela era e, naquele relato, não havia lugar para Phyrexia.

E Strixhaven ouviu. Mesmo esperando por isso, a visão quase fez Quint gaguejar. Os portais no alto franziram-se enquanto lutavam contra serem descritos para fora da realidade, mas eles não podiam resistir mais do que a água, o vento, o fogo, a terra e a luz. Cinco vozes elevaram-se conforme a invocação se aproximava da conclusão, e os pilares brilharam mais forte —

A parede glacial estilhaçou-se.

A explosão derrubou Quint de joelhos, e Zimone, Dina e Killian lançaram-se contra o telhado, mãos ainda agarrando suas pétalas, bocas ainda recitando. Mas Rootha enfrentou a pessoa parada na borda do telhado, uma figura elegante apesar da maneira como seu corpo parecia ser um único coração mecânico gigante.

"Rootha," suspirou a figura. "Você sempre encontrou falhas em seu trabalho que ninguém mais conseguia ver~ mas de alguma forma, você perdeu a fraqueza em seu gelo. Estou desapontado."

"Não! , Quint tentou dizer; mas não conseguia proferir um som sem interromper a invocação."

A voz de Rootha vacilou. "Reitor Nassari?"

Sua pétala escureceu.

Os outros estudantes liam freneticamente, tentando compensar Rootha enquanto ela lançava clarão após clarão, espigão após espigão de gelo, mas Nassari esquivava-se de tudo. Palavras ásperas deslizavam de seus lábios — crítica sem critério — e Rootha estremecia e empalidecia a cada farpa. A luz no alto esmaeceu. A invocação estava falhando —

Mas Quint sorriu.

Estranho como ele se sentia animado. Quase como quando encontrou a cidade perdida de Zantafar. Havia aquele mesmo senso de unir o conhecimento perdido do passado com os estudiosos do futuro.

Neste caso, ele estava garantindo que Strixhaven tivesse um futuro.

Quint tirou um único momento para desfrutar desta escola e da glória de sua existência. Então ele estendeu a mão e agarrou a pétala de Rootha.

Os olhos dos outros se arregalaram, mas ele não podia dedicar-lhes um pensamento, pois cada fragmento de si mesmo estava focado na invocação. Era impossível falar duas partes ao mesmo tempo. Em vez disso, ele despejou magia diretamente na pétala de Rootha. A terra era sua voz; os mares e sóis eram seus ossos; ele alimentou a invocação apenas com sua vida. Os pilares de luz brilharam mais intensamente do que nunca. Mesmo enquanto sua vida se esvaía para a invocação, ele pensou: "Nunca vi nada tão magnífico ."

Um choque rasgou seu cerne.

Quint arquejou. A invocação~? Não. Esta luz brilhava de dentro . Quint gritou enquanto ela rasgava músculo e osso em espirais selvagens. Ele tentou alcançar seus colegas estudantes — seus amigos — mas a invocação rugiu em resposta. As luzes gêmeas chicotearam em uma dança fervorosa, cortando tanto pedra quanto aço. O Reitor Nassari foi arremessado do telhado; o Biblioplex cedeu e quebrou, desabando enquanto a luz mantinha Quint cativo no ar; as pedras dos edifícios periféricos de Strixhaven se desfizeram como cubos de açúcar no chá; os portais desmoronaram; os galhos da Árvore da Invasão agitaram-se enquanto o céu tentava se fechar sobre si mesmo. E através de tudo isso, Quint queimava

Em meio à conflagração, os pensamentos de Quint correram para Will e Rowan. Seus amigos, também. Ele não os via desde que a invasão começara. Enquanto a queimação se tornava insuportável, ele só podia esperar que estivessem bem.

Arte de: Eelis Kyttanen

A luz engoliu Quint por inteiro.

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Os estudantes de Strixhaven emergiram do dormitório para encontrar não um cerco — não seus antigos professores, prontos para levá-los para a completação — mas ruína. Alguns choraram, mas não por muito tempo, pois o céu ainda se dilatava com portais de invasão tentando forçar a volta, e figuras metálicas ainda brilhavam à distância. Sob as instruções de Liliana, construíram as defesas que puderam, cavaram entre os escombros, retiraram sobreviventes e tentaram identificar quaisquer professores que descobrissem, enquanto os estudantes de Pratus cuidavam dos feridos.

"Um esforço medíocre, Merrow," disse Liliana, examinando o conteúdo de um caldeirão. "A poção de restauração sanguínea requer vagens de crista-negra em pó . Você nem sequer peneirou as cascas. Você está se focando demais nos ferimentos óbvios, Frena. Aquele pobre rapaz vai sufocar muito antes do braço que você está imobilizando curar. O que é isto? O Teorema de Sorlian ? Sério, Rinne? Ela é uma corujina, não um loxodonte, o Teorema de Sorlian dificilmente é aplicável~"

Houve um estrondo; então múltiplas vozes gritaram: "Eles estão aqui embaixo!" Liliana teve que se forçar a não correr. Fora ela quem os enviara para encontrar a invocação; ela era o motivo de estarem agora feridos, possivelmente mortos. Eles haviam concedido a Strixhaven este alívio, por mais breve que fosse. Ela devia a eles sua atenção e muito mais além disso~

Quando ela chegou aos restos do Biblioplex, os estudantes que trabalhavam lá haviam desenterrado os feridos. Apesar de sua fachada severa, o coração de Liliana batia rápido como um tambor enquanto ela olhava para Dina, Killian, Zimone e Rootha. Ossos quebrados, contusões, feridas abertas, sem dúvida uma miríade de infecções interessantes — seria mais rápido considerar os ferimentos que eles não tinham.

E ela estava impressionada. Mesmo sangrando por múltiplos cortes, Killian cambaleava pelos escombros. Tinta rosnava ao seu redor enquanto ele rasgava tanto alvenaria quanto carapaça.

"Tinha que ser o filho de Embrose para ser um estorvo. Sedem-no," disse Liliana, e um estudante de Pratus desceu com uma poção que fumegava ameaçadoramente.

Mas antes que o estudante pudesse chegar a uma distância de alimentação forçada, Killian gritou: "Pai! "

Liliana respirou fundo e olhou para o buraco que Killian havia escavado. Lá estava Embrose, empoeirado e desgrenhado, ensanguentado e marcado, cercado pelos restos de vários professores phyrexianizados — mas vivo, e ele mesmo.

"Bem, Lu," disse Liliana.

"Bem, Vess," retribuiu ele, curto e digno como sempre. Sua atenção voltou-se para Killian, parado atônito à beira do buraco. "Ajude-me a subir."

Liliana acenou para outro estudante. "Dê uma mão para —"

"Não preciso de ajuda," interrompeu Embrose, mas quando Killian estendeu a mão, seu pai segurou sua mão.

Liliana virou-se para o lado, seu próprio coração apertando-se desconfortavelmente com a expressão no rosto de Killian. Os outros ainda precisavam de sua atenção, de qualquer forma. Zimone, sensatamente, não tentara levantar-se, com sua perna quebrada e olhos vítreos pela sedação. Ainda assim, ela agarrou o braço de Liliana e coachou: "Nimiroti~ você tem que salvá-la~"

O mais gentilmente possível, Liliana soltou a mão de Zimone. Ela não podia dispensar ninguém para verificar a avó de Zimone. E Rootha — um olhar dizia mais do que o suficiente. A garota nem sequer tentava se mover. Ela simplesmente jazia em sua maca, quebrada como a boneca de uma criança, e olhava fixamente para o céu.

"Nada mal para estudantes, certo?" coachou Dina.

Liliana olhou para a quarta maca. "Eu sugeriria que não haveria como vocês terem feito pior ."

Dina deu de ombros, depois fez uma careta. As poucas manchas de pele que restavam sem sangue exibiam hematomas grandes e dolorosos.

"Agora temos bastante espaço para remodelar."

Liliana balançou a cabeça — então se empertigou, olhos arregalados. "Onde está Quint?"

Uma nuvem passou pelo rosto de Dina. "Não sabemos. Houve um clarão de luz, e ele simplesmente — desapareceu."

"Morto , pensou Liliana; então ela franziu a testa enquanto as palavras de Dina ecoavam em sua mente. Morto... ou uma centelha? Kasmina sugeriu que havia uma brasa entre eles, e claramente não é um destes quatro. Se a centelha de Quint se acendeu, ele ainda poderia estar vivo... "

Dina estava dizendo algo. Liliana balançou a cabeça. "O que foi?"

"Deveríamos expandir o pântano. Sempre achei que ele precisava ser maior."

Liliana olhou para cima. Olhou para o céu, o brilho guerreando com a vermelhidão turva, e as cicatrizes pulsantes, contorcidas e de bordas negras que costumavam ser portais de invasão. Olhou para os galhos perfurando o chão, curvados e batidos, mas ainda de pé. Olhou para os corpos de seus colegas, alguns esmagados por edifícios desabando, outros com suas partes metálicas arrancadas pela invocação incompleta, e soube que mais ainda estavam vivos, e eles nunca parariam. Olhou para as ruínas de seu lar, seu santuário, seu refúgio interrompido por Phyrexia.

Então ela encarou os portais como feridas abertas, com as larvas dos galhos da Árvore da Invasão já rompendo através do banimento incompleto da invocação.

As mãos de Liliana caíram ao lado do corpo. Seus dedos se abriram. Luz derramou-se de suas palmas: não a cor de sangue turva que se agitava no alto, ou mesmo o brilho límpido que lutava contra ela. Aquela era a luz dela , sombria e severa. Afundou como água no solo. Muito abaixo, nas ruínas da escola repletas de cadáveres — nas catacumbas onde antigos professores mofavam — abaixo até mesmo disso, onde os ossos de milhares inominados e desconhecidos se infiltravam no leito rochoso — sua magia encontrou corpos e deu-lhes nova vida.

Esqueletos e zumbis irromperam do solo, e os estudantes gritaram e correram para sair do caminho deles. Órbitas vazias ardiam com fogo púrpura enquanto o exército de Liliana se organizava ao redor dos escombros de Strixhaven em obediência ao seu comando silencioso, formando uma barreira para deter Phyrexia. Ela permaneceria enquanto ela tivesse fôlego em seu corpo.

"A remodelagem terá que esperar," disse Liliana.

Ikoria: Sobrevivência do Mais Forte

Tinha sido um dia difícil. Sua coluna — um nome tão formal para uma linha de homens, mulheres e crianças imundos e exaustos — serpenteava entre as agulhas de rocha denteada que quebravam a linha do horizonte, monólitos moldados pelos fogos e terremotos que regularmente assolavam a superfície de Raugrin até que apenas as criaturas mais resilientes sobreviviam.

Mas eles sobrevivem , pensou Jirina Kudro, caminhando ao lado de uma das carroças carregadas com relíquias de sua vida em Drannith. De antes de os invasores chegarem. Assim como nós sobreviveremos. Como devemos.

Sua própria montaria havia caído quilômetros atrás, com a boca espumando um fluido vermelho, e ela se recusara a pegar outra. O vidro vulcânico triturado que revestia o caminho não era mais gentil com as botas de couro do que fora com os cascos, mas, ainda assim, ela caminharia. Ela pedira tanto de seu povo, o povo de Drannith; se eles podiam atravessar essa paisagem infernal e desolada a pé, ela também o faria. Jal Korcha, eles a chamavam. A estrada do terror.

Era um lugar difícil, e tinha sido um dia difícil, mas em algum lugar adiante esperavam as paredes espessas e as lanças eriçadas de Beira-lava, e outra chance para eles. Outra chance de manter os portões. De sobreviver.

Mais adiante na linha, ela avistou o Coronel Bryd cavalgando em sua direção em um trote, fazendo caretas e resmungando a cada solavanco da sela.

"Novidades?" disse Jirina, dispensando as formalidades típicas. Ela não tinha energia.

"General Kudro," disse Bryd, batendo uma continência garbosa que, no entanto, parecia de alguma forma petulante. "De acordo com os relatórios de nossos batedores, Beira-lava ainda está a meio dia de marcha. Estaremos lá ao anoitecer."

Meio dia de marcha. Parecia tão fácil, quando dito dessa forma. Se ela conseguisse manter seu povo unido por mais algumas horas, eles estariam seguros. Ou, pelo menos, teriam outra chance de segurança.

"General," disse Bryd. "Se me permitir falar o que penso com mais franqueza do que minha patente permite—"

"Apenas diga, Bryd. Posso caminhar por mais algumas horas, mas você vai me levar ao limite da minha resistência se continuar assim."

Ele se empertigou. "Muito bem. Há muitos feridos em nossa coluna, e muitos doentes. Ambos estão nos atrasando. Talvez fosse prudente enviar um destacamento de soldados adiante, para preparar Beira-lava para nossa chegada."

"Precisamos de todos os combatentes que pudermos reunir aqui," disse Jirina. "Esses feridos e doentes que você menciona não seriam capazes de repelir um ataque sozinhos."

O cavalo de Bryd se moveu um pouco no lugar. "Peço perdão, General, mas se aquela coisa nos alcançar, não haverá luta. Apenas massacre."

Seus pés doíam. Seus ombros queimavam sob o peso da armadura. "Então é melhor esperarmos que Vivien e seus novos amigos tenham sucesso em sua caçada."

"Como você pode confiar nela?" Bryd sibilou. "Ela não sabe nada de nosso povo, nada do que sacrificamos —"

"Chega!" cuspiu Jirina, sua paciência no fim. "Já temos aliados de menos. Não vou permitir que você descarte um dos nossos mais fortes com base em uma paranoia sem fundamento!"

O lábio de Bryd se curvou. Após um longo momento, ele se virou e agarrou as rédeas — mas antes que pudesse partir, um grito ecoou de algum lugar atrás deles. O pânico começou a rolar pela caravana em ondas enquanto outro som se seguia: um uivo terrível e reverberante, como chapa de metal e fera de uma só vez. Jirina arrancou a espada da bainha.

"Capas-de-cobre!" chamou ela. "Às armas!"

À guerra. Ao massacre. À morte infinita, infinita.

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Vivien pressionou o ouvido contra o chão e fechou os olhos, sentindo o cheiro de enxofre, solo, o odor metálico da terra vulcânica.

Ali: impacto, em algum lugar próximo. E então, um longo fôlego depois, novamente: Tum. Tum. Como um trovão rastejando pelas planícies.

Ela se endireitou e limpou a bochecha.

Atrás dela, homens e mulheres se levantaram da pouca cobertura que a grama rasteira oferecia em sua pequena colina. Óculos, máscaras e capuzes os tornavam irreconhecíveis. A maioria carregava longas lanças com pontas farpadas cruéis. Alguns tinham arcos pendurados nos ombros e pequenos frascos de todos os venenos imagináveis balançando em bandoleiras. Quando chegasse a hora, cada flecha seria mergulhada em três agentes distintos antes de iniciar seu voo letal. Eram assassinos, cada um deles, pessoas que ganhavam a vida indo para o ermo e abatendo qualquer coisa que pudesse ser considerada uma ameaça à humanidade. Não tanto caçadores, mas exterminadores, e em circunstâncias normais Vivien teria sido sua inimiga declarada.

Mas agora, eles são apenas mais uma flecha em minha aljava.

"Ele está perto. A menos de um quilômetro. Tomem suas posições."

Sem uma palavra, eles se espalharam em um agachamento cauteloso, mal fazendo som, exceto pelo sussurro da grama contra as roupas escuras. Em um minuto haviam desaparecido, deixando-a sozinha com o homem que chamavam de líder.

O caçador de monstros mais realizado de Ikoria não era um homem particularmente alto, mas seus ombros eram largos e densos de músculos. Seu cabelo estava penteado para trás sobre uma testa alta. Aquele bigode ridículo parecia acentuar ainda mais seu sorriso feio. "Ouça você. Dando ordens como um alto comandante de Drannith. Você sabe que eles só obedecem porque eu mando, sim?"

Ela o ignorou, com os olhos fixos na boca do desfiladeiro à frente. Desta distância, ela não conseguia distinguir as diferenças sutis na cor da terra onde haviam enterrado suas pequenas surpresas. Isso era bom.

Em algum lugar a leste, Jirina e os outros inocentes de Drannith rastejavam lentamente em direção ao abrigo. Lukka estaria vindo atrás deles. Não importava o quanto ela não gostasse deste homem, ela e Chevill eram a única coisa entre aquelas pessoas e sua ruína.

Tum. Lá estava de novo.

Tum.

Tum.

"O que foi, amante de feras?" desdenhou Chevill. "O gato-alado comeu sua língua? Ou talvez seja o terror que se apoderou de seu coração. Não tema, pois o grande Chevill está aqui e, se há uma coisa que eu sei fazer, é matar monstros."

Ela mal conseguia ouvi-lo. Toda a sua atenção estava fixa no desfiladeiro agora, onde um punhado de lagartos-camundongo emergiu, correndo em ziguezagues mal rastreáveis, os movimentos erráticos e irracionais de presas fugindo de um predador.

Tum.

Logo atrás das pequenas criaturas veio um raptor, depois outro, e mais um depois desse, todos correndo rente ao chão, com as caudas esticadas para trás para manter o equilíbrio, movendo-se em linhas sinuosas e seguras. Poder-se-ia pensar que estavam assistindo a uma caçada, se os raptores não tivessem fechado a distância e ignorado completamente os lagartos-camundongo. Eles estavam tentando apenas se afastar do desfiladeiro. De algum lugar atrás deles veio um ganido profundo e gutural.

Tum.

Da boca do desfiladeiro surgiu agora um vantassauro, trinta toneladas de animal em disparada, uma massa inacreditável de músculo e vontade, tudo voltado para a fuga. Na pressa da besta, porém, ela calculou mal o passo; Vivien observou enquanto uma perna colossal escorregava, deslocando milhares de quilos, desequilibrando a arquitetura cuidadosa do galope do dinossauro. Quase em câmera lenta, ele caiu — apenas por um momento. Mas um momento foi o suficiente.

Enquanto o vantassauro lutava para se levantar, seu corpo foi subitamente sacudido para trás. Ele urrou novamente, gritando, antes que todas as trinta toneladas fossem arrastadas violentamente para trás, para fora da vista.

"O que, pelos dentes do diabo...?" sibilou Chevill, até mesmo sua bravata interrompida.

A criatura continuou ganindo, os chamados desesperados e aterrorizados, até que — com um estalo úmido e distante — eles pararam abruptamente.

Mais sons se seguiram. Terríveis, impossíveis de situar — rasgos, estalos, sons de algo comendo e de coisas para as quais Vivien não tinha palavras.

"Deveríamos estar caçando o Capa-de-cobre. O exilado!" disse Chevill, não ousando mais falar acima de um sussurro.

Vivien apenas acenou em direção ao desfiladeiro. "Nós estamos."

Em Ikoria, chamavam quase qualquer coisa de monstro. O medo conduzia esse rótulo; uma civilização criada para odiar e desprezar as criaturas com as quais compartilhavam seu plano. Os animais de Ikoria eram poderosos e perigosos, ferozes e orgulhosos, mas Vivien não os chamaria de monstros. Eles não eram nada parecidos com o que saiu daquele desfiladeiro, sacudindo a terra a cada passo estrondoso.

Tinha, em um sentido amplo, a forma de um homem: dois braços, embora mais longos e finos do que os que poderiam pertencer a um ser humano; duas pernas, tornadas mais grossas para sustentar o grande peso de seu vasto corpo semelhante a uma carcaça. Em seu centro projetava-se — não mais um homem, não exatamente, mas Lukka.

Ela ainda se lembrava da última vez que haviam se falado — fora Vivien quem o convencera a ir para Nova Phyrexia com a equipe de ataque. Ele desejara mais do que tudo retornar para casa como um herói, em vez de um traidor, mas apenas metade desse desejo fora concedida. Lukka pendia de uma rede de carne no centro do titã, aninhado em seu torso como um coração exposto. A metade superior de seu corpo Vivien quase reconheceu, embora estivesse mutilada por plugues e soquetes e agora unida a cobre tornado um verde doentio por azinhavre. Abaixo da cintura, porém, ele fora anexado a alguma criatura de metal iridescente, transformando-o em um centauro medonho.

Sua massa ondulante infinita tinha cem cores; inúmeras permutações cruzavam sua pele, de espinhos afiados e escamas endurecidas a pelos eriçados e grandes extensões de carne nua, rosa e marrom. No bloco elefantesco que formava a perna esquerda da abominação, ela viu o rosto imóvel e de olhos vidrados do vantassauro. Vivien observou em mudo horror enquanto ele afundava para trás, deslizando na carne como um navio sob as ondas. Ele já tomou Drannith . O lembrete veio a ela e dobrou seu significado com novo horror. Este era o seu eludha agora, seu vínculo, através das lentes retorcidas de Phyrexia.

Ao entrar no vale, a primeira das minas explodiu sob a coisa. Os lagartos-camundongo e os raptores eram leves demais; os explosivos, plantados uma hora antes, enterrados fundo demais. O vantassauro poderia ter feito isso, pensou Vivien, mas o vantassauro — bem.

A coisa-Lukka não emitiu som de aflição; não tinha boca para gritar. Ele pendeu para frente, no entanto, esticando um braço para se apoiar. Atingiu outra mina. Uma cascata de explosões rasgou à frente, enviando plumas de terra negra para o ar.

Ele recuou agora, longe das explosões, e um estalo estrondoso ecoou pela planície de inundação onde estava. A abominação deu um passo à frente — e aquela perna titânica e carnuda mergulhou, atravessando a crosta endurecida, para dentro do coração vulcânico pulsante de Raugrin.

Mesmo daqui, Vivien podia sentir a onda de calor em seu rosto enquanto o magma borbulhava ao redor da perna da coisa-Lukka. Chamas irromperam mais acima no tronco e fumaça começou a ondular sobre o solo do vale. O cheiro era horrível além de qualquer descrição. Ela estava hipnotizada pela visão, o horror e a escala daquilo, como um vislumbre do nascimento primordial do plano. Ela quase não percebeu Chevill se levantando ao lado dela, pondo as mãos em concha para gritar: "Agora! Pegamos ele!"

Dos tufos de grama-serra vermelha ao redor da abertura do desfiladeiro surgiram os caçadores de roupas pretas de Chevill. Eles dispararam uma nuvem pungente de flechas, crivando o flanco da coisa-Lukka; as hastes mais próximas da lava irromperam em pequenas chamas multicoloridas enquanto os venenos queimavam. Em ambos os lados da monstruosidade, outros lançaram lanças farpadas presas a cordas, cravando duas dúzias na carne do terrível couraçado de Lukka. Os caçadores esticaram cada linha e então, com movimentos praticados, desencaixaram longos martelos para cravar estacas no chão como âncoras.

"Dê o tiro!" latiu Chevill.

Vivien já estava puxando a corda do arco de arca. Seu cotovelo subiu, os músculos poderosos de suas costas e ombro se tensionando em um movimento praticado, uma flecha de luz verde translúcida se formando entre seus dedos indicador e médio. Era um tiro longo, mas ela já havia feito maiores.

Vivien disparou. A flecha voou à frente, magia pura, livre do toque da gravidade. Cruzou o espaço entre ela e a coisa-Lukka em um instante. Pouco antes de atingir o corpo real de Lukka, o phyrexiano implantado no centro desta horrível construção de carne, uma espora de osso saltou subitamente da carne ao redor dele, interceptando o tiro sem causar dano.

Chevill soltou um palavrão. Vivien preparou outro tiro, mas a coisa já estava se inclinando para frente, escondendo seu coração-piloto. Lentamente, então, como uma besta despertando do sono, ela empurrou para frente. As dezenas de cordas no lado da coisa se esticaram e começaram a ceder. Algumas arrebentaram; para outras, as lanças rasgaram a carne manchada de forma desordenada. Vivien podia ouvir gritos de pânico dos caçadores no chão. Alguns já estavam se virando para correr. Outros preparavam segundas farpas, erguendo-as para outro lançamento. Estes pagaram por sua bravura; com um golpe de um braço disforme, o gigante os varreu da terra. Os que não foram arremessados como bonecos foram incorporados, Vivien podia ver, no braço da coisa. Eles gritavam e acenavam impotentes enquanto afundavam cada vez mais fundo na carne antes de finalmente desaparecerem.

Arte de: Anastasia Balakchina

"Fiquem de pé! Fiquem e lutem, seus bastardos!" Chevill estava berrando, mas não adiantava. Os caçadores, se é que podiam ouvi-lo, estavam loucos de medo agora, correndo sem qualquer semelhança de organização, sem outro pensamento a não ser colocar distância entre eles e o monstro às suas costas. Um tropeçou e caiu de bruços — aparentemente com força suficiente para acionar um de seus explosivos enterrados. Ele desapareceu em uma pluma repentina de fumaça negra.

O ombro de Vivien doía; ainda assim, ela mantinha a corda esticada, esperando por uma abertura. Nenhuma veio. Sem se endireitar de seu agachamento, a coisa-Lukka começou a se libertar do poço de lava onde ainda queimava. Se ele se libertasse, eles nunca teriam outra chance.

Ela respirou fundo e fechou os olhos, abrindo sua mente para os espíritos dentro do arco de arca. Eles estalavam, berravam e rugiam dentro da arma, como se estivessem tão desesperados quanto ela para destruir a abominação. Ela disparou, a corda estalando para frente, a flecha espectral voando em direção ao seu alvo. Desta vez, a energia viridiana se desenrolou, crescendo enquanto voava em direção à coisa-Lukka, mudando e multiplicando-se em tamanho.

Uma perna translúcida e poderosamente musculosa tocou a terra em meio à corrida, sem perder nada do ímpeto da flecha; uma mandíbula verde fantasmagórica se materializou, já aberta em um rugido desafiador. O mandíbula-pavorosa espectral, tão predador na morte quanto fora em vida, colidiu com a coisa-Lukka com uma força tremenda.

Por um momento, a abominação parecia superada. Era maior que o mandíbula-pavorosa, mas desajeitada, apenas carne sem nenhum dos instintos assassinos. A fera semissólida rosnava, mordia e se debatia, arrancando grandes pedaços de carne morta. Enquanto isso, a coisa-Lukka agarrava, puxava e abraçava o espírito — tentando, talvez, absorvê-lo como fizera com o vantassauro — mas sem efeito. A lava ainda fervia sob ele, enviando nuvens negras pesadas com o fedor de cadáveres queimando. Por um momento, pareceu que eles tinham uma chance.

Então a coisa-Lukka balançou o braço de uma maneira que nenhum animal deveria ser capaz. Foi um golpe sem ossos, um soco em chicote ondulante que o mandíbula-pavorosa não pôde antecipar. O impacto pareceu ondular pela forma do espírito, atordoando-o por um momento. Ele parecia estar reconstituindo seu corpo espectral quando a coisa descarregou ambos os braços sobre o dinossauro fantasmagórico em um golpe bruto e feio, com todo o seu peso montanhoso por trás dele. O mandíbula-pavorosa simplesmente se dissolveu, a energia esmeralda desaparecendo e misturando-se ao tapete de fumaça gordurosa.

Vivien observou, impotente, enquanto a coisa-Lukka se arrastava para fora da fissura vulcânica, com as pernas cobertas por pedra negra fumegante onde a lava estava endurecendo. Encontrando seu passo novamente, a abominação marchou como se nada tivesse estado em seu caminho.

"Ele está indo para a estrada do terror." Para Jirina e os sobreviventes de Drannith. "Eles ainda não terão chegado a Beira-lava. Temos que correr," disse ela, já pendurando o arco de arca no ombro. Mas ela se virou e encontrou Chevill observando-a do cume, com uma expressão ilegível no rosto.

"Correr para onde? Para fazer o quê?"

"Atrasá-lo. Surpreendê-lo. Talvez ele esteja ferido." Era uma esperança vã, mas era o único tipo disponível naquele momento.

Chevill cuspiu na terra negra. "Meus caçadores estão mortos ou dispersos. Perdemos, amante de feras."

"Você está vivo. Você é o grande caçador Chevill, ou tudo aquilo era apenas bravata de fogueira?"

Ele soltou uma risada curta e maldosa, mas naquele momento, Vivien viu o que ele estava tentando tanto esconder: medo.

"Sim, sou eu. Você sabe o que separa um bom caçador de um grande? Saber o que você pode matar e o que não pode. E eu diria que aprendi em qual dessas categorias o Capa-de-cobre agora se encaixa. Não há mais nada que possamos fazer, a menos que seu arco mágico tenha um monstro ainda mais terrível guardado aí dentro."

Vivien deu um passo em direção ao homem. Ela era mais alta que ele e agora o dominava. "Não posso deixar você ir, Chevill. Eu preciso de você. Você conhece esta terra, e eu não."

"E é por isso que você deveria aceitar meu conselho e correr." Ele se virou para olhar para a forma corpulenta da coisa-Lukka, retirando-se agora lentamente de vista — ou estaria ele olhando além dela, para onde aqueles passos estrondosos estavam levando a abominação?

Como se ouvisse seus pensamentos, Chevill disse: "Há coisas naquelas montanhas que fazem a morte parecer uma gentileza. Se você tiver que me matar, garota, faça-o. Pelo menos as pessoas colocarão flores no meu túmulo, em vez de nunca saberem que o grande caçador Chevill existiu."

Rápida e afiada, Vivien tirou o arco do ombro e puxou a corda, uma flecha verde fantasmagórica aparecendo encaixada. Ela a manteve apontada para Chevill, que fungou e olhou de volta para a boca do desfiladeiro. Ela a manteve lá por mais um momento, a luz verde brincando em seu rosto, antes de girar o corpo e dispará-la direto para o céu.

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A criatura que massacrava os Capas-de-cobre de Jirina poderia ter sido outrora um dos grandes felinos das planícies de Savai; o revestimento metálico que agora cobria seu rosto, acobreado e manchado com óxido verde e sangue vermelho, tornava difícil ter certeza. Sob uma pata do tamanho de uma cabeça humana, ela mantinha um soldado preso contra o chão, que lutava debilmente contra as garras que pressionavam seu peito. Sem pensar — porque se ela se permitisse pensar, temer, ela poderia correr — Jirina avançou, golpeando o rosto da besta com sua espada. Ela tilintou contra o revestimento, enviando um choque terrível por seu braço, mas a criatura recuou para longe do soldado e saltou em sua direção.

Ela recuou, aquelas inúmeras horas no pátio de treinamento sendo tudo o que a impedia de tropeçar nos próprios pés em pânico. Bryd cavalgou à sua esquerda; a um rosnado do phyrexiano, sua montaria empinou e o jogou no chão. Jirina viu as faixas de músculo cru e nu no pescoço da criatura se tensionarem com instinto predador, estranhamente parecidas com tantas das feras de Ikoria. Naquela distração momentânea, ela cravou a espada naqueles cabos de carne, depois forçou o braço para baixo, quase decepando a cabeça por completo. Ainda assim, a besta se debateu e espasmou violentamente no chão enquanto Capas-de-cobre armados com martelos de guerra corriam para espancar a criatura até transformá-la em sucata.

Jirina limpou o sangue e o óleo cuidadosamente do fio de sua lâmina, forçando os tremores em suas mãos a cessarem. Ela apenas vagamente registrou o som de movimento atrás dela antes que o segundo gato phyrexiano a atingisse, arranhando sua armadura com as garras e rasgando a parte de trás de seu peitoral como se fosse uma lata de conserva.

A força sozinha derrubou Jirina de bruços, sua espada tilintando sobre as pedras e ficando fora de alcance. Ela rolou bem a tempo de a frente de seu peitoral receber uma segunda garra; o metal se amassou e entortou. Ela sentiu as pontas pressionarem seu peito enquanto o monstro rosnava para ela. Um fio de baba quente caiu em sua bochecha e começou a chiar e queimar excruciantemente. Nenhuma palavra lhe veio no que ela tinha certeza de serem seus momentos finais; ela apenas abriu a boca para rosnar de volta.

De repente, a pressão em seu peito desapareceu. Jirina pôde respirar novamente. Acima dela, a besta rosnante começou a uivar, um som horrível de aço moendo e dobrando, enquanto era arrancada de cima dela. O monstro retorcido foi erguido no ar e, sob ele, ela viu seu salvador: um tigorila, enorme mesmo para a espécie, erguendo o phyrexiano como um troféu já conquistado. Com uma incrível demonstração de força, o tigorila bateu o phyrexiano contra o chão. Jirina ouviu ossos quebrando — a coisa ainda tinha ossos, aparentemente. Ainda assim, ela tentou se levantar, até que um homem com um porrete de pedra arredondado martelou um dente no rosto da criatura e a derrubou novamente. Um cão estranho e brilhante saltou sobre ela então, rasgando os cabos que corriam ao longo de suas costas, arrancando o que podia. Mais soldados apareceram, cravando lanças no gato, transformando-o em uma pilha de sangue, peças e óleo.

Óleo , Jirina lembrou vagamente. Vivien a avisara sobre o óleo. Ela podia ver manchas pretas já nos cristais alaranjados que se projetavam dos ombros do tigorila. "Mantenham distância," ela latiu, apoiando-se em um cotovelo. "Não toquem nisso!"

"Você está ferida, General Kudro?" disse o homem com o porrete, estendendo a mão para ela. Um dos vinculadores, ela lembrou agora. Haldan, ela pensou. Ele e seu povo estavam vigiando o flanco leste.

"Vou ficar bem," ela resmungou, pegando a mão dele e levantando-se. "O tigorila—"

Enquanto ela dizia isso, porém, os cristais começaram a brilhar com uma luz suave, e o óleo phyrexiano borbulhou e chiou, transformando-se em uma fumaça negra doentia. Em instantes, foi como se a mancha nunca tivesse estado lá.

Haldan seguiu o olhar dela. "Sim. Eu também não entendo, na verdade. Esses novos cristais cresceram em muitos deles — algum tipo de defesa natural."

Arte de: Sam Burley

"Suponho que não devamos nos surpreender," disse Jirina. "Os monstros deste plano sempre estiveram um passo à nossa frente."

Um suspiro coletivo subiu na multidão atrás dela, e Jirina se virou, com a mão indo para o cinto da espada — ainda vazio. Não era outro ataque, no entanto. No céu a oeste, uma fina luz verde arqueou logo abaixo das nuvens. Vivien, e aquele fanfarrão do Chevill. Jirina prendeu a respiração, esperando, observando. Boas notícias. Dê-me boas notícias por uma vez, maldição. Estamos precisando.

Um momento se passou, agonizantemente longo — e então outra luz verde arqueou no céu. Jirina sentiu toda a esperança se esvair, borbulhando como o óleo.

Aquele era o sinal. Eles haviam falhado. Lukka ainda estava vindo.

"General! General Kudro, você está bem?" Bryd correu, jogando de lado uma lança ensanguentada.

"Bem," disse ela, mal num sussurro. Lukka estava vindo. Ele os encontraria antes de chegarem a Beira-lava. E então—

"General, a coluna está esperando. Devemos avançar?" disse Bryd.

Ela não queria ter que fazer essa escolha. De todas as coisas naquele momento, ela pensou em seu pai. Ele fora um homem cruel ao final, um vilão de muitas maneiras. Mas talvez, na posição dele, não houvesse como se tornar outra coisa.

"Eram batedores," disse ela. "Precisamos mudar o curso — há um atalho talvez um quilômetro adiante, uma trilha levando para o leste. Será uma jornada mais difícil para os feridos e idosos, mas não nos restam opções."

Bryd bateu continência bruscamente e correu para encontrar sua montaria. Jirina se virou e encontrou Haldan observando-a incerto. "Eu cresci em Raugrin," disse ele calmamente. "Passei por Jal Korcha muitas vezes. Esse caminho não leva a Beira-lava."

Ele olhou por cima do ombro, em direção ao céu, como se estivesse subitamente preocupado em ser levado, mas não havia nada exceto aqueles portais vermelhos abertos longe ao norte, quase fora de vista. "Estamos no território de—"

Firme, General. Jirina o encarou, forçando seu rosto à imobilidade. "Se você quiser chegar vivo ao anoitecer, não dirá nada."

"Isso é uma ameaça?"

"É a verdade. Só isso."

Jirina não esperou por uma resposta. Ela recuperou sua espada de onde jazia no chão a alguns metros, olhando seu reflexo no aço por apenas um momento antes de batê-la de volta na bainha.

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A passagem pela qual Jirina os conduzia era estreita e denteada como os picos que subiam de cada lado. Uma jornada mais difícil, com certeza; as pedras afiadas e irregulares que sujavam a trilha arrancavam rodas de carroças e perfuravam as solas das botas. Itens outrora considerados insubstituíveis, trazidos de Drannith enquanto ela caía, agora sujavam o chão por onde passavam. Talheres de prata, roupas, móveis, relíquias de família que haviam sobrevivido a inúmeras calamidades agora eram deixados descartados como lixo. O tempo todo, os refugiados mantinham olhos cautelosos nos afloramentos de rocha vulcânica em ambos os lados, esperando pelo próximo ataque.

Tudo o que se falava agora, quando se falava, era Beira-lava. Haveria camas suficientes? As cortinas de lava ondulando sobre as paredes externas da cidade seriam suficientes para deter os phyrexianos? Quanto mais faltava agora? Não muito agora, alguém sempre lhes assegurava.

O sol estava baixo, tornado de um laranja sangrento pela névoa gasosa que envolvia Raugrin, quando a coluna emergiu da estreita passagem montanhosa em uma bacia de vidro negro liso. Botas e cajados batiam quase melodicamente; a luz refletida em sua superfície parecia mostrar um mundo espelhado, todos transformados em silhuetas escuras e sem traços. Perto do centro da bacia havia formas ovais estranhas, aparentemente feitas do mesmo vidro vulcânico. Era um terreno estranho, mas a princípio os refugiados estavam simplesmente aliviados pelo fim do aperto da passagem. Apenas quando perscrutaram o horizonte é que um mal-estar começou a se instalar. Em todos os lados da bacia havia encostas lisas e íngremes; não parecia haver outra estrada ou passagem para fora.

Para onde a general nos trouxe?

Isto não é Beira-lava.

Temos que voltar!

Jirina sentiu a multidão fervilhando, um rebanho agora perto do pânico. Ela sabia que era sua responsabilidade dizer algo, mas naquele momento nenhuma palavra lhe veio.

Alguém agarrou seu braço. Era o vinculador de antes — Haldan. "Temos que sair deste lugar. Estas pessoas não podem estar aqui. Nenhum de nós pode. Isto é—"

Ele foi interrompido por um grito. Todos, agora, apontavam para a encosta distante, onde algo muito parecido com uma mão humana — embora muito fora de escala, antinatural e enorme — agarrava a borda da bacia vulcânica. O murmúrio temeroso ao redor de Jirina ficou subitamente, terrivelmente silencioso.

Em movimentos pendulares e desajeitados, o monstro de carne roubada se puxou sobre as rochas. Lukka estava mais grandioso e horrível do que quando Jirina o vira em Drannith, seu traje de carne facilmente três vezes maior. Escamas e penas pontilhavam a vasta tela de sua pele, e as pernas em forma de tronco estavam cobertas de pedaços de pedra negra fundida e queimaduras brilhantes e medonhas.

Ele começou a rastejar pela encosta, como uma aranha, dobrando sua anatomia impossível como argila, e isso quebrou o silêncio. De repente, o ar ao redor de Jirina explodiu em pânico — gritos, choro e chamados raivosos encheram o ar. A multidão começara a pressionar de volta para a estreita passagem de saída, mas havia muitos deles, a rota de fuga pequena demais. Eles vão se pisotear , pensou Jirina. Ela tentou gritar acima da cacofonia ensurdecedora, ordenando que mantivessem sua posição. Ninguém ouviu; não estava claro se alguém sequer a tinha escutado.

A coisa chegara ao fundo da bacia agora. Lentamente, ela se ergueu sobre suas pernas grossas e mutiladas e, ali, no centro de seu peito, ela pôde distingui-lo vagamente. Lukka. Meu noivo.

Através da superfície do horror imponente, a carne ondulava e se fendia, deixando marcas de bexiga — não, não marcas de bexiga , pensou Jirina. Bocas.

"SILÊNCIO!"

Mil vozes gritaram em uníssono, e a bacia silenciou. A multidão atrás dela parou, temerosos demais naquele momento até para continuar sua corrida desenfreada para a segurança.

"DRANNITH! CIDADE-TRAIDORA! SEU FILHO PRÓDIGO RETORNOU PARA VOCÊS."

As vozes combinavam, mas não estavam perfeitamente sincronizadas, criando ecos sinistros umas das outras enquanto Lukka entregava sua mensagem.

"EU PERDÔO SEUS CRIMES CONTRA MIM. TRAGO UM GRANDE PRESENTE. DENTRO DE PHYREXIA VOCÊS ENCONTRARÃO UMA FORÇA DIFERENTE DE TUDO O QUE CONHECERAM. DENTRO DE MIM, VOCÊS ENCONTRARÃO VERDADEIRA UNIDADE E PROPÓSITO."

A coisa-Lukka deu um passo à frente, enviando um tremor pela terra. Em algum lugar atrás de Jirina, uma criança começou a chorar.

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Mão sobre mão, Vivien escalou. Ela estava coberta por mil cortes e hematomas. A rocha vítrea endurecida cortava suas palmas, falseava seu apoio de modo que ela quase tropeçou e caiu uma dúzia de vezes. Nada disso importava — ela prosseguiu. Vivien estava na metade da encosta quando ouviu as vozes, todas falando juntas como um coro terrível. Ele os encontrara. Ela engoliu suas dores infinitas e continuou subindo.

Finalmente, ela se puxou sobre a borda do penhasco que a coisa-Lukka escalara. Ela o viu lá, erguido em toda a sua horrível grandiosidade — e do outro lado, o que restava de Drannith, e Jirina em algum lugar entre eles.

Por um instante, a bacia escureceu enquanto algo passava na frente do sol. Uma forma, movendo-se rapidamente pelo céu, chamou a atenção de Vivien. Uma águia? Não — o formato da asa estava todo errado para isso, mais próximo das curvas de couro de um dragão. Além disso, era grande demais.

Um grito rasgou o ar e, nele, Vivien ouviu orgulho, fome e pura fúria territorial. Algo mergulhou através das nuvens, e ela o viu claramente agora: Vadrok, o monstro ápice de Raugrin.

Meu Deus , ela percebeu. Estamos no ninho dele.

Ele mergulhou em direção à maior ameaça estendida pela bacia — o titã phyrexiano. Lukka estendeu um braço, agarrando em direção ao dragão felino em resposta. No último instante, Vadrok guinou para o lado, mudando o ímpeto de todo aquele músculo de modo que ele apenas passou raspando. Onde passou, um corte profundo foi deixado no braço da coisa-Lukka, da mão ao ombro, a carne cedendo, fluidos inomináveis derramando-se sobre o chão lá embaixo.

Vadrok girou de volta, passando a poucos metros de onde Vivien estava agachada sobre as rochas; um rugido de vento seguiu-se, quase jogando-a de volta penhasco abaixo. Desta vez, a coisa-Lukka ergueu ambos os braços, segurando-os como um lutador. Pouco antes de o monstro ápice alcançá-lo, aqueles braços se dividiram ao meio; inúmeros tentáculos de carne agarraram Vadrok. Aqueles que ele arrancou com garras e dentes caíram com baques pesados e doentios contra a pedra lisa abaixo. Alguns, porém, encontraram apoio; Vivien observou enquanto Vadrok batia as asas impotente, incapaz de erguer seu próprio volume e a massa terrível do phyrexiano preso a ele. Uma carne possessiva envolveu a perna de Vadrok, avançando quase como um líquido; logo cobriu as garras completamente.

Nem mesmo ele pode vencer , pensou Vivien. Nem mesmo uma besta como aquela.

Ela tirou o arco do ombro com um tremor no braço e encaixou uma flecha, puxando-a para trás. Se ela pudesse apenas distraí-lo, talvez pudesse dar a Vadrok a vantagem de que ele precisava. O monstro estava lutando com o phyrexiano agora, sendo lentamente puxado centímetro a centímetro para dentro dele; ela procurou um alvo, mas o próprio Lukka estava bloqueado pelo predador que se debatia.

Arte de: Yigit Koroglu

Então, na luz que desaparecia, ela notou um estranho brilho azul subindo da boca do monstro ápice.

Vadrok rugiu novamente — aquele chamado animal feroz — e chamas tão brilhantemente azuis que eram quase brancas lavaram o braço da coisa-Lukka. Qualquer coisa que as chamas tocassem era consumida em um instante, não queimada tanto quanto apagada. Todas as bocas que ainda pontilhavam a superfície da coisa-Lukka começaram a gritar. Aquele, Vivien tinha certeza, era um som que nunca a deixaria — mil vozes todas clamando em idêntica agonia. De repente, era como se a maior parte do braço do titã de carne nunca tivesse existido.

Mais chamas azuis coruscantes jorraram da boca de Vadrok, limpando o flanco direito da coisa pesadelesca; ela ergueu um braço para se proteger, mas as chamas devoravam avidamente tudo o que lhes era dado. O titã phyrexiano cambaleou para um lado, soltando Vadrok em favor da retirada — mas o predador ikoriano era mais rápido. Ele projetou a cabeça para frente, empurrando agora destemidamente para o centro da abominação, e arrancou um pedaço de — não, não carne, Vivien percebeu. Debatendo-se agora nas mandíbulas de Vadrok estava Lukka . O verdadeiro Lukka, ou pelo menos a coisa que Nova Phyrexia fizera dele.

Sem seu piloto, o gigante de carne e osso colhidos balançou para um lado e caiu no chão com força suficiente para ecoar pelos picos próximos. Vadrok bateu suas grandes asas duas vezes e elevou-se até a mesma borda do penhasco onde Vivien estava pousada. Ela não estava a mais de cem metros da besta — daquela coisa que se contorcia e gritava em sua boca.

Em Drannith , pensou Vivien, eles teriam pelo menos lhe dado as últimas palavras.

Ela puxou mais uma flecha espectral e a colocou no centro do peito dele. Depois outra, e mais outra.

Drannith se fora. Eles estavam no ermo agora, e ali guardavam apenas uma lei: a sobrevivência.

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Ombro a ombro com os outros sobreviventes, Jirina observou enquanto Vadrok jogava o cadáver de Lukka encosta abaixo. Assim passa o capitão dos Especiais , pensou ela, e não sentiu nada além de um vazio estranho onde poderia ter encontrado tristeza ou arrependimento. A grande besta de Raugrin levantou voo da cordilheira e pousou ao lado da massa flácida de carne restante, limpando-a com mais uma golfada de chamas. Tão quentes que podem queimar até a própria memória de algo , Jirina lembrou de Lukka ter lhe dito uma vez. Neste caso, ela esperava que fosse verdade.

Vadrok virou-se para a multidão reunida — tudo o que restava de Drannith. Eles haviam esquecido brevemente seu terror assistindo à batalha dos monstros. Agora, encarando os olhos amarelos de Vadrok, eles o encontraram mais uma vez. Sussurros, suspiros e gemidos espalharam-se ao redor de Jirina, embora ninguém tenha fugido ainda. Eles pareciam, como povo, prender a respiração.

Novamente, aquele brilho azul subiu no fundo da garganta da criatura.

Então, acenando os braços, correndo na frente de todos eles, estava Vivien. "Espere," disse ela, sem fôlego. Falando, Jirina percebeu, com o próprio monstro ápice. "Espere!"

O olhar de Vadrok passou por ela. Fixou-se, Jirina pensou, no arco ainda segurado em uma das mãos. Então ele estava no ar novamente, o vento daquelas grandes asas agitando suas roupas enquanto ele voava para longe.

Jirina quase caiu de joelhos. Eles viveriam. Pelo menos por um pouco mais de tempo, todos viveriam.

"Você nos usou como isca," alguém disse. Haldan, ela descobriu, virando-se para encará-lo. "Você sabia que estaríamos encurralados aqui. Os feridos. As crianças."

"Sim," disse Jirina. "Eu sabia."

"Poderíamos ter sido devorados por aquela coisa. Ou pior," disse ele, elevando a voz. "Poderíamos ter perecido nos mesmos fogos!" Sua fúria chegara às suas bochechas agora, deixando-as vermelhas.

"Mas vocês não pereceram."

"Você não tinha ideia do que aquele monstro faria!"

"Na guerra, não há certezas," disse Jirina, sentindo-se tão cansada agora. Não é o suficiente ter vencido? Ter levado todos para a segurança? "Temos que nos adaptar se quisermos sobreviver. Assim como os monstros fazem."

"Você deveria ter nos contado!" Alguém na multidão disse.

"Que tipo de líder coloca seu povo na frente de um monstro como aquele?" disse outro.

Era o único caminho , pensou ela. Eles não podiam ver isso? Era o único caminho.

Não era?

"Ouçam-me!" Era Vivien, falando agora. "Beira-lava ainda está a meio dia de marcha. Vocês terão que caminhar pela primeira parte da noite. O que quer que ela tenha feito, Jirina comprou esse tempo para vocês."

"Com respeito pelo que você fez," disse Haldan. "Você não é uma de nós. E todo o perigo em que você caminhou hoje, você fez por sua própria vontade. Eu não sou um soldado, maldição!"

"Eu não sou uma de vocês," disse Vivien. Só agora Jirina podia ver o quão maltratada e machucada a mulher parecia. Isso não parecia sequer atrasá-la. "E não posso reivindicar o direito de dizer como devem tratá-la. É o plano de vocês, o povo de vocês. Vocês podem destroná-la ou expulsá-la. Mas façam isso depois de terem sobrevivido ao que está vindo."

Haldan olhou para os restos medonhos da criação de Lukka, ainda fumegando com chamas azuis. "O que está vindo ?"

Nesse momento, um estrondo de trovão rolou pelo céu. Atrás das montanhas: outro buraco no céu. Era exatamente como os que se abriram sobre Drannith. Dele — cutucando quase, como um dedo esquelético — veio uma gavinha de metal branco de tamanho impossível. Um galho, Vivien os chamara, embora Jirina não conseguisse imaginar a árvore à qual pertenciam.

"Isto está longe de terminar," disse Vivien. "Ainda há um dia difícil pela frente."

Por um momento, ela não soube para que lado a multidão iria pender. Mas eles não tinham energia para despedaçá-la naquele momento. Ao redor de Jirina, as pessoas começaram a recolher suas coisas, virar seus animais de carga e carroças, ajudando uns aos outros enquanto iam. Ela os observava se preparando para o que quer que estivesse adiante. Foi isso que conquistaram com sua luta hoje: a sobrevivência. Outro dia, outra hora, outro minuto.

Haveria um acerto de contas, Jirina sabia. Um preço a pagar. Jirina ergueu sua própria bolsa. Quando esse dia chegasse, ela ficaria mais do que feliz em pagá-lo.

Episódio 5: Reunião Catártica

Kaya, Kaito e Tyvar a alertaram sobre as câmaras de tortura infinitas e ondulantes de Phyrexia. Pelo que diziam, Nova Phyrexia é menos um lugar em si e mais como estar presa dentro dos órgãos de uma criatura gigantesca. Tubos correndo para todos os lados formam suas veias e artérias; os degraus de cromo que levam à Árvore da Invasão são suas costelas; a própria árvore é uma coluna vertebral imunda. A imagem que ela formara em sua mente era tão clara quanto horrorizante.

Mas quando ela chega, vê algo diferente. Não há dúvida de que estão na barriga da besta — só que não é a mesma besta que aqueles três viram. Este lugar está cheio de uma luz ofuscante que ilumina as estruturas de ossuário ao redor deles. A Árvore da Invasão ainda é a espinha da criatura, mas é complementada por afloramentos brancos e afiados. Plataformas, pensa Chandra, cada uma fervilhando com Phyrreanos em seus deveres terríveis. Como formigas em folhas, especialmente quando vistas de uma plataforma tão abaixo.

Chandra não consegue compreender quão alta é a Árvore da Invasão. A original em Kaldheim deveria ser enorme, mas esta é maior do que os Deuses-Eternos foram, maior do que qualquer coisa que ela já vira. Mesmo inclinando a cabeça até o ponto de sentir dor, ela não consegue ver sua copa. Ela esperava que Wrenn dissesse algo sobre isso, mas talvez o silêncio de sua companheira sobre o assunto seja pior.

"Venha agora, não devemos criar raízes", é a única coisa que Wrenn diz antes de começar a se mover. As chamas dentro dela cospem estalos contra sua contenção. O fogo está sempre ansioso para mostrar como se sente.

Arte de: Grzegorz Rutkowski

Ela parte em direção a uma estrutura quebrada em forma de agulha, não muito longe da plataforma onde pousaram. Wrenn notou a mesma coisa que Chandra: há pessoas na base daquela agulha, pessoas descendo de sua altura. Armaduras douradas as fazem se destacar contra todo o vermelho e branco ao redor delas — e a pele sob aquela armadura ainda mais. Chifres e espinhos de metal dizem a ela que não são exatamente humanos, mas também não são Phyrreanos. Cada um se move em seu próprio tempo, e sangue mancha as roupas de alguns.

Os pés de Chandra a levam em direção aos outros, cada passo pesado com antecipação. Vir para cá tinha sido a coisa certa a fazer, ela tem certeza disso, e aqui está a prova: sobreviventes precisando de ajuda. Teferi sempre dizia que tempos difíceis criavam aliados rápidos.

"Derrubar aquele embaralhador valeu a pena. Não esperava ajuda tão cedo", grita um dos sobreviventes perto da base da agulha. Para sua surpresa, ele não parece muito feliz em vê-la. Aço sobressai de sua pele como as escamas na testa de uma serpente, um contraste nítido com a estética Phyrreana. Ele deve ter algum tipo de parentesco com o material; alguns dos outros sobreviventes flutuam até a ponte, agarrando-se a rochas que ele parece controlar. Wrenn é rápida em ajudar com o longo alcance de Sete.

"Viemos assim que pudemos", diz ela. "Meu nome é Chandra. Esta é Wrenn."

"Planejam ficar por aqui?"

"O quê? É claro que sim. Não teríamos vindo de outra forma", diz Chandra.

"Isso pode significar que vocês morrerão aqui." Ele cruza os braços, estuda-a. Uma das mulheres do grupo suspira. Ao contrário de qualquer um dos outros reunidos, não há um traço de metal nela em lugar nenhum. Contra as linhas duras da paisagem de Nova Phyrexia, suas feições são suaves.

"Eu aceito o risco. Há muito em jogo para ficar sentada sem fazer nada", diz Chandra.

Um momento se passa entre eles — ele estreitando os olhos, ela encarando-o de volta. Depois do que parece tempo demais dadas as circunstâncias, ele assente. "Koth", diz o homem, apresentando-se. "Aquela é Melira. São só vocês duas?"

"Por enquanto", diz Chandra. "Quero dizer, talvez. Eu não acho —"

Koth coça a nuca. Ele parece estar considerando. "Duas pessoas." Enquanto seu olhar cai para o chão, Chandra o segue. Há outros corpos entre os centuriões Phyrreanos — corpos humanos. Seu coração afunda.

Ela não pode deixá-lo ficar nas profundezas. Quando se trata de guerra, o moral é tão importante quanto táticas e suprimentos. "Duas Planeswalkers . E somos tudo de que vocês vão precisar. Wrenn tem um plano."

"É mesmo?" Koth pergunta. "Um plano. Maravilhoso."

"Não seja tão severo", Melira interrompe. "Não podemos abandonar a esperança agora. Pode ser algo que ainda não tentamos."

"Ela tem razão, sabe", diz Wrenn. "Vocês não podem ter tentado isso. Não existem outras dríades ligadas simbioticamente a árvores."

Chandra não tem certeza se é uma piada — às vezes, com Wrenn, é difícil saber. Ela se surpreende rindo de qualquer maneira. A mulher sorri um pouco também, e isso parece uma vitória à sua própria maneira.

Koth continua cético. "Vamos ouvir essa ideia que vocês têm", diz ele.

"É simples. Vamos para a árvore. Uma vez lá, eu me conectarei a ele e tentarei guiá-lo", responde Wrenn.

"Ela é boa nisso. Muito boa!" Chandra acrescenta quando Koth estreita os olhos. "Podemos ter um amigo que pode ajudar também. Talvez você tenha ouvido falar de Teferi?"

"Não."

"Bem," Chandra passa a mão pelo cabelo, "ele é o mago temporal mais forte que já viveu, então tem isso, e ele é um grande amigo meu, então ele ajudará se pedirmos."

"E onde está esse Teferi?" pergunta Koth.

Chandra olha para Wrenn, que lhe dá um aceno inexplicável e misterioso. "Ele está vindo. De qualquer forma, uma vez que estivermos na árvore, o resto se resolverá. Vamos usá-la contra eles."

Koth cruza os braços. "E você tem certeza de que pode fazer isso, Wrenn?"

"Tão certa quanto alguém pode estar."

Ele faz um som curto, pensativo. "Certo. Não temos muitas outras opções. Quando perdemos Karn, eles o levaram por ali também. Norn queria dar a ele um tratamento especial. Podemos muito bem tentar ganhar o controle da árvore e resgatá-lo ao mesmo tempo."

"Teremos que nos mover rápido", diz Melira. "Norn provavelmente não acha que um punhado de rebeldes seja uma ameaça. Podemos usar essa arrogância a nosso favor e golpear antes que ela perceba o quão ameaçadores podemos ser."

"A base da árvore é fortemente guardada. Mais centuriões do que ela sabe o que fazer. Se tentarmos por ali, todos estarão mortos antes de começarmos", Koth encontra os olhos delas novamente. "Vocês duas estão bem com uma viagem turbulenta?"

"O que for preciso, estou dentro", diz Chandra. Wrenn assente também.

"Bom. Porque vocês não são as únicas com um amigo poderoso", ele começa.

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"Quando você disse amigo~"

"Ele é um amigo. Por enquanto. Talvez seja mais como se ele não fosse um inimigo. É complicado."

"Você tem certeza?"

"Tenho certeza."

Chandra não tem. Encarando seu próprio reflexo na carapaça polida de Urabrask, ela não sabe o que pensar. Ele ainda não atacou, mas talvez esteja esperando o momento certo. Ele não a insultou nem falou sobre unidade, mas talvez tudo isso seja um disfarce.

Ela cruza os braços.

Urabrask solta um suspiro. "Tantas bocas lamentando", diz ele. "Conflitos internos serão a morte de sua espécie."

Chandra franze a testa. Ele está certo, e ela meio que odeia que ele esteja. Wrenn oferece uma mão consoladora em seu ombro enquanto Urabrask se vira para a borda da plataforma deles.

"Os caminhos principais para a Árvore da Invasão são guardados por mais Phyrreanos do que sua mente pode manter em um só lugar", ele explica. Ele não precisa apontá-los com suas garras, mas o faz. "Se um deles nos vir, Norn saberá instantaneamente. Koth aprendeu isso mais cedo. Como demonstração de boa vontade, contei a ele sobre a passagem que vocês usaram para chegar a esta plataforma."

O caminho que eles tomaram estava bem escondido. Na época, Chandra pensou que Koth o sentira sob o solo com seus poderes. Eles não viram uma única patrulha em seu caminho através da passagem tortuosa. Uma coisa boa, também, com o quão estreito algumas partes ficavam.

"Olhos orgânicos podem contemplar o Rompe-Reinos sem obstrução daqui. Mais importante, a trajetória é clara e reside dentro dos limites de sua cognição. Sua chance de sucesso ainda é quase inexistente."

"Eu vim aqui para ajudar", rebate Chandra. "Não me importa o que algum esquisitão Phyrreano pensa de mim, vou fazer o que puder aqui. Por que você está nos ajudando, afinal?"

O fogo ruge pelos orifícios dos olhos da carapaça de Urabrask. "Porque Norn sufoca os fogos da criação com suas pregações. Phyrexia não pode prosperar se houver apenas uma Phyrexia." Magma escorre de suas mandíbulas, colunas de fumaça subindo dos buracos que queimam. "Até um tritão entende. Urabrask não serve a ninguém." Melira se coloca entre os dois. "Vamos manter nossos olhos no objetivo. O plano é que Koth lance vocês duas sobre o abismo."

"Por que só nós?" Chandra pergunta. Para falar a verdade, ela está grata pela pausa.

"O resto dos Mirreanos fornecerá uma distração tentadora para a chamada Mãe das Máquinas. Eles encontrarão uma patrulha em algum lugar e começarão uma luta. Ela se concentrará em eliminá-los, deixando nosso caminho no ar livre."

Esse~ é talvez o plano mais simples que Chandra já ouviu para lidar com a situação mais precária que já encontrou. Lançá-las através do abismo? Ela dá um passo até a borda da plataforma. O abismo que se abre diante dela provavelmente poderia acomodar todos os edifícios mais altos de Ghirapur empilhados. A plataforma com vista para a árvore está tão longe que ela pode cobri-la com o polegar.

"Oh. Não gosto de viagens aéreas", diz Wrenn.

"Não vai durar muito", diz Koth. "Posso lançar-nos daqui. Urabrask diz que aquela plataforma é usada principalmente para manutenção. Norn mantém a elfa ocupada fazendo outra coisa agora, então deve estar livre."

A elfa. Apesar de todo o fogo em seu coração, o sangue de Chandra esfria com o pensamento. Eles estão sendo tão casuais sobre isso. Ela quer retrucar novamente, dizer que Nissa é importante de maneiras que eles não podem entender, mas se o fizer, eles podem pensar menos dela. Ela veio aqui para ajudar o Multiverso, afinal. Resgatar Nissa é algo pequeno em comparação.

Mas se aquela é a plataforma dela, e se ela estiver lá~

"Vamos fazer isso", diz Chandra.

"Fico feliz que esteja a bordo", diz Koth.

"No momento em que sua dríade fizer contato com a árvore, Norn saberá. Precisaremos agir rapidamente. Tão rápido quanto sua carne puder ir sem se desprender." Urabrask já se virou para a borda da plataforma. Curiosamente, ele se abaixa e começa a esculpir siglas no metal abaixo deles.

Este pequeno grupo de pessoas é tudo o que resta entre Phyrexia e o Multiverso. O peso em seus ombros ameaça esmagá-la. Chandra caminha, como se para compensar movendo-se. Wrenn e Sete permanecem parados onde Koth disse para estarem, olhando para as forças reunidas. O ar aqui não é bom para Sete — as pontas de seus galhos ficaram pretas. O que exatamente isso está fazendo com o resto deles? Quanto tempo eles podem ficar aqui antes de começarem a mudar também? Aquele último pouco de Halo não durará para sempre.

"Você está pronta?" Koth pergunta.

Chandra para, uma perna de cada lado de uma runa inscrita. Repetidamente, ela abre e fecha as mãos. "Sim."

"Certamente", diz Wrenn.

Koth assente. "Mirreanos, estamos prontos?"

Chandra não pode chamar os gritos de resposta de vigorosos, ou mesmo confiantes. Não, ela já ouvira esse tipo de tom antes, e está mais perto do desespero do que da esperança. Seu peito dói. Ela os conta, os Mirreanos, imaginando quantos terão partido na próxima vez que os vir.

Koth enterra o punho na terra.

As runas sob seus pés ganham vida. Um instante depois, eles são disparados direto para o ar com apenas a pedra abaixo deles como âncora. O ar chicoteia seus rostos; Chandra protege os olhos para evitar que lacrimejem.

Arte de: Cristi Balanescu

Atrás dela, ela ouve o grito de Koth: "Mantenha-se no ar se precisar!"

Seria melhor se ela estivesse lá embaixo, com ele?

Não adianta imaginar.

Especialmente quando têm companhia no ar.

Chandra não tem certeza de como chamaria as feras que mergulham no ataque — são um pouco como pássaros, um pouco como morcegos, e uma quantidade terrível de seus corpos é feita de metal laminado. O que importa é que estão no caminho, e se estão no caminho, serão explodidos. O fogo os derrete com a mesma certeza que faz com tudo o mais, embora ela já comece a sentir-se fraquejar entre os golpes. Na outra plataforma, Wrenn e Sete agarraram um e o usaram para espancar os outros em retirada.

Eles não ficam muito tempo no ar, mas os morcegos-lâmina os cercam o tempo todo. Chandra está tão ocupada combatendo-os que não consegue acompanhar onde estão em relação à árvore. O impacto a projeta em um dos galhos inferiores da Árvore da Invasão. Seus ossos gemem quando ela é arremessada na superfície branca e irregular. Ela tem quase certeza de que uma de suas costelas rachou, porque dói para respirar, mas ela precisa respirar se quiser chegar a algum lugar.

Um dos morcegos-lâmina mergulha sobre ela, suas asas formando uma broca. Seus dentes chacoalham com o som. Chandra se atrapalha, rola para fora do caminho, empurra-se para cima em um afloramento. O morcego-lâmina mudou de armas: agora, quando mergulha nela, pretende prendê-la contra a parede. Uma rajada precipitada de fogo o vê derretido em uma bola de metal a seus pés.

Chandra respira com dificuldade. "Quase lá."

"Sim, suponho que sim", responde Wrenn. "~ Que estranho. Está tão silencioso."

Chandra não sabe se já ouvira Wrenn parecer assustada antes de agora.

Mas ela entende o porquê. Esta árvore é enorme — maior do que qualquer coisa com que Wrenn já tentou se ligar, e mais perversa além disso.

Há uma chance muito real de que esta seja a última árvore à qual ela se juntará. E por mais que parte dela queira convencer Wrenn a desistir, ela não pode. A coisa toda cheira a praticidade e sacrifício , mas, em última análise, não é escolha dela. É de Wrenn. E, pelo que sabem, é a melhor chance deles.

Placas ao longo da árvore mudam e se reformam. Chandra tenta explodi-las, mas não é rápida o suficiente; elas se formam em centuriões antes que ela possa se livrar de todas as suas partes. Deve haver algumas dezenas deles — a maioria armados com espadas, mas alguns com os braços transformados em lanças. Um tomou a forma de um estranho cão metálico.

Ela recua contra Sete.

"Teremos que agir rápido", diz Chandra. "Pode começar? Eu vou cobrir você."

"S-sim, eu posso."

Algo se move atrás dela. Chandra prepara outra rajada de fogo. Chamas envolvem o galho, consumindo dois dos centuriões reunidos, mas eles não se movem. Todo o tempo que estão queimando, nenhum deles se move.

"Wrenn, estou com um mau pressentimento —" Ela começa.

Mas as bocas dos centuriões dão à luz sua resposta, de pele viscosa com óleo preto e corrupção. "Não queremos machucá-la. Só queremos dar as boas-vindas ao lar."

Ouvir a voz de uma única mulher emergindo de tantas gargantas, duplicada e duplicada novamente, deixa Chandra com os nervos à flor da pele. "Eu não me importo. Vamos, Wrenn —"

Duas lanças voam em sua direção no momento em que ela olha para trás. Chandra mal tem tempo de gritar antes de ser presa à árvore de placas brancas. De alguma forma, suas roupas são a única coisa danificada — as lanças atingiram logo abaixo de suas axilas. Ela é um alvo fixo aqui em cima, mas se Wrenn puder libertá-la, eles ainda podem ter uma chance.

Mas quando ela começa a gritar, vê o que tem mantido Wrenn ocupada.

Uma figura encara Wrenn. Magia verde estala ao redor de seu corpo metálico, seus quatro braços agindo todos como condutores. Um — uma lâmina — corta o galho mais grosso de Sete como se quebrasse um graveto. A magia tece ao redor de Wrenn e dos membros restantes de Sete, ligando-os, depois erguendo-os no ar.

"Podemos aperfeiçoá-la da mesma forma que a aperfeiçoamos", dizem as vozes. "Todas as suas falhas, suas fraquezas, desaparecidas. Você nunca mais se sentirá sozinha quando se tornar uma conosco."

As palavras não a estão alcançando. Não agora.

Porque ela reconhece aquele rosto. Ela o reconheceria em qualquer lugar — o modo como as bochechas se arredondam quando ri, as orelhas propensas a tremer, o nariz pequeno, a boca tão frequentemente curvada em um sorriso secreto. Se todas as memórias na cabeça de Chandra fossem derramadas como metal fundido na jarra de um ferreiro, esta permaneceria obstinadamente alojada lá dentro.

Nissa.

Não pode ser — mas tem que ser. Mesmo com dois novos braços enxertados em seu corpo, mesmo com lágrimas negras manchando suas bochechas, mesmo quando tanto dela agora é raiz de cobre e silva — Chandra a reconhece. Até o modo como ela inclina a cabeça em direção a Chandra é o mesmo. Palavras não ditas pesam na língua de Chandra; a agonia do reconhecimento dilacera seu coração. Reconhecê-la~ reconhecer Nissa assim dói mais do que morrer, ela tem quase certeza — o que poderia doer mais do que isso?

Mas então Nissa fala, e Chandra tem sua resposta. A voz de Nissa é a única coisa que eles não mudaram. "Você está com medo, não está? Minha nova forma deve ser difícil para você entender."

"Nissa", balbucia Chandra. É tudo o que consegue dizer. Há muitas outras palavras acumuladas em sua cabeça agora, todas lutando para sair: Esta não é você. Você não precisa trabalhar para ela. Podemos encontrar alguma maneira de consertar isso. Por favor, pare. Sinto muito por termos parado de nos falar.

Mas tudo o que sai — repetidamente — é o nome de Nissa.

Nissa não reage. Não há sorriso irônico, nenhum brilho nos olhos, nenhuma expressão enquanto ela se volta para Wrenn e Sete.

Mais duas lanças prendem Chandra no lugar. Uma atinge sua panturrilha. Ela grita, a pressão aumentando atrás de seus olhos. O fogo lambe seus dedos. As respirações que ela tenta dar não fazem nada para acalmá-lo.

"Você não tem nada a temer", diz Nissa. Seu tom é terrível e monótono. Enquanto Chandra observa, ela despedaça Sete membro por membro — as espículas afiadas e a lâmina de seu novo corpo trabalhando em conjunto com sua magia. Wrenn também está gritando, fogo brilhando atrás de seus olhos, mas Nissa ainda não reage. Quando resta apenas a pequena forma de dríade de Wrenn, Nissa a deixa cair no chão. "Eu não sinto mais dor."

"Isso~ Isso não é sobre~ !" Chandra gagueja. Está ficando difícil pensar, há tanta energia se acumulando dentro dela, e nada disso tem para onde ir.

Nissa se vira para ela. "É sobre o seu plano? Isso já falhou. A Mãe das Máquinas me enviou para detê-la."

"Por quê?" sai como um grito, uma acusação.

"Porque o que você está fazendo é míope. Você sempre foi míope." Com um movimento de mão, os centuriões se retiram. Outro, e eles removem as lanças — até mesmo a que perfurou a panturrilha de Chandra. A liberdade não ajuda muito. Com a dor latejando em sua perna, Chandra não irá a lugar nenhum tão cedo.

Se quisesse, ela poderia revidar. Cauterizar feridas não é difícil para um mago de fogo. Ela poderia pegar toda essa energia acumulada e liberá-la. Não há como alguém sair ileso de um golpe como esse. Nesse ritmo, pode haver o suficiente acumulado para causar danos sérios à árvore também. Não importa as "melhorias" que Norn fez, nenhum metal pode resistir ao coração de um sol, certo?

"Você queria ser a heroína, não queria? Você queria salvar a mim e ao Multiverso de uma só vez. Infelizmente, você inverteu as coisas. Estou aqui para salvá-la. Como sempre."

Seria a coisa mais fácil do mundo liberar tudo.

Mas se ela o fizer~

A língua de Chandra gruda no céu da boca.

Nissa dá um passo em sua direção. O sorriso que se abre em seu rosto é largo, cheio de dentes e nada parecido com ela. "De todos os seus companheiros, apenas você e a dríade escolheram nos enfrentar. Sua espécie carece de unidade e compreensão."

"Mais estão vindo", diz Chandra. Ela fecha os olhos com força. Se ela não olhar, é mais fácil manter tudo sob controle. Mais fácil, também, banhar todo este galho em chamas. Se ela quisesse. Se ela não olhar nos olhos corrompidos de Nissa, não terá que se lembrar de como é o rosto dela enquanto está — não. Não, ela não pode. Não é apenas sobre ela, ou Nissa, ou qualquer pessoa. Há Mirreanos morrendo sob os pés para dar a elas a chance de estarem aqui. Centenas de planos dependem deles para derrubar esta árvore. Por mais quente que seu fogo queime, Chandra sabe que não pode derrubar a árvore de uma só vez.

Ela abre os olhos. Lá está Nissa, gesticulando com seu braço-lâmina, movimentos nítidos e precisos e nada parecidos com os dela. "Olhe ao seu redor. Não tema, eu esperarei."

Chandra não consegue se conter — ela olha. Ela gostaria de não ter olhado.

Há um exército do outro lado da ponte. Um exército fervilhante e inumerável, a luz brilhando em suas formas prateadas e lisas. Uma monstruosidade dracônica na vanguarda carrega um estandarte azul. Ao lado dela está um ser imponente, um que Chandra deve assumir ser o general deles. Cada passo de seus pés é um trovão, cada arma uma flecha nas costas de suas esperanças.

Ela nem consegue ver os Mirreanos daqui. Como eles vão enfrentar uma força daquelas?

"Pedi à Mãe das Máquinas sua bênção para falar com você no momento em que soube o que estava planejando. A resistência nunca teve chance. Mas eu sabia que havia uma chance para você . Eu sei o que você poderia ser, se apenas se juntasse a nós."

Norn sabia. Todo o tempo que estiveram aqui, ela soube o que estava acontecendo. A resistência esparsa que encontraram não foi porque Norn estava ocupada com a invasão, mas uma armadilha.

E agora todos vão morrer, ou pior.

O luto é um caco de porcelana em sua garganta. Ela tenta engolir. Só faz doer mais.

Chandra dá um passo para trás. Seu calcanhar paira fora do solo arredondado da plataforma de observação. Mais um passo e ela cairá — uma estrela ardente, as esperanças despedaçadas do Multiverso.

Nissa dá outro passo à frente. Atrevida, agora, ela traça uma garra metálica ao longo da maçã do rosto de Chandra — mas ainda não é Nissa quem está falando. Chandra sente náuseas. "Estamos oferecendo a você a mais santa das graças: a libertação deste medo. Quando você se juntar à nossa congregação, nunca mais conhecerá a solidão. Jamais a deixaríamos morrer sozinha."

"Eu não estou sozinha", retruca Chandra. Ela não está. Wrenn está caída no chão, com dor, mas viva. Enquanto Nissa falava, Wrenn estava se arrastando cada vez mais para perto da árvore.

Por um segundo, há esperança nos olhos de Chandra.

Nissa logo segue o olhar de Chandra para a dríade caída. Uma risada amarga sai de seus lábios. Galhos de cobre brotam da superfície da árvore para agarrar Wrenn com força.

Wrenn grita.

"Vemos agora. Você ainda está viva. Impressionante. Você será uma excelente guardiã para o Rompe-Reinos", diz Nissa. Após um momento de reflexão, a cabeça de Nissa se volta para Chandra mais uma vez. "Quanto a você — diremos apenas isto: há muitas maneiras de servir a Phyrexia. Quando você se juntar ao grupo, descobrirá o que realmente deveria ser."

A respiração de Chandra está vindo de forma irregular. Sua cabeça lateja. Jaya poderia ajudá-la a passar por isso, mas Jaya está morta; Gideon poderia absorver qualquer coisa que ela lançasse nele, mas ele também está morto.

E agora há Nissa.

Mas há Wrenn também. E conforme Nissa avança mais uma vez, Wrenn encontra o olhar de Chandra. Chamas tremeluzem dentro de seu corpo pálido. O metal ao redor dela começa a brilhar. Com os centuriões desviando o olhar e Nissa focada em Chandra, Norn não tem como saber o que está prestes a acontecer.

Respire , ela diz a si mesma. Aguente um pouco mais.

O outro calcanhar de Chandra atinge a borda. O fogo gira em torno de seu antebraço. "Eu não vou desistir aqui."

As orelhas de Nissa murcham, seus lábios se entreabrem. Uma suavidade surge ao redor de suas bochechas manchadas de óleo. Quantas vezes ela já vira esse olhar? Nas horas frias da noite, antes do sol nascer, quando costumavam conversar sobre o que quer que viesse à mente; sempre que Chandra cuspia uma ideia que não fazia muito sentido e Nissa não tinha certeza de como dizer a ela. Quantas vezes ela o vira?

Por que dói tanto agora?

"Chandra."

Essa é a voz dela. A voz de Nissa. Sem qualquer interferência, sem a influência de Norn — apenas Nissa.

As chamas de Chandra se apagam.

Nissa estende a mão. "Por favor, venha conosco. Sinto sua falta."

Arte de: Cristi Balanescu

Uma vida sem medo. Uma vida sem os outros questionando cada decisão que ela já tomou. Uma vida livre de solidão e dor. Mesmo que eles detenham os Phyrreanos aqui, algo mais não tomaria o seu lugar? Bolas, os Eldrazi, Elesh Norn — sempre houve um tirano. Mas se ela segurasse aquela mão agora, aquela história poderia terminar.

Seria como fugirem juntas.

Fugindo de seus problemas, de suas responsabilidades e de todos que sacrificaram tudo para trazê-las até aqui.

"Eu também sinto sua falta", diz Chandra. Lágrimas queimam seus olhos. "Sinto tanto a sua falta. Mas não posso. Sinto muito."

Toda aquela familiaridade, toda aquela suavidade, desaparece em um instante. O rosto de Nissa é uma máscara de fúria no momento antes do fogo.

Chandra se esquiva por baixo do braço cortante de Nissa e enterra seu punho flamejante no próprio galho. Um segundo de laranja ofuscante é todo o aviso que recebem antes que o chão sob elas exploda. O impacto envia ela e Nissa voando, os centuriões caindo como granizo de pedra. Apenas Wrenn está perto o suficiente da árvore para se agarrar a ela.

Ela terá que cuidar disso a partir daqui.

Ixalan: Trezentos Passos sob o Sol

Agora

As selvas ao redor de Orazca queimavam, um anel de fogo tão quente que as bordas douradas da cidade borbulhavam e derretiam, afundando em seus alicerces, fluindo para a terra calcinada. Escuridão iluminada em rubi pelas titânicas e sinuosas vinhas mecânicas que mergulhavam de algum lugar acima das nuvens acres. Relâmpagos carmesim riscavam o céu, perseguidos segundos depois por trovões estrondosos. O dossel balançava e sacudia, tremendo no vento quente. Árvores, apodrecidas de dentro para fora, explodiam quando as chamas as alcançavam.

Huatli, sozinha, estava no topo do Templo Alado de Orazca, as mãos pressionadas contra o peito, ofegante, esperando. Uma espera terrível, agonizante, bile e sufocamento subindo em sua garganta. Esperando.

Inti — ele estava vivo? Será que sua companhia e os auxiliares mantinham os degraus? Ela não podia olhar para baixo, só conseguia manter os olhos no horizonte, esperando. Era impossível ouvir qualquer coisa além do seu próprio batimento cardíaco, sua própria respiração e o rugido do fogo.

Ao seu redor, em todos os pontos cardeais, a escuridão pesava sobre o plano. A única luz era o fogo. As selvas ao redor de Orazca queimavam.

Ixalan queimava.

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Horas Antes

As portas eram robustas, construídas milênios atrás para defender este santuário interior mais sagrado. Barricadas, elas não quebrariam.

Tosse. Soldados murmurando. Oração. O cheiro rançoso de suor, dejetos, madeira queimada, carne queimada, metal queimado. O ar doía ao respirar. Alguém encontrou e acendeu uma tocha enquanto outros tateavam com suas luzes, sussurrando as orações necessárias para Kinjalli lhes dar vida.

A luz inundou o salão escuro, revelando uma câmara longa e colunar esculpida em murais. Ouro embelezava cada superfície, polido e brilhante. Quase cem soldados — a maioria do Império do Sol, junto com um punhado de auxiliares da Costa do Corsário, Torrezon e arquipélagos intermediários — lotavam o espaço. Exaustos, eles atendiam a deveres urgentes — substituindo armas gastas em batalha, retirando armaduras inúteis, limpando-se da fuligem, do sangue e do óleo. Um sacerdote ungia uma fila de soldados silenciosos e acinzentados, ordenando que retornassem ao abraço de Ixalli. Guerreiros de rosto sombrio seguiam o sacerdote, com macahuitls prontos caso algum dos moribundos se transformasse.

Sangue seco manchava as mãos de Huatli e ela não conseguia impedir que tremessem. Ela precisava de água. Ela precisava estar limpa. Ela tinha um cantil. Alcançou-o, encontrou-o vazio.

Uma comoção. Gritos na porta barricada. Um rugido lá fora, alto como uma erupção vulcânica, e então um estrondo que sacudiu o salão. Poeira e lascas de gesso caíram do teto, batendo na armadura de Huatli como pedras de granizo. Ao redor dela, soldados riram, xingaram e murmuraram.

"Devemos ir", disse Inti. Ele se agachou ao lado de Huatli, manchado de fuligem, a cabeça enfaixada e sangrenta. "Não estou confiante de que a barricada ou este salão aguentarão. E você deixou cair isto." Ele pressionou o elmo de Huatli em suas mãos. O elmo da guerreira-poeta. O único em toda Ixalan.

"Onde está o seu?", Huatli perguntou, indicando a cabeça envolta em bandagens de seu primo.

"No bucho de algum invasor morto", Inti deu de ombros. "Fez o seu trabalho." Ele ofereceu uma mão a Huatli. "Vamos."

Huatli esticou o braço, pegou a mão de Inti e se levantou.

"Certamente passaremos por isso", disse Inti. "Você contará esta história ao império quando o sol nascer."

Huatli olhou para o primo. O sorriso dele era largo e caloroso, genuíno apesar do peso da fadiga em seus olhos e em seus ombros. Ele confiava nela, e então tudo ficaria bem. Ela estendeu a mão e tocou a bandagem dele.

"Encontre um capacete", disse ela. "Acho que você foi atingido na cabeça com muita força."

Inti riu, e Huatli se juntou a ele.

Atrás deles, o salão tremeu, a porta saltando em suas grandes dobradiças enquanto algo enorme batia contra ela.

"Quanto tempo até o amanhecer?", Inti perguntou, olhando para a porta.

"Horas", disse Huatli. "Se vier hoje."

"Esperemos que sim."

"Tudo bem", Huatli assentiu. "Mas lute também."

"Guerreira-poeta", uma voz elegante, rouca pela fumaça. Mavren Fein, o líder magro e patrício dos auxiliares, saiu da escuridão, ladeado por um punhado de seus paladinos da Legião. Ele semicerrou os olhos contra a luz forte das pedras de Kinjalli dos soldados do Império do Sol. Huatli podia ver a pele dele fumegando onde a luz o atingia; as pedras emitiam um tipo de luz abrasadora, mais forte que o dia. Ela ergueu a mão para bloquear a dela.

"Obrigado", disse Mavren, limpando a pele queimada e seca como papel de suas maçãs do rosto salientes.

"E então?"

"O que agora?"

Huatli deu de ombros.

"Meu tipo favorito de poeta", disse Mavren. "Aquele que deixa o silêncio falar."

Huatli avançou em direção a ele com sua lança curta. "Cuidado, colonizador", disse ela. "Eu posso pensar em silêncios ainda mais profundos."

"Tudo bem", disse Mavren. "Deixe-me tentar novamente, implorando suas desculpas." Ele estendeu a mão, lentamente. Huatli não vacilou. O vampiro levantou uma sobrancelha, olhou para a ponta, depois para a mão, e então empurrou a ponta da lança para o lado. Ele limpou a garganta. "O que faremos agora?"

"Agora — nada", disse Huatli.

"Nada?"

Huatli assentiu. "Os Phyrexianos sabem que estamos aqui. Mais virão para nos cercar. Nós deixaremos."

"Prender-nos aqui era parte do seu plano?"

"Ao caçar uma grande besta", disse Huatli. "A isca é necessária." Ela abaixou a lança.

"Isca", Mavren bufou. "Certifique-se de que a armadilha não se feche sobre nós também, guerreira-poeta."

Huatli deixou que ele ficasse com a última palavra. Os últimos de seus soldados passaram em fila, mantendo um olhar cauteloso nas costas de Mavren e de seus vampiros. A luz foi com eles, desaparecendo até que Huatli descobriu seu amuleto. A luz quente de Kinjalli cresceu, mas nunca floresceu além de uma pequena poça. Ela estava sozinha com sua respiração.

A porta estrondou, balançou. As dobradiças antigas rangeram. Um barril caiu da barricada, rachando ao atingir o chão. Milho estragado derramou-se, contorcendo-se com formas escuras.

"Aguente", sussurrou Huatli, uma oração em uma única palavra.

Ela se virou e saiu apressada da porta, correndo para alcançar o resto de sua força, uma pequena brasa de luz em uma grande e total escuridão.

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Dias Antes

A invasão chegou a Ixalan precedida por avisos sutis ignorados pelas grandes potências que disputavam o antigo continente. A guerra já grassava; a sutileza foi uma das primeiras baixas. O Império do Sol havia expulsado a Legião do Crepúsculo da cidade dourada de Orazca. Encorajadas, as forças imperiais perseguiram as forças expedicionárias da Legião em fuga de volta à Costa do Sol. Lá, na Baía da Rainha, o império encontrou uma constelação de fortalezas baixas e imponentes. Duas agachadas no continente e uma terceira surgindo em uma ilha de barreira na foz da baía. Esta era Miraldanor: a Legião havia retalhado as terras do Império do Sol e as batizado com o nome de sua rainha. Isso não poderia continuar. O imperador ordenou que essas fortalezas fossem arrasadas.

Milhares de soldados corajosos assaltaram as muralhas de pedra escura da Fortaleza Leor, a do meio das três fortalezas. Os defensores resistiram por meses — o Império do Sol tinha pouca experiência em guerra de cerco — mas caíram antes do fim do ano. O império avançou, tomando Leor e dividindo as forças da Legião da Baía da Rainha ao meio. Uma vitória triunfante para o império, mas o verdadeiro prêmio estava ancorado no porto de Leor: navios, fragatas de alto mar que os defensores não conseguiram queimar completamente. O Império do Sol, firmemente estabelecido e com os fortes restantes da Legião cercados, fez engenharia reversa nos navios. O imperador, para a adulação de seus súditos em Pachatupa, declarou um novo objetivo: eles construiriam seus próprios grandes navios, cruzariam o oceano e devolveriam à Legião o medo que aqueles cavaleiros austeros haviam trazido a Ixalan.

Um grande trabalho começou. Florestas poderosas caíram enquanto novos construtores navais se apressavam para atender às exigências do imperador. A juventude do Império do Sol partiu para os rios, lagos e costas de Ixalan para aprender os caminhos das marés, dos ventos e das estrelas. Veteranos endurecidos das campanhas de consolidação do império e das expedições a Orazca retornaram às suas cidades para recrutar mais para suas fileiras. Adestradores e domadores de Quetzacama entraram nas selvas, territórios de reprodução e reservas para encontrar montarias de cavalaria adequadas. O império vibrava com energia e entusiasmo — a conquista, a guerra pela glória, estava chegando.

Mesmo assim, a invasão já estava em curso.

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Em algum lugar em terras desconhecidas, ou nos grandes giros que se retorcem sobre vastas extensões de oceano vazio, os sinais da invasão se manifestaram. Símbolos estranhos vislumbrados em alinhamentos momentâneos por marinheiros e camponeses solitários, assustados demais para entender o que viam: um lago fervente, um acre de peixes mortos dispostos em um círculo perfeito e bisseccionados por uma linha reta, uma árvore chorando óleo negro, uma nuvem vermelha, permanecendo desafiando o vento.

Ixalan se agitou, e Torrezon estrondou, e os arquipélagos ao redor de A Seco ficaram em silêncio, e ninguém olhou para cima para ver o céu se abrir em uma manhã úmida na Costa do Sol, revelando um galho de metal hediondo e colossal do Rompe-reinos, a Árvore da Invasão, mergulhando de um olho de furacão vermelho como uma ferida.

Os Phyrexianos chegaram a Ixalan e acabaram com a guerra do imperador em seu berço. Em seu lugar, houve um terror maior: o Sol Triplo se pôs e não voltou a nascer, obscurecido por nuvens escuras como tinta, e a hora mais sombria da esperança caiu, estrangulada nas areias da costa outrora dourada de Ixalan.

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Huatli estava em posição de sentido na sala do trono imperial no alto de Tocatli, a cidadela imperial no coração de Pachatupa, a capital do Império do Sol. A sala do trono fora convertida na sala de guerra imperial. Um mapa em escala de Ixalan, Torrezon e o mar que separava os dois continentes dominava a câmara, inspirador em tamanho e detalhes. Ajudantes e oficiais orbitavam a mesa, empurrando pequenos modelos de soldados e quetzacamas, movendo e removendo os modelos finamente trabalhados à medida que mensageiros suados chegavam para transmitir notícias da guerra.

Um anel de pedras brancas cercava Pachatupa, imóvel, exceto por ocasionais ajustes para frente. Os Phyrexianos.

Huatli girou os ombros. Ela estava no front há dias; seu corpo sentia o custo do destacamento. Ela precisava de descanso, não de ficar em posição de sentido em uniforme de gala enquanto o imperador colhia relatórios formais de seus generais. Mesmo agora, a vaidade imperial exigia satisfação.

Huatli olhou ao redor da sala para generais, sacerdotes e equipe de comando. A maioria eram homens e mulheres idosos, enfiados em armaduras feitas sob medida para seus eus mais jovens; a vaidade imperial sofria, pensou ela. Um punhado dos presentes eram seus contemporâneos — soldados promovidos por atos heróicos realizados durante a campanha de Orazca, ou oficiais que se provaram contra a Legião durante a guerra na selva que se seguiu — o suficiente para que a assembleia não parecesse totalmente sem esperança. Juntos, aguardavam o retorno do imperador da plataforma de observação, onde ele caminhava de um lado para o outro, seguido por adidos e escribas.

A esperança era preciosa agora, e cruel. Sua ausência não era um vácuo, mas uma adaga. Sol acima, Huatli queria dormir. Ela sentia falta de Saheeli como sentia falta da luz do dia. Huatli fechou os olhos, confiando em suas pernas para mantê-la de pé.

Lá fora, o céu estava escuro. Pela contagem dos sacerdotes era meio-dia, mas a luz estava escondida atrás de nuvens negras como tinta. O sol havia desaparecido nos primeiros dias da invasão, primeiro sufocado a um globo vermelho pálido por incêndios florestais que queimavam em todos os pontos cardeais, agora quase extinto a um rubor tênue. Não apenas fumaça de fogo, mas alguma outra emissão fétida expelida pelos invasores. Cinza caía. O equivalente a um regimento de atendentes do palácio corria por Tocatli, vassouras na mão para varrer os montes cinzentos, mas seus esforços não eram suficientes. A cidadela imperial assumiu a aparência de uma montanha no inverno; sem a luz do sol, o ar adquiriu um frio profundo e estranho.

"Onde está minha marinha", urrou o Imperador Apatzec Intli III enquanto voltava para a sala de guerra. "Há quase dez mil soldados e marinheiros a bordo daqueles navios, encontrem-nos!" Ele acenou com a mão, despachando um esquadrão de escribas e oficiais subalternos para a tarefa. Bom para eles, pensou Huatli — eles nunca encontrariam a frota e agora tinham uma desculpa para fugir para os cantos mais distantes do plano.

"Dez mil soldados, centenas de navios", murmurou o imperador, caminhando até a mesa. "Torrezon estava bem ali", disse ele, batendo nas margens do continente fictício para enfatizar sua fala. Uma coleção de navios em miniatura, esculpidos por artesãos de brinquedos experientes em Pachatupa, ficava no ponto médio entre os dois continentes — a última localização conhecida da frota de invasão. Para Huatli, a invasão de Torrezon sempre fora uma má ideia; sob a ameaça premente dos Phyrexianos cercando as muralhas de Pachatupa, lamentar a interrupção de uma invasão diante de outra não inspirava confiança.

"Vossa graça", um dos comandantes — Caparocti Sol—alguma coisa, Huatli não conseguia se lembrar do sobrenome dele — falou, limpando a garganta. "Meus voadores de aerossauro estão prontos para vasculhar os oceanos, mas o tempo sobre o estreito—"

"Kinjalli arrase o tempo", gritou o imperador. "Por que seus voadores estão parados , Caparocti Nascido do Sol, quando deveriam estar voando ?"

"Há furacões severos, vossa graça, logo ao largo da costa", disse Caparocti, mantendo a voz calma. O primeiro cerco de Leor, era de lá que Huatli se lembrava de Caparocti. Um imperador gritando com ele não abalaria Caparocti após o combate amargo que suportaram sob aquelas muralhas cinzentas. "Essas tempestades são selvagens e não naturais. Meus voadores me dizem que os céus brilham com relâmpagos vermelhos e o vento cintila com navalhas. Não é uma questão de vontade — eles querem voar, vossa graça. É uma questão de prudência."

"Você duvida?"

"Eu não duvido", disse Caparocti. "Desejo defender o império contra a perda de mais soldados antes de encontrar o inimigo."

O imperador encarou Caparocti, depois através dele, sua mandíbula flexionando enquanto rangia os molares. Huatli sabia que Caparocti estava correto. Ela esperou para ver se o imperador concordava.

"Dez mil", sussurrou o imperador. A fúria o havia deixado. Ele caminhou ao redor da mesa, seus comandantes e sumos sacerdotes abrindo caminho, até que ele pudesse alcançar os navios em miniatura finamente esculpidos. Sua Frota do Alvorecer, destinada a levar a luz do Sol Triplo aos cantos escuros e castelos góticos de Torrezon. A carranca do imperador se aprofundou.

"O resto de vocês, relatem."

Um por um, os comandantes e sacerdotes despejaram seus relatórios, transmitindo contas sombrias de açougueiros provavelmente já desatualizadas, embora tivessem apenas um dia, no máximo. Uma dúzia de cidades ao longo da barreira norte relatadas vazias, exceto por massas contorcidas de carne e metal fundidos. Uma coluna de cuspidores de morte e seus adestradores massacrada, com apenas um único esquadrão de sobreviventes restando para chegar a Pachatupa. Um reduto ocidental reduzido a cinzas e lagos de óleo, uma rosa de ferro pulsando em seu centro. Enxames de insetos mecânicos zumbindo pelas selvas. Uma dúzia de mortos, cem mortos, mil mortos, soldados imperiais e civis fundidos a armaduras de metal e cabos de aço, marchando diante de horrores pálidos como marionetes em cordas.

Arte de: Viktor Titov

Isso não era uma guerra: era um colapso, buscando seu ponto final. As forças Phyrexianas, uma mistura de invasores alienígenas reforçados por uma massa fervilhante de bucha de canhão convertida à força, formavam um anel de fogo e metal ao redor de Pachatupa, fechando-se mais a cada hora. Mesmo com voos de aerossauros e raptores velozes patrulhando à frente do inimigo em avanço, o atraso entre o evento e o relatório era tão grande que o império não conseguia responder com força. Soldados individuais no campo estavam liderando esta guerra, enquanto o imperador implorava a seus comandantes e generais por orientações que eles não podiam dar. A grande força do Império do Sol era seu tamanho, sua logística: era um brontodonte que esmagava seus inimigos com números bem organizados, constantes e esmagadores. Mas um brontodonte não conseguia lutar contra um enxame de peixes-anha famintos e furiosos. Na defensiva, sem linha para manter e com sua logística em desordem, a retirada era a única escolha racional.

"E o seu relatório, Huatli?", perguntou o imperador. Ele arrancava os navios de brinquedo um a um da mesa, deixando-os cair e quebrar no chão de pedra polida. Ele não reagiu ao estalo seco de pedra contra pedra.

"Meus lanceiros permanecem com força de companhia", disse Huatli. "Estamos prontos para romper esses invasores, como Tilonalli faz com o avanço da noite."

"Minha poeta", disse o imperador, um sorriso pálido realçando as rugas ao redor de seus olhos. Ele deixou cair outro navio no chão. "Você tem palavras para os mortos, guerreira-poeta?"

"Há muitas, vossa graça", disse Huatli. "Muitas para dizer."

"E seus poderes", disse o imperador. "Seu caminhar entre planos, sua magia. Você pode implorar ao Sol Triplo para intervir em nossa hora de necessidade?"

"Não", disse Huatli. "Mas há outros que poderiam ajudar."

O imperador arrancou outro navio do mapa, o modelo final ainda não quebrado. Ele o segurou com as duas mãos. "Explique", comandou ele. Mavren era um aristocrata. Huatli, em seu papel de guerreira-poeta, entendia os aristocratas. Os opulentos imperiais e a nobreza fria de Torrezon eram iguais em um aspecto: eles não imploravam, mesmo quando imploravam.

"Nós nunca fizemos um acordo", disse Huatli. "Marchem. Discutiremos o que acontece depois, depois."

Mavren fez uma reverência, inclinando-se o suficiente para Huatli revirar os olhos perante o sarcasmo óbvio. Ela começou a caminhar novamente. Inti empurrou Mavren para frente, e os dois entraram na fila atrás dela, marchando com a companhia de lanceiros e auxiliares em direção a Orazca.

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Huatli e sua companhia chegaram a Orazca na manhã decidida. Uma chuva acre caía sobre a cidade dourada, transformando suas cachoeiras em torrentes escuras e furiosas. Grande parte da folhagem que verdejava a cidade estava agora morta, sufocada por uma podridão negra e murcha. A joia da coroa do império, reduzida a uma cratera úmida.

Movimento à direita, comoção abafada. Soldados, deitados de barriga no solo úmido, rastejando para abrir caminho para um pequeno grupo de batedores manchados de lama que retornavam de sua expedição à cidade.

"Guerreira-poeta", sussurrou a batedora-líder ao alcançar Huatli. "Temos uma rota para o templo. Temilo aqui", disse ela, indicando um dos homens magros e de pele escura que se aproximavam com ela, "tem estado guarnecido em Orazca desde o início da invasão."

"Poeta", disse Temilo, também saudando. "Eu louvo Kinjalli por você e seus lanceiros. Pensamos que estávamos sozinhos contra os monstros. Você tem água?"

Huatli ofereceu a Temilo seu próprio cantil. "Esta noite é aterrorizante a sós, mas a aurora se aproxima e traz amigos. Seu relatório."

"Os Phyrexianos vagam pela cidade", disse Temilo. Ele deu um longo gole de água, fechou o cantil e o devolveu a Huatli. "É perigoso estar do lado de fora — temos uma guarnição nas profundezas do coração do distrito ritual, perto do Templo Alado."

"Preciso chegar à câmara de recitação lá", disse Huatli, apontando para o grande templo. "Existe uma rota?"

"Tínhamos um posto de observação lá", Temilo balançou a cabeça. "Mas ninguém tem notícias deles há dias, e nenhum de nós tentou chegar lá — muito exposto."

O Templo Alado era um monumento grandioso. Construído em eras passadas por ordem do Império do Sol, o templo era um testemunho do poder imperial e da glória do Sol Tripartido. Perdido e esquecido após a ganância imperial ver Orazca ser arrancada do império, o Templo Alado foi alterado pelos Arautos do Rio; agora, mais uma vez sob o domínio do Império do Sol, o templo carregava aspectos de ambas as culturas.

"A única rota para o topo são os Trezentos Degraus", disse Temilo. "Existem passagens internas que o levarão até eles; os arquitetos garantiram que ninguém que se aproximasse do topo do templo pudesse fazê-lo sem caminhar exposto à luz do Sol Tripartido."

"Excepcional", murmurou Inti, sarcástico.

"Construído em uma época mais honesta", concordou Huatli. "Obrigada pelo seu relatório, Temilo. Você pode nos levar à sua guarnição?"

"Sim, mas devemos nos mover rapidamente", disse Temilo. "Não é seguro lá fora."

"Certo", disse Huatli. Ela se levantou da posição de bruços e olhou para seus lanceiros. Com um aceno, sua companhia e seus quetzacamas se levantaram. Um segundo gesto ríspido os enviou adiante para a cidade. A companhia se estendeu em uma coluna, armas prontas, e serpenteou pelos bulevares dourados de Orazca. Exceto pelo som distante da água caindo e o barulho de sua coluna apressada, Orazca estava em silêncio.

Um flash vermelho iluminou o céu.

Um rugido dividiu o coro das cachoeiras, estilhaçando o estrondo suave que cobria a cidade. Era um som terrível, não o urro natural de um quetzacama, mas algo maior do que o som.

Huatli tropeçou, agachando-se para se proteger junto com o resto de seus soldados enquanto olhavam para o céu, maravilhados com a teia de raios vermelhos que se espalhava pelas nuvens fervilhantes. Pelo longo momento do rugido, eles não eram uma companhia de lanceiros veteranos, mas animais aterrorizados, humanos humilhados pela presença de um deus.

No horizonte oposto a eles, na borda da bacia em que Orazca foi construída, erguia-se Etali, um dos dinossauros anciões. Ele era enorme, uma criatura magnitudes maior do que o maior monstruossauro ou mandíbula de pavor; estar em sua proximidade era como agachar-se sob um rei antigo, testemunhar uma montanha de dentes e escamas caminhando, rugindo, triunfante. Encarar sua silhueta era difícil, os olhos forçados a capturar uma imagem que mal se conseguia sustentar.

Os quetzacamas da companhia de Huatli debateram-se contra suas amarras, libertando-se, lançando seus tratadores para o lado. Com os olhos arregalados, muitos fugiram para a cidade.

Nuvens negras como tinta eram expelidas do núcleo de Etali, seus pulmões transformados em motores que cuspiam nuvens de tempestade entre suas costelas. Raios vermelhos ondulavam pela espinha metálica e brilhante do dinossauro ancião, pulsando com um ritmo cardíaco, aumentando sua cadência conforme Etali se erguia para rugir, crescendo para um flash que cobriu o plano em um dia carmesim. Seu rugido forçou a companhia de Huatli a cair de joelhos, as mãos sobre as orelhas, seus próprios gritos abafados pelo clamor de Etali.

Arte de: Ryan Pancoast

Etali era a tempestade. Os Phyrexianos haviam convertido o dinossauro ancião, distorcendo esta personificação de Ixalan para seu próprio propósito hediondo. Huatli ajoelhou-se, as palmas das mãos na rua fria e folheada a ouro. Não havia nada além desse medo.

A crista sobre a qual Etali se erguia fervilhava de movimento. Mais Phyrexianos, tropas terrestres e horrores maiores, nanicos perante o tamanho do dinossauro ancião que agora comandavam.

A companhia de Huatli e os auxiliares começaram a correr, seguindo Temilo em direção à guarnição. Huatli hesitou por um momento, procurando qualquer esperança de Etali na criatura que ocupava o corpo do ancião. A grande e primordial tempestade expelia nuvens sufocantes, elevando-se como bigornas. Não restava nada de Ixalan nele.

Huatli esboçou uma prece para Tilonalli, para Kinjalli e para Ixalli, então seguiu o último de sua companhia, apressando-se à frente dos Phyrexianos em avanço.

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A companhia de Huatli e os auxiliares abrigaram-se na guarnição de Temilo com o resto dos defensores sitiados de Orazca por dias. Embora escuros, os corredores internos estavam secos e seguros; os Phyrexianos ainda não haviam encontrado o caminho para entrar.

Huatli, Inti, Mavren e Temilo estavam sozinhos no salão de entrada diante da porta barricada. Eles carregavam tochas pequenas, de queima fraca — após dois dias em escuridão quase total, uma tocha forte era demais.

"Eles pararam de tentar a porta", disse Inti.

"Claro que sabem que ainda estamos aqui", acrescentou Mavren.

"Então por que pararam?" Inti respondeu.

"Pode haver outros bolsões de sobreviventes", disse Temilo, sussurrando. "Tivemos aviso da invasão vindo da costa. A guarda da cidade estocou armas, comida, água — havia outras guarnições." A voz de Temilo sumiu. As chances estavam contra essa esperança.

Sobreviventes. A palavra era uma marca da morte. Não defensores, não soldados, mas sobreviventes. Huatli sabia que a linguagem era uma arma do coração e da mente: assim como o ferro é moldado em uma espada, palavras afiadas tornam-se retórica. Imaginar-se como sobreviventes agora era esculpir o destino na pedra.

Huatli não podia fazer isso.

"Temilo", disse Huatli, interrompendo a espiral de perdição que se formava entre os três homens. "Você disse que existem outros caminhos para o topo do Templo Alado?"

"Não para o topo", disse Temilo. "Mas existem passagens para o nível médio, os aposentos dos sacerdotes."

"Bom o suficiente", disse Huatli, assentindo. "Inti, Mavren, chamem os soldados. Já nos escondemos o suficiente."

"Os Phyrexianos controlam a cidade", disse Temilo. "Você viu Etali —"

"Eles nos controlam?" disse Huatli. Ela olhou para Inti, que balançou a cabeça, e depois para Mavren, que, após um momento, fez o mesmo. "Não. Então, você nos levará aos aposentos dos sacerdotes", disse Huatli, dirigindo-se a Temilo. "Depois lutaremos até o topo e invocaremos os anciões. Então veremos o destino que o futuro reserva para o nosso plano."

"E se eles forem convertidos?" perguntou Inti. Não duvidando, não, seu primo não duvidaria dela. Ele perguntou como um curandeiro ou soldado faria — apenas por clareza, para planejar uma resposta para atingir um objetivo.

"Então Ixalan está perdida", disse Huatli. "Seremos os primeiros a saber o fim."

Inti pressionou os lábios e acenou com determinação. Temilo fechou os olhos e sussurrou uma prece. Mavren sorriu, mostrando as presas.

"Você cobrirá este império de morte", disse Mavren. "Mas talvez de glória, também."

"Inti, prepare minha companhia", disse Huatli. "Mavren, desperte seus paladinos, faça-os orar ao seu deus. Somos nós contra os invasores — vamos enfrentar este inimigo juntos antes de voltarmos nossas lâminas uns contra os outros."

"Sim, poeta", disse Mavren. Ele fez uma reverência e depois desapareceu na escuridão. Com um aceno ríspido, Inti o seguiu, com Temilo a reboque.

Sozinha, Huatli finalmente soltou o suspiro trêmulo que vinha segurando. Ela guardou suas preces — precisaria delas nas horas vindouras. Em vez disso, pensou em Saheeli — quão brilhante ela era — e seguiu os outros para a escuridão.

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Havia trezentos degraus além do arco no meio do Templo Alado até a câmara de recitação em seu cume. Um número sagrado, cem degraus para cada aspecto do Sol Tripartido. Havia um número incontável antes, um número sem ordem ou significado, para representar o plano sem ordem ou significado antes da graça do Sol Tripartido. Trezentos degraus entre o agora e o destino.

A companhia de lanceiros de Huatli apressou-se em formar uma linha defensiva no arco. Eles organizaram seus escudos e lanças em uma parede eriçada, voltada para a cidade abaixo.

"Seguraremos o portão", berrou Inti acima do som do vento fustigante. "É um ponto de estrangulamento: os números deles serão iguais aos nossos."

"Mas inesgotáveis", acrescentou Mavren. "Depressa, Poeta. Eu acredito na salvação da morte, mas nenhum de nós quer encontrá-la aqui." O pequeno esquadrão de paladinos da Legião e seguidores humanos de Mavren vestia uma mistura de armaduras e armas — o que quer que tenham mantido de sua captura inicial, suplementado com o equipamento antigo que lhes foi concedido pelo arsenal imperial. No entanto, os torrezonenses portavam-se com determinação.

"Bom", disse Huatli. "Primo, minha companhia é sua. Mavren", gritou Huatli para ser ouvida acima do vento crescente. "Este é o meu acordo", disse ela, apontando para o arco e os Phyrexianos abaixo.

Mavren brandiu sua espada, fez uma reverência e depois ordenou que seus auxiliares fossem para a linha. Soldados do Império do Sol e da Legião ficaram ombro a ombro enquanto a chuva começava a cair. Lenta no início, depois constante.

Raios vermelhos estalaram pelo céu, iluminando a massa rodopiante e retorcida de carne e máquina que se contorcia ao redor da base do templo. As ruas escuras de Orazca estavam entupidas de Phyrexianos — os convertidos, que se moviam em hordas que fluíam como água lenta, e os puros, que caminhavam acima deles, suas silhuetas alienígenas assumindo a forma de demônios, pesadelos e armas. Um a um, dois a dois, eles começaram a subir os degraus mais baixos do templo, notando os soldados dispostos em seu ponto médio. Uma inundação se seguiu. Quetzacamas mecanizados, trompeteando e urrando para as coisas menores que rastejavam ao redor e sobre eles, subiram pesadamente os degraus. Fileiras de convertidos miseráveis marchavam em colunas apertadas atrás, ordenados apesar de seus uniformes e armas desordenados. Entre eles, as elegantes feras cor de cobre vindas de outro lugar caminhavam sobre longas pernas insetoides, faces multitudinárias piscando, gritando e urrando, facetas em carapaças hediondas e iridescentes.

Além, na distância escura, monstruosidades Phyrexianas imensas caminhavam pesadamente pela cidade, suas silhuetas humanoides um deboche da humanidade. Perto e longe, havia apenas perdição.

Huatli sussurrou uma prece de aço para seus aliados, virou-se e começou sua escalada, deixando os sons de máquinas e gritos humanos para trás, o som de espadas e da guerra para trás.

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Algum Tempo Atrás

Por que lutar contra o que você não pode derrotar? Uma pergunta para uma poeta, feita por uma engenheira, enquanto as duas jaziam acordadas nas horas que antecediam o amanhecer, na manhã antes de se separarem.

"O que você quer dizer?" Huatli perguntou. Ela estava distraída pelo cabelo escuro de Saheeli, como ele se sentia entre seus dedos. Como seda, como seda fina. Ela resolveu lembrar-se disso, confiar este momento à sua própria história.

"É uma pergunta simples", disse Saheeli. "Eu sei que devemos. Eu não quero morrer. Eu não quero que você morra, mas há uma pequena parte de mim que quer apenas~"

"Desistir?"

"Descansar", disse Saheeli. "Eu não quero ceder. Eu só quero parar de lutar. Deixar que termine, porque então estará feito. O medo, a dor, a preocupação — parece que estamos tentando impedir o fim de tudo: o fim de nossos planos, do Multiverso. Tudo. Temo que não possamos, e então morreremos, e algo terrível tomará nosso lugar."

Os pássaros matinais lá fora haviam começado seu chamado, longos gritos na distância que falavam de um amanhecer úmido. A voz de Saheeli era um sopro suave contra seu peito, pouco mais que um sussurro. Huatli pressionou os lábios na cabeça de Saheeli e a beijou.

"Você quer minha resposta?" Huatli perguntou.

"Acho que você é a única pessoa que pode responder a isso", disse Saheeli, assentindo. "Mostre-me a aurora, H."

"Houve uma guerreira-poeta antes de mim", disse Huatli. "Yolotzin, que ostentou o título há séculos. Sua vida foi de dor. Ela nasceu em uma família em uma pequena aldeia longe de Pachatupa, durante uma época em que o império era jovem e faminto, ainda não um império, mas um em formação. A aldeia de Yolotzin foi tomada em conquista e sua família morta. Ela foi levada de volta para a capital porque sabia falar nossa língua e sua voz era linda. Ao atingir a idade adulta, o imperador lhe concedeu o título de guerreira-poeta."

Saheeli pressionou-se mais perto de Huatli. Sua respiração desacelerou.

"Yolotzin era uma poeta brilhante, sua lírica precisa e suave, e por toda a sua vida ela foi a consciência imperial." Huatli beijou a cabeça de Saheeli novamente, descansando os lábios em seu cabelo. A história terminaria, o sol nasceria, e ela partiria.

"Por que ela serviria ao império?" Saheeli perguntou.

"Por vingança", disse Huatli. "Uma longa vingança. Quando Yolotzin faleceu, o império ficou de luto. Lágrimas encheram as ruas, inundando-as como a chuva após uma tempestade. Dizia-se que o imperador vagava pelos corredores de Tocatli, sua voz reduzida a um lamento enquanto procurava pelo fantasma de Yolotzin para implorar por apenas mais uma estrofe."

O quarto, escuro, começava a cinzentar. O sol estava nascendo. A aurora tornando-se manhã.

"Ela viveu no fim do mundo", disse Huatli. "E depois através dele. O que enfrentamos não é diferente do que ela enfrentou: um inimigo poderoso que pretende conquistar, terminar tudo e reescrever a realidade. Nosso dever é viver através disso. Rejeitar diariamente o desespero e, caso morramos, levar o coração de nosso assassino conosco. Como Yolotzin, não podemos parar isso. Podemos apenas viver através disso."

Uma luz quente escorregou pelas cortinas fechadas dos aposentos de Huatli. Os chamados dos pássaros lá fora eram acompanhados agora pelos sons distantes mas persistentes das ruas matinais de Pachatupa, acordando.

"Isso não inspira exatamente esperança."

"Eu amo você. Eu nunca mentirei para você."

"Acho que falei com a guerreira ali", disse Saheeli, levantando-se. Ela apoiou a cabeça na mão, descansando o cotovelo nos travesseiros. Ela olhou para o dia e depois de volta para Huatli, um sorriso suave no rosto. "Eu quero falar com a poeta. Diga-me que vai ficar tudo bem?"

Era uma mentira dizer que tudo ficaria bem, mas os olhos de Saheeli estavam arregalados e a manhã quente e este era o último momento para as duas, o último momento antes do fim.

Huatli estendeu a mão para Saheeli, passou os dedos por seu cabelo e a puxou para perto. Elas se beijaram, para sempre. Quando se separaram, Huatli segurou o rosto de Saheeli, com lágrimas nos olhos.

"Vai ficar tudo bem", disse Huatli.

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Agora

A tempestade rugia, um furacão que odiava e rodopiava com fome. Granizo, chuva escura e raios vermelhos. Etali deve ter chegado à cidade. Huatli olhara para trás apenas uma vez durante sua escalada para ver que os soldados mantinham o portão — eles o faziam, contra uma parede retorcida de carne e máquina, grande demais para passar pela entrada estreita.

Huatli agarrou as bordas do altar e orou, uma prece por tempo antes da recitação. Tempo para sua pequena companhia segurar o portão. Tempo contra a chegada iminente de Etali. Tempo para outra manhã. Apenas um momento a mais neste plano. Huatli convocou sua voz. Fechou os olhos. A parede do furacão pairava sobre ela, e tudo lá fora sumiu para nada além do uivo do vento, um vento de ruína, o som do fim.

Huatli falou com o furacão. Ela falou com a morte, com o apetite do predador, com o oceano revolto, com toda a calamidade e a aurora. Ela contou a todos sobre seu irmão, o furacão, como ele foi tirado deles e voltado contra eles, e como Ixalan precisava da morte, precisava da fome, do mar, do terror e da aurora para se unirem a ela contra um inimigo maior: o fim.

A resposta deles foi o silêncio.

A tempestade vacilou. Huatli abriu os olhos para ver o vento vermelho rodopiando lá fora. Acalmando-se.

A guerreira-poeta afastou-se do altar. Ela caminhou em direção à porta de saída da câmara de recitação, para ficar no topo dos trezentos degraus e observar Orazca e a batalha que rugia abaixo.

A companhia de Huatli ainda resistia, sua linha fortificada por uma parede de cadáveres Phyrexianos. Pairando diante deles estava Etali, parado apenas um terraço abaixo, quase sobre o portão. O ancião estivera escalando o Templo Alado, abrindo caminho com as garras pelos níveis inferiores sobre os corpos revoltos de seus próprios aliados quando congelou. Raios ondularam pelas espinhas metálicas da barbatana dorsal da divindade corrompida, falhando, disparando errado. Os Phyrexianos continuaram a lutar, mas foram forçados a contornar o ancião, escorregando e rastejando para subir sobre os corpos de seus camaradas caídos, encontrando as longas lanças da companhia ao atingirem o topo do monte. Mortos, eles rolavam de volta pela encosta, atropelando as ondas de monstruosidades que seguiam. Feixes de luz solar iluminavam a cena sombria, tão brilhantes que Huatli estremeceu e levantou a mão para cobrir os olhos.

A luz!

Huatli olhou para o céu e para a luz rompendo as nuvens no exato momento em que a silhueta titânica de Zetalpa, a anciã do alvorecer, perfurou o furacão de Etali, mergulhando em direção à terra. As asas de Zetalpa abriram-se mais do que o horizonte — ou pelo menos pareciam — e seu grito baniu a noite. O alvorecer veio com fúria, atingindo Etali com as garras primeiro, envolvendo-o em suas asas, suas mandíbulas poderosas fechadas em torno do pescoço de Etali. O Templo Alado tremeu com o impacto e uma onda de choque explodiu por sua face, dispersando centenas de Phyrexianos, enviando-os rolando pelos degraus e terraços. A companhia de Huatli cambaleou para trás, mas foi protegida do pior da explosão — eles se recuperaram em momentos e retomaram suas posições defensivas.

O alvorecer de Zetalpa rompendo as nuvens pode ter sido silencioso ou — como o primeiro rugido de Etali — pode ter sido tão alto a ponto de tornar Huatli incapaz de ouvir qualquer coisa, mas os rugidos gêmeos e crescentes ao redor da base do templo abriram o dia. Huatli correu para uma plataforma de observação próxima, um terraço de visualização onde os sacerdotes podiam elevar tributos ao Sol Tripartido à vista das pessoas que caminhavam pelas ruas de Orazca. De lá, ela podia olhar para baixo, para as ruas da cidade dourada.

Outro rio entupia os bulevares e praças: quetzacamas não convertidos, criaturas poderosas de todas as formas e tamanhos, carnívoros, herbívoros e onívoros, avançando juntos contra os Phyrexianos sitiados. Movendo-se com eles estava Tetzimoc, a própria morte, coberto de espinhos e cerdas que estremeciam e eram lançados em salvas espessas contra os Phyrexianos em retirada. Os retardatários eram varridos pelo avanço pesado dos tenentes de Tetzimoc, quetzacamas blindados cujas caudas em forma de marreta esmagavam metal e golpeavam as fileiras de legionários Phyrexianos.

Outro rugido chamou a atenção de Huatli. Ela se virou para olhar através da cidade e viu Ghalta em cima de um templo distante, urrando um desafio aos Phyrexianos colossais que espreitavam a cidade. Esses gigantes carregavam armas feitas de metal vivo e gritante: eles caíram sobre ela, suas espadas cantando, e ela saltou para enfrentá-los, fúria contra fúria. Ghalta derrubou um, desviando sua espada para fechar as mandíbulas em torno de seu torso, rasgando seus tendões e tronco de metal. Outro se aproximou por trás, sua arma erguida acima de sua cabeça perdida nas nuvens, prestes a golpear, quando um geiser de água fervente irrompeu sob ele. A explosão colunar escondia uma forma escura em seu centro: Nezahal, o ancião das marés. Nezahal envolveu o gigante dos pés aos pulsos, passando seu corpo longo e chicoteante ao redor da criatura, esmagando-a sob a pressão equivalente a um oceano. A água caiu como chuva, e Ghalta e Nezahal rasgaram os gigantes restantes.

Arte de: Zezhou Chen

"Onde ela está?" Huatli sussurrou, vasculhando o horizonte da cidade. Havia mais um ancião para responder ao chamado de Huatli. A guerreira-poeta andava pelo deck de observação, ousando manter a esperança elevada em seu coração. Os outros anciões — Zetalpa, Nezahal, Tetzimoc e Ghalta — haviam respondido ao seu chamado, saltando para proteger Orazca. Um ancião estava faltando.

Zacama.

Ela fora convertida? Estava morta? Um clamor vindo do portão abaixo atraiu a atenção de Huatli: Zetalpa e Etali, emaranhados em um combate vicioso, separaram-se por um momento. Zetalpa voou de volta para o céu, suas grandes asas fustigando o templo. Ela rugiu, seu sangue caindo como chuva enquanto subia, recuperando-se do embate terrível. Etali sangrava óleo escuro, cambaleando, mas não mortalmente ferido, agarrando-se aos degraus. Um impasse.

Huatli correu, descendo os trezentos degraus até o portão no limite de seu equilíbrio, escorregando perto do fim na pedra lisa pela chuva, mas sem cair.

"Inti!" ela gritou acima do som da batalha desesperada. "Inti, onde você está?"

"Aqui, poeta!" Mavren respondeu. Um Mavren manchado de sangue e óleo mancou em direção a Huatli, arrastando um Inti ferido com ele. Ele carregou o homem maior alguns passos para longe da linha, saiu de debaixo de seu braço e o deitou, gentilmente. "Onde ele se machucou?" Huatli perguntou, deslizando para o lado de Inti. Seu primo gemia, seus olhos fechados e tremulantes. Como Mavren, ele estava manchado de sangue, óleo e cinzas.

Huatli examinou Inti, limpando o sangue, as cinzas e o óleo de seu rosto. Nada cortado, nada daquilo era dele. Gentilmente, ela pousou a cabeça dele — nada que pudesse fazer por ele agora.

"Huatli!" Um grito vindo da linha — Temilo, chamando-a. Ele empunhava uma lança. Ataduras envolviam seus antebraços. Ele era, exceto pela voz, indistinguível dos outros soldados vivos na linha — Império do Sol ou Legião, todos estavam manchados de cinzas e suor, envoltos em bandagens esfarrapadas, exaustos.

Huatli cruzou o pátio e juntou-se a Temilo e sua companhia na linha. Mavren a seguiu.

"Olhe", gritou Temilo, apontando para baixo nos degraus, em direção a Etali e às ruas de Orazca além.

Os Phyrexianos estavam em retirada, rolando degraus abaixo, uma avalanche de metal e carne debandada sem direção ou liderança. Eles fluíam ao redor de Etali, que estava de costas para Huatli e sua companhia. Óleo escuro caía das feridas do ancião convertido. Sua barbatana dorsal estava rasgada, desfiada pelas garras de Zetalpa, espinhas rachadas e quebradas pelo ataque da outra anciã. Calor residual emanava de Etali a cada respiração, o cheiro fedorento de relâmpagos e ozônio, rançoso, ácido. A grande tempestade encurralada por uma máquina estrangeira, reduzida a uma arma descartável. Huatli poderia chorar.

Uma grande forma moveu-se nas ruas escuras de Orazca abaixo. Uma forma poderosa tão grande que Huatli a princípio pensou que a própria terra estava se erguendo, como se um terremoto estivesse deslocando uma montanha. As forças Phyrexianas que fluíam pelo templo estremeceram em resposta, as fileiras da frente apressando-se para parar e mudar de direção enquanto o meio e a retaguarda pressionavam, ainda sem ver o perigo diante deles.

Zacama, a última e maior dos anciões, surgiu das sombras, suas três cabeças urrando um rugido tritonal. As fileiras da frente do exército Phyrexiano se desintegraram, o metal brilhando como a luz do dia enquanto o som titânico as atingia, subindo pelos flancos do Templo Alado como uma onda quebrando na praia. Huatli gritou para sua companhia se jogar no chão. Eles o fizeram, e um batimento cardíaco depois a onda de calor que seguiu o som do rugido explodiu pelo portão. Huatli cobriu a cabeça com os braços e gritou, uma reação primordial ao som avassalador, ao calor abrasador, ao templo trêmulo — o som do fim, e o plano negando o fim.

A onda passou, e Huatli viveu. Ela se levantou e ajudou os lanceiros de cada lado a se erguerem. Juntos, olharam pelo portal para ver o resultado da entrada da grande anciã.

Zacama tomou o primeiro terraço, a cabeça principal ignorando as forças Phyrexianas em debandada enquanto suas outras cabeças davam botes e rugiam para eles. Nenhuma das forças convertidas tentou atacar Zacama. Apenas aqueles monstros brancos e pálidos da força de invasão principal tentaram derrubá-la, abrindo caminho entre seus camaradas em fuga para se lançarem contra os calcanhares de Zacama. A grande anciã caminhou pelas forças Phyrexianas sem preocupação, como se caminhasse por grama alta, enquanto subia o templo em direção ao Etali convertido. Ele se baixou em uma posição de prontidão, relâmpagos faíscando e zumbindo em sua barbatana quebrada.

A cabeça principal de Zacama abriu a boca, uma bocarra bocejante repleta de dentes em forma de adaga do tamanho de um humano, e inspirou.

"Abaixem-se!" gritou Huatli.

Zacama rugiu novamente, liberando outra onda de calor e som pelo flanco do templo em direção a Etali. A fachada dourada do Templo Alado derreteu-se instantaneamente diante dela, revelando um leque de pedra escura por baixo. Etali cambaleou, o endosqueleto de metal exposto superaquecendo, retorcendo-se, brilhando e cuspindo enquanto a força pura do urro de Zacama o fustigava. Ele caiu sobre um joelho, apoiando-se com um de seus braços de navalha para impedir qualquer queda adicional, e ergueu o outro em defesa.

Zacama mordeu o braço de Etali com sua cabeça principal e o arrancou com um único movimento rápido. Etali lutou para se levantar, mas as outras duas cabeças de Zacama lançaram-se à frente, prendendo o ancião convertido ao chão.

Por um momento, Etali parou de lutar. Zacama o mantinha firme, preso, submetido. Sua cabeça principal pairou perto da de Etali e farejou, inalando o cheiro de seu primo convertido. Huatli perguntou-se o que os dois trocaram — seria reconhecimento? Seria uma pergunta lamentosa — ou furiosa?

Zacama avançou com sua cabeça principal e mordeu o pescoço de Etali. Etali estremeceu, mas não rugiu nem lutou, enquanto Zacama arrancava sua cabeça do corpo e a arremessava na cidade abaixo. O corpo de Etali deu um solavanco, em espasmos, e depois aquietou-se.

Zacama ergueu-se, triunfante. O alvorecer surgiu atrás dela. Suas duas cabeças menores rugiram sua vitória, o fôlego fumegando no ar matinal. Os outros dinossauros anciões gritaram em resposta, e foram acompanhados por um coro ressonante, por toda a cidade, das hostes de quetzacamas que os seguiam.

Huatli levantou-se. Enquanto as outras cabeças de Zacama urravam sua vitória, sua cabeça principal virou-se para olhar para ela. Huatli levantou a mão para reconhecer a anciã.

Zacama farejou. Uma palavra, um pensamento, um sentimento de gratidão externo a Huatli, mas familiar para ela. Falar com um ancião era dirigir-se a algo elemental; falar com Zacama era engajar-se com a própria alma do plano, e ainda assim Huatli só conseguia pensar em uma verdade calorosa, quase impossível de considerar.

Eu não menti para ela.

Zacama virou-se e desceu o templo. A terra tremeu.

A cortina escura de fumaça, cinzas e o furacão vermelho furioso fora rasgada e perfurada. O sol estava irrompendo. Orazca acolheu a luz da manhã, e a cidade brilhou dourada através do óleo. O alvorecer havia chegado: o dia, embora ainda não vencido, estava aqui.

Innistrad: Noite de Jogos em Família

Meu caríssimo irmão —

Como eu gostaria que você me visitasse aqui em Engelturm! Os terrenos são adoráveis, e os anjos que outrora reivindicaram este lugar deixaram uma variedade surpreendente de ferramentas voltadas para a destruição e o desmonte dos mortos. Em sua pressa para desfazer as obras de sua espécie, querido irmão, eles se tornaram especialistas em retalhar skaabs. Acho que você se beneficiaria ao visitar suas oficinas. E, é claro, os terrenos estão devidamente profanos, após sua longa ausência e a ocupação de tantas coisas desagradáveis. Sério, você acharia isso muito relaxante. Eu certamente acho.

Eu sei que fere seu orgulho o fato de eu não ter escolhido me estabelecer em Havengul mesmo depois de deixar minha amada Thraben para trás. Como deve doer, ter sua irmã mais amada tão próxima e, ainda assim, recusando-se a entrar nos portões de sua cidade estéril e industrial! Mas não tema, querido irmão, pois permaneço perto o suficiente para você visitar, se você não colocasse as necessidades de sua "pesquisa" acima das de sua única família sobrevivente.

Se você já não tivesse exigido que eu desse descanso aos nossos pais, eles certamente estariam cambaleando até aí para repreendê-lo agora, seu infeliz e sem inspiração arremedo de invocador de zumbis. O que você faz não passa de uma pálida imitação da minha arte e nunca passará do nível da ciência simples para o de inspiração imponente.

Aqueles galhos brancos no céu da meia-noite foram uma exibição adorável, como relâmpagos em treliça. Isso foi obra sua, irmão? Talvez você tenha encontrado sua verdadeira vocação e possa finalmente deixar os mortos para mim como deve ser.

Eu lhe desejaria felicidades, mas você há muito tempo se isolou de qualquer coisa que não fosse miséria, e por isso desejo apenas resistência. Que você sobreviva o suficiente para ver tudo o que construiu virar pó e apodrecer até o nada, como seu suposto "gênio" um dia deve fazer.

Sua irmã adorada,

Gisa.

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Gisa —

Eu não estou arrependido da escolha de lhe dizer que meu laboratório era pequeno demais para nós dois, muito obrigado, e se você interpretou isso como eu ordenando que você saísse de Havengul inteiramente, isso é problema seu, não meu. Eu nunca pedi para você vir aqui. Eu nunca pedi para você morar comigo. Vá incomodar Jadar. Tenho certeza de que aquele caipira antiquado está ressuscitando algo horrível e monótono com o qual você poderia se envolver, se pedisse a ele muito educadamente. Eu, por outro lado, estou ocupado.

Corpos têm aparecido no estuário ultimamente que desafiam todas as tentativas de costura. Ludevic me deu a grande honra de pesquisar este fenômeno, e eu simplesmente não tenho tempo para suas palhaçadas. Vá brincar com algo morto e me deixe em paz.

Linhas brancas na noite? Não. Aquilo é algum tipo de fenômeno natural, e nada meu. Se o cosmos deseja se rasgar em pedaços, isso é assunto dele, e enquanto permanecer fora do meu laboratório, eu o deixarei em paz. Sugiro que você faça o mesmo.

Geralf.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

Tédio e Gisa Cecani não eram bons companheiros. Oh, eles haviam se encontrado muitas vezes ao longo dos anos, por uma tarde ou um fim de semana, mas esses encontros inevitavelmente terminavam com a população local tentando literalmente dar o fora , enquanto Gisa gargalhava e chamava seus parentes mortos do chão para tornar as coisas mais interessantes.

Thraben tinha ficado entediante depois que todas as pessoas vivas se foram e ela ficou sem ninguém para lhe fazer companhia além de seus amados mortos. Havengul não era muito melhor. Certamente, tinha mais do que sua parte justa de vivos, cada um deles maduro para o túmulo, mas eles estavam tão preocupados com prazeres mesquinhos e ciência boba que mal tinham graça. Até seu próprio irmão, o querido e repugnante Geralf, estava mais interessado em sua pesquisa do que em mantê-la entretida! Ora, ela havia concordado com uma rodada de sua NecroGuerra podre, regras e tudo, e ainda assim ele permaneceu em sua mesa de desenho, deixando-a se divertir sozinha.

O Engelturm era divertido. Ver suas queridas criações profanarem as obras dos anjos era encantador, e tornava-se divertido novamente a cada amanhecer, enquanto o sol lutava para purificar o que ela havia sujado durante a noite. Nenhum dos vampiros locais a incomodava, por medo de Jeleva, e Jeleva não estava disposta a chegar perto dela desde que um único encontro casual deixou a maga morta-viva com a nítida impressão de que devorar a mente de Gisa de alguma forma danificaria a sua própria.

Como se qualquer coisa pudesse ser algo além de melhorada pela influência de Gisa Cecani! Ela sentou-se na borda de um muro em ruínas, deixando uma cobra morta-viva deslizar entre seus dedos, descamando pele e escamas a cada movimento, e esperou que algo acontecesse. Muito parecido com um pássaro carniceiro, ela descobriu que, se esperasse tempo suficiente, algo sempre aconteceria, e então ela poderia acontecer com o que quer que fosse.

A paciência era muitas vezes sua própria recompensa. Um pequeno grupo de figuras bípede saiu do Rio Silburlind, suas peles brilhando em prata à luz da tarde. Gisa levantou-se, largando sua cobra, e aproximou-se para olhar melhor. A prata não era um artefato do rio; era a luz refletida em placas de metal duro e serrilhado, como se aquelas pessoas pertencessem ao seu irmão.

Gisa animou-se. Talvez seu irmão estivesse aceitando a oferta de um jogo, afinal!

Mas as figuras caminhavam com passos firmes, em vez de cambalear, e enquanto ela observava, uma delas sacou uma espada que brilhava com algum tipo de substância cintilante e oleosa, cortando um de seus doces e inocentes zumbis limpamente ao meio.

Arte de: Denis Zhbankov

Gisa abriu a boca em um choque furioso. Geralf era quem insistia que eles jogassem por regras estúpidas, não ela! E as regras dele incluíam tanto enfrentar-se em um local e horário predeterminados — uma regra que ela estava disposta a ignorar em troca da oportunidade de jogar — e uma proibição contra espadas mágicas!

Espadas que brilhavam com arco-íris tóxicos e podiam fender um zumbi com aquela facilidade definitivamente contavam como mágicas. Gisa franziu a testa, assobiando uma nota longa e baixa. Ao seu redor, os mortos que ela havia ressuscitado para sua própria diversão voltaram-se para o grupo na margem. Ela assobiou novamente e eles começaram o avanço.

As pessoas metálicas — que afinal não eram skaabs, a julgar pela forma como sangravam óleo negro, não viscus vitae, quando suas criações obedientes os rasgaram membro por membro — lutaram brilhantemente e com força, mas no fim, estavam em desvantagem numérica de dezenas para um.

Gisa esperou até que tivessem parado até de estremecer ao serem cutucados, então escorregou de seu muro e caminhou lenta e deliberadamente em direção ao estuário. "Vocês não foram convidados para jogar conosco", disse ela a um dos cadáveres mais intactos, encarando seus olhos abertos e vazios. "Mas agora você pode se juntar ao jogo, se quiser."

Ela assobiou, desta vez mais agudamente, e observou enquanto o cadáver se empurrava, balançando, do chão para se juntar à horda restante. "Muito bem", disse ela, e virou-se.

O som de algo caindo a fez virar-se e franzir a testa. O zumbi que ela acabara de invocar estava estirado na lama, imóvel. Gisa assobiou, buscando a sensação quase palpável de morte que pairava no ar ao seu redor, e não encontrou nenhum traço da força motivadora de sua invocação de zumbis dentro do cadáver. Não era um zumbi. Era apenas um corpo, apenas carne.

Ela o chamou novamente, e novamente ele se ergueu, e novamente caiu assim que ela permitiu que sua atenção se desviasse.

Com os olhos um pouco arregalados e o coração batendo um pouco rápido, Gisa aproximou-se do cadáver, cutucando-o com a ponta da bota. Ele não reagiu. Isso nunca havia acontecido com ela antes.

Assobiando para que seus zumbis a seguissem, ela recuou para dentro dos muros do Engelturm. Era hora de chamar um pássaro mensageiro.

Era hora de falar com seu irmão.

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Caro moedor de carne —

Sua mensagem mais recente foi muito indesejada, e começo a me arrepender de ter me mudado para tão perto de você. Você foi o responsável pelas abominações ridículas que cambalearam do estuário esta tarde para arruinar meu lindo dia? O que quer que você tenha feito com esses cadáveres é vil e inapropriado. Eles se recusam a responder adequadamente a uma boa e honesta invocação de zumbis, insistindo em desmoronar em montes sem vida assim que viro as costas.

Você fez algo que eu teria pensado ser impossível, querido irmão. Você arruinou os mortos-vivos. Não faça isso de novo.

(Sem) amor,

Gisa.

PS: A espada foi um truque sujo. Você é quem disse nada de espadas, e agora dá espadas cobertas de óleo para seus terríveis erros da ciência atacarem minhas criaturas? Má conduta, Geralf. Má conduta.

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Cara Gisa —

NÃO DEIXE O ÓLEO TOCAR EM VOCÊ! Eu sei que você é esperta, minha irmã, para ter vivido tanto tempo. O óleo que você viu é um contágio carregado pelos corpos que saíram do estuário. Um antigo associado de Ludevic veio nos visitar recentemente. Ele era um homem muito estranho, mesmo para os padrões locais, com cabelos brancos e um modo frio. Os dois lutaram, longamente, antes de o homem partir. Ludevic me falou sobre esses invasores logo depois, e disse que são devidamente chamados de "Phyrexianos". (Sem relação, ele decidiu me confiar a defesa de Havengul enquanto visita um ex-aluno em Selhoff.)

Essas criaturas não são criação minha. Elas pertencem a Phyrexia e buscam destruir tudo o que torna Innistrad o que ela é. Elas desejam transformar nosso glorioso lar em mais um posto avançado em sua longa estrada para o império. Agora que chegaram a Havengul, precisaremos encontrar uma maneira de contê-los, ou tudo, até mesmo os mortos, pode ser perdido.

Um ponto a nosso favor: parece que o óleo afeta primeiro a mente viva e, portanto, não pode infectar os mortos ressuscitados de Innistrad, seja zumbi ou skaab. Podemos combater esses Phyrexianos com segurança, quando tão poucos outros podem. Admito que invejo sua habilidade de atraí-los para o seu lado, mesmo que brevemente; não consigo ressuscitar um cadáver que tenha sido contaminado pelo óleo deles, por mais habilmente que eu costure (e estou limitado pela necessidade de evitar minha própria infecção).

Geralf.

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Gisa olhou entre a carta e o estuário, que fervilhava e pulsava com a massa de corpos que agora emergia dele. Esses "Phyrexianos" vinham em todas as formas e tamanhos, de humanos a lobisomens transformados e outros horrores encantadores. Eles seriam um excelente oponente.

Embora seus números imprevisíveis significassem que não poderiam ser seu oponente sozinha. Rapidamente, ela anotou sua resposta e a amarrou na perna da coisa~ mensageira de Geralf, que ele havia enviado de volta no lugar de seu bom, honesto e morto-vivo corvo.

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Irmão —

Se alguém vai destruir Innistrad, seremos nós. Proponho uma NecroGuerra, nós unidos contra Phyrexia, o vencedor leva tudo. Se eu vencer, fico com Havengul. Se você vencer, o que não vai acontecer, já que finalmente admitiu meu poder superior, eu lhe concederei o Engelturm, enquanto retorno para Gavônia.

Vamos causar algum caos.

Sua irmã,

Gisa.

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Gisa —

Está aceito.

Geralf.

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A primeira salva de Geralf na luta foi mais ou menos o que Gisa esperava. Uma onda de criações terríveis enxameou sobre os muros de Havengul para encontrar os Phyrexianos entre o rio e a cidade. Muitos deles tinham três ou mais braços; alguns tinham três ou mais cabeças . Eram horrores além da compreensão e colidiram com a crescente onda de Phyrexianos sem hesitação.

Observando dos muros do Engelturm, Gisa assentiu. Os Phyrexianos estavam focando suas atenções na cidade, em geral, deixando-a em paz. Isso mudaria assim que a batalha começasse de verdade, ela tinha certeza, mas por enquanto, ela podia observar.

Seu irmão era criativo, ela tinha que admitir. Tartarugas de dorso rochoso voavam sobre os Phyrexianos com asas de águia, apenas para cair do céu e explodir ao atingir o solo, cravejando os Phyrexianos com estilhaços e lodo que corroía sua carne picada de óleo. Ainda assim, seus brutamontes foram rapidamente derrubados e, embora mostrasse uma quantidade notável de criatividade — para ele — nas amalgamações que lançava contra o exército adversário, ele ainda estava muito apegado à ideia da forma humana. Sua imaginação era seu limite, e Geralf sempre foi profundamente limitado.

Gisa suspirou. Hora de ela se envolver. Bem, não seria um jogo se ela não pudesse jogar. O ar estava tão espesso com as mortes residuais de milhares em Innistrad que ela podia senti-lo no fundo da língua toda vez que inspirava, iluminando sua mente como um fogo de artifício explodindo no céu, e então ela inspirou profundamente, puxando o máximo daquela morte para dentro de si que conseguia suportar, até sentir que estava prestes a explodir.

Então ela assobiou. Foi uma nota longa e baixa, e as poucas coisas vivas perto o suficiente para ouvi-la estremeceram, sentindo como se seus ossos quisessem se libertar e se juntar à colheita interminável dos mortos. Seus esqueletos estremeceram e depois se acalmaram, não compelidos, e no fundo do lodo do estuário, bem longe dos muros da cidade, algo se moveu.

Gisa parou de assobiar e gargalhou em alegria maníaca enquanto o draco-da-lua morto-vivo que ela havia chamado da lama se erguia, majestoso, no céu. Suas asas estavam cheias de buracos, mas restava membrana coriácea suficiente para deixá-lo pegar e escalar o ar, subindo cada vez mais.

Zumbis mais comuns se retiraram da lama e cambalearam em direção às forças Phyrexianas, gemendo e lamentando seu desafio. O draco-da-lua voou acima deles e, enquanto voava, rugiu.

Vamos ver Geralf superar isso .

Arte de: Alexey Kruglov

Gisa sentou-se presunçosamente para assistir à carnificina, apenas para se empertigar novamente quando outro draco-da-lua surgiu da massa Phyrexiana, este cravejado de tubos e pingando mais daquele maldito óleo. Após o aviso de Geralf, ela se manteve bem longe daquela substância. Como ele prometera, não incomodava seus queridos falecidos, mas ainda assim chegava a todos os lugares e obscurecia os detalhes mais sutis da luta. Talvez mais importante, as criaturas que mostravam traços dele não se importavam mais com a autopreservação, estando tão dispostas a morrer por Phyrexia quanto seus zumbis estavam a morrer uma segunda vez por ela.

Talvez fosse por isso que ela não conseguia manter o controle sobre os brinquedos Phyrexianos. Talvez fossem sua própria forma de mortos-vivos e, como os fluidos desagradáveis que Geralf e seus colegas Costureiros usavam para reanimar seus skaabs, o óleo significava que ela não podia trazê-los de volta uma segunda vez. O que quer que fossem, era melhor que skaabs. Um skaab quebrado estava quebrado para sempre, e nenhuma quantidade de chamados e lisonjas o faria se erguer novamente. Pelo menos um Phyrexiano quebrado poderia ter utilidade, mesmo que desse mais trabalho do que valia a pena.

Os dracos-da-lua chocaram-se um contra o outro enquanto as linhas de Phyrexianos e zumbis colidiam. O draco-da-lua deles tinha dentes de metal irregulares e os usou para abrir a barriga de sua criação, despejando suas entranhas podres sobre os combatentes abaixo em um emaranhado úmido e viscoso. A súbita perda de massa concedeu ao draco-da-lua de Gisa um impulso, permitindo que ele subisse vários pés acima de seu oponente e descesse de cima, com as mandíbulas prendendo-se no pescoço do outro draco logo abaixo da cabeça.

O draco-da-lua Phyrexiano tentou se livrar dele, mas a altura superior do draco de Gisa o deixou em vantagem e, logo depois, ambos caíram no chão, onde seu draco arrancou a cabeça do outro limpamente antes de avançar para o combate em suas próprias quatro patas, com a cauda fustigando. Suas asas estavam destruídas além de qualquer reparo, mas ela forçara as forças de Phyrexia a gastar parte de sua própria defesa aérea; o fato de não terem usado o draco-da-lua contra as tartarugas voadoras de Geralf provavelmente significava que planejavam algo com ele, e agora ela havia estragado isso.

Presunçosa, Gisa dirigiu seus zumbis mais profundamente para as forças deles, vendo cada um que perdia como um custo razoável pelos membros que estavam arrancando de seus oponentes. Phyrexianos decapitados tendiam a permanecer caídos, notou ela, a menos que tivessem movido suas mentes para outras partes de seu corpo; alguns deles tinham rostos incrustados em seus peitos, sugerindo um arranjo de órgãos muito mais aerodinâmico. Para esses, ela assobiou para seus zumbis mirarem onde ela supunha que os nervos de controle estariam, visando incapacitar tanto quanto matar.

Os Phyrexianos pareciam ter tão pouca preocupação com seus caídos quanto seus zumbis; corpos, uma vez derrubados, tendiam a permanecer assim. Isso era bom. Eles tentavam, ocasionalmente, arrastar os cadáveres mais intactos para que pudessem construir novos Phyrexianos a partir dos restos, como se aspirassem ocupar o lugar de seu irmão. Isso era ruim, e travesso, e não devia ser permitido.

E mesmo enquanto tudo isso acontecia, ainda mais Phyrexianos surgiam do estuário. Enquanto ela franzia a testa para eles, uma das pipas-marinhas ressuscitadas que ela usava como sentinelas ao redor do Engelturm soltou um aviso alto e furioso, e ela se virou para olhar naquela direção.

Mais Phyrexianos se aproximavam por terra, e estes pareciam menos propensos a ignorar sua fortaleza do que os que estavam entre o estuário e a cidade. O caminho atual desta segunda força os levaria diretamente para além do Engelturm.

"Eu disse três vias, não quatro", disse ela furiosamente, levantando-se. "Phyrexianos ruins! Trapaceiros!"

E avante marchava o exército invasor.

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Dentro dos muros de Havengul, Geralf costurava como nunca havia costurado antes, batendo corpos sobre as mesas, movendo-se entre eles com uma velocidade que falava de montagem em vez de arte. Suas mãos enluvadas tremiam enquanto ele virava um corpo particularmente surrado, procurando pelos sinais reveladores do óleo Phyrexiano. Aqui, privadamente, onde ela nunca saberia, ele podia admitir que a arte de Gisa era superior à dele neste único e solitário aspecto: ela não precisava sujar as mãos se não quisesse. E oh, ela frequentemente queria, mas este jogo não arriscava a vida dela como arriscava a dele. Seus skaabs estavam sob ordens estritas para evitar cadáveres contaminados, mas havia um limite para o que um cérebro apodrecido podia fazer para verificar a condição das coisas que lhe traziam. A maior parte do trabalho ainda era sua.

Pelo menos havia muitos cadáveres para serem encontrados. Mesmo quando um soldado Phyrexiano matava alguém, o corpo nem sempre estava contaminado, e seus skaabs traziam-lhe matéria-prima quase mais rápido do que ele conseguia costurar. A montagem dos cadáveres era a parte mais longa do processo, já que ele não podia confiar as costuras a mais ninguém, e todos os seus assistentes vivos estavam~ indisponíveis, a essa altura.

Assim que os corpos estivessem devidamente montados, ele poderia anexar as placas de ligação aos elementos-chave de sua criação, evitando que os doadores individuais do corpo se rasgassem ao serem chamados de volta à vida, e começar a forçar o viscus vitae através da tubulação que ele havia instalado anteriormente para drenar o sangue e o ichor das veias existentes.

Enquanto isso acontecia, ele já estava se movendo para a próxima mesa ou mesas na linha, pegando a agulha ou começando a entoar o vox quietus que despertaria a criatura. Ele não tinha tempo para a instrução e educação normais que se seguiriam; em vez disso, assim que seu skaab renascido se erguia, ainda confuso e inocente do mundo ao seu redor, ele seria armado, equipado com as informações básicas sobre o que era um Phyrexiano e como destruí-lo, e enviado para defender a cidade.

O que restava dela. Os Phyrexianos já deviam ter rompido os portões agora, e os gritos vindos de fora do laboratório tornavam-se menos frequentes, fazendo-o suspeitar que a população de Havengul estava diminuindo enquanto ele trabalhava. Enquanto o laboratório permanecesse seguro, seu trabalho continuaria e, graças ao gênio de Ludevic, eles tinham tantos túneis e saídas secretas para enviar os skaabs que os Phyrexianos nunca descobririam onde ele estava.

Ou assim ele esperava.

Ele estava se movendo para outra mesa quando as portas do maior daqueles túneis ocultos se abriram e um grupo dos skaabs que ele havia designado para coletar matéria-prima entrou, meio carregando e meio arrastando uma fera enorme. Geralf piscou.

"Coloquem-na na laje grande ", disse ele.

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Gisa estava dirigindo outro grupo de zumbis para afastar os Phyrexianos dos muros do Engelturm quando um rugido retumbante ecoou da direção da cidade. Ela se virou. Os Phyrexianos também. Seus zumbis, sendo muito mais difíceis de distrair, continuaram atacando, fazendo um avanço sólido sobre o inimigo.

Uma fera imponente saltou o muro de Havengul, suas galhadas projetando-se para cima de seu crânio caprino espesso como mãos estendidas cheias de musgo e abas de pele coriácea, suas pernas longas e resistentes aumentadas com pistões e o que parecia ser um urso morto inteiro.

Sem asas desta vez, mas ainda assim, era razoavelmente impressionante, para um dos esforços de seu irmão. Gisa riu e bateu palmas enquanto o colosso descomunal começava a pisotear os Phyrexianos. Onde os skaabs de Geralf tinham conseguido encontrar aquela coisa? Parecia uma das criaturas que às vezes eram encontradas nas florestas onde a Gavônia faz fronteira com a floresta de Kessig. Ela nunca tinha visto uma tão perto do mar.

Ele devia estar ficando sem matéria-prima se estava enviando seus grupos de busca tão longe da cidade. Bem. Ela não podia permitir que um reles remendador de carne tivesse o maior brinquedo no campo de batalha. Fincando os calcanhares na pedra sob seus pés, Gisa buscou profundamente na energia de uma Innistrad ferida, puxando a morte para dentro de si até que suas veias cantassem e seu sangue fosse fogo, até que pudesse sentir cada coisa morta e agonizante por quilômetros em todas as direções. Assim, armada contra o mundo dos vivos, ela começou a chamar.

Não um assobio desta vez: uma canção a plenos pulmões, bradando suas exigências para o espaço além do túmulo. Ela buscou e buscou, procurando o maior alvo que pudesse encontrar, e seu poder de busca roçou em algo terrível, vasto e quitinoso, enterrado na lama no fundo do estuário de Silburlind. Estava lá há algum tempo, trazido por correntes poderosas, mas estava fresco o suficiente para responder quando ela cantou, agitando-se sob a água.

Rugindo com fúria e estalando todos os nove conjuntos de garras terríveis, o novo e terrível brinquedo de Gisa surgiu do fundo do estuário e começou a avançar pesadamente em direção à terra em fileira após fileira de pernas afiadas e serrilhadas. Combinava as garras de um grande caranguejo, os tentáculos de um kraken e o corpo quitinoso de uma lagosta em uma configuração horrível nunca destinada a ser vista acima das ondas. Os Phyrexianos que ainda não estavam engajados com a grande fera de Geralf voltaram-se para esta nova ameaça, reconhecendo-a como um possível fim para a batalha se não fosse abatida. Os sobreviventes que tentavam romper o Engelturm afastaram-se dos zumbis ainda agressivos e moveram-se para se juntar ao resto de sua companhia, formando uma força maior entre a criatura e Havengul.

Ofegante e cansada do esforço, Gisa recostou-se em seu assento, rindo enquanto observava o exército Phyrexiano colidir contra seu colosso blindado. Eles esfaqueavam, cortavam e rasgavam, brandindo aquelas espadas brilhantes e golpeando com garras ou caudas de escorpião que pingavam óleo de suas pontas, e seu novo brinquedo favorito os partia ao meio, com as garras ceifando como tesouras através dos torsos Phyrexianos. Não tinha a precisão para mirar no pescoço todas as vezes, mas seus zumbis estavam lá, fazendo a limpeza, decapitando e desmontando conforme a criatura avançava.

As forças no muro da cidade estavam golpeando as pernas do colosso de Geralf e, com um rugido final que abalou a terra, ele caiu, colidindo com o chão e esmagando vários Phyrexianos no processo. Seus companheiros tentaram em vão libertá-los, então moveram-se para se juntar ao ataque contra a criatura de Gisa.

A terrível fera marinha continuou a parti-los ao meio, mas suas pernas, blindadas como eram, continuavam sendo seu ponto mais fraco. Eram finas e insuficientes para locomoção em terra, restringindo sua velocidade e abrindo suas articulações para ataques. Os Phyrexianos começaram a retalhar suas pernas.

Gisa parou de rir.

Ela encarou com raiva os Phyrexianos cortando as pernas sob sua criatura. Como o colosso antes dela, ela caiu, e seu tamanho era tal que o topo de sua cabeça destruiu uma parte dos muros da cidade. Gisa, embora exausta, assobiou para outro enxame de zumbis mais comuns, designando-os para defender sua própria fortaleza.

Talvez a regra boba de Geralf sobre nunca atacar ninguém em seu quartel-general não fosse tão boba afinal.

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Gisa —

Irmã amada. Este novo e terrível oponente se move rápido demais para os nossos recursos, a menos que os unamos. Enquanto minha ciência destrói cadáveres para o seu uso, assim como Phyrexia os destrói para o meu, ambos sabemos bem que posso fazer uso de corpos que você já descartou, mas apenas se você rescindir sua reivindicação sobre eles.

Meus skaabs estão prontos para recuperar nossas duas maiores conquistas dos muros da cidade, e acredito que podem fazê-lo sem sofrer perdas inaceitáveis, se ambos focarmos nossas tropas nos Phyrexianos daquela área. Apenas libere sua lagosta gigante sob meus cuidados e poderemos virar a maré da batalha a nosso favor.

Geralf.

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Gisa, que estivera remoendo a perda de sua fera, decidiu enfurecer-se em vez disso. Ela jogou a carta de Geralf com fúria por cima da borda do muro, direto para a batalha abaixo. Ela despedaçou o skaab que ele usara para entregá-la e, quando isso não foi suficiente, lançou uma série de pedras atrás da carta, atirando-as com toda a força que podia.

Infelizmente, e ao contrário de quando eram crianças, seu acesso de raiva não resultou em nada além de deixar sua garganta esfolada, quebrar um perfeitamente bom mensageiro e atrair a atenção de vários Phyrexianos. Ela assobiou para um grupo de zumbis próximos atacá-los antes que pudessem começar a escalar os muros, então pegou seu kit de cartas, que mantivera à mão para dar uma resposta graciosa à inevitável rendição de Geralf.

Melhor deixá-lo consertar um brinquedo quebrado do que ficar sem cadáveres e sem meio de escapar das forças Phyrexianas. O que quer que fossem, era algo que ela não tinha interesse em se tornar. Quando ela morresse, iria se erguer do túmulo do jeito certo , como um Cecani sempre fazia.

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Querido e amado irmão, essa abominação que gargareja cartilagem —

Minha lagosta está muito quebrada. Suponho que você não possa piorar as coisas. Se suas criações conseguirem arrastá-la de volta para o seu laboratório, eu a liberarei. Mas você vai me dever uma!

Gisa.

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Geralf não se deu ao trabalho de responder antes de colocar seus skaabs para recuperar os corpos de ambos os monstros. Eles os arrastaram sobre o muro, esmagando várias casas, e pelas ruas até uma praça geralmente usada para mercados e reuniões cívicas.

Arte de: Igor Kieryluk

O problema com este plano era que o laboratório nunca conteria ambas as criaturas. Já havia sido uma luta colocar o colosso sozinho para dentro e depois para fora novamente. Para realizar este ato mais épico da ciência, ele precisaria se expor à possibilidade de ataque.

Várias de suas criações maiores já haviam transportado o equipamento de que ele precisaria para fora do laboratório, enquanto um grupo de caçadores limpava os Phyrexianos próximos — que incluíam, ele notara com pesar, alguns habitantes locais que ele andara observando para eventual aquisição, uma vez que Ludevic aprovasse a redução da população. Bem, estavam arruinados agora, junto com tantos outros. Mas nada disso importaria quando sua criação se erguesse.

Uma vez que conseguisse isso, ele seria oficialmente reconhecido como o maior costureiro que já viveu. Pegando a furadeira de que precisaria para criar costuras através da armadura quitinosa da fera, ele sorriu para si mesmo e começou a trabalhar.

Esta seria sua obra-prima, sua maior e mais terrível criação, e quando ela se erguesse, toda Innistrad saberia seu nome.

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Gisa assobiou freneticamente, assumindo o controle de Phyrexianos caídos e usando-os para espancar seus antigos aliados até a morte antes de libertá-los e procurar por cadáveres mais honestos. Eles estavam quase sem nada. Os mortos aparentemente inesgotáveis de Nefália estavam perto de serem, bem, esgotados. Logo, seu exército seria quebrado e, embora as criações de Geralf estivessem fazendo o melhor para manter a linha, seu irmão inútil parara de acrescentar qualquer coisa à luta assim que ela liberara sua fera quebrada. Envolvido em seu próprio pequeno experimento novamente, sem dúvida, e preocupado demais para se importar com as necessidades de Gisa , os problemas de Gisa , o fato de que Gisa estava prestes a ser atropelada por Phyrexianos —

Um rugido familiar que abalou a terra surgiu por trás dos muros de Havengul, sublinhado por um som borbulhante profundo, como se estivesse subindo através de lama espessa. Gisa tirou os olhos da luta por tempo suficiente para se virar e ver a fusão indescritível de colosso e pesadelo aquático enquanto ela surgia da cidade, com as garras estalando e as galhadas prontas para espetar.

Suas novas pernas eram mais longas, e ela saltou facilmente sobre os muros enquanto investia contra a massa Phyrexiana, as garras afiadas cortando Phyrexianos em dois, deixando seus corpos espalhados pelo chão. Seus cascos prontamente os esmagaram em polpa, deixando-os quebrados demais para se levantarem novamente mesmo antes de Gisa assobiar para seus zumbis voltarem à briga para aliviá-los do fardo de terem cabeças.

Os Phyrexianos em seus muros apressaram-se para tentar virar a maré, tarde demais. Gisa assobiou e Geralf riu, observando as últimas forças de ataque enquanto caíam, gritando, diante da maré dos mortos.

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A fogueira tinha sido ideia de Gisa, é claro. Skaabs eram notoriamente inflamáveis, enquanto seus zumbis só queimavam tão rápido quanto pessoas vivas. Ainda assim, eles tinham que fazer algo sobre os Phyrexianos mortos, já que eram inúteis para todos os propósitos necromânticos decentes. Os irmãos sentaram-se no muro da cidade de Havengul, observando suas criações alimentarem o fogo, aproveitando a paz momentânea.

E então Geralf teve que ir e estragar tudo.

"Sentirei sua falta, irmã."

"Sentirá minha falta? Por que você sentiria minha falta?"

Geralf deu de ombros, com os olhos no fogo. "Ora, porque você está retornando para Gavônia, é claro. Os termos do nosso acordo, como você deve se lembrar. Se eu vencesse, você me daria o Engelturm e iria embora."

"Você não poderia ter vencido se eu não tivesse lhe dado o meu brinquedo! Isso não conta como uma vitória. Não vou a lugar nenhum."

"Seu brinquedo, que era tão vital que desmoronou assim que a luta terminou? Por favor."

Mesmo com pernas novas, a grande fera não estava equipada para existir fora da água e desmoronou pouco depois da batalha, quebrada além até mesmo da habilidade de reparo de Geralf.

"Nenhum de nós venceu", retrucou Gisa.

Os dois continuaram a discutir enquanto os sobreviventes de Havengul se encolhiam em suas casas, exércitos de mortos-vivos posicionando-se na ampla planície fora do estuário, prontos para retomar sua luta eterna.

Algumas coisas estão além até mesmo da capacidade de Phyrexia de mudar.

Eldraine: As Aventuras de Rúnquel, Mestre do Amor

Rúnquel entrou fanfarreando na clareira, com os bolsos cheios de pedras e pó mágico. Ele estava pronto para uma briga, mas seus amigos estavam desarmados e de bom humor. Alegremente, eles mostraram-lhe um trono que haviam construído com rochas musgosas e folhas vermelho-douradas. Orla lançou pétalas de rosa em sua direção, e Fifer usava um coelho morto na cabeça — um belo chapéu novo digno de uma coroação. Rúnquel deu um grito de alegria. Dias de tormento haviam valido a pena! Eles estavam prestes a torná-lo seu rei. Apenas Mags estava de lado, mordendo o lábio com seus dentes afiados e arrastando o pé descalço pelas folhas caídas.

"Lorde Rúnquel, aproxime-se do trono!" Fifer proclamou com a voz mais formal que conseguiu reunir.

Orla começou a recitação: "Com muito alvoroço, concedemos a você a circunstância de nobreza e o sequencial arauto real~"

"Onde está minha coroa?" Rúnquel latiu com autoridade.

Todos olharam para Mags, que parecia ainda mais irritada.

"Faça sua parte, Mags!" Fifer guinchou.

Rúnquel deu a Mags seu melhor sorriso real. Ele gostava mais dela. Ela era habilidosa com uma faca e tinha asas pretas elegantes, como as de um morcego. Às vezes, eles emboscavam caravanas juntos e, uma vez, fizeram a Besta das Buscas chorar.

Mags franziu a testa. Ela meteu a mão no manto e tirou uma tiara feita de bolotas e cacos de vidro. O coração de Rúnquel bateu um pouco mais rápido. Mags tinha sido a mais resistente às suas exigências de liderança. Mas talvez ela o amasse, afinal. Devia amar, ou eles ainda estariam se esfaqueando sobre quem seria o rei.

Mags esvoaçou pela clareira e enterrou a tiara na cabeça dele.

"Ai", disse Rúnquel.

Ela lhe deu um sorriso rosnado e uma pequena reverência, o que fez seu coração disparar. Rúnquel alcançou seu trono e acomodou-se sobre as folhas crocantes. Ele olhou para seus súditos e desejou que houvesse mais deles. Mas ele tinha que começar de algum lugar, e três era melhor do que nenhum.

"Como seu governante~" ele começou, mas então Mags sacou sua faca e cortou uma corda escondida nas árvores.

A corda estava presa a uma rede escondida sob as folhas. Instantaneamente, ela o prendeu e o puxou para cima. Ele ficou pendurado como um volume na frente dos outros, que uivavam de rir.

"Você viu a cara dele?" Fifer deu uma risadinha.

"Não acredito que ele caiu nessa", disse Orla. "Você estava certa, Mags."

"Isso foi ideia da Mags?" Rúnquel gritou de dentro da rede.

"Não, eu só queria te esfolar", esclareceu Mags. "Fifer teve que deixar a coisa chique."

Rúnquel não conseguia acreditar no que estava ouvindo. "Por quê?"

"Ninguém quer você aqui", disse Mags.

"Você é mau demais, você é", disse Fifer, ajustando o coelho morto na cabeça.

"Você colocou abelhas na minha boca quando eu estava dormindo", disse Orla.

"Isso é maldade?" Rúnquel protestou. "Mags usa globos oculares em seu estilingue."

"Não os meus olhos", apontou Orla.

"Você costurou minha boca", lembrou-lhe Fifer.

"Você está bem agora", protestou Rúnquel. "Olhe para você, não cala a boca."

"Não queremos você aqui", repetiu Mags. "Você vai embora ou não?"

"Não", disse Rúnquel teimosamente. He virou a cabeça para que ela não visse seu lábio tremer. "Esta é a minha clareira. Eu só deixo vocês ficarem aqui porque sou legal."

As três fadas se amontoaram, sussurrando. Rúnquel se contorceu e tentou ouvir o que diziam.

"Nós te soltamos se você prometer ir embora e nunca mais voltar", disse Orla.

"Tudo bem", mentiu Rúnquel. Ele estava espremido demais na rede para fazer muita coisa além disso.

But assim que Mags soltou a rede, ele voou e deu uma cabeçada nela com sua tiara de vidro e bolota. Mags cambaleou para trás, mas os outros dois pularam nele. Eles rolaram pela clareira em uma briga rasteira e cheia de poeira. Rúnquel mordeu a perna de Orla antes que eles o imobilizassem, e Mags espetou um graveto afiado em sua asa para prendê-lo no chão.

"Não lute, ou isso vai rasgar sua asa", ela avisou.

"Não me diga o que fazer!" Rúnquel uivou, lutando violentamente e golpeando descontroladamente. Mags manteve o graveto no lugar enquanto Orla e Fifer faziam o melhor que podiam para mantê-lo no chão. Finalmente, sem fôlego, Rúnquel parou de lutar.

"Olhe o que você fez", disse Mags, puxando o graveto. A asa de Rúnquel estava em pedaços.

"Ai", disse Rúnquel, tentando bater as asas, mas sua asa doía ainda mais.

Orla e Fifer recuaram, parecendo vagamente arrependidos. Geralmente, quando alguém se machucava, não era permanente. Talvez isso mudasse a forma como se sentiam.

"Posso ficar?" Rúnquel perguntou, esticando a cabeça para inspecionar o estrago.

"Não!" todos os três gritaram.

"Nós não gostamos de você", gritou Fifer.

"Ninguém gosta", disse Mags, arrancando a tiara da cabeça dele.

Rúnquel tentou voar para longe, mas não conseguiu com sua asa agora inútil. Ele saiu da clareira batendo os pés.

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Rúnquel estava de tão mau humor que os pássaros canoros o olhavam feio. Até as borboletas o evitavam enquanto ele caminhava penosamente pela estrada sob um céu estranho e arroxeado.

"Vou esmagar todos vocês", ele gritou para uma borboleta cauda-de-andorinha em fuga.

Rúnquel chegou à estrada de carroças que atravessava as terras limítrofes, o território entre as terras selvagens e o Reino que tanto humanos quanto fadas frequentavam. Rúnquel não passara muito tempo com humanos, mas considerava-se um especialista: se você quisesse amigos, precisava de moedas. He jurou roubar o primeiro humano que visse. Agora que tinha um plano, seu ânimo melhorou.

A torre do relógio da aldeia estava à vista quando ele encontrou seu alvo. Um homem de cabelos brancos com uma barba arrumada e um manto azul estava na Rocha do Herói, na encruzilhada fora da aldeia. Quando Rúnquel subiu a colina, viu um grupo de aldeões reunidos enquanto o homem de cabelos brancos gesticulava para o céu doentio.

"O céu está como um hematoma", berrou o homem. "Vocês não conseguem ver os sinais?"

"Você é um tolo, Chulane", gritou um aldeão. "Volte para seus livros de histórias."

Chulane ergueu uma folha amarela. Parecia haver um símbolo queimado nela, mas Rúnquel estava mais interessado na bolsa de couro no cinto de Chulane.

"Oh, pobre de mim, vejo o sinal do outono", zombou outro aldeão.

"Abram seus olhos!" Chulane implorou a eles. "Algo terrível está prestes a nos acontecer!"

Os anciãos voltaram para a aldeia, mas um jovem pegou uma pedra e a atirou no velho contador de histórias. Logo vários jovens estavam lançando pedras, e Chulane saltou e apressou-se para longe da aldeia. Rúnquel adorava uma boa sessão de lançamento de pedras tanto quanto qualquer um, mas como era improvável que os jovens tivessem moedas, ele seguiu o homem angustiado.

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Rúnquel seguiu Chulane nas sombras, mantendo-se do outro lado dos muros de pedra ao longo da estrada. Ele continuou procurando um lugar adequado para emboscá-lo, mas as pernas longas do homem o ultrapassavam facilmente, e a asa esfarrapada de Rúnquel o mantinha firmemente no chão. Chulane continuava delirando sobre "avisar a rainha" e "Locthwain", com as moedas tilintando alto enquanto ele praticamente corria pela estrada esburacada.

Em pouco tempo, chegaram a uma seção perigosa da estrada conhecida como a Curva do Agoureiro, que dava para uma granja idílica centenas de metros abaixo. Carroças costumavam voar do penhasco em vez de conseguirem fazer a curva acentuada à direita para seguir as curvas em ziguezague vale abaixo.

Quando Chulane parou para apreciar a vista, Rúnquel escalou a encosta pronto para agir. Mas ele avistou o Castelo de Locthwain no vale abaixo, e todos os pensamentos de emboscada foram esquecidos. Embora Rúnquel tivesse ouvido histórias sobre o lugar desde que era criança, este era seu primeiro vislumbre do castelo flutuante, que o lembrava de um navio majestoso sobre um oceano de nuvens. Suas torres graciosas e baluartes maciços brilhavam apesar da penumbra do dia.

Rúnquel podia ver uma procissão real subindo o ziguezague em direção a eles. Cavaleiros em armaduras pretas e douradas escoltavam a carruagem da Rainha Ayara pela estrada traiçoeira. A Rainha Ayara governava a Corte de Locthwain e tinha a reputação de ser feroz e astuta, assim como o próprio Rúnquel. Ela sobrevivera a inúmeros maridos e procurava pretendentes que estivessem à altura de seu porte real e inteligência. Rúnquel observou até que a carruagem, adornada com a heráldica púrpura de Locthwain, chegou ao topo da colina. Embora nunca a tivesse visto, Rúnquel admirava a rainha há muito tempo, e ele se aproximou de Chulane para ver melhor.

"Ah, a rainha se aproxima", disse Chulane. Então, de repente, notando a pequena figura ao seu lado, ele se assustou e agarrou a bolsa em seu cinto. "Ah! Fada! Não toque no meu ouro."

Rúnquel suspirou. Sua curiosidade arruinara o elemento surpresa, mas he ainda tinha um bolso de pó mágico e muito tempo para fazer travessuras depois que o espetáculo passasse. Rúnquel saiu da estrada para dar lugar à carruagem da rainha, mas Chulane pulou na frente dela. Imediatamente, dois cavaleiros ladearam o velho e apontaram suas espadas para seus olhos.

"Por favor, deixe-me falar com nossa rainha gloriosíssima", implorou Chulane, curvando-se tanto que sua barba quase tocou a estrada. "Apenas uma palavra. Tenho sido muito persistente!"

Rúnquel esgueirou-se para debaixo da carruagem antes que alguém o notasse. Acima dele, ouviu a porta da carruagem se abrir. Houve um farfalhar de saias enquanto a rainha descia para a estrada. Ela parou diante do genufletido Chulane.

Espreitando pelos raios da roda, Rúnquel viu a mão enluvada da rainha tocar levemente o ombro de Chulane.

"Que dedos longos você tem, minha rainha", gaguejou Chulane enquanto se levantava rapidamente.

"O que é tão importante, contador de histórias?" Ayara perguntou na voz mais doce imaginável. Sua voz era tão cativante que Rúnquel manobrou para ter uma visão melhor.

"O mal está chegando, minha rainha", disse Chulane. "Os céus logo se abrirão e horrores inimagináveis choverão sobre nós."

"É mesmo?" Ayara murmurou. "Bem, entre e conte-me tudo."

Quando os dois passaram por ele, Rúnquel teve um vislumbre do rosto de Ayara. Sentiu como se tivesse sido atingido por um troll. Ele não conseguia respirar. Não conseguia pensar. He apenas ficou deitado no meio da estrada enquanto os cavaleiros instigavam seus cavalos adiante e a carruagem passava por cima dele, deixando estranhos rastros pretos em seu rastro.

Arte de: Anna Podedworna

Mas Rúnquel não percebeu nada disso, pois estava apaixonado . O caminho estava livre pela primeira vez desde que Mags o espetara com seu graveto pontiagudo. Ele sabia o que devia fazer. Devia tornar-se o próximo marido de Ayara.

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Rúnquel saltitou pela alameda em direção à aldeia com uma canção no coração. He nunca se incomodara em encontrar uma parceira, mas considerava-se um mestre nos assuntos do coração. Apenas uma estratégia ganharia o coração da rainha: magia. Especificamente, um amuleto, poção ou feitiço de amor — ou talvez os três. E para isso, ele precisava da ajuda de uma bruxa.

Quando Rúnquel chegou a Mureda, caminhou pelas ruas desertas. As lojas fechadas não mostravam sinais de vida. O único som era o ranger da placa de madeira do Açougue Três Porquinhos. Mas, ao se aproximar do seu destino, ratos começaram a emergir dos bueiros. Logo eles estavam saindo aos montes das calhas, um verdadeiro desfile de ratos. O Flautista teria muito trabalho pela frente.

Quando Rúnquel chegou à loja de amuletos, os ratos estavam subindo pelas paredes das lojas e enfileirando-se ao longo da borda superior do telhado com seus rostinhos voltados para o céu. O comportamento estranho deles tirou Rúnquel de seu devaneio. Um anel de fumaça rodopiante tingida com um brilho vermelho marcava o céu acima da aldeia. Rúnquel deu de ombros. Era um dia para magias estranhas. Rúnquel precisava de algumas magias estranhas próprias.

Com um floreio, ele escancarou a porta da loja de amuletos e invadiu o interior escuro e mofado.

"Preciso de uma poção do amor", anunciou para a sala vazia — que, conhecendo bruxas — provavelmente não estava vazia.

"Vá embora, pequena fada", disse uma voz desencarnada. "Não vê que estou ocupada?"

"Não vejo você de jeito nenhum", disse Rúnquel com sensatez. "E não vou embora até conseguir o que quero."

A sala vazia suspirou. Quando nada aconteceu, Rúnquel foi até uma prateleira próxima, repleta de crânios, ervas e um arco-íris de poções coloridas.

"Estas são bonitas", refletiu Rúnquel, passando o dedo pelas garrafas de vidro.

"Não toque", advertiu a sala vazia.

Rúnquel agarrou uma garrafa grande com um líquido dourado e segurou-a acima da cabeça.

"Espere—"

Rúnquel espatifou a garrafa no chão. Uma luz branca ardente explodiu para cima, chamuscando seu cabelo e queimando o teto, mas Rúnquel não parou. He buscou outra garrafa — vermelho-sangue, que diversão! Mas um brilho no canto o fez hesitar. Quando o glamour se dispersou, uma mulher elegante — e muito irritada — ergueu-se sobre ele.

"E se você tivesse acabado de quebrar exatamente o que veio buscar?" perguntou ela.

Rúnquel parou, impressionado com os poderes de leitura de mente da mulher. "Como você sabe o que eu vim buscar?"

A bruxa esfregou os olhos, cansada. "Por que você quer uma poção do amor?"

"Eu devo me casar com a Rainha Ayara!" proclamou Rúnquel.

"Você e todo mundo daqui até Garenbrig", disse a bruxa. "Poções do amor são repulsivas, e temos problemas maiores. Agora, ande logo. Preciso terminar de arrumar minhas coisas."

Rúnquel alcançou um frasco de larvas em conserva. "Que problema? Os ratos? Isso é uma poção do amor? Não é, certo?"

"Não~" começou a bruxa.

Rúnquel espatifou o frasco. O vidro quebrou, o líquido derramou sobre seus pés e as larvas começaram a saltar pela sala como minúsculas bolas de borracha.

"Ooh", disse Rúnquel, impressionado.

De repente, houve um redemoinho de ar e Rúnquel foi magicamente erguido do chão. Imóvel e flutuando, ele se viu nariz a nariz com a bruxa.

"Você tem olhos bonitos", murmurou Rúnquel. "Mas não tão bonitos quanto os da minha Ayara."

"Você é apenas um pequeno vácuo de destruição e miséria, não é?" sibilou a bruxa. "Estou deixando Mureda para me encontrar com alguns parentes seus~"

"Mags e aquele bando?" Rúnquel interrompeu. "Não somos parentes, e eles são bravos como um saco de texugos."

"Não, seus parentes mais altos, mais eruditos e menos indisciplinados", disse ela. "Vou lhe dar uma escolha."

Rúnquel estava cansado de ficar em um só lugar por tanto tempo e lutou inutilmente contra o aperto invisível da bruxa.

"Você deveria vir comigo", ofereceu a bruxa. "Estamos unindo forças para lutar contra a perdição que está chegando."

Rúnquel mal estava ouvindo. Não se mover era uma tortura. He tentou chutar, bater as asas, arranhar e morder, mas nenhum músculo se moveu.

"Você não pode me dizer o que fazer!" ele uivou.

"Ou você pode partir em uma missão para encontrar uma flor do amor especial, que ganhará o coração de Ayara para sempre."

Rúnquel parou de lutar. "Flor do amor", disse ele.

A bruxa revirou os olhos. "Estou chocada com a sua escolha. É uma jornada longa e difícil. E você deve prometer não voltar a Mureda até encontrá-la."

"Flor do amor!" gritou Rúnquel enquanto a bruxa o libertava de seu feitiço, e ele caiu sem cerimônia no chão.

A bruxa pairou sobre ele. "Não abandone sua missão porque está cansado, com fome ou entediado. Prometa-me, pequena fada."

Rúnquel levantou-se, limpou-se e sorriu. "Eu sou Rúnquel. E você tem minha palavra", prometeu.

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Rúnquel estava cansado e entediado, mas não estava com fome, graças ao seu bolso cheio de larvas em conserva.

He seguira as instruções da bruxa, mas não havia flores nesta parte da floresta, que era sombria, desconhecida e repleta de corvos. Estranhos estrondos ecoavam acima e faziam os pássaros voarem em todas as direções — exceto para cima. Rúnquel não conseguia ver o céu através dos galhos escuros entrelaçados no alto. E ele não sentia o cheiro de nenhuma fada em lugar nenhum, o que significava que a bruxa provavelmente o enviara para território hostil.

Talvez ela o tivesse enviado em uma busca tola por razões que ele não conseguia sequer imaginar. Talvez até a flor fosse uma falsidade.

"Quem já ouviu falar de uma 'Lilás do Anseio Duradouro', afinal?" Rúnquel murmurou para o corvo mais próximo, que parecia estar encolhido dentro do oco de uma árvore. "Esta é uma missão idiota."

Desanimado, ele abandonou sua busca e voltou para Mureda. He estava se aproximando das terras limítrofes quando um rebanho de alces surgiu do matagal e quase o atropelou. He escapou saltando-esvoaçando e puxando-se para um galho baixo enquanto eles passavam ruidosamente.

"Grosseiros!" gritou ele atrás deles. He estava prestes a pular quando uma criatura estranha surgiu na clareira. Rúnquel cerrou os olhos para os espinhos brancos e as costelas vermelhas brilhantes da besta. Tinha três caudas e nenhum olho, e tinha o tamanho e a forma de um cão. Um líquido preto espesso escorria de sua boca. Cães babam. Então, parecido o suficiente.

"Olá, cachorrinho", disse Rúnquel, pulando de seu galho. He gostava de cães.

Mas, ao se aproximar, um zumbido baixo começou a emanar de seu peito, e os espinhos em suas costas se desdobraram. De repente, uma de suas caudas disparou sobre suas costas e golpeou Rúnquel, que só foi salvo por seus pés rápidos, que o tiraram do caminho antes que ele percebesse o que estava acontecendo.

"Cão mau!" gritou Rúnquel. Mas a besta golpeou-o novamente, e ele foi forçado a flutuar e esquivar-se, tentando desesperadamente evitar as grandes mandíbulas babonas. He gritou um encantamento que não deteve o ataque. Acuado contra a árvore, ele atirou pedras, larvas e pó mágico — sem sucesso. He se encolheu e fechou os olhos — pensando na adorável Ayara — enquanto a besta bufava e abria as mandíbulas. Escondido atrás de suas pálpebras, Rúnquel ouviu um ganido mecânico, metal raspando e um som de esmagamento. He abriu os olhos e viu a besta em duas metades e um anão de barba ruiva arrancando seu machado da carnificina. Os olhos de Rúnquel saltaram do cadáver vazando para o machado maciço e para um anel dourado brilhando no dedo do anão.

"Isso é um belo~" Rúnquel se conteve. Melhor admirar o anel secretamente — por enquanto. "Isso é um belo machado", terminou.

"Depressa", disse o anão. "Há mais a caminho."

Vendo que o anão tinha um machado grande e um anel brilhante, Rúnquel o seguiu.

Arte de: Viko Menezes

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A noite estava anormalmente negra e imunda. Criaturas estranhas chilreavam nas sombras. Mas a pior coisa de tudo era o anão. Torbran, Tane de Algo ou Outro, não calava a boca sobre vagens de sementes malignas e uma árvore muito má. Mas pelo menos Torbran encontrara uma boa caverna no meio de um penhasco para passarem a noite, e o anão teria que dormir em algum momento.

"As cortes caíram", disse o anão com voz trêmula. "Os Kenriths se foram."

Rúnquel bocejou e tentou se acomodar no chão rochoso da caverna.

"Amanhã, devemos resistir contra esses invasores imundos. Tenho uma tarefa muito importante e precisarei da sua ajuda. Quando chegarmos a Locthwain~"

Rúnquel animou-se. Locthwain? He não podia acreditar na sua sorte. O anão o levara diretamente ao seu verdadeiro amor. Com um pouco de sorte, ele teria um novo anel para seu pedido de casamento.

"Você verá a gravidade da nossa tarefa", continuou Torbran. Mas então um ruído estranho o interrompeu. Parecia o baixar de uma ponte levadiça combinado com gritos. Reverberou pela caverna e ecoou pelo vale. O anão agarrou seu machado e espiou lá fora na escuridão.

"Não tema", disse Torbran quando o som desapareceu. "Preparamos uma armadilha para esses monstros. Devo encontrar uma maneira de desempenhar meu papel. O destino nos uniu~"

Rúnquel fingiu roncar o mais alto que pôde, esperando que o anão finalmente entendesse a indireta. Torbran suspirou e acomodou-se contra a parede, envolvendo-se em seu manto e mantendo uma das mãos no machado. Logo, ele estava roncando de verdade.

Rúnquel esperou até pouco antes do amanhecer. He rastejou silenciosamente até a entrada e examinou os arredores. A caverna no penhasco dava para a granja e para o Castelo de Locthwain, exatamente como ele suspeitava. Nuvens de tempestade revoltas obscureciam tudo, exceto as torres do castelo flutuante, e havia alguns pés de feijão muito estranhos saindo das nuvens, mas isso era irrelevante para a próxima fase de seu plano: roubar o anel do dedo de Torbran.

Rúnquel sentou-se perto, mas não perto demais, do anão adormecido. He tirou um pouco de pó de fada do bolso e o salpicou no anel dourado. Silenciosamente, murmurou um encantamento e ficou encantado ao ver que funcionou. O anel transformara-se em uma lagarta. Rúnquel mal conseguia conter a empolgação enquanto ela rastejava para fora do dedo de Torbran e avançava pelo chão em sua direção. Infelizmente, antes que chegasse a ele, o anão abriu os olhos.

"Não acredito que peguei no sono", disse Torbran. "Prepare-se. Devemos partir imediatamente."

Rúnquel manteve um olho na lagarta que era o anel. Se ao menos ela o alcançasse antes que o anão percebesse que~

"Meu anel sumiu!" gritou Torbran.

Rápido como um raio, Rúnquel pegou a lagarta enquanto Torbran procurava freneticamente ao seu redor. O pânico do anão confirmou a suspeita de Rúnquel: aquele não era apenas um anel brilhante. Era um anel mágico brilhante.

"Foi você que pegou?" exigiu Torbran.

Rúnquel balançou a cabeça e começou a lamber a lagarta para remover o pó mágico.

"O que você está fazendo?" trovejou Torbran. "Perdeu o juízo?"

Com uma última lambida, a lagarta voltou a ser um anel. Rúnquel levantou-se e escondeu o anel atrás das costas, mas o disfarce caíra. Torbran parecia chocado, até mesmo desolado.

"Você vai chorar?" perguntou Rúnquel.

"Eu salvei sua vida, e é assim que você me retribui?" perguntou Torbran.

"É um anel dos desejos?" imaginou Rúnquel. "Eu sempre quis um anel dos desejos."

"Não é", disse Torbran, mas havia um leve tremor em sua voz.

"Bem, vamos descobrir. Desejo uma cesta de guloseimas!"

Torbran lançou-se sobre ele, tropeçando na cesta de biscoitos que aparecera de repente. He estava prestes a lançar-se novamente quando Rúnquel ergueu a mão.

"Venha atrás de mim de novo e eu desejarei que você seja uma tartaruga", avisou Rúnquel. "Em um pântano. A quilômetros daqui."

Torbran recuou. "Você não me ouviu ontem à noite? Nossa espécie deve trabalhar unida."

Rúnquel pegou a cesta e girou pela caverna maravilhado com sua boa sorte. He tinha um anel dos desejos e uma cesta de biscoitos!

"Nosso lar foi violado", disse Torbran. "Temos uma chance de detê-los, mas preciso do meu anel."

"Devo desejar que Ayara estivesse aqui?" perguntou Rúnquel. "Ou que fosse o dia do nosso casamento? Ou isso é apressar as coisas?"

"Como você pode pensar em se casar com Ayara quando o plano está condenado?" exigiu Torbran. "Abra seus olhos! Aquelas abominações invadiram as cortes e as fadas serão as próximas."

"Aqueles são meus futuros súditos", protestou Rúnquel. "Abominações é um pouco maldoso, você não acha?"

"Tudo o que você preza será destruído, a menos que me dê esse anel", gritou Torbran.

Rúnquel parou. Ayara poderia ser destruída? He não queria isso.

"Então, com este anel, você pode simplesmente fazer desaparecer esta... como você chamou, invasão?" perguntou Rúnquel.

Torbran torceu as mãos em frustração. "No, não posso desejar algo tão poderoso e abrangente. Deve ser algo deste plano, se é que isso faz algum sentido para você."

"Parece que eu tenho mais um plano do que você", disse Rúnquel. "Vamos com o meu."

"Não, eu tenho um plano~" começou Torbran.

"Eu desejo uma poção do amor!" interrompeu Rúnquel. Uma poção rosa e brilhante apareceu instantaneamente em sua mão.

Torbran guinchou, engasgou e guinchou novamente. Rúnquel saiu em disparada da caverna e desceu a encosta em direção a Locthwain. Torbran foi atrás dele, ainda guinchando e engasgando.

"Você viu Ayara?" gritou Rúnquel por cima do ombro. "Ela é linda como o amanhecer. Delicada como o orvalho na rosa matinal. Sábia como mil sábios."

Atrás dele, Torbran finalmente encontrou as palavras: "Dê-me o anel! Só resta um desejo."

Eles quase chegaram ao vale quando as nuvens se dispersaram como se afastadas por um gigante, e Locthwain foi revelada. Rúnquel congelou. Não mais flutuando, o castelo caíra no chão, sua torre inclinada em um ângulo anormal e seus baluartes bizarramente transformados. O céu se contorcia com os estranhos pés de feijão metálicos.

"Como você não chora pelo que Eldraine se tornou?" sussurrou Torbran ao seu lado.

Legiões de cavaleiros de Locthwain estavam em formação, prontos para a batalha. Mas eles não eram mais os soldados reais que ele vira na encosta. Suas armaduras haviam infestado sua pele, e cordas de tendões vermelhos e espinhos brancos haviam se tornado adornos horríveis em seus corpos. Matilhas de cães estranhos babavam ao lado de carruagens sombrias de osso branco e carne vermelha.

"São tantos", disse Rúnquel, maravilhado com os números absolutos no vale.

Uma trombeta soou e a rainha emergiu do castelo sombrio. Para choque de Rúnquel, ela não era mais ela mesma. Sua carne fora substituída por placas escuras e brasas brilhantes. Espinhos projetavam-se de seus braços e rosto. Seu coração batia dentro de uma caixa torácica oca enquanto ela comandava suas tropas em uma linguagem áspera e desconhecida.

Rúnquel olhou para la poção do amor apertada em suas mãos. "Talvez eu tenha sido precipitado demais em minhas afeições."

Arte de: Anna Podedworna

"Enquanto você desperdiça desejos, estamos lutando nas terras selvagens, tentando salvar nosso plano", disse Torbran.

De repente, o chão se moveu sob seus pés e um estrondo ensurdecedor ressoou pelo vale. Vasto e profundo, parecia emanar do coração do plano. Torbran ajoelhou-se, colocou as mãos nos ombros de Rúnquel e olhou-o nos olhos: "Um grande abismo está prestes a se abrir no vale. Não sei como ainda, mas devo atrair nossos inimigos para esse abismo. Estou lhe implorando. Por favor, dê-me o anel."

Rúnquel olhou para o vale. "Para o abismo, você diz", murmurou ele.

Torbran assentiu solenemente. "Aquele anel é nossa única chance de salvar nosso plano", disse ele.

Rúnquel permitiu-se um último olhar para a Rainha Ayara. Então ele olhou nos olhos esperançosos do anão. Rúnquel assentiu tristemente e estendeu o anel. O rosto de Torbran iluminou-se até que Rúnquel abriu a boca.

"Desejo que chova~" gritou Rúnquel.

Chocado, Torbran caiu no chão em desespero. "Você nos matou a todos."

"Desejo que chova isto !" terminou Rúnquel, erguendo a poção do amor.

Instantaneamente, os céus se abriram e gotas de chuva rosa começaram a cair. Perto dali, o chão revolveu-se e abriu-se com um estrondo trovejante. Uma grande fenda rasgou o vale onde solo firme estivera momentos antes. A chuva encantada encharcou as hordas, que se moviam em confusão.

"Vejam-me", gritou Rúnquel para eles. "Pois eu sou o seu rei!"

"Espere!" gritou Torbran. "O que você está fazendo?"

"São tantos", disse Rúnquel alegremente. "Espere até que Mags me veja agora!"

Torbran tentou agarrá-lo, mas Rúnquel esquivou-se facilmente e saltou da encosta. Batendo sua única asa boa, ele voou desajeitadamente em direção ao abismo.

A essa altura, cada cavaleiro retorcido, abominação chilreante e monstruosidade ruidosa estava com os olhos na fada, que pousou perto da borda do abismo. Rúnquel saltou-esvoaçou ao longo da borda. Sob a influência do dilúvio da poção do amor, eles ficaram instantaneamente apaixonados pela minúscula fada. Com os corações em chamas, toda a legião moveu-se em massa em direção ao desejo de seus corações. Rúnquel parou na borda e enfrentou as massas chilreantes.

"Peguem-me se puderem!" uivou ele e caiu de costas no abismo.

Onda após onda o seguiu, despejando-se pela borda como lemingues apaixonados. Batendo as asas desesperadamente, Rúnquel conseguiu pairar no ar enquanto as legiões se lançavam em sua direção e caíam no fundo do abismo. Satisfeito com o anseio em seus olhos seduzidos, Rúnquel deliciou-se com seus guinchos de adoração.

De repente, um novo som competiu com os lamentos e os baques surdos das hordas em queda. Era um som lindo: antigo, poderoso e familiar. Estava em lugar nenhum e em toda parte ao seu redor. Um feitiço poderoso de muitas vozes, percebeu Rúnquel. He estava ficando com sono e sua única asa não o mantinha mais no ar. Enquanto afundava lentamente em direção aos corpos empilhados abaixo, Rúnquel pôde ver que todos no abismo haviam caído em um sono anormal. Deve ser parte do plano de Torbran , pensou Rúnquel consigo mesmo, sem se importar nem um pouco. Cercado por seus admiradores devotos, ele flutuou lentamente para baixo para descansar em um trono de admiradores caídos. He nunca se sentira tão desejado. Nunca fora tão amado.

Episódio 6: O Último a Sair

O medo é a primeira coisa de que ela se lembra.

Depois vem o cheiro da coisa: piche queimado, ozônio. Ele gruda no céu de sua boca, e não há para onde ela possa ir para escapar dele.

No momento em que ouve o arranhar de suas garras contra a pedra, seus olhos se abrem repentinamente, e ela busca sua espada. Ali: o monstro com garras tão longas quanto as de um cão de caça, centenas de dentes afiados, órbitas vestigiais sem visão. Uma garota se encolhe diante da fera, pressionando-se contra a parede de pedra fria. Entre a garota e o monstro há um corpo caído de lado: uma mulher mais velha, com a garganta rasgada. O sangue dela mancha a mandíbula tagarela do monstro enquanto ele avança sobre a garota.

O que a atinge então — além do fato de que ela tem olhos e pode ver — é que nada disso é novo para ela. Ela conhece este lugar. Ela esteve aqui, uma vez. Esta masmorra mofada fica a apenas um passo de sua antiga casa de família. Ela sabe que a garota está aqui há uma semana, possivelmente mais — que está com fome e sede e perdeu toda a esperança. Ela sabe que a mulher no chão é a mãe da garota.

Desta vez, ela faz o que a garota só podia sonhar em fazer. Desta vez, ela tem uma espada. A criatura avança sobre a garota, mas ela se coloca entre a fera e a criança. Garras arranham a armadura conforme ela se aproxima. No momento em que ela abre as mandíbulas para mordê-la, ela crava sua espada no céu da boca do monstro. Bolhas de piche negro brotam da ferida e escorrem pelo comprimento de sua lâmina. Ela a retira. A criatura, arquejante, encolhe-se no chão. Outro corte vê sua cabeça separada do corpo. Ela a chuta para longe.

Tão fácil. Tinha sido tão fácil. Ela algum dia achou esse tipo de coisa difícil?

Memórias batem em sua cabeça. A garota precisa ir a algum lugar. Há algo mais que ela deveria estar fazendo. A mulher precisa de um sepultamento adequado, mas ela nunca terá um, e é melhor não se deter em tais pensamentos.

E~ não havia algo mais?

O que é que ela está esquecendo?

Ela balança a cabeça. A garota lançou os braços ao redor dela em um abraço. Ela bagunça o cabelo da garota. "Você está segura agora."

"Obrigada", responde a garota, em uma voz sem qualquer traço de juventude. "Você fez a coisa certa."

Ela olha entre o corpo da criatura e a mulher morta. "Manter as pessoas seguras é o que eu faço."

"Assim é. Mas tenha em mente que você está vendo isso com novos olhos. Outrora, isso era difícil para você."

Passos pelo corredor — salto, clique, salto, clique.

Os olhos da garota começam a brilhar. Ela aponta para a porta. "Um emendador está vindo."

A palavra puxa algo em sua mente — a coisa que ela deveria lembrar. Ocorre-lhe que ela deveria achar estranha uma garota com olhos brilhantes, mas não acha. Há algo familiar nela também — então ela se ajoelha para ver melhor.

Duas sobrancelhas pretas grossas, com o cabelo brilhante combinando — cabelo que nunca ficava no lugar em nada além das mais resistentes tranças. Bochechas redondas que sua mãe costumava beliscar. Uma cicatriz ao longo de sua mandíbula de uma queda que ela sofreu. O que sua mãe dissera então? Feridas como aquela pertenciam apenas à carne; usar uma cicatriz era uma escolha. Na época, ela gostara daquela escolha. Fazia com que ela se sentisse mais corajosa, mesmo que a causa não fosse nada corajosa.

Uma espada deslizando em uma bainha.

Ela entende agora.

A garota acena com a cabeça.

"Elspeth, é hora de acordar."

O chão cede sob elas, as paredes voam para longe, o teto mofado é lançado em outra dimensão. Ao redor delas, as estrelas sussurram seus segredos eternos. O rosto da garota — seu próprio rosto, mas mais jovem — transforma-se no de sua mãe. Sangue goteja de sua garganta rasgada em seu manto.

"Você tem uma escolha a fazer."

Mais uma vez, ela cai.

Ao redor dela, o mundo começa a mudar. Esta vila em que ela estava — sua vila — está selada sob a pedra. Blocos constroem sobre ela pouco a pouco, montados como se por alguma criança invisível brincando, enquanto as árvores rapidamente dão frutos e murcham, dão frutos e murcham. O ar começa a cintilar.

"Você se lembra no que está se tornando?"

A sombra de uma jovem garota. Um rosto em meio ao brilho, sorrindo para ela. Elspeth olha para as próprias mãos. Elas também são opalescentes à luz deste lugar. Uma sensação curiosa pinica ao longo de suas omoplatas; uma pena reluzente cai do nada para flutuar diante dela. "Exatamente", diz sua mãe. "Você se saiu tão bem para chegar aqui, mas há um último passo a dar. Você primeiro deve deixar seu antigo eu para trás."

"É por isso que você me trouxe aqui?", ela pergunta.

"Você veio aqui por sua própria vontade. Quando apresentada ao impossível, você fez uma escolha onde outros hesitaram. Você reescreveu o destino. Parte de você sabia que era hora de despertar. As consequências dessa escolha estão se desenrolando — e estamos logo à frente de seu autor, esperando por sua chance de se juntar ao conto."

Ao matar a fera phyrexiana? Não~ outra memória aflora: o sylex, seus amigos discutindo, um caminho que parecia claro e certo, se não fácil. Ele não explodiu? Talvez ela esteja morta. Talvez tudo isso seja uma alucinação.

"Não é."

"Não gosto de ter alguém lendo meus pensamentos", diz Elspeth.

"Você pensa alto", responde a voz.

Ela suspira, ou pensa que suspira, neste corpo estranho. Diante dela, as pedras estão se empilhando cada vez mais alto — uma agulha contra o céu. Conforme atinge seu pico, ela começa a reconhecê-la. Nova Capenna.

"O que eu tenho que fazer?"

"Você deve fazer mais uma escolha — e tem pouco tempo para fazê-la. Seus desejos e anseios mortais não devem entrar na equação."

Parecia simples o suficiente, mas ela tinha a sensação de que não seria.

"O que eu tenho que escolher?"

"Todos os planos estão em chamas. Você viu parte do que aconteceu, mas não tudo. Logo, verá o resto. Você deve escolher onde intervir", diz a voz.

O que ela queria dizer com~? Ah. Uma cabana, um velho amigo em lágrimas do lado de fora; uma mulher em um navio balançando inquietamente pelo céu; um jovem em guerra com algo que outrora fora um dragão. Os fragmentos se unem em sua mente como uma folha blasfema de vitral.

Phyrexia.

Isso é sobre Phyrexia.

No momento em que ela tem o pensamento, o mundo acima dela se estilhaça. Os céus de Nova Capenna tornam-se vermelhos como uma romã; uma estrutura branca maciça perfura as nuvens. A estrutura — algo como o tentáculo de um deus — envolve a cidade. Janelas se estilhaçam, monumentos desabam, vigas quebram. Rachaduras sobem pela lateral da torre. Óleo derrama do tentáculo, revestindo a superfície em um preto brilhante. Casulos como insetos necrófagos descem sobre a cidade.

Mas Nova Capenna não está morta. Ainda não. Não pode estar — a cidade inteira está fortificada contra ataques. Ela mesma aprendeu isso.

Elspeth quer ver mais. Logo ela está cercada por fogo e escombros. O sangue chega aos tornozelos nas ruas de Nova Capenna. Leva um momento para ela perceber que as pilhas de couro ao longo das calçadas são as peles descartadas de cidadãos lentos demais. Há mais phyrexianos ao redor dela do que pessoas.

E pior: flutuando acima de todos eles está algo que outrora foi um anjo. A visão a faz se sentir mal de maneiras que ela não consegue expressar.

Arte de: Gaboleps

"Eles a chamam de Atraxa." A voz é diferente agora, mas não desconhecida. A de sua mãe. Não é uma mímica convincente — mas há algum calor no coração de Elspeth ao ouvir o som, de qualquer forma. "Um anjo corrompido pelas mãos de quatro pretores. Um de seus generais mais fanáticos."

Um assobio no ar. Algo explode contra o elmo de Atraxa, mas em seu rastro~ nada. Nem uma rachadura. Ela varre sua foice através de um grupo de sobreviventes tão facilmente quanto um fazendeiro colhendo trigo.

Elspeth já viu a guerra antes. É familiar para ela, embora nunca totalmente confortável, estar no meio da batalha. Em Alara, Theros e Mirrodin, ela ergueu sua espada para proteger os inocentes, para encontrar a paz.

Mas este lugar é diferente. Não há nada que ela possa fazer. O espinho de uma fera phyrexiana atravessa seu corpo. Um leve formigamento é tudo o que ela sente — mas atrás dela, sua presa cai morta ao chão. Uma criatura com asas de morcego que pode ter sido um Maestro desce sobre um homem em fuga. Ela tenta salvar o homem apenas para suas mãos atravessarem-no.

"Lembre-se do que lhe foi dito, El", diz sua mãe. "Você tem que escolher onde ajudar."

Elspeth engole em seco. Ao olhar para cima, Atraxa varre a praça mais uma vez. Cabeças e torsos caem ao chão sob o olhar atento dos serafins.

"Este lugar costumava ser o nosso lar. Nunca imaginei que cresceria até este tamanho, é claro, mas era o lar da mesma forma", diz sua mãe. "O povo capenniano nos acolheu de braços abertos. Décadas depois, eles acolheram você, novamente."

Atraxa solta um guincho horrível. Nos céus, as criaturas aladas organizam-se em uma grade.

"O invasor recebeu ordens estritas. Não deve haver sobreviventes em Nova Capenna. Apenas nossos órgãos e ossos viverão."

Como flechas, as feras aladas descem sobre os níveis superiores dos Altos do Parque.

E parece que eles têm motivos para isso.

Rebitadores penduram-se precariamente em quaisquer apoios que conseguem encontrar, ferramentas em brasa nas mãos. Parafusos e porcas caem da superfície do lugar como pétalas caindo.

"Há alguns que lutam", diz sua mãe. "Há mais que se entregaram à corrupção. A voz do poder é estrondosa, não é? Mas há sempre alguns que lutam contra probabilidades impossíveis. Pessoas que precisam de ajuda. Inspiração."

Mais perto ainda. Dentro da barriga dos Altos do Parque, ordens são gritadas de um lado para o outro, uma cacofonia de engenharia. Jatos de vapor derretem a armadura dos invasores enquanto eles tentam alcançar aqueles que estão lá dentro. No entanto, eles não podem proteger a todos — para cada Rebitador que é salvo, mais dois são levados entre mandíbulas de metal.

Eles não têm muito tempo.

"Você poderia ser isso para eles. Este foi nosso lar outrora. Você poderia salvá-lo com suas próprias mãos. Construir algo novo."

Poderia ser? Embora tivesse conhecido pessoas gentis que a acolheram, havia aqueles que aproveitariam qualquer desculpa para vê-la cair. Poderia ela passar o resto de seus dias aqui?

As palavras da mulher ecoam em sua mente: ela deve fazer a escolha certa. Ela deve fazer o que é necessário. Elspeth vira-se. Ela avista os serafins mais uma vez e acena para eles.

Por mais terríveis que as coisas pareçam, Nova Capenna tinha seus defensores.

"Este não é o lugar", diz ela.

Um som de trovão. As paredes voam para fora novamente, tornando-se planas como pinturas antes de desaparecerem no preto. Quanto mais ela cai, mais delas ela vê. Estudantes esgueirando-se por corredores, fugindo de seus professores transformados; uma mulher em um vestido de noiva preto cantando acima de uma horda de zumbis; kor voando em mantas em direção a uma grande estrutura branca.

Ela para abruptamente entre um céu vermelho e um mar vermelho. Acima, o tecido fino das estrelas ondula. O ar tem gosto de sal.

Theros.

"Bem-vinda ao lar."

A boca de Elspeth se abre. Imediatamente ela se vira no vazio, procurando por quem falou. "Daxos?"

"Então você não se esqueceu de mim, mesmo com o novo posto", diz ele. Sua voz é quente e doce como mel. Ouvi-la é o suficiente para dissipar a tensão em sua alma. "Vou aceitar como um elogio."

"Não seja ridículo", diz ela. "Eu não poderia esquecer você se tentasse." No entanto, há um aperto em seu peito também, quando ela percebe que não pode vê-lo.

E quando seus olhos pousam em Melétis.

Aqui, também, há fogo; aqui, também, há escombros e ruína. Casas onde ela tomara chá estão destruídas no chão. O mercado é pouco mais que um monte fumegante.

"É a nossa hora de necessidade", diz ele. "E é a hora de necessidade dele."

A vista ao redor deles muda novamente — desta vez sem o comando de Elspeth. Eles deixaram Melétis em favor do ventre de um templo. Estátuas brancas brilhantes agora estão manchadas de óleo, seus rostos pintados com máscaras phyrexianas. Fumaça espessa e escura sufoca a câmara interna. Lá dentro, as pessoas estão tão espremidas que ninguém consegue se mover. Máscaras de porcelana e protuberâncias ósseas falam de seu estado.

Um leonino está no topo do altar.

"Os deuses de Theros existem porque nós desejamos que assim seja. Eles servem ao nosso comando. Vocês conhecem agora a glória de Phyrexia, a glória da verdadeira unidade — um vínculo interminável entre tudo o que vive. Não é essa uma divindade maior?"

"Persuasivo como sempre, não é?", diz Daxos.

A garganta de Elspeth ameaça fechar.

"Você vê a taça nas mãos dele? Está cheia de óleo. E a mulher ali, ajoelhada ao lado dele?"

A visão de Ajani a perturbou tanto que ela não vira a mulher. Pelo tecido liso que ela está usando, e pelas joias de ouro que o adornam, ela deve ser uma sacerdotisa.

Arte de: Konstantin Porubov

A percepção como uma faca nas costas. "Ele está tentando converter os deuses?"

"Tentar é dizer pouco. Ele já mudou três deles. Nem precisou tentar. Os phyrexianos são tão fervorosos em suas crenças que os deuses têm pouca esperança de lutar contra eles", responde Daxos.

"Deuses phyrexianos", ela repete. "Com esse tipo de poder, seria fácil~"

"Não haveria muitos lugares para se esconder", concorda Daxos. "Mas você sabe onde estamos? De quem é este templo? Olhe cuidadosamente."

A cabeça decepada de uma estátua entre os destroços. No momento em que ela volta sua atenção para ela, sente-se como uma tola. Heliod. É claro. Isso deveria ser um teste para ela — e que melhor maneira de testá-la do que com esses dois? Em Theros, Elspeth encontrou uma nova luz para guiá-la. Eles haviam se separado em maus termos — mas poderia ela ficar parada e assistir enquanto Ajani o ungia com este óleo imundo?

O assobio de uma flecha mata seus pensamentos. A tigela na mão de Ajani se estilhaça; cacos caindo cortam o rosto da sacerdotisa. Enquanto Ajani se volta para o atirador, a sacerdotisa tenta escapar. Dois na multidão a seguram.

Outra flecha atinge o ombro de Ajani. Ele a arranca, quebra-a em irritação. "Encontrem-nos!"

"Então ainda há heróis em Theros", observa Elspeth.

De alguma forma, ela sente a mão de Daxos em seu ombro. "Continue observando."

A escuridão os engole por um instante, apenas para devolvê-los a uma parte ligeiramente diferente do templo. Caçadores perseguem um jovem por um dos corredores. Seu líder — ostentando múltiplas cabeças metálicas — lança uma rede sobre ele. Um dos outros leva o jovem capturado de volta ao altar. Ajani ergue a rede com uma única mão.

"Vejam só, aquele que se afasta da matilha! Aquele que trama contra nós!" O jovem está gritando. Ajani o solta da rede, apenas para pegá-lo pelos cabelos. "De que serve uma mente que trama para semear a discórdia?"

Elspeth não consegue olhar. Ela desvia o olhar — mas não há como escapar do som de osso esmagado, ou dos vivas que se seguem. Como aquele poderia ser Ajani? Como ele poderia fazer tal coisa?

"Ele foi forçado", diz Daxos. "Você poderia salvá-lo disso. Se ele estivesse aqui — o verdadeiro ele — ele aceitaria a libertação."

"Não tenho certeza se é tão simples."

Ela se força a olhar mais uma vez. A sacerdotisa está ajoelhada novamente, e ele a está forçando a beber o óleo.

A luz está chegando ao templo.

Mas não é a aurora de dedos rosados, nem o crepúsculo de manto violeta — é a luz branca abrasadora da forja. O sol ardente. Apesar da coroa de fogo no templo, os fiéis não desviam o olhar. Plumas de fumaça sobem do que resta de suas carnes sem pele.

"Você é a mulher mais corajosa que já conheci, e sempre tentou fazer a coisa certa. Se eu fosse confiar a alguém a salvação de Theros — seria a você."

Ela se vira novamente. Seus pensamentos disparam. Se ela escolher Theros, deve lutar contra Ajani. Se ela lutar contra ele — provavelmente não há mais como salvá-lo. Uma vez que a corrupção criou raízes assim, há pouco a ser feito. Sim, ela matou deuses. Sim, ela amou este lugar, chamou-o de lar.

E sim, ela anseia por ver Daxos novamente.

Mas isso não deveria ser sobre seus próprios desejos e necessidades. Que bem faz salvar Theros? O pensamento deveria doê-la e, no entanto, não dói. Que bem isso faz? Se Ajani cair aqui, as invasões continuam. Deuses phyrexianos causarão estragos em Theros — mas as pessoas aqui são mais dignas de salvação do que o povo de Nova Capenna?

Sua mente está dividida em duas. De um lado, suas emoções fervem como os mares do lado de fora do templo. Do outro, apenas as águas da ablução.

Os braços de Daxos envolvem sua cintura. "Acho que você sabe o que tem que fazer."

"Não me faça dizer isso", diz ela, recostando-se nele.

Mas não há ninguém lá.

O mundo desaba novamente.

Ela cai em uma paisagem onde um lagarto do tamanho de uma montanha luta contra sua contraparte prateada cheia de espinhos. O óleo e o sangue de suas feridas formam rios ao longo da terra verde exuberante.

Ela cai em um castelo, outrora brilhante, agora reduzido a escombros. Um jovem vasculha os restos quebrados de um arsenal. A armadura que o cobre é remendada a partir desses restos e já está picada de preto. Quando ele encontra um sigilo entre a sujeira, exclama alegremente. Agora, pensa ele, poderá defender sua família. Mas ele sequer prendeu aquela armadura adequadamente, e sua espada tem um tamanho inadequado para seu corpo; ele cairá. Ela tenta gritar para ele encontrar um verdadeiro cavaleiro Sigilado, mas ele não a ouve, pois ela já começou a cair novamente.

Através de fileiras de cavaleiros batendo tambores de guerra, seus cães na caça por inimigos phyrexianos; através de uma cidade neon protegida por guardiões mecânicos imponentes; através de pântanos estranhos e colinas retorcidas, ela cai e cai.

Até que aterrissa em um lugar que esperava nunca mais ver.

A Árvore da Invasão ergue-se como um testemunho orgulhoso dos triunfos intermináveis de Elesh Norn. O vermelho pulsa por baixo de suas placas brancas limpas enquanto ela alcança os céus — e, de fato, os perfura. Um exército ondulante lota uma das pontes diante dela. Seu estandarte e suas formas — estranhamente curvas, repletas de tubos e cubas — marcam-nos como criações de Jin-Gitaxias. Deve haver milhares deles. Quantos são recém-formados? Quantos vêm dos lugares que ela acaba de ver?

"Você tem uma escolha a fazer."

O desespero a impulsiona para mais perto da base da árvore. Ela partiu — mas os outros devem ter ficado. Eles não abandonariam uma luta tão importante. Certamente haveria alguém.

Mas quando ela chega à base da árvore, Elesh Norn é a primeira criatura que vê. Sentada em um trono de porcelana, cujas laterais estão desconfortavelmente próximas de espinhas, ela inspeciona sua criação. Diante dela, Urabrask está amarrado a uma máquina. Dois centuriões de cada lado giram rodas quase tão grandes quanto eles. A cada giro da roda, os membros de Urabrask são arrancados para mais longe de seu corpo. Agora, ele é pouco mais que uma pilha uivante de tendões.

Flanqueando Norn estão dois coros improvisados — instrumentos vivos que cantam as glórias de Phyrexia. Ainda assim, o que emerge de suas gargantas profanas dificilmente pode ser chamado de canção: eles gemem, eles guincham, eles dobram suas vozes. Nem uma vez se aproximam de algo parecido com uma melodia. Os gritos de morte de Urabrask fazem pouco para adicionar harmonia.

"Não há espaço para erros."

Norn estala os dedos. O coro para. Com outro estalo ela dispensa Urabrask — os centuriões o cortam em quartos e o levam embora. Com um terceiro, ela convoca um grupo de criaturas voadoras carregando uma grande carga entre elas. Não é até que elas pousem que Elspeth reconhece o corpo devastado de Karn. De alguma forma, seus olhos ainda mostram sinais de vida — mas a dor dentro deles é muito mais forte.

Arte de: Artur Nakhodkin

Ainda mais quando ele, como Elspeth, contempla o que Norn está celebrando.

Tão pequenos são os mortais diante dela que Elspeth não os havia notado a princípio: mirranos, acorrentados uns aos outros, com as cabeças baixas. O sangue mancha os rostos de muitos. Alguns já perderam membros. Emendadores atendem a esses, enxertando membros indesejados em receptores relutantes. Elspeth os conhece. Ela lutou lado a lado com eles. Nenhum merece um destino como este.

"Entendemos que suas mentes não podem compreender a glória que os espera", Norn fala, "e por isso oferecemos nossa piedade eterna. Vocês têm a traição de sua pele para culpar. Sem ela, vocês se verão livres de todos os fardos."

Elspeth busca sua espada.

"Pense no que você está fazendo. Você só tem uma oportunidade de escolher." É a voz da mulher novamente. "Escolha falsamente e tudo termina aqui."

"Norn tem que morrer", responde Elspeth.

"Era uma vez, há muito tempo, uma mulher benevolente vestida de branco que criou um mundo só seu", a voz começa. Ela se lembra agora. Havia uma deusa, não havia? Uma cujo nome era proibido dentro da masmorra. Uma para quem ela rezava, quando criança. "Um lugar lindo — brilhante, pacífico. Um lugar onde os anjos habitavam. Ela o fez tão agradável que nunca teve qualquer pensamento de partir ou olhar além dele. Anos se passaram, e um mago veio até ela em busca de ajuda. Ela nunca imaginou o tipo de ameaça que seguiria em seu rastro." Ela gesticula ao redor delas. "Esta ameaça. E ela não é levada adiante apenas por Norn. Ela acredita ser o começo e o fim de Phyrexia, mas está errada. Matá-la não acabará com isso."

Centuriões trazem mais três prisioneiros diante de Elesh Norn. Eles são jogados no chão. Dois não conseguem ficar em pé por conta própria, nem mesmo se ajoelhar. O estômago de Elspeth afunda ao reconhecê-los: um Koth espancado; a dríade Wrenn, arrancada de sua árvore; e uma Chandra Nalaar ensanguentada.

"Vejam os traidores", fala um dos centuriões — e é então que Elspeth a reconhece como Nissa. Ou, pelo menos, alguém que outrora fora Nissa Revane. Partes de seu novo corpo derreteram até virar escória. "Mãe das Máquinas, aguardamos seu julgamento justo sobre eles."

"Aplaudimos seu trabalho em apreendê-los, Nissa", fala Norn. "As provações e tribulações que você enfrentou serviram apenas para eliminar todos os vestígios de sua vida antiga. Quando você olha para eles agora, o que sente?"

"Desprezo. Piedade."

"Como deve ser. Mas você não precisa ter piedade deles por muito tempo. Logo eles serão remodelados e tornados íntegros. O arrebatamento da completação os purificará como purificou você."

Pairando atrás deles, Karn geme.

A mão de Elspeth estremece em torno do pomo de sua lâmina.

"Que nosso abraço a esses rebeldes prove a toda Phyrexia que não estamos sem misericórdia para com os seres inferiores. Phyrexia abraça a todos. Phyrexia aperfeiçoa a todos. Com sua individualidade esfolada de sua mente, você passará a entender que bênção lhe foi dada." O sorriso de Norn é todo de dentes afiados. "Jin-Gitaxias. Venha colher o que resta da pequena rebelião de Koth. Você será o arquiteto da perfeição deles."

O exército se abre. Uma figura desliza entre eles, tubos balançando de sua bocarra. Jin-Gitaxias logo está ao lado de Norn. Ele se curva. "Conforme o Grão-Pretor fala, assim Phyrexia deseja."

Ele dá um passo em direção aos reunidos — e para.

Tudo para. Os rebeldes estão congelados no meio da respiração; o exército não fervilha mais. O tempo para completamente. Parte dela se pergunta se é obra de Teferi — se ela o verá no topo da árvore, cajado na mão. Quando se trata de Phyrexia, Elspeth sabe que não deve alimentar tais esperanças.

"Por que paramos?"

"Chegou a hora", diz a mulher. Uma forma cintilante aglutina-se entre Jin-Gitaxias e Koth, seu primeiro alvo. Ela é uma mulher de aparência serena, com feições gentis. Ainda assim, há uma certa tristeza pesando sobre seus ombros. "Devo ouvir sua decisão."

"Quem é você?" Ocupa-lhe o pensamento sem que ela perceba.

"Meu nome dificilmente importa mais, mas você já o conheceu uma vez", diz ela. Ela caminha entre os prisioneiros, parando agora em Chandra. A piromante não consegue nem se ajoelhar por conta própria — a mulher a estabiliza. "Pense cuidadosamente. Você ainda acha que Norn deve ser morta?"

Por mais que tente, Elspeth não consegue imaginar o Multiverso em paz enquanto Norn viver. "Quando um membro apodrece, você tem que cortá-lo", diz ela.

"Estranho. Ouvimos algo semelhante uma vez, não ouvimos?", a mulher diz. Ela se move para Wrenn — ajoelha-se para ampará-la. A dríade está olhando para a Árvore da Invasão. "Você se lembra, Elspeth?"

Agora que ela menciona — era familiar. Onde ela tinha ouvido aquilo antes? Ela vasculha sua memória, peneirando tudo o que vira, até que finalmente a voz volta para ela. Quando um galho apodrece . . .

Wrenn. Eles disseram a mesma coisa, as duas, separadas pelo tempo e lugar. Assim como Elspeth sabia o que precisava ser feito, Wrenn também sabia. Deve ter sido por isso que ela veio aqui. E se ela está olhando para a árvore~

Algo muda. Quando ela olha para a cena, Norn tornou-se translúcida, como um espírito. Jin-Gitaxias também. Quanto mais ela olha ao redor, mais fantasmas ela vê. Apenas Nissa e Wrenn permanecem elas mesmas. Eram elas as jogadoras principais? Wrenn devia estar ligada à sua revelação anterior — mas por que Nissa? Além de sua excursão a Nova Phyrexia, Elspeth não falara muito com ela. Quando Elspeth chegou, Nissa já tinha partido.

"Não podemos ficar aqui para sempre", diz ela. "Você deve responder."

"Eu sei", diz Elspeth. "É apenas~ dê-me um momento para pensar."

Por que Nissa?

Se era alguém que já havia perdido — por que não Ajani? Por que não retribuir ao seu antigo mentor por tudo o que ele fizera por ela? Talvez ainda houvesse uma maneira de salvá-lo.

E, por falar nisso, por que não entrar em campo em Nova Capenna? Se ela abatesse Atraxa, talvez os anjos de lá pudessem retornar — e talvez o retorno deles pudesse purificar o plano.

Por mais que não queira lê-las, as respostas estão claras em seu coração: se ela salvar Ajani, estará salvando apenas uma única pessoa. Sozinho ele não é suficiente para virar a maré. Nova Capenna pode salvar a si mesma. O que deixa Wrenn, e Nissa, e o fio brilhante que as une.

Sim — ela entende.

A decisão não é se deve salvar Nissa ou salvar Wrenn.

É manter Nissa ocupada por tempo suficiente para que Wrenn alcance a árvore.

"Você tem certeza?", a mulher pergunta.

Elspeth acena com a cabeça. Seu corpo parece estranho, como se cada nervo estivesse aceso de uma vez. "Esta é a coisa certa a fazer."

"Assim é. Não posso lutar contra esta ameaça ao seu lado, por mais que deseje. Mas posso forjá-la naquilo que você sempre deveria ter sido."

Elspeth olha para a mão, formando-se novamente a partir do éter deste lugar. Aqui estão suas unhas, aqui estão seus calos, aqui estão as linhas de sua palma. Cartomantes diziam que podiam ler o destino naquelas linhas. Ela se pergunta se alguma delas sabia onde ela acabaria. "Estou com medo", diz Elspeth. Mais uma vez, simplesmente escapa dela. Ela nem sabia que estava com medo até falar — mas está. Há um entorpecimento rastejando para o fundo de sua mente. Ela pensa em Daxos, em Theros, no lar que uma vez imaginou. Tudo parece um sonho agradável.

A mulher a abraça.

"O medo é sempre a última coisa a sair", diz a mulher. "Você o abateu vez após vez. Não fraqueje agora, Elspeth."

É a última coisa que ela ouve antes de Serra desaparecer.

Que sensação estranha é renascer — sentir-se sendo despida e mudada. As asas em suas costas são pesadas como uma armadura de placas, mas ela não consegue se lembrar de um tempo em que esteve sem elas. Este corpo dela é diferente — e, no entanto, é como sempre foi. Ela é Elspeth, e não é.

Não há mais espaço para indecisão. O Multiverso está em jogo.

Arte de: Rovina Cai

Toda a sua vida ela esteve dormindo. É hora de acordar, hora de se tornar o que ela sempre deveria ter sido.

Jin-Gitaxias ergue suas garras.

A espada de Elspeth está lá para encontrá-las.

Episódio 7: Intervenção Divina

Diga a ela para não me seguir. Nenhum de vocês deve. Nunca.

A primeira vez que Karn tentou resolver o problema ferexiano de Mirrodin, ele deixou avisado que não deveria ser seguido. Foi uma decisão consciente. A corrupção estava tomando conta dele. Mirrodin caiu por causa de Karn. Em sua arrogância, ele moldou o plano; em sua soberba, deixou uma de suas próprias criações no comando; em sua ignorância, ele espalhou óleo ferexiano por todo o plano. Se estivesse mais presente, ele poderia ter percebido que Memnarch havia se perdido. Se tivesse prestado atenção, poderia ter visto o óleo gotejando em seu rastro. Mas ele não estava presente, e não estava prestando atenção, e a queda de Mirrodin esmagou todos os que viviam ali. Não me sigam , ele disse aos outros — porque tudo isso era problema dele, e resolvê-lo iria matá-lo.

E ele estava certo. Se não fosse pelo sacrifício da centelha de Venser, Karn estaria morto. Um inventor brilhante, contador de piadas horríveis e uma pedra no sapato da maioria que o conhecia, Venser fazia parte do grupo que fora encontrar Karn quando ele estava no auge da phirese. Koth e Elspeth repeliram as legiões inimigas por tempo suficiente para dar a Venser tempo para encontrá-lo nas profundezas do núcleo de Mirrodin. Melira tornara Venser imune à corrupção, e Venser...

Vez após vez, Karn jurou que honraria a memória de Venser. Venser vira algo nele, algo pelo qual valia a pena morrer. Se Karn se deixasse morrer, estaria traindo essa esperança.

O que torna sua situação atual ainda mais dolorosa. Preso a um pedaço flutuante de escória mantido no ar pelo coro de Norn, feito do mesmo material que detivera sua capacidade de caminhar entre planos nas Cavernas de Koilos o que parecia ser anos atrás, ele tem a visão perfeita do fim do Multiverso. A maior parte do seu corpo foi levada como sucata. Karn costumava se perguntar por que sentia dor. "As pessoas têm menos probabilidade de ferir algo que grita", disse Urza. Que pena que ferexianos não são pessoas. Karn está em agonia. Ele não tem escolha a não ser abraçá-la, remodelá-la, torná-la algo útil: uma âncora que o manterá ligado ao que resta deste corpo. Enquanto ele puder sentir essa dor, ele é ele mesmo.

E cercado pelo triunfo de seus fracassos, isso parece apenas apropriado.

Este é o fim — de suas criações, do Multiverso, dele.

Conhecendo Norn, não virá rápido. Entre as provocações intermináveis de Vorinclex e as cutucadas de Jin-Gitaxias, Karn não tem ilusões sobre o que será feito com ele. O que está sendo feito com ele. Os ferexianos o têm desmontado, peça por peça, e reutilizado seu corpo de prata. Vorinclex e Jin-Gitaxias têm ideias diferentes sobre a melhor forma de fazer isso — mas a ideia central é a mesma.

E Norn?

Norn quer que ele sofra. Ele vê isso em seu sorriso cheio de presas.

"Falso Patriarca", diz ela a Karn, "não é esta uma visão abençoada? Depois de todos os seus anos de tropeços, ver as alturas que escalamos sem você."

Karn não olha para ela. Não consegue. Resta-lhe pouquíssimo poder. Com o que resta, ele quer se lembrar de seus amigos. É o mínimo que pode fazer por eles. Koth senta-se ereto mesmo quando Jin-Gitaxias avança em sua direção. Dos cativos, ele é o único a encontrar os olhos de Karn. Os outros todos têm seus motivos. Chandra está exausta demais para se ajoelhar ereta. E Melira?

Melira também não suporta olhar.

Embora seu coração doa, ele entende. Depois de tudo pelo que trabalharam, todo o tempo lutando contra o impossível, os sacrifícios e os sonhos, todos vão morrer aqui. Por causa de seus erros de tanto tempo atrás. Se ele estivesse no lugar dela, também não quereria olhar.

Seus pretensos salvadores mirranianos perderam membros; alguns já estão sendo fundidos em novas monstruosidades. Quando chegaram, eram dezenas. Agora resta apenas um punhado — Koth, Melira, Wrenn, Chandra e talvez dez ou vinte sobreviventes. Um por um, os outros foram arrastados para experimentos. Aqueles que permanecem aqui, Norn guardou por seus próprios motivos especiais.

Uma das integrantes do coro se estica, sua espinha se desdobrando como um acordeão para acomodar seu novo crescimento. Ela segura a cabeça de Karn com a mão e a mantém no lugar — força-o a confrontar o rosto de Norn.

"Phyrexia propôs a você uma pergunta. Você deve respondê-la. Não é de admirar que tenha falhado em nos liderar se não consegue fazer nem mesmo isso."

Karn está cansado. Ele não consegue pensar em algo para dizer.

No fim, ele não precisa.

Jin-Gitaxias levanta um braço para golpear. No brilho de suas garras cruéis, Karn vê os fantasmas de seu passado. Quem melhor para lhe oferecer conforto em um momento como este? Logo ele estará entre eles, onde quer que tenham ido.

Vai doer?

Será como adormecer? Ele sempre teve inveja do sono.

Hora de descansar.

Ele fecha os olhos — para um clarão dourado resplandecer através de suas pálpebras.

Um toque de clarim estilhaça o ruído da grande máquina de Phyrexia. As forças reunidas têm apenas um instante de aviso sobre o que está por vir — e nenhuma ideia do que possa ser. Enquanto a luz dourada engole os espectadores, Karn ouve o choque de metal. E porque foi construído para funcionar nos ambientes mais estranhos, ele consegue ver o que apareceu no centro da onda de choque que agora abala a ponte.

Um anjo em armadura reluzente, uma lâmina dourada agora erguida para contra-atacar o golpe de Jin-Gitaxias. Ela desce do alto como a lança de um deus enfurecido em direção a eles — e quando pousa, abre uma cratera no metal abaixo dela. Seu impacto envia dezenas das legiões de Jin-Gitaxias despencando no abismo. Os corpos delicados do coro também não foram feitos para um impacto como este. Logo eles também despencam na escuridão, enviando o pedaço de escória de Karn em direção ao chão.

Ainda assim, ele observa.

"Você não derrubará este homem", diz o anjo.

Espere. Ele não...? Aquela voz...

Karn não é o único a reconhecê-la. A apenas um braço de distância, Elesh Norn solta um grito agudo. "Você?!"

Arte por: Denys Tsiperko

Quando a luz desaparece, Elspeth Tirel está no centro da cratera. No entanto, esta é a Elspeth como Karn nunca a viu: ladeada por radiantes asas douradas. As muitas feridas de seu passado não marcam mais seu rosto sereno.

Jin-Gitaxias recua apressadamente, seus servos fechando fileiras para proteger sua fuga. Elspeth o deixa ir. Ela está ocupada em outro lugar — colocando a mão no rosto inchado de Chandra. Uma luz curativa flui dela para a piromante. A carne se regenera.

Norn já saltou de seu trono; em sua raiva, ela o derrubou. Dois de seu coro foram esmagados sob seu peso. Aos olhos de Karn, suas mortes não parecem tê-la incomodado. "Você! — Você não deveria mais nos perturbar!"

Elspeth não dignifica isso com uma resposta, não olha para ela; ela mantém sua atenção em Chandra, depois em Koth. O choque em seu rosto é evidente — mas há esperança ali também. Isso, por sua vez, acende algo dentro de Karn. Quando foi a última vez que ele viu esperança naqueles olhos?

"Nós, o poder e o coração de Phyrexia, nos dirigimos a você!" Norn arremessa um pedaço de seu trono em Elspeth. Karn se prepara para ver Elspeth cair — mas não parece incomodá-la em nada quando a rocha se estilhaça contra sua asa.

Algo percorre as fileiras reunidas de Phyrexia, algo como medo, algo como choque. Seja o que for, eles não gostam. Como animais diante do fogo, eles começam a recuar, a se dispersar. Os mirranianos veem sua chance. No momento em que Koth é curado, ele enterra o punho no chão. Magma jorra de uma fenda laranja ardente na ponte, correndo até a base da Árvore da Invasão. "Mirrodin!" diz Koth. "Comigo!"

Mas Norn não parece ouvi-los. Qualquer coisa que ela possa alcançar servirá como arma, ao que parece: mais pedaços de seu trono, um chifre que ela arranca de um Vorinclex uivante, a cabeça decepada de um membro azarado do coro. Ela arremessa tudo pelo ar contra Elspeth. Elspeth se esquiva, corta e desvia — nenhum dos golpes acerta em cheio. Norn grita novamente.

Jin-Gitaxias rasteja até o lado de Norn. "Os prisioneiros —"

"Você e Nissa lidem com eles", retruca Norn. "Temos algo mais importante para atender."

"Aquele anjo?" pergunta Jin-Gitaxias. "Absurdo. Ela é apenas uma entre muitos. Minhas legiões podem lidar com eles, e Vorinclex comerá o que deixarmos para trás. Seria mais sábio você recuar e deixar o assunto —"

Norn o agarra pela garganta. "A dissidência é uma blasfêmia, pretor . Ela não mancha a língua dos fiéis. Nossa vontade é a vontade de Phyrexia. Faça com que seja cumprida."

É ridículo que eles estejam tendo essa conversa. Norn deve estar perdendo o controle.

Especialmente se ela não notar Melira correndo para a plataforma de Karn. Um simples aceno para Koth e, de repente, Karn está no ar novamente. "Você vai ficar bem", diz Melira.

Tudo isso é difícil de acreditar.

Certa vez, há muito tempo, ele quase morreu em Nova Phyrexia. Foi apenas a intervenção de seus amigos — Venser, Koth, Elspeth e Melira — que o salvou.

Agora, quase todos eles estão aqui para salvá-lo novamente, e a centelha de Venser lhe dá forças.

Não me siga , ele disse uma vez a Venser.

Mas a centelha de Venser ainda estava nele e o seguiu por todo o caminho até aqui.

Ele não podia desistir. Ainda não.

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Wrenn não podia desistir. Ainda não.

Embora não reste muito de Wrenn, embora toda a sua força de combate tenha sido reduzida a apenas alguns sobreviventes quebrados, ela não pode desistir. O que importa se ela não tem mais pernas? O peso do mundo ainda está sobre seus ombros.

A chegada do anjo não foi uma surpresa para ela, mas uma confirmação. Qualquer outra coisa teria sido inaceitável, pois significaria que todos poderiam morrer. Alguém veio salvá-los, e era Elspeth em suas novas cores de outono, é claro. Ela está esplêndida, embora não haja tempo para apreciar.

Humanos são frequentemente distraídos por coisas brilhantes e reluzentes. Ela espera que os ferexianos sejam iguais.

"Chandra", ela sussurra com voz rouca. "Chandra, precisamos ir."

Ouro dança nos olhos da piromante — ela está tão distraída com os acontecimentos quanto os outros. Não é até que Wrenn morda a manga de Chandra e a puxe que ela olha para baixo.

"Não consigo mais andar. Preciso da sua ajuda", diz Wrenn.

É toda a explicação que Chandra precisa. A realidade parece se impor a ela novamente. Ela pega Wrenn nos braços. "Pode deixar. Vamos."

Juntos, eles partem. Os mirranianos os seguem, olhando para trás a cada dois passos para a mulher que salvou a todos — e para o exército do qual terão que escapar.

Pelo menos, era isso que Wrenn pensava que eles estavam admirando. "Karn!" grita Melira. "Temos que salvá-lo também."

"Entendido!" diz Koth. A placa em que Karn está é pedra como qualquer outra — ela responde ao seu chamado da mesma forma que a madeira atende ao dela. A placa de Karn voa para encontrá-los. Uma rajada de flechas e lanças ricocheteia na parte de trás da placa. Esse também é o trabalho de Koth: ele a está usando para proteger sua retirada.

Wrenn franze a testa. As armas não estavam realmente ferindo Karn, mas isso ainda lhe parece uma coisa insensível de se fazer. Há quanto tempo eles estão lutando para tomarem decisões como essa?

Eles merecem paz.

Wrenn quer trazê-la para eles, mas não conseguirá fazer isso sozinha. Teferi saberá o que fazer, se ela conseguir alcançá-lo. E ele foi para algum lugar que ela não conseguirá alcançar sem a ajuda da Árvore da Invasão. Ela não consegue alcançá-la sem Chandra, e Chandra...

"Largue a dríade e ainda haverá esperança para você, Chandra. Você é inteligente o suficiente para saber que eu vou te matar, caso contrário."

Chandra tinha Nissa para lidar.

Todos eles tinham. Não importa o quão rápido corram, nada disso significará nada se Nissa os pegar. E ela pretende pegá-los. A elfa está arremessando os corpos dos caídos de volta neles, seus passos firmes e inevitáveis. Wrenn desejou não ter olhado para trás para ver. Não há compaixão naqueles olhos, nem misericórdia, nem rastro da mulher que um dia esteve ali.

Koth está ocupado impedindo que os outros se machuquem. Karn está tão despedaçado quanto ela. A resistência em fuga — eles estão fazendo o que podem, mas o que podem fazer contra uma Planeswalker elfa ferexianizada não é muito. Elspeth está distraindo Norn. E Chandra? Chandra não consegue se forçar a ferir Nissa. Wrenn sabe disso sem precisar perguntar.

Eles precisam chegar à árvore. E eles chegarão. Wrenn tem certeza disso, porque se não chegarem, todos morrerão, e isso não pode acontecer.

O que ela não consegue ver daqui é como.

Tudo o que ela tem é fé.

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Phyrexia se enfurece, mas não consegue quebrar a paz de Elspeth Tirel. É uma paz tão certa e sólida quanto sua armadura dourada, tão conquistada a duras penas quanto suas cicatrizes de batalha. Pedaço após pedaço de porcelana voa em sua direção; ela nem sequer estremece. Estas são as ações desesperadas de uma pessoa que sabe que vai perder.

Elspeth está acima de tudo isso agora.

Uma vez, ela achou Norn assustadora. Uma vez, aqueles dentes em forma de agulha a assombraram. A voz estranha de Norn narrava seus pesadelos com a bravata de um falso deus. Lembre-se sempre de sua humildade, pois foi Phyrexia que a rebaixou.

Elspeth não a acha mais assustadora. Ela não é mais rebaixada. Na verdade, com um único bater de asas, Elspeth pode voar acima dela. Daqui, Norn é mais uma boneca gigante do que uma ameaça ao Multiverso. Tudo parece menor agora. Mais distante. Toda a escória da vida de Elspeth foi cortada, restando apenas a verdade.

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E a verdade é que Phyrexia não vencerá este dia.

Abaixo dela, os mirranianos fogem em direção à árvore. Koth cobre a retirada com Chandra na vanguarda, Wrenn em seus braços. Preso a um pedaço de escória está Karn — que a observa com admiração explícita. Embora ele esteja em um estado lamentável, ela se vê sorrindo para ele. Depois de todos esses anos, eles finalmente vão consertar tudo.

Desde que Elspeth possa levá-los em segurança até lá. Ela tem que parar Nissa. Wrenn deve alcançar aquela árvore.

Mas há um assunto mais urgente a tratar — alguém que não quer que ela fuja.

Furiosa, Norn avança para Elspeth, garras estendidas. Ela puxa Elspeth do ar por uma perna pendente e a bate contra o chão. "Você não arruinará nosso momento de triunfo!"

Os ouvidos de Elspeth zunem; sua visão embaça. Ela pisca. Norn se ergue acima dela mais uma vez.

"Nós nos dedicamos a esta causa sem reservas. A salvação do Multiverso é nossa vocação justa. Como você ousa se opor a ela?"

"Eu tenho minha própria vocação", responde Elspeth. Ela se levanta, a poeira caindo de seu manto. "Você não vai me impedir."

O riso de Norn é suficiente para gelar o sangue. "Sua vocação é falsa", começa ela. Enquanto fala, os corpos dos ferexianos caídos se levantam e pululam ao seu redor. Peças voam de suas formas inertes: estilhaços de metal, fragmentos de osso; lâminas e navalhas; dentes e tubos. Trama após trama, Norn tece para si uma nova e horrível armadura. "Em todos os planos, existe apenas uma verdade eterna e imaculada: todos serão um. Qualquer um que se oponha à unidade se opõe a um futuro perfeito."

Elspeth olha por cima do ombro. Os outros estão fugindo, e Nissa se separou para persegui-los. Ela não pode se dar ao luxo de ficar aqui ouvindo o exibicionismo de Norn. Elspeth se concentra em sua lâmina: a crepitante e dourada Dádiva Divina. Esta é apenas uma fac-símile da real — mas é a sua fac-símile. Ela sabe que funcionará para ela. Um pouco de foco é tudo o que basta para enviar um feixe de luz abrasador contra Norn. Pedaços de armadura caem, incinerados pelos raios purificadores da espada. Uma cratera fumegante surge do ombro da pretora. Desta vez, Norn não grita. Em vez disso, ela levanta uma mão em forma de garra. Os corpos dos soldados caídos ao redor deles — aqueles já despojados de suas partes úteis — erguem-se novamente para cercar as duas combatentes.

"Phyrexia jamais cairá", diz Norn. "Olhe ao seu redor. Não há morte, Elspeth Tirel, apenas Phyrexia."

Ela não terá muito tempo para agir. Antes que as fileiras ressuscitadas possam prendê-la, Elspeth levanta voo mais uma vez. No entanto, quando ela se volta para os mirranianos em fuga, paredes brotam do chão para bloquear seu caminho — paredes que sobem até as alturas intermináveis do teto do santuário.

"Você não pode fugir de nós", diz Norn. "Nós somos o chão sob seus pés, o ar em seus pulmões. Tudo o que seus olhos veem é Phyrexia, e Phyrexia somos nós. Somos um todo."

Elspeth golpeia a parede. Faíscas são o único sinal de progresso: o revestimento de porcelana não cede à sua lâmina. Mais adiante, Nissa está se aproximando dos mirranianos. Chandra está com eles — as duas eram próximas, não eram? Chandra seria capaz de derrubá-la? Elspeth hesita. Se Chandra vacilar, Nissa os deterá.

Eles precisam de Elspeth. Esta luta é uma distração. Ela precisa atravessar aquela parede. Se os outros conseguirem aguentar por apenas alguns segundos...

Mais uma vez ela se concentra na lâmina, cada respiração fazendo-a brilhar mais intensamente. Uma aurora brilha em sua armadura. Atrás e abaixo dela, as legiões ressuscitadas de Vorinclex e Jin-Gitaxias estão no ataque. Chicotes se fecham em torno de suas asas. Em uníssono, eles puxam. Seus músculos se retesam sob a pressão.

"Por que você deve lutar tanto?" pergunta Norn. "Você sempre lutou contra nós. O que é que você deseja? Se ansiou por um lar, encontre o lar conosco. Se precisa de amigos ou amantes, há legiões incontáveis deles entre nossas fileiras. Você ainda pode se juntar a nós, se se submeter."

Elspeth olha por cima do ombro. Norn está mais alta do que nunca, as placas adicionadas da ponte e dos caídos servindo para esticá-la ainda mais. Vísceras brilhantes brilham sob a superfície: a carne esfolada da qual ela tanto se orgulha. Pelo seu tamanho, pelas formas cruéis de sua armadura e pela grade em forma de casco de sua nova carapaça, ela não se parece em nada com um lar. Elesh Norn é guerra e morte.

Um segundo conjunto de chicotes dispara da mão estendida de Norn. Elspeth não tem outra escolha: se quiser continuar no ar, terá que passar por Norn. Um único golpe de sua lâmina corta ambos os conjuntos de chicotes; o impulso derruba os Gitaxianos de costas.

Elspeth voa em direção a Norn. "Você não me entende."

Outro golpe vem em sua direção; ela se esquiva e retribui a Norn com um corte no braço. Fumaça sobe da ferida. O cheiro de carne queimada adere ao céu da boca de Elspeth. "Não sou nada como você."

Norn agarra uma das asas de Elspeth. Em uma paródia vil de uma criança segurando um pássaro, ela balança Elspeth no ar. "Você ansiava por um propósito — por algo maior que você mesma. O desejo mais profundo do seu coração é um lugar onde você possa pertencer, um lugar de paz infinita, onde aqueles que você valoriza nunca estejam longe. Um futuro brilhante. Um futuro ferexiano ."

A voz de Norn é alegremente doentia e doentiamente alegre. Elspeth corta os dedos que a seguram, mas embora ela tire sangue, a pretora não solta.

"O que esta forma lhe oferece que Phyrexia não pode? Paz. Propósito. Unidade. No entanto, eles não podem lhe conceder o último, não de verdade. A pele ainda os mantém unidos. Os enfraquece. Ser ferexiano é ser livre de todas essas fronteiras. O que você ganhou é uma pálida imitação do que aperfeiçoamos. Olhe ao seu redor!"

Ela olha.

E embora relute em admitir, há verdade no que Norn está dizendo. Os olhos que olham de volta para ela das fileiras do exército são todos iguais. Aqueles que respiram o fazem em uníssono — e com essas respirações, o santuário clica e zumbe, uma máquina sintonizada com a vida de seus habitantes. Nissa, Nahiri, Ajani... nenhum deles parecia perturbado com seus novos estados. Em cada um deles ela não vira nada além de êxtase.

O lar poderia ser o que você fizesse dele e com quem você o fizesse. Se ela se juntasse, não lhe faltariam amigos. Ela e Ajani poderiam moldar Theros em sua melhor forma possível. Até Daxos poderia se juntar a eles. Imortais, sem idade, todos um — para sempre.

"Anjos são uma sombra pálida da divindade. Nós somos sua verdadeira luz. Das alturas deste santuário, vemos todas as coisas exatamente como são. Após esta batalha, você não existirá mais como você mesma — você se tornará uma deles. Todos esses anos você olhou com horror para a phirese, e aqui está você, abraçando-a por outro nome."

"Não é a mesma coisa!" responde Elspeth.

Norn segura Elspeth de cabeça para baixo à sua frente. Elas estão olho a porcelana, Elspeth pendurada a metros do chão. Os dentes de Norn brilham com a luz refratada da lâmina de Elspeth. "Então nomeie uma única diferença."

"Meu propósito é divino."

"Meus evangelistas agem como as espadas da nossa divindade. Tente novamente."

"Esta transformação não mudou nada em mim." A mentira mancha sua língua no segundo em que é dita.

"Essas suas novas asas contam uma verdade diferente. É tão difícil para você entender?"

"Eu..." Elspeth começa.

Outra voz vinda de trás — uma familiar. Jin-Gitaxias chama por sua soberana. "Não passamos tempo suficiente nisso? Complete-a e deixe-nos seguir nosso caminho."

"Silêncio!" grita Norn. Imediatamente seu humor cai para uma raiva furiosa. Ela se volta para Jin-Gitaxias. Um choque de metal, o som de carne rasgando. Jin-Gitaxias gorgoleja atrás de Elspeth. Ela percebe que ele estava certo: eles passaram tempo demais discutindo como crianças. Seu propósito é maior que isso. E a reação de Norn à insubordinação diz a Elspeth tudo o que ela precisa saber sobre suas diferenças.

Ela crava sua espada no ombro ferido de Norn — o único lugar que consegue alcançar dali. Um jorro de sangue mancha a armadura de Elspeth enquanto Norn, finalmente, a solta. Elspeth levanta voo novamente. O braço de Jin-Gitaxias jaz em uma poça de óleo não muito longe de Norn. Se ela não tivesse escapado, poderia ter sido o dela. Em vez disso, Elspeth concentra seu poder em sua espada. Uma luz dourada inunda a plataforma.

Arte por: Livia Prima

"Você tem razão, Norn", diz ela. "Não somos tão diferentes. Nós discutimos. Cometemos erros. Temos nossos próprios desejos, sonhos e anseios."

A boca de Norn se contorce em confusão e nojo. "Que blasfêmia é esta? Falamos apenas a vontade de Phyrexia —"

Norn ataca, mas Elspeth se esquiva. "Você discordou de Jin-Gitaxias, não foi? Phyrexia quer que você me ignore, mas você quer o contrário."

Um grito irrompe da garganta de Norn. Estilhaços de soldados caídos cortam o ar, lâminas dos mortos, cada uma apontada para Elspeth. "Você! — Você não entende nada de Phyrexia!"

"Não, o problema é que eu entendo você bem demais", diz Elspeth. A lâmina zumbe com poder. Ela a ergue bem acima da cabeça. É agora. Depois de todos esses anos e todos esses mortos — é finalmente hora de derrubar Elesh Norn. Jin-Gitaxias não fará nada para ajudá-la. Suas legiões já estão atacando...

Em direção à árvore. Milhares deles para apenas um punhado de mirranianos. Lanças caem como granizo sobre a superfície da ponte. Aquela pessoa desabando no chão — é a Melira? Nascida sem um traço de metal em seu corpo, imune aos horrores da phirese, a garota uma vez representou a esperança para todo o plano. É ela desabando no chão?

O grito de Koth o confirma.

Não é certo hesitar.

Elspeth olha para a pretora diante dela. Uma tempestade de lâminas gira em torno de Norn como as pétalas de uma flor de porcelana. "Estamos além da sua compreensão, além do seu alcance! Quando tivermos conquistado o Multiverso que você tanto preza, você se ajoelhará aos nossos pés e se deleitará com a glória da nossa criação! Você não arruinará tudo o que alcançamos. Daqui a eras, você será esquecida, e nós permaneceremos a eterna hierofante, Elesh Norn!"

"É exatamente o que eu quero dizer. Você quer que as pessoas adorem Elesh Norn , não é? Phyrexia não importa para você. Nunca importou. O poder é a única coisa com a qual você se importa."

As espadas ao redor de Elesh Norn param, silenciosas. Um brilho sanguíneo de raiva surge por trás delas. "Você — eu odeio você!" Como as flechas de um exército, as espadas voam em sua direção — estilhaços arrancados agora da ponte, das paredes, do próprio corpo de Phyrexia.

Então ela finalmente aprendeu a falar por si mesma, não foi? Bem, isso não é mais preocupação de Elspeth. As espadas, no entanto...

Apenas uma chance para isso. Se Elspeth alinhar tudo corretamente...

Ela voa direto para a parede. No último momento, ela recua. O impulso revira seu estômago, segura-a em um torno, mas ela faz a curva para cima e para longe. As lâminas não têm espaço. Com todos os seus problemas concentrados em um só lugar, Elspeth finalmente libera um raio de luz.

Quando a luz desaparece, ela já está na metade da ponte, em direção à árvore. As esperanças do Multiverso repousam em seus ombros emplumados.

Ela não ouve Jin-Gitaxias se levantar — mas ouve o grito de Norn.

"Volte aqui! Eu não terminei com você!"

Ela demorou demais. É hora de fazer a coisa certa.

Wrenn e Chandra estão quase na árvore. Elspeth tem que garantir que elas cheguem lá.

Episódio 8: Wrenn e Oito

Wrenn costumava pensar que, não importa para onde fosse, ela sempre estaria em casa. É difícil argumentar o contrário para dríades. Tão frequentemente, o lar significava uma árvore que elas nunca deixariam. Para ela, as coisas são um pouco mais complicadas: as árvores com as quais ela se vincula não podem sobreviver ao processo por muito tempo, e ela própria tem assuntos a tratar por todo o Multiverso. Mas ela continuava convencida de que — não importa onde no Multiverso ela acabasse — nunca estaria longe de outro lugar para viver.

Até que ela chegou a Nova Phyrexia. Em todos os seus dias, ela jamais poderia ter imaginado um lugar como este, despojado de toda a vida natural; ao mesmo tempo mortalmente silencioso e preenchido pelo chiado artificial de máquinas. Se você pedisse a qualquer dríade para imaginar seu pior pesadelo, elas falariam de um lugar como este. Wrenn odeia este lugar.

E ela odeia, acima de tudo, que este seja o lugar onde ela vai morrer.

Não é o morrer que a assusta. Diferente de Chandra, que carrega a cabeça e o tronco frágeis de Wrenn em direção à Árvore da Invasão, Wrenn não tem medo das lanças e farpas que os phyrexianos lançam em sua direção. As golfadas de chama e minério fundido que disparam sobre seu ombro — algumas vindas de Chandra, algumas de Koth — também não a assustam. Se tanto, ela gostaria de poder se juntar a eles, mas mal tem forças para manter os fogos dentro de si sob controle. Usá-los contra outros colocaria em risco tudo o que vieram fazer aqui.

Isso é o que realmente assusta Wrenn: a possibilidade de que ela possa não ser capaz de fazer o que todos confiam que ela faça. A Árvore da Invasão não canta mais para ela. Ele não disse uma palavra durante todo o tempo em que ela esteve aqui — nem mesmo antes, quando ela quase conseguiu se enxertar nele. Se ele a rejeitar, então eles não terão como controlá-lo, nenhuma maneira de alcançar Teferi, nenhuma maneira de parar este massacre.

E eles precisarão de Teferi se quiserem deter qualquer coisa disso. Disso, Wrenn tem certeza.

Daqui, sacolejando a cada passo, ela pode ver o massacre que se aproxima: milhares de phyrexianos, com milhares mais sendo montados no local. O metal brilha em cada um — não à maneira da armadura galante de um cavaleiro, mas à maneira de forjas agitadas e agulhas brilhantes. E embora haja mais olhos olhando de volta para ela do que folhas em uma floresta, ela não vê vida em nenhum deles.

"Este lugar não deveria existir", diz ela.

"Nem me diga", Chandra incinera uma lança antes que ela possa atingi-las. "Só temos que aguentar um pouco mais." Sua respiração está arquejante, seus passos desiguais; ela está lutando para manter Wrenn erguida. Wrenn não tinha certeza se Chandra voltaria a andar após a queda que sofreram. Corpos humanos são coisas delicadas. As vinhas de Nissa as pegaram antes que se esparramassem contra o chão — mas às vezes a queda em si era ruim, não importa como você pousasse. No entanto, Chandra se levanta e luta, não importa quanta dor deva estar sentindo.

"Você precisa de remendo?" pergunta Wrenn.

"Estou bem", é a resposta ríspida da piromante.

Uma chuva de agulhas vem em direção a elas — Koth levita o metal sob seus pés para formar um escudo sobre suas cabeças. As agulhas soltam faíscas ao colidirem com sua superfície, algumas encontram novos lares nas costas de mirreanos que Koth não conseguiu cobrir. Ele pragueja, o som como o de resfriar uma lâmina. "Não dá para aguentar isso para sempre!"

"Não será para sempre", diz Chandra. "Assim que Wrenn estiver na árvore, tudo ficará bem."

Exceto que levará tempo para se enxertar na árvore, para falar com ela, para procurar seu velho amigo. E isso supondo que ela seja capaz de fazer qualquer uma dessas coisas. Este corpo dela resistirá o suficiente? Resta tão pouco dela. Chandra a está segurando como um animal de estimação perdido. Diante da forma poderosa da Árvore da Invasão, ela é menos que uma bolota. Se houvesse outros, se ela tivesse suas irmãs com ela, talvez~

Um grito a arranca de seus pensamentos. Wrenn volta à realidade e vê uma gavinha afiada disparar pelo ar sobre o ombro de Chandra. O grito vem de mais adiante — a outra extremidade da gavinha atravessou completamente o estômago de Melira.

"Vocês deveriam ter aceitado nossa oferta", vem uma voz familiar. Nissa. Uma vinha farpada corta diretamente em direção a elas.

Chandra puxa o fôlego. A bola de fogo que ela envia de volta para Nissa oscila e desaparece no meio do caminho. Ela pragueja e, em um ato de desespero, rola para evitar o impacto. Farpas perfuram o chão como lanças — ficando tão altas quanto qualquer um dos guerreiros. Se uma daquelas as tivesse perfurado~

"Estou com vocês!" Koth grita. Ele lança uma pedra escarpada contra Nissa. Uma de suas vinhas cortantes a divide em duas, então lança ambas as metades de volta para os rebeldes.

Chandra queima uma no ar, gemendo com o esforço. Sua respiração trêmula está se tornando um estertor. Wrenn gostaria que houvesse mais que pudesse fazer para ajudar — mas permanecer acordada e se manter viva terá que bastar.

Algumas dezenas de mirreanos são tudo o que resta da força de combate, e os únicos no caminho da investida imparável de Nissa. Enquanto Chandra corre em direção à árvore, Koth, Melira e os outros cobrem sua fuga. Já era difícil o suficiente quando eram apenas soldados phyrexianos com quem tinham que lidar — quase impossível diante de uma máquina de matar como Nissa. Vinhas e lâminas cortam a carne tão facilmente quanto papel.

"Koth!" grita Melira. O sangue derrama como seiva na mão que ela está usando para cobrir seu ferimento. "Koth, precisamos de uma barricada!"

Ele olha para ela. Até Wrenn consegue ler a preocupação em seu rosto. "Saindo agora. Chandra, você vai ter que correr."

"Entendido!"

Koth enterra um punho na plataforma. Laranja brilha por toda a sua forma. O metal range e cresce, formando uma barreira para impedir a aproximação de Nissa.

Mas ainda não terminou de crescer, e Nissa não vai aceitar isso facilmente.

Ela avança em direção a eles, elevada bem acima da superfície da ponte em um emaranhado de raízes parecidas com cabos. Ramos de cobre perfuram os corpos daqueles que estão diante dela — tanto phyrexianos quanto mirreanos. Um de seus passos equivale a três de qualquer outro. Embora Chandra esteja correndo o mais rápido que pode, não há como ela ser capaz de evitar todos os ataques investigativos de Nissa.

Se Chandra quisesse, poderia derreter aquelas raízes no lugar. Fazê-la desmoronar no chão. Mas Chandra não olhava sobre o ombro desde que Nissa apareceu.

"Você não quer machucá-la, quer?" pergunta Wrenn.

Chandra não diz nada.

"Eu entendo. É difícil com amigos. Mas você não está realmente machucando-a. Tenho certeza de que ela jamais iria querer machucar você — então impedir que ela faça isso não é exatamente o que ela gostaria que você fizesse?"

Chandra cerra a mandíbula. "Wrenn."

"Sim?"

"Não é isso —"

Antes que Chandra possa terminar, ela é arrancada para trás. Wrenn cai de seu aperto, pousando na ponte de metal frio a tempo de ver Chandra balançando no alto, Nissa erguendo-a pelo tornozelo com uma raiz longa e acobreada. Um dos mirreanos pega Wrenn e continua correndo.

"Levem-na para a árvore. Mantenham-na em movimento!" grita Koth. Ele também voltou sua atenção para lutar contra Nissa.

Este mirreano só consegue dar mais alguns passos antes que uma das lanças de Nissa o prenda no lugar. Eles arremessam Wrenn pelo ar. Dois de seus camaradas olham horrorizados — mas um terceiro tem a presença de espírito de pegar Wrenn e mantê-la seguindo em frente.

De mão em mão ela passa, lançada pelo ar para mantê-la fora das garras phyrexianas. Os phyrexianos acham que os humanos pouco sabem de união — mas Wrenn sabe o contrário.

Arte de: Jason Rainville

No momento em que chega aos braços de Melira, Wrenn está quase na Árvore da Invasão.

E Chandra ainda está no ar.

"Ainda conosco?" Melira arqueja.

"Estou, mas~", diz Wrenn. "Eu não posso — não posso fazer isso sozinha, preciso da ajuda da Chandra —"

"Sinto muito, mas não acho que você vá recebê-la", diz Melira. Como ela está correndo, ferida como está? Uma pontada de culpa atravessa a dríade. Há muito dependendo disso para parar, mas~

"Nós avisamos ", diz Nissa. Sua voz estrondosa ecoa por toda a plataforma. "Avisamos que isso nunca funcionaria!"

Vinhas se enrolam no pescoço de Chandra. Wrenn também as sente, enquanto Melira a ajuda a subir na plataforma de observação.

Cada vez mais alto Chandra sobe, contorcendo-se e lutando, seu corpo balançando. Quanto tempo os humanos conseguem ficar sem respirar?

"Como eu instalo você nesta árvore?" Melira pergunta.

Abaixo delas, Koth e dezenas de mirreanos detêm o resto do exército phyrexiano nas barricadas. Nissa poderia ter sido capaz de passar direto por cima — mas os outros terão que seguir pelo caminho difícil. Soldados escalam o topo da barricada e lançam espinhos recuperados de volta para o exército phyrexiano fervilhante. Alguns são arrancados de suas posições, levados aos gritos para a massa de metal e óleo do outro lado da barricada.

Mesmo assim, eles lutam.

A língua de Wrenn gruda no céu da boca. "Apenas me deixe junto a ela, mas preciso de ajuda com o fogo —"

"Sinto muito, isso é mais do que posso fazer", diz Melira. Ela pega Wrenn e encosta as raízes retorcidas de sua cintura contra a árvore. "Mas posso te ajudar com isso, pelo menos um pouco."

Antes que Wrenn possa perguntar o que ela quer dizer, magia flui da mão de Melira, brilhando em um branco tênue. Força se infiltra na casca de Wrenn conforme o brilho desaparece — mas não apenas força. Algo nisso parece tão fresco quanto a chuva, tão vital quanto o sol.

Melira está zonza. O que ela fez parece ter exigido muito dela. Ela cai de joelhos, depois se senta, com as costas contra o revestimento branco do Rompe-reinos. "Deve~ deve ajudar, um pouco~"

Wrenn quer perguntar a Koth se ele irá salvar Chandra. Ela quer se unir a qualquer árvore, exceto esta, quer se apegar a si mesma por mais um pouco. Ela quer ajudar Melira, embora não saiba nem por onde começar.

Mas em momentos como estes, é difícil conseguir o que se quer.

Ela fecha os olhos enquanto suas raízes se fundem à Árvore da Invasão. Não — ele tem outro nome, um que prefere, e seria rude de sua parte não usá-lo. Rompe-reinos. A doença inunda seus sentidos. O óleo rola sobre suas raízes, revolvendo-se com maldade. Nenhuma canção a preenche, nenhum chamado da floresta, apenas uma insistência de que ela não pertence àquele lugar.

Ela não pertence. Mas não importa o que o Rompe-reinos diga, ela vai ficar.

Nas profundezas do recesso silvestre de seu coração, Wrenn começa a cantar. Sobre os carvalhos históricos de Innistrad, sobre os pinheiros flutuantes de Zendikar, sobre o bordo, o teixo e a faia ela canta. Cada vez mais alto o canto escalonado do Rompe-reinos: você não pertence . Algo por dentro se contorce , então começa a puxar.

Wrenn solta um grito agudo. Ela arranha o revestimento com os dedos, relutante em ceder, não agora. A pressão está aumentando dentro da cavidade de seu peito — o fogo está ansioso demais para combater a má intenção da árvore. Ele está queimando o interior de sua garganta. Se ela ceder a ele, o fogo pode muito bem lhe dar tempo suficiente para se fundir completamente à árvore — se não a consumir primeiro.

Mas isso não funcionará. Há fome demais. O fogo, o Rompe-reinos — há fome em ambos os lados, e ela oscila entre os dois predadores.

Tudo isso está começando a doer.

Chandra saberia o que fazer. Ela poderia falar fogo. Acalmá-lo, direcioná-lo, dizer a ele para onde precisa ir, impedi-lo de queimar Wrenn enquanto queima o Rompe-reinos.

Mas Chandra balança acima da ponte, e ela também está prestes a morrer aqui, e não haverá mais ninguém para ajudar.

Wrenn cerra a mandíbula com força. Você pode queimar, mas apenas as coisas que não sou eu , ela pensa. Chandra disse que pensar nisso poderia ajudar.

Um clarão em sua barriga, o cheiro de carvalho queimado. As mil vozes dentro do Rompe-reinos gritam ao mesmo tempo — mas Wrenn grita também. Como o fogo deve distinguir os dois? Eles são um e o mesmo, agora. Já os pensamentos mais sórdidos do Rompe-reinos ecoam em sua própria mente: eles devem se espalhar, devem reivindicar o que já foi reivindicado, devem despertar o plano para as glórias de Nova Phyrexia. Como um fungo enlouquecido, eles continuam seus gritos mesmo enquanto o fogo os consome.

Mesmo enquanto a consome.

Chamas lambem seus olhos.

Wrenn os abre.

Há algo atrás de Nissa. Algo em branco.

O ouro brilha em sua visão, tão brilhante que ela o confunde a princípio com o fogo — mas logo desaparece. No centro está Nissa. A luz explode de sua boca e olhos, as raízes de metal que a blindam tornaram-se incandescentes. O golpe a atordoa — ela solta Chandra.

O que foi~ ? Ah, ela vê agora — o anjo pega Chandra e a coloca na plataforma.

"Wrenn!" grita Chandra, engasgando e arquejando. "Você ainda está aí dentro?"

"E-eu estou", diz Wrenn. O Rompe-reinos está tentando convencê-la de que não existe Wrenn — mas ela sabe que isso é mentira. Enquanto o Multiverso ainda estiver em perigo, ainda haverá uma Wrenn.

Chandra tosse e arqueja — mas coloca a mão no ombro de Wrenn mesmo assim. Wrenn consegue ouvir sua respiração, mesmo que sua visão esteja começando a desaparecer. "Você está fazendo um trabalho tão bom, Wrenn."

Ela está? Partes dela estão começando a tremeluzir como cinzas.

"Você se lembra do que conversamos lá em Dominária?"

A voz de Chandra ecoa na cabeça de Wrenn. Tudo fica nebuloso ao redor delas, girando como uma folha ao vento. Pessoas estão gritando. Alguém está ferido. Há uma guerra acontecendo a apenas alguns metros de distância, e~ O que foi que Chandra disse naquela época?

"Como~ respirar~ ?"

Atrás de seus olhos queimados e fechados, as cores começam a rodopiar: ouro, vermelho, verde.

"Isso não ajuda agora", diz Chandra. Ela coloca a mão no ombro de Wrenn. O calor floresce na mente de Wrenn. Em vez de permanecer dentro de Wrenn, os fogos agora fluem do Rompe-reinos para Chandra, parando apenas brevemente entre eles. "O fogo vai queimar, não importa o que você faça, mas você pode moldá-lo se tentar."

É mais fácil pensar sem o fogo no caminho. Wrenn consegue focar em algo mais do que na dor. Ela deve moldar o fogo. É uma coisa viva, assim como suas raízes. Como qualquer broto em crescimento, ele precisa de orientação.

A paisagem em sua mente muda. As cores ganham forma: uma árvore retorcida brota do vermelho e dourado, seus galhos de cobre polido. Um vento invisível agita suas folhas. Lentamente, elas estão caindo, desaparecendo enquanto espiralam. Um lago infinito de óleo negro cerca a árvore brilhante. Bolhas sobem e estouram em sua superfície, cada uma uma voz, cada uma implorando para que Wrenn se junte a elas.

Mas ela não irá. Ainda não.

Nos ramos de sua árvore imaginada está uma menina. Quando ela começa a cantar, o fogo flui de seus lábios, derramando-se no vazio negro em busca de alguém que o ouça. Pelo que parece uma eternidade, a canção flutua pela escuridão até que — finalmente, impossivelmente — ela ouve algo.

Wrenn ouve algo.

Fraco, desaparecendo, o menor sussurro de verde contra a escuridão — mas está lá.

"Você consegue fazer isso~" a voz de Chandra ecoa.

A batalha ecoa também. O esmagamento de metal no osso; as ordens gritadas de Koth; o impacto estrondoso de alguma munição invisível.

Ela deve se concentrar — para ignorar tudo isso.

Wrenn envia seus fogos para fora. Normalmente, ela deixaria qualquer muda tão tímida levar o seu tempo. Árvores precisavam encontrar seu próprio caminho. O trabalho de uma dríade era cuidar desse processo, torná-las o melhor que pudessem ser. Encontrar esta pobre alminha agora — enxertar-se nela — vai contra tudo o que ela conhece.

Ela espera que ele entenda.

Arte de: Viko Menezes

Os fogos buscam cada vez mais longe aquele rastro furtivo de verde. O negro avança sobre as raízes da árvore — mas ainda assim a menina canta, ainda assim ela busca, ainda assim ela espera que a canção distante retorne.

Lá: uma muda não maior que sua mão, lutando contra a escuridão.

Quão solitária esta criação delicada! Há quanto tempo ele está aqui no escuro? Pontos amaldiçoados alinham suas bordas; o que resta de verde é pálido como a espuma do mar. Este não é um lugar destinado aos vivos.

Enquanto sua mente o alcança — enquanto sua canção preenche seus ouvidos — ela molda os fogos mais uma vez. Uma floresta incandescente brota do óleo, o caminho ardente levando direto à muda. Ao redor deles, o óleo começa a borbulhar, a agitar-se.

Junte-se a nós. Casca que nunca quebra, folhas que nunca caem, um fogo que nunca se consome — junte-se a nós, e você será eterno.

Mas Wrenn não quer. E a muda também não, sua canção tornando-se aguda de medo.

Chandra disse que o truque era moldar o fogo. Pois bem — Wrenn seguirá o exemplo dos mirreanos lá fora. Assim como eles a protegem, ela protegerá esta muda até que possa cantá-la plenamente desenvolvida.

Árvores flamejantes crescem até o tamanho de montanhas, seus galhos se entrelaçando como os escudos dos constructos de Koth. Ondas de óleo negro arremessam-se contra eles — mas as árvores brilham intensamente, e o óleo escorre de sua superfície fervente. O tempo todo as chamas de Wrenn dançam ao redor da muda, o tempo todo ela canta com sua voz vacilante.

Cresça , ela ordena. Por todos nós.

E embora a muda fosse tímida, ele sabe agora — cercado por seus companheiros maiores — que está seguro. A canção de Wrenn é um tronco seco na fogueira: ele cresce alto, alto, impossivelmente alto; sua canção torna-se um canto estrondoso, um canto de guerreiro; seus galhos grossos como pedregulhos.

Quão bonito ele se tornou. A felicidade brota dentro dela. Ela se sente sorrindo, embora não saiba como; seu corpo está distante e frio. Apenas os fogos aqui lhe dão algum calor. Mas o que eles farão quando esses fogos se apagarem? Wrenn não sabe. Mas ela sabe que tem um novo parceiro maravilhoso.

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Olá, Oito , diz ela. Vamos apresentar você a Teferi.

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Oito sabe que não tem muito tempo. Os mesmos fogos que o protegem logo envolverão a ambos. Com seus outros hospedeiros, ela aprendera todo tipo de coisa sobre eles — quais águas preferiam, como o sol se sentia contra suas folhas — mas com Oito, só há espaço para uma coisa.

Deixá-lo crescer.

Empoleirada em seus galhos, Wrenn dispara pela escuridão como uma estrela por um céu sem lua. Cem anos de crescimento, duzentos, trezentos, acontecem no intervalo de segundos. Tivesse ela um estômago, ele estaria perdido em algum lugar nas marés crescentes de óleo negro abaixo deles. Quanto mais alto eles sobem, pior é a dor que ela sente — mas ela se segura firme, mesmo assim.

Os outros disseram que Oito era o tipo de árvore que conectava planos inteiros. A princípio, Wrenn não tinha certeza de como o guiaria sozinha. Ela vê agora que não havia necessidade de preocupação. Ele quer crescer. Tudo o que ele precisa é do poder que ela lhe empresta.

Com fogos fervilhando em sua barriga, Oito alcança novos planos. Seus galhos crescem, dividindo-se aqui e ali, cada um seu próprio caminho. Algo na escuridão cede , e logo ele abriu buracos ao redor deles. Wrenn não consegue contá-los todos — é como se tivesse entrado no olho de um inseto. Onde antes havia escuridão, agora há um caleidoscópio de luz.

Em todos os lugares onde seu olhar pousa, há algo para seduzi-lo: um castelo assaltado por todos os lados por carvalhos dourados; uma cidade de cromo brilhante e imponente à beira do colapso; um plano onde árvores, rochas e rios explodem com a bela e brutal energia da vida. Ela vê um templo em chamas, um sol que consome tudo o que toca, um rio que flui vermelho-sangue com o óleo de seus marinheiros. E, no entanto, em todos esses planos díspares, há alguma unidade: céus carmesins, símbolos phyrexianos, a natureza se contorcendo contra si mesma. As pessoas que ela vê estão sempre no auge de uma luta. Crânios desmoronam sob pernas mecânicas. Soldados têm suas cabeças mergulhadas em tanques de óleo negro. Sangue escorre da boca daqueles que pegaram em armas em vez de entregar seus lares.

Chandra disse que isso afetava todos os planos — mas vê-lo assim, tudo exposto diante dos olhos de Wrenn, é uma história diferente.

Eles precisam da nossa ajuda , diz Oito.

Temos que encontrar o que eles não encontraram , responde Wrenn.

Só conheço os lugares que eles viram. Os lugares aonde eles me obrigaram a ir.

Eu conheço um lugar escondido. Mas para encontrá-lo, temos que nos perder um pouco.

Oito sente-se nervoso abaixo dela. Wrenn passa a mão por sua casca, brasas rastejando no rastro de seus dedos. Não se preocupe. Estaremos juntos.

Estes olhos dela não são olhos; este corpo dela não é um corpo. Ela pode abandoná-los se desejar, se eles a atrasarem — e assim o faz. A visão não ajudará quando se trata de se perder; só ficará no caminho. Os emaranhados da magia de Teferi não são visíveis a olho nu. Você deve senti-los — sentir seu crescimento vacilando ou disparando mais rápido, suas folhas ficando imóveis, suas chamas finalmente mantidas no lugar. A luz de mil planos recai sobre Wrenn, mas ela não lhes dá atenção, guiando Oito cada vez mais para cima, sempre buscando. Como uma tecelã diante de um tear, ela guia seus muitos galhos: aqui uma subida, ali uma queda; aqui um laço, ali um cercado. Pensar em qualquer parte disso desequilibraria tudo. Há um lugar em algum lugar aqui, fora de vista. Há um lugar que o tempo não pode tocar. Há um lugar onde ninguém jamais pensaria em procurar, um lugar encontrado se ao menos ela puder seguir o rastro desajeitado de um amigo~

Ali.

A visão retorna conforme as chamas rugem dentro dela. Eles encontraram o lugar certo: o céu é azul como o sonho de uma muda; as pessoas, embora armadas, não mostram sinais de medo; os rios correm verdes; as árvores dão os frutos de um tratamento gentil. Sob uma dessas árvores ela vê uma multidão reunida. Em pedras suavemente esculpidas eles se sentam, as roupas drapeadas sobre suas formas brilhantes como joias, sua pele aquecida pelo sol. Entre eles estão magos e guerreiros, estudiosos e diplomatas, uma rainha e meia dúzia de fazendeiros. Em suas vozes fortes, eles agradecem a tudo o que veio antes deles — aos mares, ao céu e à grande árvore que resistiu a tanto.

Entre eles — parado ao lado da rainha — está Teferi. Há uma facilidade nele aqui que ela nunca vira antes, uma calma que o dominou. Wrenn odeia estragar a felicidade de seu amigo — mas isso não pode esperar. Ele entenderá.

Com um pensamento ela chama por Oito, e Oito é rápido em responder. Um galho explorador abre uma fenda neste matagal emaranhado. Tão rápida quanto seu criador, a fenda cresce em algo maior: um portal grande o suficiente para alguém passar.

Arte de: Liiga Smilshkalne

Wrenn não consegue andar. Ela não tem pernas nem nesta forma efêmera de chama, nem na forma física, enxertada no Rompe-reinos lá em Nova Phyrexia. Oito não consegue andar. Ele é a alma da árvore, afinal; se ele partir, tudo desmoronará. Sua única esperança é gritar e esperar que os outros percebam o que aconteceu.

"Teferi!"

O tilintar de armas empunhadas, o zumbido de feitiços, o sussurro de sandálias contra a terra. Eles notaram. O espanto faz morada nos observadores — com pitadas de cautela e bravura. Todos os rostos se voltam para a rainha e o homem ao seu lado. Ela, por sua parte, opta pela cautela. "Quem é você, efrite?"

Mas Teferi coloca uma mão confortadora no ombro da rainha. "Ela é uma amiga minha." Ele desce os degraus, parando no final para olhar de volta para a rainha. "Podemos não ter muito tempo para terminar os preparativos."

"Ousado da sua parte presumir que há uma ameaça que não podemos enfrentar", responde a rainha. Sua expressão torna-se calorosa. Wrenn sente uma pontada de culpa. A rainha não pode saber o que é que eles estão enfrentando — mas Wrenn deve esperar que a ajuda deles seja suficiente.

"Wrenn, você me encontrou", diz Teferi enquanto se aproxima do portal. A gentileza e o charme que ele demonstrava ao redor de seus companheiros desaparecem um pouco. Wrenn não é boa com rostos, mas até ela reconhece a preocupação quando a vê. "Eu não acho que temos tempo para recordações, temos?"

Algo em seu peito se aperta. É tão óbvio? Ela balança a cabeça. "Não. Sinto muito, não temos. Foi~ Encontrar você foi~"

"Você não precisa explicar", diz Teferi. "Apenas me diga o que posso fazer para ajudar."

Por um segundo, ela não está mais lá — está em algum lugar frio, escuro e vazio. Quando ela retorna, seu peito parece ainda mais apertado. "Precisamos de você em Nova Phyrexia. Todos estão lutando, mas há tantos deles e tão poucos de nós. A qualquer segundo eles vão nos dominar. Precisamos de um grande herói."

Ela consegue se ver refletida nos olhos de Teferi — toda chama, sem corpo real. Assusta-a pensar que não tem corpo, nenhuma solidez agora, mas muitas coisas a assustam, e ela ainda não terminou.

"Um grande herói? Por acaso estou olhando para uma", diz ele. "Levei décadas para encontrar este lugar, e você o fez num piscar de olhos."

"Por favor", Wrenn range. Aquelas palavras não parecem adequadas a ela. "Teferi, não há tempo."

Ele assente em compreensão. Ele tenta tocar seu ombro, apenas para recuar quando se lembra de que há apenas chamas para encontrá-lo. Ele se volta para os outros —

Novamente, ela desaparece da existência, novamente é frio e escuro e —

Mil bainhas presas a mil cinturas, mil lanças chocalhando com o movimento, botas na terra exuberante, cantos de guerra no ar — O aperto sobe para sua garganta. Um exército inteiro se amontoara daquela vez. Milhares deles. Ela tinha acabado de falar com Teferi, e~ Quando todas essas pessoas haviam chegado?

Quanto tempo ela ainda tem?

Não o suficiente. Nem de longe o suficiente.

Wrenn aperta os olhos para fechá-los. Pense. Se não restar muito dela para se juntar fisicamente à luta, ela deve fazer o que puder para ajudar. E se os phyrexianos trouxeram números — bem, havia números aqui. Não tantos quanto o inimigo, mas sua bravura brilhava tanto quanto sua armadura. O povo de Teferi poderia ajudar. Se ela conseguisse trazê-los para a luta, claro.

Mas isso seria uma confusão. Este lugar está escondido dentro dos ramos da própria árvore. Deixar Teferi passar é fácil o suficiente — ele era apenas uma única folha. O resto do exército seria uma confusão de vinhas brotando, emaranhando-se entre todos os planos díspares que ela vira.

E ocorre-lhe então, enquanto Teferi se volta para ela, exatamente o que ela tem que fazer.

Você desfaz um emaranhado movendo-se através dele. Ela e Oito poderiam fazer o mesmo aqui — se tentassem, poderiam empurrar os planos um contra o outro até que Nova Phyrexia cedesse, e então deixassem este no seu lugar. Wrenn não sabe para onde ela irá. Oito também não parece saber — tudo o que ele oferece é que é algum lugar escuro, algum lugar que não é um lugar de forma alguma.

E os dois não terão muito tempo depois.

Eu estou de acordo com isso , diz Wrenn. Pelo menos teremos um ao outro.

Calor vindo de Oito. Ele também está de acordo com isso.

Teferi dá um passo em direção a eles — em direção ao portal.

"Espere", diz ela. "Não venha sozinho. Traga seus amigos."

"Wrenn, o esforço que levaria para fazer isso —" ele começa, mas ela não consegue suportar fazer isso se alguém for dizer a ela para parar.

"Eu sei. Mas eu quero fazer isso. Por favor, traga quantos puder. Eu encontrarei alguma outra maneira de viver."

Teferi não responde — mas seus amigos sim. Os guerreiros fecham fileiras atrás dele como pétalas, seus escudos sobrepostos. Magos preenchem os espaços atrás, e —

Frio, escuro, um lugar que não é um lugar —

Mais tempo desta vez. Longo demais. Esta será a última vez, não será?

Teferi enviou o chamado. Milhares responderam, prontos para avançar em Nova Phyrexia enquanto os dois compartilharho o espaço. Tudo porque ela o alcançou novamente. Não importa o que mais sua vida tenha sido — ela está orgulhosa disso.

"Foi tão bom conhecer você, Teferi. Espero que o que restar de mim se lembre", diz ela.

O sorriso de Teferi só faz doer mais. "O que restar de mim sempre se lembrará de minha amiga, Wrenn", diz ele. "Uma heroína cujo nome a precede."

Frio nas bordas de sua visão, a escuridão lambendo seus membros. Pelo menos não será Nova Phyrexia. Ela está mais feliz morrendo aqui, com um membro em Zhalfir.

Wrenn fecha os olhos e faz o que faz de melhor: ela cresce.

Arte de: Cristi Balanescu

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O portal que surge diante dos guerreiros reunidos de Zhalfir envergonharia uma montanha. Envolto em chamas, mas liso como a superfície de um lago, é uma coisa de beleza — no entanto, as imagens refletidas nele são tudo menos isso. Do outro lado há apenas metal, apenas sangue, apenas o óleo negro viscoso de Nova Phyrexia. Restam apenas um punhado de pessoas atrás de uma barricada improvisada: um homem nos portões, lutando contra um exército inumerável com o que quer que consiga encontrar, uma mulher caída perto de uma árvore e uma piromante ao seu lado, combatentes arremessando pedras por falta de armas melhores. Um anjo dourado repele a Grande Pretora — mas até sua lâmina celestial está cansada.

Uma máquina de guerra avança contra as muralhas. Um único golpe fará com que caiam.

Na verdade, eles nem precisam desferir o golpe. A monstruosidade arremessa o anjo através do portão — e a força disso sozinha é suficiente para estilhaçá-lo.

Os exércitos reunidos de Nova Phyrexia avançam pelo portão e congelam, em confusão e horror. À frente deles está um portal para um lugar exuberante e verdejante, cultivado por mãos cuidadosas e corações atentos. É algo que os horroriza. Assim como os guerreiros que atravessam o portal e o mago que está na vanguarda.

Faz muitos anos que não são chamados para a guerra — mas Zhalfir está pronto.

Ravnica: Um e o Mesmo

A firese doía, é claro, mas assim que minha garganta se tornou metal e meus tentáculos endureceram em fios e bobinas, senti a parte que eu sabia ser eu mesma descer, esconder-se, tornar-se pequena e enrolada como um broto de samambaia. A sensação de cair na escuridão, a memória de um vazio infinito e vazio. Sinto meu corpo distante se tencionar com a memória do nada e entrar em pânico, desesperadamente amedrontada, e tento lutar para voltar à superfície de luz e cor com todas as minhas forças. O resto de mim gritou, carregou meu olhar e transformou meia dúzia ao meu redor em pedra. Eu me contorci e arqueei minhas costas enquanto o óleo phyrexiano passava pelos meus dentes.

"Solte-me! Você vai pagar! Você morrerá por isso mil vezes mais!" é o que tentei rosnar, mas tudo o que saiu foi o raspar e o retinir de alumínio arrastado sobre ferro. Os agentes phyrexianos que eu havia transformado em pedra acima de mim foram empurrados para fora do caminho por mais corpos metálicos, os quais eu rapidamente transformei em pedra, que foram derrubados e substituídos por mais corpos metálicos, os quais eu então transformei em pedra. A pilha crescente de estátuas de antigos inimigos desmoronou e caiu sobre minha perna, mas eu não senti nada, porque minha perna havia se transformado em ferro vivo.

Não sou de recuar, mas tudo o que posso fazer é afundar. Cair e colapsar nas profundezas de mim mesma. Estou desesperadamente amedrontada. Afundo nas paredes da minha mente e, conforme desço, conforme o metal penetra em cada veia, encontro algo intocado nas paredes da minha mente.

Como se meu corpo soubesse onde colocar minha mente, como se ela estivesse segura aqui.

Ele já havia colocado parte de mim aqui antes.

Fugi para aquele pequeno lugar privado, aquela porta secreta atrás de uma estante metafórica, e conforme o que restava de mim mergulhava para fechar a trava e desaparecer em meus sonhos. Seria mais seguro se eu não acordasse.

Eu me fui. Estou dormindo. Sonhos são onde a pele e a carne pertencem.

Algo acontece, na superfície.

Uma isca.

Um rosto familiar.

Há um momento em que sinto meu corpo beijar, mas não da maneira que desejo, e o sonho azeda. Mergulho mais fundo para esquecer a sensação, o medo de que meu corpo tenha feito o que meu coração jamais desejaria.

Agora, observo o que fazemos através da névoa da memória e do sonho. Observar-nos agora, cavalgando um galho frio e inorgânico de uma árvore estranha e alienígena, liderando a destruição da cidade que tanto amo, parece sonambulismo. Estou tendo dificuldade em discernir a diferença entre os pesadelos que estamos encenando e as memórias agradáveis que recordo. Sinto como se não conseguisse dizer se saí da cama ou não. E, no entanto, ainda me sinto acordada, viva e gloriosa, imbuída de propósito pela própria Elesh Norn. Cercada pela majestade de Phyrexia, chego à cidade de Ravnica para envolvê-la em nosso abraço.

Sento-me de lado em um grande galho da maior das árvores, um membro reluzente do poderoso Quebra-reinos, guiando-o pelo céu cinza-ardósia de Ravnica, descendo pelos galhos como uma garra de relâmpago lento. Daqui de cima, posso ouvir o pânico do público, ver aglomerados de carne correndo como ratos pelas ruas. A estrutura tríplice do Senado Azorius surge à frente e eu sorrio, tantos motivos para achatá-lo, tantos métodos. Escolho o mais simples e ordeno que um galho mergulhe direto pelo seu centro. A poeira e as nuvens que surgem no impacto são suavizadas pela chuva, e podemos ver o galho sondar o interior do Senado como um dedo em uma ferida. Estamos encantados.

Arte de: Leon Tukker

Há um edifício que chama minha atenção, ao lado do tanque onde uma fonte costumava transbordar; sua aparência é comum, mas sua gravidade nos atrai para perto.

"Pousem aqui", eu ordeno. Dezenas respondem ao nosso comando, e o Quebra-reinos continua a mergulhar. Os grandes membros do Quebra-reinos mergulham nos paralelepípedos e os elevam ao céu, mas ordenamos cautela em meio ao caos — quero entrar naquele edifício, mas não tenho certeza do porquê. É a prisão em que fui mantida, a prisão de que tentei, e consegui, escapar, e aqui, das profundezas da minha própria mente, a memória horrível irrompeu como uma nascente. Meu coração dispara na memória do medo e é confuso: por que este corpo entra em pânico assim? O pânico é um estado fraco e carnal. Talvez as respostas estejam dentro do prédio. Guio meu galho para baixo e a amplitude de minhas forças se junta enquanto . . .

Tenho dezessete anos.

Meus pés estão submersos em água parada há semanas, e tento tirar a venda com meus tentáculos. Eu sibilei e lutei com força adolescente, mas alguém está me segurando — suas unhas cavam em meus braços enquanto ele me mantém perto. Eu o dominaria em qualquer outro dia, mas metade das minhas costelas estão quebradas, sangue escorre do meu lado. Eu arfo em busca de ar. Tudo está escuro e cheira a miséria e urina. As mãos que me seguram não são familiares, pertencem a um estranho.

"Vou te contar o que está acontecendo, que tal?"

Sua voz é rouca e próxima ao meu ouvido. Eu quero que ele seja xisto. Quero que sua língua se desfaça em arenito. Ele é um guarda prisional Azorius, e quero despedaçá-lo com minhas mãos.

Não posso ter certeza. Isso está acontecendo agora?

A única outra górgona chama o resto de nós do outro lado da cela.

"Vocês não estão sozinhas, minhas pombas, estou aqui, estou aqui."

Eu grito por ela, e meu grito é interrompido por um soluço.

Ouço duas perfurações úmidas, um grito, então um som que me lembra carne atingindo o chão molhado. Os outros prisioneiros Golgari clamam por ela. "Ludmilla!! Não!"

"Ela está no chão agora. Vocês, Golgari, não se importam com isso, amam o chão, não amam?"#linebreak #linebreak Eu grito e ouço o apelo dela pelo resto de nós através de sua própria angústia — "Não tirem os olhos delas também, não os tirem, estou aqui, pombas! Estou aqui, estou aqui! Vocês não estão sozinhas, estou aqui!!"

E então, com um corte úmido e um baque pesado, ela não estava mais. Eu era a única górgona restante.

Eu não estava sozinha. Nunca estamos sozinhos.

Nós?

Nós — Phyrexia, Golgari, somos um e o mesmo.

Algo está errado. Estou tendo dificuldade em me concentrar. Devo demonstrar minha capacidade como general para afastar suspeitas de fraqueza. Mas o sonho de agora serve ao meu propósito. O sonho é um lembrete de que eu não fui forte o suficiente, de que apenas nós podemos eliminar tal preconceito dos planos. Apenas Nós poderíamos ter evitado aquela dor.

Onde estamos mesmo? O ar está enfumaçado com detritos e umedecido pela chuva. O céu está rendado com galhos entrelaçados. Meus parentes phyrexianos inundam as ruas, e nós os seguimos para dentro da prisão onde meu eu mais fraco do passado foi encarcerado.

Minhas botas estalam enquanto entramos na entrada frontal demolida da prisão. O telhado está meio desabado, buracos no chão levam a uma rede elaborada de celas e câmaras secretas. Eu nunca vi nada disso até o dia em que tentei escapar, então continuamos em frente.

Uma série de guardas Azorius e Boros sai correndo. Eu me inclino para o meu tenente e não consigo evitar um sorriso ao dizer:

"Cegue-os."

Meus agentes avançam e, em dez segundos deliciosos, fazem exatamente isso.

Um Kraul completado que reconheço como um tenente limpa o sangue de suas garras. Com uma garra, eu os aponto para cima. "Levem-nos à Promenade Transguilda como um exemplo do que fazemos aos injustos."

Qual é aquele ditado mesmo? Olho por olho e um olho e um olho e um olho . . .

Nossas forças abriram uma caverna que leva à cidade subterrânea. Eu a reconheço, então começamos a descer.

"Transformem meu povo no nosso", ordenamos enquanto descemos ao reino dos Golgari, "estou aqui, pombas, estou aqui. Vocês não estão sozinhas. Nunca mais estarão sozinhas."

Galhos profundos mergulham na cidade abaixo. Sigo um para baixo, na cidade subterrânea Golgari. Estou cercada por aliados phyrexianos transformando rapidamente os rostos de horror perto, ao redor e acima de nós, em rostos brilhantes, perfeitos, completados. Phyrexia é tão linda, vejam como nosso povo é belo junto e reluzente. É uma colmeia no sentido mais verdadeiro, todas as peças de um único propósito. É estranho, nós, Golgari, tentamos demais criar um enxame verdadeiro a partir de muitas partes díspares, e finalmente, nós nos reunimos em um coletivo. E o Quebra-reinos segue obedientemente — saindo da superfície acima como grandes raízes, eles reviram Korozda, o grande labirinto, e enviam uma grande fenda pelas paredes da catedral de Svogthos. O som disso vibra em meu peito e eu rio.

As horas de nossa invasão se transformam em um dia inteiro, depois dois, depois mais; avançamos sempre, sem detença. Não precisamos da peculiaridade do sono. Não precisamos de suprimentos. Precisamos de corpos.

Isso ainda parece sonambulismo. Um sonho, uma memória, vem à nossa mente. Através dos estrondos e colapsos, cantamos sem vergonha. A melodia se duplica enquanto cantamos, chacoalhando no metal de nossa garganta:

"Um castelo cresce na Antiga Profundeza,#linebreak Suas janelas brilham com um brilho ancestral.#linebreak Alguns vagam por seu labirinto, uma confusão de decadência,#linebreak e o Reino da Podridão um dia surgirá."

É noite em Ixalan, e eu canto para a vasta e zumbinte selva. Nosso pequeno bote se saiu tão bem, levando-nos tão longe rio acima até a cidade dourada. Há um brilho de umidade em minha pele e ela se torna azul-petróleo pálido sob a luz brilhante da lua. Vagalumes dançam ao nosso redor, e Jace está sorrindo como se tivesse um segredo.

"Música alegre", ele provoca.

"Os Golgari têm pouco com que se alegrar." Abro meus olhos.

Meu tenente está me encarando. Eu falei em voz alta? Sou incapaz de explicações.

Felizmente, um grupo de guerreiros Selesnya atravessa um buraco no labirinto — que estranho vê-los aqui embaixo! — estamos divertidos, quão pitoresca é a visão de unidade deles. Eles pensam que marcham como um só, mas não sabem o que é ser um só.

Arte de: Artur Nakhodkin

A cidade subterrânea está infestada com meu grupo, transformando meus súditos e parentes; é uma visão tão orgulhosa e bela. Mas estou caminhando, ao que parece, para algum lugar que recordo. Não nos importamos, estamos ocupados latindo ordens e fazendo nosso trabalho e nos deliciando com quão bem servimos a Phyrexia. A glória de Phyrexia tem, e usa, mil assassinos, mas eles também viram nosso potencial. Elesh Norn vê que somos mais valiosos como uma evangelista, como uma líder, e isso toca meu coração ao saber que ela vê minha qualidade mais preciosa. Tão poucos me veem como algo mais do que um ser criado para matar . . . mas eles viram o que eu realmente poderia fazer. Uma parte de mim se lembra de aprender isso no convés de um barco, aperfeiçoando-o de um trono de pedra, e olhem para nós agora. Que glória posso dar como general. Eu nos levo por becos e conexões, descendo escadarias e vielas para um pequeno apartamento escondido de tudo. Sonambulismo no sentido literal.

Estou acordada por um momento e reconheço meu antigo apartamento. Abro a porta.

Deuses, é pequeno. Eu o adoro. É comum e cheio de lixo.

Não moro aqui desde que me tornei mestre de guilda. O apartamento é apertado, apinhado de lembranças e recordações de pelo menos uma dúzia de planos diferentes. Um estandarte de Locthwain acima do fogão, um pote de Theros no qual eu guardava chá, uma trombeta de chifre de Kaldheim, uma carruagem segoviana inteira que eu mal conseguia carregar para as Eternidades Cegas, mas que agora repousa sob uma redoma de vidro — eu sempre gostei de bugigangas . É espalhafatoso, todos esses itens em um quarto, quão dissonantes são todos um ao lado do outro, mas eu gosto. O efeito é estranho, estar neste quarto antigo. Sorrio por estar de volta com as coisas da minha vida antiga, antes de ser mestre de guilda, antes de o Multiverso se tornar complicado. De certa forma, as coisas eram melhores quando minha vida era tão portátil. Apenas olhe para todos os meus tesouros e as histórias que trouxe com eles. Não tenho certeza se isso está acontecendo agora ou se esta é a memória de outra pessoa pela qual posso caminhar e tocar. Por que eu sonharia com um apartamento feio em vez da glória do meu povo unificando o Multiverso em um todo perfeito? Por que eu sonharia com sujeira sem sentido como esta? Memória e sonho se misturam. Lembro-me do brilho das estrelas de outro plano. Lembro-me de comprar chá nas selvas de um plano e trazê-lo para casa para os amigos deste. Sei que esses lugares existem, que todo tipo de histórias acontecem neles, e me conforto com o quão mais parecidos conosco, quão mais familiares eles serão. Não mais caminharei incerta sobre o solo de outro plano; em vez disso, caminharemos com facilidade com a língua de nossas mães em nossos ouvidos.

Há um objeto na mesa central que não consigo identificar.

Sei que é um objeto. Sei que é prata opaca, uma série de pilhas de círculos e gravuras, com uma ponta longa estendendo-se de um anel vazio ao seu lado. Eu o pego, viro-o para frente e para trás, e longas linhas laranjas de magia aparecem brevemente de suas pontas. Estou cada vez mais irritada, o que é isto? Procuro em minha mente, mas o conhecimento está distante, guardado em segurança pela almofada da memória. Não, guardado em segurança por algo (alguém?) mais.

São as semanas antes da Guerra da Centelha, e estou deitada no chão do meu apartamento, segurando minha testa na pior enxaqueca da minha vida. O ar ressoa e luzes brilham enquanto, no fundo da minha mente, sinto o trinco nas profundezas da minha própria mente. Uma mão pressiona a ponte do meu nariz enquanto a outra se agarra desesperadamente à bússola taumática. Eu disse aos meus atendentes que precisava de privacidade e apressei meu caminho para cá, a tempo de me trancar em meu antigo apartamento, cair no tapete e, com pura vontade, forçar a abertura do alçapão da minha mente onde Jace e todas as minhas memórias dele estavam guardados.

Aperto a bússola com tanta força que ela corta minha mão. Choro ao saber que nosso plano foi em vão, mas o que me faz chorar de verdade é perceber que esqueci a primeira vez que me apaixonei.

A bússola taumática é uma coisa tão linda, tão desesperadamente importante e vital. Esta dor de cabeça recente está repleta de irritação. O objeto não tem importância. Eu o mantenho precioso em minha palma como uma gema roubada e o escondo em meu bolso.

Acima, há um estrondo profundo que nos atrai para fora do apartamento feio e entediante. Conforme emerjo nas ruas da cidade subterrânea, vejo o teto, o solo acima se desfazendo conforme os galhos do Quebra-reinos se aprofundam. Agarro-me a um galho e subo nele em direção à Câmara do Pacto das Guildas. Vejo rostos familiares no céu. Ral Zarek e Tomik Vrona se aproximam, voando perto nas costas de uma gárgula. Mesmo desta distância, vejo-os darem as mãos antes de Ral saltar para as ruas enquanto Tomik levanta voo. Uma onda amarga de ciúme preenche o que resta do meu estômago e aperto o objeto em nosso vestido, embora não entenda o porquê.

O céu é uma erupção de guerra. O imenso navio voador Boros paira sobre metade do horizonte, despejando anjos e cavaleiros dos céus com flashes brilhantes de fogo. Do outro lado da linha do horizonte, grandes protótipos Izzet capengas piscando ciano e vermelho balançam em direção aos telhados. Um colide com uma nave phyrexiana, o que encadeia meia dúzia de explosões para cima para atingir os anjos completados acima.

"Derramem o máximo de óleo brilhante que puderem nas ruas", ordeno aos nossos recém-completados parentes Golgari, "e ceguem a todos." Metade da frota phyrexiana foca no mago do relâmpago lutando através da multidão enquanto a outra continua cegando cada cidadão em seu caminho. Conforme fazem isso, mãos metálicas arrancando pares macios de olhos, as vítimas que deixam para trás colapsam universalmente no concreto em terror e dor. Do céu ao solo, o plano é uma cavalgada de guerra.

Lembro-me de esqueletos de tons azuis, zumbis, todos os tipos correndo para onde eu aponto; Nicol Bolas, o Deus-Imperador, paira bem acima de mim. Ele é o único que já confiou em mim para liderar. Ele é o único que já me deu uma chance, exceto por Phyrexia, exceto por minha nova família, meu novo povo, eles confiaram em mim e vejam como os recompensei com glória!

Conforme nossos tenentes executam minhas ordens, fico satisfeita com a rapidez, com a tática de cegar primeiro e deixá-los para a firese. As massas gritantes e cambaleantes colapsam no chão e tateiam o caminho à frente, suas mãos se sujando de óleo, dedos apalpando as feridas vazias em seus rostos.

A cena é uma bagunça total de óleo e sangue e a geleia dos olhos. Olho para os instigadores, para os Golgari transformados em phyrexianos, e me encho de orgulho. Finalmente, meu povo está no comando.

O sonho muda (por que esta dor de cabeça não vai embora?) e estamos guiando um enxame para destruir o telhado da Câmara do Pacto das Guildas, deliciando-nos em esmagar o assento de Niv-Mizzet, regozijando-nos com a poeira de um telhado recém-reparado desmoronando até a fundação. Todo o edifício se abre como uma casa de bonecas, e nos encaixamos tão bem lá dentro, todas essas cadeirinhas e mesas, uma parede inteira nua e exposta como uma ferida aberta.

Uma parede exposta leva a uma sala que reconheço. Na frente, a mesa que Lavinia costumava usar para cumprir seus deveres. Além disso, a entrada pela qual nunca tive permissão de passar, o escritório particular em que ele passava noites inteiras, o banheiro com o espelho de que ele nunca precisou, a cama em que ele nunca dormiu. Ele nunca dormia muito, mas com certeza se esforçava para fazer outras pessoas dormirem.

À nossa direita, onde costumava ser a parede sul, a cidade está em frangalhos. A Árvore da Invasão mergulha pela metrópole como pernas de uma grande aranha. Não gosto mais deste sonho. Vejo guerreiros Golgari, seus corpos misturados com metal, vejo-os carregar o mesmo símbolo da bandeira que me segue, este não é um bom sonho.

Esta dor de cabeça está piorando. Abaixo de mim, vejo muitas guildas correndo em terror, mas outros correndo em curiosidade — um bando de banqueiros Orzhov em fuga segue para um lado enquanto alguns biomantes Simic se aproximam como voluntários, curiosos com esta nova forma de biomancia. Um punhado de Izzet que não cegamos tenta estudar o óleo, ingênuos quanto ao risco enquanto o esfregam entre os dedos. Faço sinal para dar-lhes as boas-vindas.

Arte de: Alex Brock

Então, uma interrupção. As forças da cidade estão revidando, posso notar pelo retinir e pelo barulho de alarme nas vozes do nosso grupo. Localizamos a fonte — aproximando-se rápido, aquele idiota carnal com o relâmpago incendiou parte do Quebra-reinos. Salto para um galho e subo nele até o telhado, ascendendo para me juntar ao nosso coletivo e enfrentar Ral Zarek de frente. Todos nós estamos aqui, meus irmãos vindos de fora se amontoam e enxameiam com os recém-completados — superiores Golgari empurram seus antigos irmãos Izzet para a frente, o sangue de suas órbitas oculares misturando-se com o óleo, na esperança de distrair e enojar o mestre de guilda Izzet.

Conforme ele se aproxima no ar, vemos Ral Zarek hesitar. Ele evita meu olhar, sabiamente com medo da petrificação, mas, como resultado, vê o dano que causamos ao seu povo. Ral pousa no telhado, arquejando, furioso; ele mantém os olhos no chão e caminha para a frente. Damos um passo à frente para encontrá-lo, garras para fora, ágeis e prontas para esquivar — vejo brevemente a magia laranja de algo em meu bolso apontando direto para ele — e corro para o ataque.

Mas lá, em sua mão, está um segundo dispositivo que não reconheço. É pequeno, cilíndrico, e em um soco de boxeador ele o planta bem no meu esterno e aperta um botão.

Minha visão fica branca.

Tudo se convulsiona e vacila.

Eu colapso.

Eu desperto brevemente, depois desapareço.

Nós gememos, atingimos o chão, então vomitamos bile preta e oleosa.

Meu corpo está se desintegrando. Quebrado. Um dispositivo sintonizado com óleo phyrexiano? O sonho me diz que vou me recuperar, mas nosso corpo grita em agonia. Vejo meu próprio sangue — é preto reluzente, e vomito uma segunda vez.

Ouço e sinto meus irmãos recuando às pressas. Meu corpo quebrado é um exemplo a ser dado. Eles veem minha fragilidade como fraqueza, prova de que sou inapta para liderar. Minhas forças não ficam tempo suficiente para eu argumentar meu caso, nem eu teria força para argumentar se tentasse. Por minha própria medida, sou indigna.

Mal consigo distinguir o que Ral diz. Soa como algo parecido com desculpe. Ele ainda não consegue se forçar a olhar para mim, e minha visão escurece conforme ele se afasta.

Os sonhos desaparecem. A dor de cabeça floresce. Tudo ao meu redor colapsa.

Não consigo mover meu corpo. Deito-me sob os escombros, metade carne, metade metal, sangrando e quebrada. Não consigo respirar fundo, e cada expiração traz uma boca cheia de sangue e óleo. Vi a morte tantas vezes. Mas desta vez não posso fugir. Se eu olhar para cima através do telhado aberto para as nuvens acima, ainda posso ver as bordas do Quebra-reinos e ouvir vivas nas ruas da cidade ao meu redor.

Hora de eu ir também, suponho. Completei centenas, arrasei Ravnica, sou gloriosa e boa. Agora, fecho meus olhos e espero pela morte que Phyrexia prometeu que eu nunca enfrentaria sozinha.

O tempo deixa de ter significado. A chuva vem e vai.

Sangro, esvazio-me e acordo no canto pequeno e distante da minha mente que a firese nunca pôde tocar.

Uma visão aparece para mim, nestes momentos antes de eu morrer; eu me solto deste corpo pavoroso e caio de volta em minha própria mente. É um vazio. Escuro e incerto. Uma voz me cutuca: "Você pode abrir os olhos para mim?"

A luz do meio da manhã de um café na Rua do Estanho é brilhante e acolhedora, ela se filtra pelas cortinas e reflete a chuva da noite passada no pavimento. Vejo Jace na minha frente. Ele envolve as mãos nuas em uma xícara de café. Posso ver o início de sua cicatriz no dedo anelar direito. Ele não está usando o manto aqui; em vez disso, usa uma bela capa de lã, uma camisa de linho limpa, um broche segurando tudo no lugar. Sem capuz, seu cabelo castanho recém-cortado ainda tem as linhas nítidas de quando ele o aparou. Há uma bolsa de livros recém-comprados aos nossos pés. Seu rosto está aberto, amigável, com um sorriso relaxado e um pouco mais de rugas nos cantos dos olhos do que o que me lembro de quando nos conhecemos há todos aqueles anos. Ele me olha fixamente nos olhos, como sempre, sem medo. Deveria ter sido assim.

"Você está ótima", eu digo.

"Você consegue respirar?"

"Não se iluda, Beleren, você não tira meu fôlego literalmente", eu retruco secamente.

"O que você consegue lembrar?"

A pergunta me perturba. Do que me lembro? Lembro-me de observar minha vida de longe através de meus próprios olhos nestes últimos dias. Lembro-me do Quebra-reinos, lembro-me da minha transformação e, lentamente, lembro-me com horror de que atraí Jace. Eu o traí. Eu o transformei. E então eu parti, voltei para casa, e então~

"Eu mereço morrer", concluí. Antes, eu havia jurado nunca matar alguém que não merecesse. Quantas centenas de vezes quebrei meu juramento ontem? Os olhos de Jace se suavizam. Ele desculpou meus assassinatos tantas vezes. Ele deveria dizer que concorda. Ele deveria dizer que eu mereço minha própria punição. Isso seria misericordioso, mas, em vez disso, ele diz —

"Eu ficaria triste se você morresse." Seu perdão é uma agonia. Por favor. Que este sonho acabe para que eu possa morrer, sozinha, como sempre, como mereço. "Posso entrar?"

Sei o que ele quer dizer e protejo minha mente. "Tenho vergonha do que você verá."

"Você quer dizer ver o que você fez?"

Percebo que estou tremendo em autorrepulsa. "Parece que sou tão monstruosa quanto todos pensavam."

Ele pega meus dedos e os coloca nas costas de sua mão direita. Meus dedos traçam uma cicatriz reta que começa em sua articulação e corre em uma linha longa e furiosa pelo seu antebraço, continuando sob a manga da camisa. Lembro-me da memória dele; o Consórcio. Alhammarret. Lembro-me de que ele também é um monstro. Então, eu o deixo entrar. Aperto sua mão, assinto e sinto-o aninhar-se ao lado da minha mente.

Ele vê olhos e sangue e óleo, ouve meu deleite, sente o contorcer de meus lábios metálicos contra os dele. E tudo o que ele faz é segurar minha mão com mais força. Isso me mata.

"Vamos para algum lugar privado", ele diz baixinho e, com a lógica dos sonhos, estamos subitamente em uma praia aberta com areia tão macia e branca quanto farinha, com a lua cheia brilhante refletindo no mar em uma dança estrelada. Jace se deita ao meu lado, o ar está quente, a brisa perfumada com flores noturnas e sal.

"A você que me beijou não era você. A você que liderou a invasão não era você. A você que eu conheço só machucava pessoas que mereciam." Ele está tão perto, tão relaxado. "E aquela parte que é você sabia que estaria segura aqui. Estamos no canto da sua mente que criei para você há todos aqueles anos."

"Só nós, monstros, aqui."

"Acho que sim", ele sorri.

Aqui, no meu sonho, com meu amado a quem traí, escondida profundamente dentro de um corpo quebrado que ordenou o massacre de milhares. Sinto outra lágrima em minha bochecha.

"Sinto muito por ter enganado você", eu digo.

"Sinto muito por não ter vindo como prometi", ele responde. "Nada disso deveria ter sido assim."

"Nada deveria ter sido desta forma", concordo. "Eu gostaria que pudéssemos desfazer tudo. Fazer tudo da maneira certa." Ele está olhando para mim como se eu estivesse dizendo algo crítico, como se uma peça de maquinaria em sua mente tivesse acabado de se encaixar com minhas palavras. "Jace. Você me dará um último presente antes de eu morrer?"

"Qualquer coisa."

"Eu quero recomeçar."

Ele sorri. "Eu gostaria disso também."

Eu o beijo.

É intenso e sincero, desesperado e imediato. Ele parece um retorno ao lar. Nossas bochechas se pressionam, ele faz um pequeno ruído e os dedos dos meus pés nas minhas botas se encolhem, puxo seu lábio inferior suavemente entre meus dentes e ele suspira de prazer. A maré lambe a praia. Agarramo-nos desesperadamente, compensando o tempo perdido, nossos corpos se aproximando na areia. Passo minhas mãos por aquele cabelo, e ele é tão macio quanto eu esperava que fosse, e quando minhas unhas roçam a superfície de seu couro cabeludo, ele geme em resposta.

Em um ímpeto repentino, finalmente entendo o que manteve Liliana presa por todos aqueles anos, e isso faz meus olhos subirem e girarem ao nosso redor enquanto ele deixa um rastro de beijos pelo meu pescoço. Jace projeta de volta, sua mente sobrepondo meu próprio sonho, um fluxo de imagens próprias; estamos em um apartamento em Kaladesh, estamos no convés do Beligerante, estamos em uma clareira em Zendikar, estamos em um castelo de Innistrad, estamos na Câmara do Pacto das Guildas, nossos lábios se pressionam e, por um momento emocionante, sinto o beijo da perspectiva dele, e então, perfeitamente, estamos de volta à praia cercados por infinitas estrelas impossíveis. Eu rio, "Você é incrível!", e ele me beija ainda mais forte.

E então, assim que começamos a nos cansar, ele se levanta, e eu sorrio ao ver uma pequena sarda castanha em seu olho que nunca notei antes. Ele parece arrependido. "Prepare-se. Esta parte dói." Ele embala meu rosto, encosta sua testa na minha, prepara-se e expira como se estivesse prestes a exercer esforço. "Eu peguei você."

Sorrio, incerta sobre o que ele está falando. "Você sempre me pega."

A vulnerabilidade se encaixa estranhamente na janela do meu coração, mas vale a pena abrir as cortinas para ele. Apoio uma mão em sua bochecha e digo a ele o que sinto, do jeito dele. Silenciosamente, as palavras preenchem minha mente e eu as preencho com o sol de Ixalan e o perfume das rosas da cidade subterrânea, projeto a sensação de nossas mãos dadas com força, a emoção em meu peito quando ele sorri, a adoração pela sarda castanha em seu olho esquerdo. Uma brasa de esperança de que algum dia ele veja meu próprio rosto cheio de rugas, que nossas mãos velhas e artríticas ainda se segurem firme enquanto caminhamos em direção à escuridão nublada. Há um momento de reconhecimento em seus olhos, um suavizar nas bordas, e um daqueles raros sorrisos que alcançam os olhos floresce em seu rosto enquanto ele instintivamente lê meus próprios pensamentos.

Ele beija minha testa e eu o acaricio de volta. Jace encontra meus olhos, testa com testa, e responde em voz alta, do meu jeito.

"Eu também te amo, capitã."

E eu arfo conforme minha mente e visão irrompem em um branco surpreendente e incandescente.

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Ral

Eu só quero ir para casa e dormir, droga.

A chuva encharcou minhas roupas, há mais escombros do que cidade neste ponto e, embora eu tenha eletrocutado mais capangas phyrexianos do que posso contar, meu corpo ainda pula como se houvesse mais. A invasão terminou há dois dias, mas meu corpo ainda não recebeu o aviso. Minhas mãos ainda estão cansadas de conjurar, meus ombros ainda tensos de pânico. Recuperação da invasão deveria significar recuperação para mim também.

Estou acordado há quase dois dias direcionando o que restou dos Izzet para liderar a limpeza, para carregar escombros e erguer edifícios e lavar todo esse maldito sangue. Mas não importa o quanto eu tente focar no esforço de recuperação, tudo o que consigo ver é a longa fila de pesquisadores e magos Izzet, lado a lado, uma longa fila de rostos gritando e órbitas vazias, e tudo o que quero fazer é dormir e esperar que a memória desapareça. Deuses, por que não posso ser um otimista?

Tomik está aqui agora, pelo menos; estamos supervisionando o que era a (segunda) Câmara do Pacto das Guildas. Ele se senta com a cabeça entre as mãos, e mantenho uma palma em seu ombro enquanto ambos tentamos não pensar em olhos. Mas tudo o que vejo é o rosto dela. Furioso e alegre. Ela escolheu a maneira de transformá-los que mais machucaria todos os outros. Aquela não era ela, e, no entanto, era absolutamente ela. Meu estômago embrulha e tento engolir isso.

Subindo pelos escombros atrás de mim, ouço passos. É uma oficial de alto nível, uma das que confio. Há um pedido de desculpas em seu rosto.

"E então?", pergunto, "O interruptor hemalétrico funcionou. O que você encontrou?"

O lábio da oficial treme, ela sabe que o que está prestes a dizer vai me alarmar, e eu me preparo para o inevitável quando ela anuncia:

"Não há sinal do corpo dela, senhor."

Nova Capenna: A Queda de Park Heights

Flores pendiam do teto, enfileiradas como candelabros, perfumando a sala com o aroma de flores exóticas. Estátuas recém-polidas brilhavam na penumbra e a música guiava seus pés pelo salão . . . mas nada brilhava tão belamente quanto ela.

Os Maestros reunidos — amigos e familiares — estavam todos encantados. Cordas murmuravam sobre sussurros carinhosos e lágrimas silenciosas e felizes. Eles estavam cercados por tudo e todos com quem já haviam se importado e, no entanto, a única coisa que Errante via era Parnesse.

Ela era a musa de Errante. Cada respiração e pincelada que vinha pela frente.

E o sorriso de sua esposa enquanto deslizavam pela pista de dança? Ofuscava o holofote mais brilhante. Era mais perfeito do que qualquer coisa que a mão de Errante pudesse esperar capturar em tinta. Elas deram a volta seguinte e Errante se inclinou, roçando seu nariz no de Parnesse. Ela soltou uma risadinha suave. O mundo estava perfeito.

Então, uma sombra caiu sobre Nova Capenna.

Uma taça de vinho derramou pelo chão, o líquido vermelho fluindo de forma não natural para a forma de um círculo quase completo com uma linha desenhada através de seu centro. Ela já tinha visto aquele símbolo antes, muitas vezes, nas exposições do museu. Mas o que ele estava fazendo ali, agora? Os pés de Errante tropeçaram e, quando ela se virou novamente, os olhos amorosos de seus amigos e familiares haviam mudado.

Filetes de óleo negro escorriam por suas bochechas. Tendões vermelhos rastejavam sobre seus corpos como as gavinhas de uma planta invasora. Alcançando. Agarrando. Unindo placas pálidas e irregulares. Suas expressões também haviam se transformado — bocas abertas com sorrisos largos e excessivamente felizes sob olhos famintos. Junte-se a nós, instigavam sem palavras. Seja um conosco. A celebração não era mais sobre Errante e Parnesse. Era agora pela união retorcida de todos eles, condensando-se na singularidade de um só ser.

Arte de: Aurore Folny

Até seu pai, Anhelo, havia sido transformado.

Errante tropeçou. Ela puxou Parnesse para mais perto.

"Querida?" Sua esposa estava alheia. Ela não estava vendo o que Errante via? Ela não sentia o miasma sinistro que havia substituído o aroma das flores? "O que houve?"

"Temos que ir."

"Ir para onde?" Parnesse desacelerou até parar, segurando o rosto de Errante. "É o dia da nossa união. Por que iríamos embora?"

"Você não consegue ver —" Errante foi interrompida por um estrondo baixo ao longe que anunciava morte e guerra. O céu se riscou de carmesim que despedaçou as estrelas nascentes. Ramos blindados dispararam pelas aberturas de outros planos e afundaram nos alicerces de Nova Capenna. Sem aviso, o telhado do museu dos Maestros foi arrancado, deixado de lado — um presente sendo desfeito pelas mãos de uma criança ansiosa.

Errante olhou para cima horrorizada para o monstro que pairava sobre uma Nova Capenna desmoronando e se distorcendo. Atraxa era maior que a vida. Suas asas pálidas se estendiam tanto que podiam tocar cada extremidade da outrora orgulhosa barreira de Nova Capenna.

Com uma mão em garras, ela lentamente avançou. Parnesse soltou um grito. Errante girou, pronta para proteger sua esposa, fugir e —

Ela despertou sobressaltada do canto imundo da estação de trem abandonada onde ela e Parnesse se esconderam para tratar seus ferimentos e descansar brevemente. Errante não pretendia adormecer. Mas roubar sob o nariz dos invasores phyrexianos havia exigido muito delas. Elas pagaram com sangue para sair vivas.

O grito de Parnesse ainda ecoava em seus ouvidos. Infelizmente, não viera inteiramente do pesadelo.

O perseguidor as havia alcançado.

O estrondo de uma besta conversora phyrexiana atravessando a parede despedaçou seu breve repouso. Era do tamanho de um dos pequenos bondes que teriam transportado passageiros para dentro e para fora desta estação destruída não muito tempo atrás. A poeira e os escombros se assentaram nas costas espinhosas da besta. Injetores afiados nas pontas de suas caudas lançavam sombras sinistras na névoa. Óleo cintilante, negro e reluzente, pingava de sua bocarra estendida entre dentes afiados como navalhas.

Errante vinha manobrando pela cidade há algum tempo, mas sempre usava caminhos marcados como seguros e passagens secretas. Esta missão era a primeira vez que ela via um dos infiltrados de Nova Capenna de perto. Estes eram os monstros responsáveis pela queda dos Maestros e por toda a brutalidade que se seguiu. Seu pai. A garganta de Errante apertou e seu sangue gelou. Seu único pensamento era enfiar uma das cargas que chocalhavam suavemente em sua bolsa naquela bocarra imensa. Não seria a vingança que ele merecia por tudo o que ela perdera. Mas seria um começo.

A mão de Parnesse se fechou sobre a dela, dispersando Errante de suas fantasias cruéis. "Temos que levar isso de volta para a equipe!"

"Mas você —"

"Eu estou bem," Parnesse a interrompeu, embora ainda estivesse com a mão pressionada contra sua coxa ensanguentada. Ela havia se prendido em um corrimão retorcido durante a fuga inicial. "Vou ficar em um estado muito pior se aquela coisa nos pegar."

"Certo." Errante girou, segurando-se em Parnesse. As duas bolsas pesadas que estavam carregadas com os explosivos que haviam roubado de um antigo esconderijo dos Rebitadores no Mezzio chocalharam contra seus quadris enquanto começavam a correr.

As duas partiram, assim como o monstro que as perseguia. Elas dançaram ao redor da parede traseira desmoronada da estação de bondes e emergiram em um trilho alto que sobrevoava o Mezzio, emaranhando-se com os galhos da Árvore da Invasão que parecia crescer a cada dia.

Nova Capenna era uma casca de sua glória de outrora. Os salões dourados de Park Heights estavam agora manchados e sombrios. As cores brilhantes e a vida efervescente do Mezzio haviam sido substituídas pelos cinzas foscos das cinzas da guerra.

Desde que os phyrexianos retornaram, os defensores da cidade vinham lutando uma batalha perdida. Eram refugiados em sua própria casa, correndo de lugar em lugar enquanto o caos reinava. Não passava uma hora sem que a fumaça subisse de alguma estrutura desmoronando ou incendiada. Nem uma hora em que flashes de magia não explodissem na noite enquanto os cidadãos de Nova Capenna revidavam com crescente futilidade. Não havia tempo nem para lamentar os mortos e moribundos nas ruas.

A besta conversora avançou pelos escombros atrás delas, sacudindo o corrimão. Parnesse vacilou, sua perna ferida quase cedendo. Errante a segurou firme. O rosto de sua esposa estava perigosamente pálido. O rastro de sangue de Parnesse era, sem dúvida, como a besta conversora as rastreara.

"Você consegue correr nos trilhos?" Errante gritou, mesmo que Parnesse ainda estivesse ao alcance do braço. O barulho estrondoso das garras da besta arranhando o corrimão de metal quase abafou suas palavras.

"Apenas vá!"

As vibrações dos passos do phyrexiano ressoavam pelas solas das botas de Errante enquanto ela guiava Parnesse pela curva do corrimão. À frente estava outra estação de bondes abandonada, o arco sob o qual os trilhos desapareciam decorado com espirais pintadas e bordas afiadas. Escondido no grafite estava o rabisco de um pichador — uma linguagem simbólica de origem há muito esquecida, mas bem lembrada por aqueles que faziam das ruas seu lar.

Perigo, diziam os símbolos. Errante se moveu e saltou para o parapeito de um prédio próximo. Ela girou, estendendo as mãos de volta para sua esposa. Seu estômago estava na garganta enquanto Parnesse saltava, apoiando-se principalmente em sua perna boa. Errante a pegou e a puxou para perto, ajudando Parnesse a recuperar o fôlego e o equilíbrio antes de seguirem as marcações verdes ao longo do prédio para a segurança.

A besta tentou dar o salto, mas o parapeito era estreito demais. Ela fincou as garras no prédio, tentando encontrar apoio e arrancando pedaços de aço e cimento no processo. Mas não conseguiu uma aderência firme e despencou para a rua abaixo, aterrissando com um baque pesado e uma nuvem de poeira.

Quem dera uma queda dessas fosse suficiente para matar um phyrexiano. Errante não diminuiu o passo. A besta estava atordoada, e elas tinham que aproveitar a oportunidade para escapar.

Ela olhou para Parnesse, os olhos caindo para a coxa de sua esposa. Parnesse favorecia sua perna não ferida, mas estava acompanhando o ritmo sem problemas. Errante tentou esconder sua preocupação. "Você parece uma pichadora profissional que acabou de marcar o território dos executores."

"Prefiro o meu estúdio, obrigada!" Parnesse ofegou.

A arte de Errante ficava melhor espalhada pela lateral de um prédio. Correr de uma besta conversora não era muito diferente de correr de executores dos Corretores. Pelo menos, era o que ela dizia a si mesma para manter a cabeça fria e o passo firme.

Ao dobrar uma esquina, atravessar três varandas e descer uma escada de incêndio, elas diminuíram o passo em um beco inferior — os flancos queimando e os peitos arfando. Parnesse encostou-se na parede, segurando os dois joelhos. Errante procurou por qualquer outro sinal de rabisco de pichador, mas não havia nenhum. Quem quer que tivesse destacado a rota que seguiram havia terminado o grafite ali.

"Como você está aguentando?" Errante disse suavemente. Havia tanto sangue encharcando as bandagens improvisadas que ela havia enrolado na coxa de Parnesse há apenas uma hora. "Abriu de novo."

"Precisamos continuar."

"Deixe-me apenas —" Errante ajoelhou-se e rasgou sua outra manga.

Parnesse descansou a mão no ombro de Errante. "O ponto de encontro não é muito mais longe agora."

"É longe o suficiente." Errante amarrou a manga firmemente ao redor da coxa de sua esposa, terminando o nó com a frustração queimando no fundo de sua garganta. Ela jurara manter Parnesse segura. Mas tudo o que conseguira fazer foi fazê-la avançar de cabeça no perigo. "Talvez você pudesse encontrar um esconderijo e ficar —"

"Com aquelas coisas por aí?" Parnesse inclinou a cabeça para o lado.

"Você tem razão." Errante levantou-se e começou a descer o beco, mas um rosnado baixo fez as duas pararem em seco. Uma besta conversora estava empoleirada em um prédio próximo, logo à frente. Pairando de forma sinistra.

Como ela as havia alcançado?

Um rugido veio de trás. Exaurida e mancando, mas ainda mortal, a primeira besta conversora avançou pelo beco, seus espinhos rangendo contra os prédios. Eles ondulavam por seu corpo. Estremecendo. Pronto para levá-las para a gaiola em suas costas e convertê-las em uma das servas de Phyrexia.

"Errante." O tom de Parnesse estava estranhamente calmo. "Opções?" Ela já sabia a resposta antes de perguntar.

Não havia janelas ao redor delas. Nenhuma porta que pudessem tentar arrombar. A escada de incêndio mais próxima estava fora de alcance sem um impulso. Mas era a única chance... para uma delas.

"Posso tentar te içar até lá." Errante apontou para a escada de incêndio. "Então eu as atrairei para mim."

"Não."

"Eu não vou deixar que te peguem."

"Nós duas sabemos que eu não vou conseguir fugir delas com minha perna assim e você não vai me deixar." Parnesse estendeu a mão para uma das bolsas no quadril de Errante, colocando um explosivo embalado na forma de um disco de metal na palma da mão de Errante. Sua calma superou a preocupação de Errante. "Nenhuma de nós será convertida."

"É um lugar muito fechado." Errante olhou para o pequeno explosivo. "Henzie disse que um desses pode derrubar um prédio pequeno."

As bestas conversoras continuaram avançando. Lentas e decididas. Inevitáveis.

"Fizemos uma promessa," Parnesse disse suavemente. "Qualquer coisa antes de nos tornarmos uma daquelas coisas."

Errante encontrou os olhos de sua esposa. Seu estômago deu um nó e uma onda de náusea a dominou. Como Parnesse podia estar tão calma? Ela sabia o que estava sugerindo.

"Se você vê outro caminho, adoraria ouvir." Parnesse exibiu um sorriso derrotado. Ambas sabiam a resposta.

Errante agarrou o pulso de Parnesse, puxando-a para um beijo feroz, mas breve. "Jogue o mais longe que puder," Errante sussurrou, maravilhada por seu medo e tristeza não sufocarem as palavras. "Eu te amo até que a tinta seque."

"Eu te amo até que cada tela esteja preenchida." O polegar de Parnesse pressionou o pequeno círculo no centro do disco.

Errante espelhou o movimento. Ela não deixaria Parnesse fazer isso sozinha. No importa o que acontecesse, elas estariam juntas até o último momento.

Ambas jogaram e uma explosão mais alta do que qualquer uma que fora ouvida em dias abalou as ruas de Nova Capenna.

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"— acreditar —"

"— elas iriam — eu não —"

"— mova-se!"

"Aguente firme —"

Aguente firme. As duas palavras permaneceram com Errante mesmo quando tudo o mais se confundira em nada.

As sensações retornaram lentamente. Um movimento de seus dedos. Uma dor surda em suas costelas que desapareceu rapidamente. Então veio o peso da manta de lã familiar. O cheiro de óleo e limalha de aço das engenhocas de Henzie. O perfume de Kamiz pairando no ar.

Errante abriu os olhos. Levou vários segundos para trazer a sala para o foco. Suas tintas e pulverizadores alinhavam-se na parede. A iluminação oscilava da mesma forma que sempre fizera — a energia inconsistente desde que os phyrexianos assumiram o controle da cidade. O metal amassado da pulseira que seu pai lhe dera antes do casamento refletia seu rosto em pedaços.

Errante piscou. Ela tivera o sonho mais estranho... Era o seu casamento. Algo sobre Atraxa? Uma missão para a resistência? Bestas conversoras? Ela levantou a mão para esfregar os olhos e parou no meio do movimento.

Parnesse.

Sua mão caiu ao seu lado e pousou no lugar vago na cama onde sua esposa deveria estar. Um ruído sufocado de pânico e medo arrancado das profundezas de seus piores pesadelos.

Afastando a manta, Errante se pôs de pé. Saiu pela porta e entrou em um corredor estreito que conectava o pequeno aglomerado de quartos nas profundezas da Treza que sua improvável equipe reivindicara como sua. Ela mal conseguia ouvir conversas fracas vindas da sala comum sobre o zumbido do sangue em seus ouvidos e o martelar de seu coração.

"Você acordou," uma voz desconhecida falou por trás, as palavras um pouco rígidas, mas não rudes.

Não era estranho encontrar pessoas que ela nunca conhecera entre a resistência. Mas Errante nunca vira um anjo em carne e osso, apenas suas estátuas que permaneciam como monumentos amargos de um tempo melhor na história de Nova Capenna. Os zeladores de outrora de Nova Capenna haviam retornado finalmente. Pouco demais, tarde demais, provavelmente. Duas asas iridescentes estendiam-se das costas da mulher, arqueando-se graciosamente ao redor de seus ombros e emoldurando-a em um brilho suave de madrepérola.

Arte de: Aaron J. Riley

"Sim, agora, se me der licença —" Errante sufocou a vontade instantânea de tentar capturar o jogo único de cor e luz em tinta, junto com sua curiosidade sobre a presença de um anjo, com sua preocupação por Parnesse.

"Você gostaria de ver Parnesse?"

O coração de Errante deu um salto. "Onde ela está?"

"Por aqui." O anjo a conduziu ao quarto que haviam começado a usar como triagem. Com certeza, em um dos três catres, estava Parnesse.

Errante correu, caiu de joelhos, pegou a mão de Parnesse e beijou seus nós dos dedos com um suspiro de alívio. O movimento de seus dedos contra os lábios de Errante foi quase o suficiente para fazê-la chorar. Ela estava viva. Uma mão fechou-se em seu ombro.

"Devemos deixá-la descansar," o anjo sussurrou.

Era verdade. Mas Errante não conseguia se mexer. Ela permaneceu e saboreou a visão de sua amada inteira e gloriosa por mais alguns minutos. Finalmente, ela se afastou e seguiu o anjo para fora do quarto.

"Como?" Errante perguntou suavemente enquanto o anjo encostava a porta atrás delas. Tantas perguntas começavam com aquela palavra.

"Vocês não estavam longe do ponto de encontro. Quando ouvimos a explosão, soubemos que precisavam de nós," disse ela, com naturalidade. "Vocês duas estavam gravemente feridas. Felizmente, eu estava presente para curar seus ferimentos instantaneamente, embora tenha exigido uma porção significativa de mim mesma... do meu Halo, como vocês chamam."

"O Halo é realmente maravilhoso," Errante refletiu suavemente. Errante vira curandeiros na base usando Halo para remendar as pessoas, ela só podia imaginar o que um anjo — um ser feito dessa substância — poderia fazer.

"O Halo é uma das magias mais poderosas que temos. Poderosa o suficiente até para restaurar a forma corpórea a um de nossa espécie que a perdeu anteriormente."

"Poderia curar a phyrexianização?" Talvez fosse por causa do sonho, mas seu pai e amigos dos Maestros que haviam sido transformados estavam no topo dos pensamentos de Errante. O Halo era capaz de muito mais do que um mero aprimoramento de poderes, como era usado antes do ataque dos phyrexianos. Parecia que a cada dia Nova Capenna descobria novas maneiras de usá-lo em sua luta.

"Infelizmente, não." Um franzir de lábios surgiu no rosto do anjo. "O Halo pode agir como preventivo contra a conversão, mas não como cura."

"Ainda é uma ferramenta útil," Errante disse pensativamente, esforçando-se para esconder sua decepção pessoal. Uma cura fora esperar demais.

"É. Também nasceu de um grande sacrifício. Esperávamos que houvesse mais para esta luta." O anjo tinha suas próprias tristezas, pelo que parecia.

Errante mudou de assunto, dirigindo-se à sala comum no final do corredor. "Como você veio parar aqui —"

"Della," o anjo completou por Errante. "Meu nome é Della."

"Como você veio parar aqui, Della?"

"Isso foi obra minha," disse Perrie orgulhosamente ao entrarem na sala comum.

"Você conseguiu um anjo do nosso lado?" Errante ergueu uma sobrancelha para ele enquanto se dirigia à mesa onde Perrie e Kamiz estavam sentados.

"Os Corretores andaram acumulando Halo. Nada mais natural que fôssemos nós a negociar com os seres feitos dele." Perrie apontou enquanto soprava em seu monóculo, limpando-o meticulosamente. Errante sempre achou que ele era comicamente pequeno para o tamanho de seu rosto. Mas ela nunca diria ao homem que tinha o apelido de "o Pulverizador" que discordava de suas escolhas de moda.

"Não somos algo para ser acumulado," Della murmurou baixinho.

"Exatamente," Errante captou. "Os anjos odeiam os Corretores tanto quanto o resto de nós."

"Eu não disse isso —" Della meio que andou, meio que deslizou para um assento à mesa. "But quaisquer queixas pessoais podem esperar, por enquanto. Não haverá nada pelo que brigar se Atraxa conseguir o que quer e converter completamente Nova Capenna."

"As famílias se foram, já não resta nada pelo que brigar." Errante sentou-se pesadamente em sua cadeira habitual.

"Só porque você perdeu os Maestros não significa que o resto de nossas famílias se foi." Kamiz esticou a membrana entre seus dedos.

"Eu nunca fui uma Maestro. Apenas cresci com eles." O tom de Errante era tenso. Cada palavra desenterrando uma memória outrora afetuosa que ela tentara sufocar quando se tornaram dolorosas demais para suportar.

"Seu pai foi o chefe da família, por um tempo. Você bem que poderia ter sido uma deles." Perrie devolveu o monóculo ao rosto.

"Nomes não importam mais," Errante disse rispidamente, tentando encerrar ali a conversa sobre sua família.

"Fale por você." Henzie emergiu de sua oficina, devolvendo seus muitos anéis de ouro aos dedos após as invenções. "Os Rebitadores ainda têm luta neles. Vai ser preciso muito mais do que uma invasão de outro mundo para nos derrubar."

"Os Obscura também estão lutando," acrescentou Kamiz.

"E os Corretores." Perrie nunca era de se deixar superar.

"E que bem isso nos fez?" Errante tinha um cansaço em seus ossos que nenhuma quantidade de descanso ou Halo poderia curar. "A cada dia estamos em maior perigo que no anterior."

"Você viu o céu — nossa cidade — é tudo um grande emaranhado de galhos de árvores phyrexianas. O que supõe-se que façamos rapidamente sobre isso, boneca?" Henzie sentou-se, ajustando o boné ao redor de seus chifres. "As famílias estão liderando a resistência da melhor forma que podem."

"Brigas de beco, tiroteios nas ruas e esse 'plano mestre' baseado em encontrar qualquer entrada secreta que vocês precisassem." Errante saíra procurando por ela mesma, repetidas vezes.

"Bem, nós realmente a encontramos," anunciou Henzie orgulhosamente. Errante parou. Será que algo finalmente dera certo? "Enquanto você estava pegando os detonadores e as cargas, os Rebitadores tiveram um avanço. Existe um núcleo na cidade — pense como uma viga de suporte principal da qual tudo o mais foi construído. Finalmente descobrimos como chegar até ele e agora sabemos o lugar exato para dar uma pancada bem forte para derrubar toda Park Heights."

Parecia bom demais para ser verdade. "Então o que estamos esperando?"

"Paciência, rostinho de boneca," encorajou Henzie.

"Paciência? Paciência?" Errante apontou o dedo para Henzie. "Temos sido pacientes. Trabalhamos incansavelmente neste plano que as famílias arquitetaram. E o que isso nos trouxe até agora? A mesma coisa que as famílias sempre deram a Nova Capenna — lutas, roubos e agora as ruas correndo pretas com óleo cintilante enquanto perdemos mais e mais a cada hora."

"Escute, Ziatora vai checar tudo primeiro. Então enviaremos você para fazer o reconhecimento. Então —"

"Eu? Você vai me enviar de novo?"

"Errante —"

Ela conhecia o tom apaziguador de Kamiz. "Não. Não... eu cansei." Errante levantou-se. "Cada missão para a qual vocês me enviaram foi pior que a anterior e hoje foi por um triz. Parnesse e eu somos artistas, não lutadoras."

"Eu vi a maneira como você se move pela cidade e ouso discordar," Kamiz sorriu com desdém. Errante ignorou o elogio.

"Não podemos fazer isso sem você." Perrie cruzou os braços. "Quem honestamente vai chegar lá e colocar as cargas no lugar? Eu?" Suas narinas dilataram-se com um bufo. "Você realmente quer me ver tentar andar em um corrimão minúsculo com esses pés grandes?"

"E eu não conheço os rabiscos," acrescentou Henzie.

"Kamiz é ágil o suficiente e sabe ler os rabiscos de pichador." Errante gesticulou para a mulher.

"Eu conheço o básico dos rabiscos. Admita, Errante, você é o máximo quando se trata de circular por esta cidade, especialmente agora que todos os caminhos normais estão destruídos, barricados ou patrulhados. Não posso me comparar a você quando se trata de colocar as cargas no lugar," Kamiz continuou a carregar na lisonja.

"Então pratique." Errante deu de ombros. "Conseguimos o que vocês precisavam. Não vou arriscar mais a minha vida nem a da Parnesse."

"Minha vida não cabe a você decidir, querida esposa." A mulher em questão falou suavemente, mas com firmeza. Parnesse estava parada na entrada do corredor, parecendo mais forte do que nunca. Embora ainda caminhasse com um leve e preocupante mancar.

"Mas —" Errante engoliu em seco. Parnesse estava certa. Não cabia a Errante decidir seu destino. "Eu me preocupo conosco, só isso."

"Eu me preocupo conosco todos os dias. Com todos nós." Parnesse apertou os dedos de Errante. "Mas é por isso que devemos continuar lutando. Eu sei que você acredita nisso também."

Errante suspirou pesadamente. Ela acreditava. Foi por isso que aceitou trabalhar com a resistência quando a abordaram pela primeira vez. Por que ensinara a tantos quanto pudera os rabiscos e como encontrar caminhos entre os prédios quando parecia que não havia nenhum.

"Então... você está de volta?" Henzie perguntou após um longo e tenso momento de silêncio. Errante encontrou seus olhos. He deu um leve de ombros. O que mais você pode fazer? o gesto perguntava. Não havia mais nada que qualquer um deles pudesse fazer. Lugar nenhum para onde pudessem ir.

"Sim, eu estou dentro. Se não se pode contar com as famílias para manter Nova Capenna segura, então alguém tem que fazer isso." Errante pôde ver Perrie se eriçar pelo canto do olho com a declaração, mas ele não objetou nem ofereceu resistência. Todos tinham opiniões divergentes sobre como as famílias haviam, ou não, ajudado Nova Capenna a sobreviver. Melhor deixar por isso mesmo, tanto quanto possível. "Desculpe pelo meu desabafo de antes."

"Tem sido um dia e tanto para você," Kamiz relaxou um pouco em sua cadeira. "Compreensível, na verdade."

"E agora?" Errante não sentia vontade de se deter em si mesma.

"O estágio final: Operação Estrela Cadente," disse Henzie com um ar de autoridade e mistério. "Vamos derrubar Park Heights bem na cabeça da Atraxa."

"E como vamos colocar Atraxa em posição?" A líder phyrexiana estivera contente em ignorá-los até agora. "Poderíamos andar em plena luz do dia amaldiçoando o nome dela e mostrando o dedo médio que Atraxa nem piscaria. Ela não nos vê como uma ameaça."

"É por isso que temos que fazer algo realmente grande. Tenho conversado com Falco e, com os Rebitadores se unindo, os planos dele estão passando para o estágio dois," disse Perrie com confiança.

"Não é de admirar que ele esteja causando tantos problemas," murmurou Kamiz. "Se ele continuar com o que está fazendo, ou pior..." Falco era o único até agora que conseguira fazer o olho de Atraxa sequer tremer.

"Então a barata-chefe em pessoa pode ir ao santuário Nido para acabar com isso," completou Perrie.

"Bem onde precisamos dela," disse Henzie.

"Se o plano está avançando, poderei prestar alguma assistência a Falco também. Um anjo, ou dois, será ainda mais tentador para Atraxa," acrescentou Della.

"Falando em anjos. Os Corretores têm um pouco de Halo na reserva." Perrie apoiou as mãos na mesa, como se tivesse que se preparar para confessar aquilo. "Ele vai sair também."

"Você andou escondendo de nós?" A cauda de Henzie agitou-se em agitação.

"Guardando para o estágio dois," insistiu Perrie.

"Bom, me dê um pouco. Vou precisar," declarou Errante. Quando Perrie lançou um olhar cético em sua direção, ela reafirmou. "Você não vai me enviar para o meio da confusão sem me dar a munição adequada. Não posso ficar explodindo cargas se entrar em uma briga." Perrie relaxou em seu assento e concordou com um aceno. "Também vou precisar de um sinal para quando Atraxa estiver em posição e for hora de detonar."

"Acredito que posso ajudar com isso também," disse Della.

"Bom." Era um plano improvável e arriscado, e um pouco de Halo ao seu lado não ia mudar isso. Mas era o melhor que tinham e, de muitas maneiras, parecia a última esperança de Nova Capenna. Henzie estivera certo... ela não podia ir embora agora.

"Vou reportar à Ziatora, então. Temos uma chance nisso, então é melhor fazermos direito." Henzie inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos cobertos por risca de giz na mesa.

"Nós faremos," jurou Parnesse por todos eles. "Não vamos deixar que roubem a beleza de Nova Capenna. Não depois de todos termos trabalhado tanto para construí-la."

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Levou alguns dias para colocar todos na mesma página. Algumas coisas em Nova Capenna nunca mudavam, e uma delas era convencer as famílias a trabalharem bem juntas — mesmo quando compartilhavam um inimigo comum.

Mas, finalmente, haviam resolvido os detalhes finais. O plano estava finalmente acontecendo. Falco e seus Corretores estavam em posição. As famílias restantes estavam reunidas ao seu redor, algumas à vista, muitas não. Os Rebitadores haviam ido na frente, trabalhando para reforçar os suportes para garantir que apenas Park Heights caísse, e para identificar áreas seguras para sua resistência. Della havia reunido os anjos. Errante fizera o reconhecimento de duas rotas — uma para si mesma e outra para Parnesse.

Parnesse juntou-se à equipe que estava reunindo os cidadãos restantes de Park Heights, tentando conduzi-los para uma zona de segurança antes que tudo desabasse. Errante conseguia vê-los lá embaixo de vez em quando enquanto seguia pelos telhados, descendo pelos pescoços de guindastes, atravessando vigas de aço e saltando entre os galhos monstruosos da Árvore da Invasão. Parnesse queria estar com ela, mas Errante insistira que seria mais rápida sozinha. Além disso, sua esposa conhecia o estilo de rabisco de Errante melhor do que ninguém e teria a melhor chance de guiar os cidadãos para a segurança.

Com sorte, ela os veria todos novamente na zona de segurança quando isso terminasse.

A bolsa de cargas dos Rebitadores chocalhava em seu quadril e um mapa desenhado por Henzie girava em sua mente enquanto ela traçava seu caminho pelas passagens de Nova Capenna que estavam escondidas à vista de todos. Mas manter o foco em seu próprio trabalho era difícil, pois o rugido das bestas conversoras abaixo abalava seus ossos. Algo estava dando errado. Os phyrexianos estavam indo atrás dos cidadãos que escapavam, Parnesse incluída.

Errante estendeu a mão para um dos frascos presos em seu quadril, cada um cheio com uma mistura de tinta de seu próprio estoque e o Halo que Perrie lhe presenteara. Ela correu e saltou do galho de árvore pelo qual vinha correndo. No meio da queda, ela liberou dois dos frascos. Eles caíram com explosões de cor e poder, desviando a investida das bestas abaixo.

Ela aterrissou em uma varanda, rolou e recuperou velocidade novamente com dois passos longos antes de saltar da borda irregular do prédio meio desmoronado. Uma besta conversora virou o rosto para ela com um rugido. Errante sorriu e jogou um terceiro frasco bem na boca dela.

Tinta de Halo espalhou-se por toda parte. As bestas se dispersaram, rugindo de dor. Errante não percebera o quão satisfatório seria colorir aquelas superfícies brancas e imaculadas. Aquela luta seria sua obra-prima — a grande marca que deixaria em Nova Capenna.

Arte de: Olivier Bernard

Um dos monstros mudou de curso, começando a vir em sua direção. Errante aterrissou em um corrimão, disparando por ele. Ela ganhara tempo suficiente para Parnesse e os cidadãos — assim esperava. Agora tinha que se preocupar consigo mesma. A besta espelhava seus saltos selvagens de aço, para tijolo, para galho para diminuir a distância de Errante. Ela bloqueou seu caminho e soltou um rosnado quase satisfeito.

"Você não acha honestamente que aqueles frascos eram tudo o que eu tinha, acha?" Errante estendeu a mão para o pulverizador de tinta em seu coldre. Era um modelo antigo com uma parte superior desajeitada e uma grande esfera para segurar a tinta na frente do cabo. Mas seu tamanho deu espaço para Henzie adaptá-lo às especificações de Errante. "Vamos ver o que isso pode fazer."

A tinta jorrou, girando com os arco-íris iridescentes do Halo com o qual fora infundida. Ela lavou a besta conversora, mudando-a de vermelhos e brancos monstruosos para um caleidoscópio de cores mais vibrante do que a paleta de um artista.

A criatura rugiu, recuou e despencou para as ruas abaixo. Aterrissou com um respingo na borda da carnificina que Errante colhera. O Halo ricocheteou. O ar vibrava com magia como a luz do sol entre os prédios em um dia quente.

Uma onda de energia a fez correr mais rápido do que nunca. Uma besta como aquela a teria feito encolher-se de medo dias atrás. Uma como aquela quase acabara com a vida dela e da Parnesse. Agora, ela segurava o poder dos anjos em suas mãos e era algo que esses monstros deveriam temer.

Errante avançou, seguindo mais para o fundo de becos e depois para passagens de serviço com confiança renovada. Talvez o resto deles estivesse certo; eles tinham uma chance. Tudo o que ela tinha que fazer era colocar as cargas exatamente onde Henzie dissera e depois sair. Fácil.

No fundo do coração de Nova Capenna havia um núcleo — uma estrutura de suporte que os primeiros Rebitadores construíram e que percorria toda a extensão da cidade. Era como um tronco poderoso para a árvore que era o lar deles. Escondido à vista por um labirinto de vigas e ramificações. Acessível apenas através de entradas esquecidas exploradas pelos mais bravos exploradores urbanos. Errante diminuiu o passo ao se aproximar do que parecia ser o coração de metal da cidade que ela tanto amava.

Ela começou a descarregar sua bolsa e colocou as cargas exatamente onde Henzie instruíra. O diabo dissera a ela que ela tinha que ser a única a fazer isso porque era a mais rápida, mais ágil e a que poderia chegar com confiança a este ponto. Mas Errante se perguntava se também tinha algo a ver com o fato de ela não ser uma Rebitadora. Ela não tinha conexão com aquela estrutura como eles teriam. Destruí-la provavelmente pareceria como perder um membro para eles.

Com os explosivos no lugar, Errante ia saindo. Mas uma figura solitária bloqueou seu caminho. Ela olhou para olhos familiares, porém estranhos. Errante piscou, convencendo-se de que não era um novo pesadelo. Aquilo era real. Seu pai estava diante dela.

Mas ele não era o homem que ela conhecia. Tendões vermelhos subiam por seu pescoço. Eles sobressaíam sob as placas pálidas que haviam substituído partes de seu corpo com ângulos agudos e não naturais. Partes de sua carne haviam sido escavadas — um vácuo onde seu coração outrora estivera. Ele era como um mural meio danificado por grafites. Vislumbres do que fora outrora ainda eram visíveis. No entanto, não era o bastante de nada.

Ele era um escárnio do homem que a criara. E, no entanto, a simples visão dele fez Errante querer correr para ele. Segurá-lo e buscar conforto para a menina dentro dela que ainda chorava pela perda do pai que conhecera.

"Errante," ele rouquejou o nome dela.

"Não," ela retrucou. "Não fale com a voz dele."

"Esta é a minha voz." Anhelo levou uma mão ao peito, enquanto a outra varria dramaticamente para o lado. "Assim como você é minha filha."

"Você —" ela buscou seu pulverizador "— não é meu pai. Ele nunca seria um deles."

"Errante," ele disse o nome dela no mesmo tom de reprovação que usara com ela ao longo dos anos, como se ela fosse pouco mais que uma criança teimosa. "Não seja tão resistente. Você sempre foi ávida por ver beleza. Possibilidade. Seu olho para isso é impecável. Venha, posso lhe mostrar a beleza de Nova Phyrexia. Nosso futuro glorioso não é de muitos, mas de um. Um único traço de genialidade."

Ela observou o rosto dele enquanto ele falava. Ouviu seu tom. Ele acreditava... em cada palavra. Ele realmente achava que havia beleza na singularidade na qual os phyrexianos tentavam colapsar todo o Multiverso.

"A beleza não é encontrada colorindo dentro das linhas. Não é feita com uma única cor, ou um único traço." Errante balançou a cabeça lentamente. "A beleza é confusão e experimentação — fracasso e triunfo e todas as dificuldades amargas, porém doces, que vêm de desafiar os limites do que é conhecido. Está na originalidade. Você sabia disso, uma vez."

"Mas então eu vi a verdade."

"Você vê apenas o que eles lhe dizem." Errante deu um passo à frente, a mão que segurava seu pulverizador tremia. Mas seria ela capaz de liberar o poder do Halo sobre seu próprio pai? Anhelo moveu-se, claramente tentando bloquear seu caminho. "Pai, se você ainda tem algum amor por mim, vá embora."

"É porque eu te amo que quero te proteger — você e Parnesse — vocês duas devem se juntar ao verdadeiro caminho para estarem seguras."

"Você não vai encostar um dedo nela. Em nenhuma de nós." Os dedos de Errante tremiam sobre o gatilho do pulverizador. She couldn't do it .

O céu se iluminou com uma explosão de Halo, atraindo a atenção de ambos. Era isso — o sinal de Della. Atraxa estava no lugar. Ela tinha que se mover. Agora .

"Basta. Junte-se a mim." Anhelo tentou avançar sobre ela, mas ela foi rápida demais.

Errante saltou para uma janela inferior. O Halo brilhante, caindo pelo céu como fogos de artifício contra os restos ainda reluzentes de Nova Capenna, contrastava com a penumbra do núcleo abrigado. Empoleirada no parapeito, Errante encontrou os olhos dele uma última vez, ainda brilhando com o reflexo do sinal do anjo. Ela levantou a mão, acionando os interruptores no detonador e expondo um botão final.

"Adeus, pai," sussurrou Errante enquanto se inclinava para trás, lançando seu corpo através das vigas do núcleo e para o ar livre além.

Ela pressionou o botão.

O núcleo acima dela explodiu em chamas alaranjadas e fumaça. O prédio estremeceu. Os picos outrora invejáveis de Park Heights estavam desmoronando e queimando até virarem pó. Os suportes de aço que se conectavam ao ponto fraco que Errante explorara gemeram e se retorceram. Estruturas caíram como pétalas em uma brisa de primavera. Parecia que a própria cidade estava acordando de um longo sono com um rugido, determinada a expelir seus invasores.

Errante aterrissou pesadamente em um parapeito, rolando, rastejando, firmando os pés e começando a correr em meio ao caos que desmoronava, apesar de ainda não ter recuperado o fôlego. A pedra rachava sob ela, mal oferecendo apoio enquanto saltava para um galho da árvore. Depois de volta para um prédio. Suas passagens marcadas estavam se transformando em um labirinto caótico.

Atraxa queria Nova Capenna e a teria enfiada goela abaixo em pedaços. E, assim que a invasão se fosse, Nova Capenna se reconstruiria. Algo ainda melhor do que antes.

Rangendo os dentes, Errante levou seu corpo ao limite físico tentando se manter em pé. Ela tropeçou, caiu. Mas continuou. Ela tinha que continuar, Parnesse estava esperando por ela na zona de segurança. Não era muito mais longe, era tudo descida daqui. Ela conseguiria.

Errante lançou todo o seu peso no salto, mas suas mãos erraram o corrimão que ela mirava. Seu estômago disparou para a garganta, bloqueando seu grito. O mundo desacelerou naquele que poderia ser seu segundo final.

Então, dois braços robustos a envolveram. Seu corpo desacelerou, pairando no ar. Milagrosamente desviando da chuva de detritos.

"Della?" Errante olhou para o anjo — sua salvadora mais uma vez.

"Parecia que você precisava de ajuda." As asas de Della se estenderam atrás dela, e elas deslizaram suavemente como uma pluma.

"O resto da equipe?" perguntou Errante.

"Eles estão bem."

A conversa foi interrompida por outro estrondo alto. Sem aviso, um pulso de magia ondulou pela cidade. Ele colidiu contra os prédios como uma maré de poder bruto. Nova Capenna brilhou com o poder do Halo.

No alto da cidade, os galhos da Árvore da Invasão começaram a murchar, recuando através dos portais rasgados nos céus. Pela primeira vez em o que pareciam eras, ela pôde ver vislumbres de um céu sem fraturas. Em resposta, trombetas de guerra ecoaram por toda a cidade.

"Um contra-ataque?" perguntou ela freneticamente.

"Sim, o nosso." Della voltou o rosto para o céu também enquanto uma massa de anjos subia em direção aos portais vagos, avançando atrás dos galhos e para os planos além.

"O que está acontecendo?"

"Os anjos estão sendo liberados no Multiverso, levando o poder do Halo com eles." As asas de Della se estenderam ainda mais enquanto seus pés finalmente tocavam um telhado sólido e ela soltava Errante.

"É o fim?" Errante permaneceu focada nos anjos deixando Nova Capenna. Eles levavam sua magia e poder com eles. Mas algo lhe garantia que Nova Capenna ficaria bem mesmo sem eles. Pela primeira vez, haviam conseguido trabalhar juntos. Talvez fosse o início de um novo e brilhante futuro.

"Não," admitiu Della, um tanto tristemente. "Isso sozinho não será suficiente para acabar com esta guerra... mas pode nos dar a chance de vencer. Você — Nova Capenna desempenhou seu papel e fez seus sacrifícios. Agora é a nossa vez."

"Errante!"

O grito fez seu coração disparar. Errante girou, percebendo que haviam pousado na borda do telhado no Mezzio que Henzie marcara como seguro da demolição. Ela estivera tão focada no que Nova Capenna perdera que quase perdera o que ainda estava de pé: Perrie, Henzie, Kamiz, todos os cidadãos que haviam escapado da queda de Park Heights e — a mais importante de todos — Parnesse.

Errante gravou a memória de sua esposa correndo em sua direção em sua mente com cada emoção vívida. Ela saborearia aquele momento até o fim de seus dias, sabendo que era belo demais para que um pincel ou pulverizador pudesse capturar.

"Parnesse!" Errante abriu os braços bem a tempo de Parnesse se lançar neles. "Você está bem."

"So are you. I was so worried." Parnesse relaxou o aperto, olhando para Errante com aquele sorriso deslumbrante que deixava seus joelhos bambos.

"Estou bem, graças a —" Errante parou no meio da frase. O anjo se fora. "Della —"

"Para onde ela está indo?" Parnesse inclinou a cabeça para o céu. Errante se perguntou se ela conseguiria encontrar Della entre todos os anjos que pairavam, correndo para os portais abertos.

"Para nos ajudar a vencer esta guerra." As palavras eram vagamente doces, porém salgadas por todas as lágrimas que haviam sido derramadas para chegar àquele momento.

"É de tirar o fôlego," sussurrou Parnesse.

Fumaça densa. Anjos resplandecentes. Lágrimas de raiva que se rasgavam de forma não natural entre as nuvens. Uma cidade queimando e, no entanto, de alguma forma também se erguendo em conjunto.

O braço de Errante envolveu a cintura de sua esposa. "É sim... parece esperança."

Zendikar: Batalhas no Campo e na Mente

Nahiri sempre quis apenas salvar seu lar. Ela está em um ponto de observação no topo de um dos inúmeros fragmentos de pedra à deriva no céu de Zendikar e faz um balanço de seu plano.

Muito abaixo dela, a invasão phyrexiana está ganhando terreno.

Ela vê a vanguarda marchando para frente, espalhando seu óleo viscoso e suas sementes mecânicas à medida que avançam, e a terra verde sob seus pés murchando e fumegando em preto enquanto se movem em direção ao Portão Marinho. Eles estão conquistando este plano, rapidamente, e em breve Zendikar estará curada e em paz, como todos os outros planos aos quais Phyrexia trouxe unidade e ordem.

Bom , pensa Nahiri.

Ela já tentou mudar seu mundo natal antes, devolvê-lo à sua antiga glória e acalmar o Turbilhão, e não teve sucesso. Ela tentou proteger este plano dos Eldrazi e não conseguiu. Mas desta vez, ela não falharia. Desta vez, ela salvaria Zendikar auxiliando sua transformação em sua forma mais pura e idílica.

Ela também está mais sábia agora. Ela entende que Zendikar e seus residentes lutarão contra a mudança e que, se deixados à própria sorte, os habitantes equivocados deste plano poderiam ter sucesso em atrapalhar os phyrexianos. Portanto, ela deve ajudar no renascimento de seu lar, esculpi-lo, remover suas impurezas e impulsos até que reste apenas a perfeição.

Nahiri fecha os olhos e, com sua litomancia, sente através da rede espalhada de édros a defesa que criou há tanto tempo para manter os Eldrazi sob controle. Ela precisa de um reduto, um nexo para seu novo poder forjado. Um sorriso satisfeito se espalha por seu rosto quando o encontra.

Sim, a Casamata Celeste em Emeria será o ponto de acesso perfeito para conectar toda a rede de édros e abrir as fendas entre os planos, permitindo que o atual fluxo da invasão phyrexiana se torne uma inundação. Uma cascata que lavará este plano novamente.

Ela olha para os próprios braços, recém-cobertos pelos símbolos brilhantes e reluzentes de Phyrexia e onde antes ficavam suas mãos, agora há duas lâminas de pedra ardente.

Arte de: Zara Alfonso

Ela sorri.

Pois ela também foi esculpida em algo melhor. Ela entende isso agora.

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Há consolo em lançar cordas, apesar dos novos horrores que esses novos invasores mecânicos trouxeram para seu lar. Akiri é grata por esta única coisa imaculada, mesmo enquanto busca em vão pelas ruínas flutuantes de Emeria.

"A visão não era clara", dissera Tazri. "Vi pedras se reformando e os édros se alinhando , dos quais óleo e corrupção se espalhavam. No centro havia uma única figura. Senti nossa perdição, mas também nossa salvação."

"Onde?" perguntou Akiri.

"Não tenho certeza", respondeu Tazri, corando levemente. "Parecia algum lugar acima de Tazeem. Muitos édros."

Não era muito para prosseguir. Os édros em Zendikar eram tão espalhados e numerosos quanto os túneis e cavernas secretos nas Selvas de Guum. Mas Akiri confiava em Tazri, e sua visão abençoada pelo halo significava que Akiri tinha que pelo menos tentar. Havia uma pequena parte culpada dela que sentia alívio por estar longe da batalha no Portão Marinho. Estar escalando, balançando e usando ganchos pelo ar rarefeito e frio mais uma vez.

Ela ouve ruídos nas pedras atrás dela e, um momento depois, seus dois companheiros a encontram na saliência onde ela está.

"Alguma coisa?" ela pergunta.

Orah balança a cabeça, o clérigo kor guardando seus próprios pensamentos. Kaza dá de ombros. "Desculpe, chefe." Mas até mesmo a maga humana tipicamente alegre parece desanimada.

Akiri assente e não deixa sua frustração transparecer. Seus companheiros — seus amigos — insistiram em vir com ela, embora soubessem que buscavam pela mais tênue das esperanças. E eles precisavam desesperadamente de esperança.

À distância, Linvala desliza no vento. O anjo encontra o olhar de Akiri e Akiri balança a cabeça.

"Mantenham os olhos atentos", diz Akiri e, com um movimento fluido, prende outra corda em um penhasco à deriva a cinquenta passos de distância.

Então, ela está voando novamente.

Aqui, no espaço traiçoeiro acima da terra, nos espaços vazios entre os apoios, ela deve se concentrar, deve ouvir e observar. Pois a qualquer momento algo pode mudar e uma reação que seja um momento tarde demais significa a morte.

Quando Akiri está lançando cordas, não há espaço para fantasmas do passado ou arrependimentos.

Com facilidade prática, ela atravessa o vão, lançando cordas no meio do arco, enganchando-se habilmente em destroços traiçoeiros e édros, até rolar em uma saliência que parece sólida.

É apenas porque ela está sintonizada com cada movimento que percebe o lampejo ao longe. Akiri se vira para ver uma mulher kor ágil aparecer do nada em um fragmento isolado, sua pele cinza coberta por símbolos escuros e brilhantes, espinhos saindo de seus ombros, seus braços terminando não com mãos, mas com lâminas longas e ardentes como fogo. Ela mudou, mas mesmo à distância, Akiri sabe quem é. Aquela figura, aquele rosto, tem assombrado seus sonhos desde que ela perdeu Zareth.

Desde que ela caiu.

"O que você vê?" Linvala pergunta, pousando ao lado dela

Akiri só consegue apontar, o horror se acumulando em seu estômago. "Avise Tazri", ela sussurra. "Rápido."

Nahiri, a Planeswalker, retornou a Zendikar e Akiri entende naquele momento com um pavor desenfreado que a invasão phyrexiana ganhou vantagem.

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Eles lutam incessantemente há dias incontáveis e, ainda assim, os phyrexianos continuam vindo. Tazri já lutou batalhas suficientes para saber que a luta acontece tanto no campo quanto na mente. Assim, ela mantém a mandíbula firme e a voz clara enquanto grita comandos para o exército heterogêneo de combatentes do Portão Marinho e não deixa seu cansaço transparecer. Mas os galhos da Árvore da Invasão continuam vindo. Brancos, rachados, metálicos e maciços, os galhos irrompem dos portais que se abrem no céu e no mar. De cada novo galho, uma onda de invasores phyrexianos se derrama no campo de batalha.

Tazri vê o medo no rosto de Erem, o guerreiro kor parado ao seu lado enquanto a mais nova onda de monstruosidades mecânicas corre para se juntar às forças já crescentes na base do Portão Marinho. O óleo liso e de aparência doentia que segue o inimigo sobe pelas colunas de mármore do Portão Marinho que Tazri planejara e projetara com tanto carinho.

Ela se aproxima de Erem e coloca a mão em seu ombro.

"Os Eldrazi eram mais assustadores", diz ela, e ele solta uma risada trêmula.

Mas sua mente volta para sua visão. Seus pensamentos nunca estão longe disso, ao que parece. O choque da pedra, o calor de queimar os cabelos de um poder desenfreado, a figura no centro de tudo, apenas seu contorno visível. O sentimento de desespero, tingido de esperança.

Secretamente, ela espera que Linvala e Akiri não tenham encontrado nada em sua busca nos dias que se passaram desde que partiram. Que sua visão seja um problema para outro dia. Ela já tem um exército de problemas diante dela.

O inimigo está quase no portão.

"Guerreiros!" grita Tazri. "Este é o nosso lar! Matamos deuses falsos por ele! Nenhum invasor jamais o tomará de nós!"

Ao seu redor, seus combatentes se reúnem e rugem ferozmente, roucos e cansados como estão.

Tazri grita seu grito de guerra, virando-se para enfrentar os invasores. Então ela avança, correndo de cabeça no combate.

Cápsulas de sementes maciças e deformadas atingem a terra ao seu redor enquanto ela se desvia e apara o golpe da lança de um guerreiro phyrexiano. Imponente e mais máquina do que carne, o inimigo se move em fileiras ordenadas, com precisão mecânica. Estes combatentes sem alma com apenas um objetivo: assimilação total.

Uma onda de horror se instala nela, enquanto Tazri abate guerreiro phyrexiano após guerreiro phyrexiano.

"Como você está fazendo isso tão rápido?" diz alguém ao lado dela. Tazri se vira um pouco. Erem está defendendo seu flanco.

"Eles não têm imaginação", diz ela com um sorriso.

Eles lutam bem juntos, ela e Erem. Mas ainda há mais cápsulas de sementes, mais portais, mais galhos. O inimigo é implacável, talvez infinito.

Não. Sem desespero. pensa Tazri e redobra sua ofensiva,

Ainda assim, ela se sente aliviada quando vê o anjo no céu e quando aquele anjo vem se juntar a ela e Erem, empunhando seu cajado com precisão mortal.

"A litomante retornou. Nós a avistamos perto de Emeria", a voz de Linvala é mal audível acima do choque de armas contra máquinas.

"Bom. Poderíamos usar a ajuda de uma Planeswalker", grita Tazri e enterra sua espada em outro inimigo.

"Ela não retornou como aliada."

"O quê?"

Mas antes que o anjo possa responder, há um grito terrível ao lado de Tazri. Ela se vira para ver que Erem foi trespassado na perna por um dos invasores e está sendo arrastado para uma cápsula aberta e escorregadia de óleo.

"Não!" grita ela e atravessa o phyrexiano que segura a lança. Ela se abaixa para ajudar Erem a se levantar. Mas antes que possa segurar seu braço, outra cápsula de semente atinge o chão, a poucos pés de distância, jogando-a para trás. Com um sibilo, a cápsula começa a se abrir, permitindo que os monstros phyrexianos em seu interior se desenrolem e se derramem.

Tazri se recupera rapidamente, mas não rápido o suficiente. Erem se debate e grita o nome dela enquanto dois invasores o arrastam para a cápsula de semente mais próxima e o selam em seu interior.

Tazri luta e luta para alcançá-lo, mas há tantos inimigos. Muitos. E, ainda assim, mais vêm.

Ao seu redor, os bravos guerreiros do Portão Marinho estão sendo subjugados.

Ela chega à cápsula a tempo de ouvir os gritos de Erem mudarem. De dentro de sua prisão de metal, seu amigo começa a rir. Sua voz se transformando em algo mecânico e distorcido.

"Tazri!" grita Linvala. "A cidade está perdida. Precisamos ir!"

"Não", responde Tazri, mas sua própria voz é engolida pelo terror e pelo riso distorcido. Ela também não luta enquanto o anjo a envolve com os braços e voa para o alto.

Do alto, Tazri observa horrorizada seu lar ser, novamente, consumido por criaturas que não são deste plano.

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Nahiri sabe que seu plano está envenenado e entende que ele tentará rejeitar seu antídoto. E assim, ela não se surpreende quando o Turbilhão vem atrás dela. Ela está correndo pelo céu, saltando de pedra em pedra enquanto constrói um caminho pelo ar aberto, quase voando, quando a terra muito abaixo começa a estrondar e tremer, desalojando seu ritmo. Amaldiçoando, Nahiri tropeça e salta para um édro próximo para recuperar o equilíbrio.

O Turbilhão sempre tentou prejudicá-la. Sempre foi imprevisível, indisciplinado e destrutivo. Mas ela está mais sábia agora, e mais poderosa.

Os símbolos em seu corpo brilham enquanto ela joga os braços para trás e começa a esculpir a terra abaixo dela. Quando o chão treme e tenta desequilibrá-la, ela o sufoca com rochas tão pesadas e espessas que o tremor violento se acalma para meros calafrios. Quando ele a ataca com gêiseres de água e magma, ela estrangula suas rotas de fuga, asfixiando o tumulto tão profundamente abaixo da terra que levará um milênio para o magma lutar para chegar à superfície novamente.

Cada mudança, cada truque que o Turbilhão lança contra ela, Nahiri sufoca com sua força recém-descoberta.

Eventualmente, a terra se aquieta. O Turbilhão estremece como um peixe ofegante fora d'água e finalmente para. Por milhas, a paisagem tornou-se a uniformidade cinzenta da rocha matriz.

Nahiri ergue os braços em triunfo. Óleo negro escorre pelas lâminas ardentes que um dia foram suas mãos. Ela ri de alegria.

Que perfeição! Antes de sua conversão phyrexiana, ela jamais teria sido capaz de realizar tal feito.

E assim, alegremente, ela se volta para a Casamata Celeste de Emeria. Ela não será impedida em sua missão justa.

Ela não pode ser impedida.

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Akiri tem rastreado a Planeswalker corrompida há dias. Ela testemunhou a pedra quebrada da Casamata Celeste se consertar e se transformar em metal branco. Os édros se alinham, zumbem com poder e começam a brilhar com uma luz sobrenatural. Há óleo agora vazando das fendas das pedras reforjadas. Com cada mudança na Casamata Celeste acima, mais inimigos chegam abaixo. Eles irrompem por portais, os galhos da Árvore da Invasão horrivelmente longos e gigantescos, tornando o céu vermelho e preenchendo o ar com os sons de motores zumbindo e passos enquanto o exército phyrexiano marcha para frente. Sob seus pés, a terra se transforma em metal branco rachado, quebrado por grossas veias vermelhas que parecem tendões.

Mesmo a esta distância, Akiri pode ver que seu plano está morrendo.

"Algum sinal do anjo?" diz ela para Orah na saliência abaixo dela.

"Ainda não", ele responde. "Kaza também não viu Linvala ainda."

Akiri faz uma careta e se força a ser paciente. A jornada do Portão Marinho até Emeria é longa, mesmo por asa.

Se Zareth estivesse aqui, ele teria argumentado para não esperar, para avançar atrás de Nahiri e lutar por seu lar. Mas Zareth é uma memória e um buraco vazio em seu peito que não pode ser preenchido. Akiri conhece Nahiri o suficiente para entender que enfrentá-la sozinha significaria a morte.

Assim, Akiri espera, mas não fica ociosa. Leve nos pés e rápida no ar, ela lança cordas, explorando as poucas e minguantes peças não corrompidas da Casamata Celeste, procurando uma entrada. É assim que ela encontra uma entrada no lado oeste, recuada e pequena o suficiente para ter ficado protegida do óleo corruptor.

Finalmente, Akiri avista Linvala no céu avermelhado. O anjo está segurando alguém em seus braços, e Akiri reconhece o halo brilhante em volta do pescoço de Tazri.

Orah and Kaza também os avistam e, com Akiri, os três aventureiros se levantam para saudar os recém-chegados. Linvala pousa e coloca Tazri no chão. Ambas parecem castigadas pelo vento e exaustas.

"Voei tão rápido quanto minhas asas permitiram", diz Linvala.

"Eu sei", responde Akiri, segurando tanto o anjo quanto Tazri pelos ombros.

"Você tem certeza de que Nahiri está aqui como nossa inimiga?" pergunta Tazri, sem conseguir conter a mistura de esperança desbotada e desespero em sua voz.

"Sim. Eles a mudaram", responde Akiri, hesitando antes de acrescentar: "E eu conheço aquela expressão no rosto dela. Ela pretende transformar Zendikar."

"Isso não é prova", protesta Tazri.

"Não, mas isto é!" retruca Akiri e aponta para a Casamata Celeste surgindo diante deles, seus édros vibrantes e óleo escorrendo. Depois, para a paisagem morta abaixo. "Há alguns dias, a terra era verde. Estava cheia de vida. Quanto mais édros conectados, mais rápido o inimigo chega. Nahiri vai destruir nosso lar se não fizermos nada."

Arte de: Thomas Stoop

As duas aventureiras se encaram por um momento.

"Ela está correta, Tazri", diz Linvala calmamente.

Tazri assente, seus punhos se fechando ao lado do corpo.

"Portão Marinho~" Akiri começa a perguntar. Mas a expressão nos rostos de Tazri e Linvala responde à sua pergunta.

"Somos os únicos que restaram para deter Nahiri", diz Tazri enquanto observa a Casamata Celeste, transformada e exalando o fedor da invasão phyrexiana.

"Lá dentro está nossa última esperança de salvar nosso lar", concorda Linvala. "Não podemos falhar. A única questão que resta é como proceder."

Por um momento, ninguém fala.

"Encontramos uma entrada", oferece Kaza.

"E ainda não está corrompida", diz Orah, apontando para a pequena entrada nas profundezas do paredão da Casamata Celeste.

"Eu os levarei até lá", diz Akiri, entregando uma corda a Tazri. "Não toque no óleo."

"Eu sei." Tazri range os dentes.

Akiri guia seus companheiros, viajando entre as rochas e pelo ar que não é mais frio e límpido, mas doentiamente quente e sufocado pelo cheiro de graxa.

A entrada para a Casamata Celeste é agourenta, uma fenda bruta na pedra que leva a uma escuridão sem fim à vista. Akiri enrola suas cordas enquanto diz: "Não sei quais horrores nos esperam lá dentro. Não sei o que Nahiri está planejando, mas ela é implacável. Vocês podem morrer ou ser mudados. Quem não quiser ir, deve partir e não se sentir envergonhado."

Ela olha para Linvala, Tazri, Orah e Kaza, um a um. Todos encontram seu olhar e não se movem.

"Zareth nunca nos perdoaria se a deixássemos vencer", diz Kaza, baixinho. Orah assente e o peito de Akiri dói com a memória da infame teimosia de seu amigo perdido.

Ainda assim, Akiri hesita.

"Não derrotamos os Eldrazi para sermos destruídos por isto", diz Tazri com a mandíbula cerrada e avança para a escuridão.

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A princípio, Tazri se pergunta por que a passagem está tão silenciosa. Pelas histórias que ouviu de aventureiros nas tavernas, os túneis da Casamata Celeste deveriam estar cheios de criaturas aterrorizantes e maravilhas deslumbrantes da antiga civilização kor. Dizem que tudo se move em cidades flutuantes e fragmentadas no céu. Tudo é traiçoeiro, você não pode confiar onde coloca os pés.Mas aqui na escuridão do Casulo do Céu que Nahiri está corrompendo, tudo está imóvel.

"Algo está errado", sussurra Orah, seus olhos cinzentos examinando cada fenda e cada canto enquanto caminham.

"Sim. Geralmente já teríamos sido atacados a esta altura", concorda Kaza.

Diante dela, Tazri mal consegue distinguir a silhueta alta de Akiri. A mulher kor move-se com furtividade e cautela, e Tazri sente-se grata por ter uma aliada tão experiente ao seu lado. Apesar de sua raiva e de seu luto, Tazri está feliz por ter pedido a Akiri para explorar as ruínas depois de ter tido sua visão.

Ao longe, no túnel, há um lampejo. Algo brilhando brevemente em vermelho, e depois desaparecendo.

"O qu—" Linvala começa, mas Akiri a silencia com um gesto. A lançadora de cordas avança centímetro a centímetro. Atrás dela, Orah e Kaza desembainham suas armas. Pela primeira vez, Tazri deseja que o halo em seu pescoço não brilhasse tão intensamente na escuridão.

Há um lampejo novamente. E então um mais longo, agora mais perto. Rápido como um raio, embora Tazri consiga distinguir a forma de um humanoide, vermelho e preto e curvado. Então, por segundos agonizantes, não há nada. Eles não se movem, Tazri mal respira.

"Para onde foi?" Kaza sussurra, finalmente.

Algo ruge atrás deles.

Os cinco aventureiros se viram para encontrar uma criatura enorme, como uma árvore retorcida gigante, boca escancarada e devoradora, olhos cheios de fúria. Suas folhas esfarrapadas restantes são pretas e sua casca foi substituída por tiras de metal opaco. Óleo, em vez de seiva, escorre por entre sua casca metálica.

O elemental corrompido ergue seus membros e Tazri rola, o impacto errando-a por centímetros. Ela se levanta sobre um joelho, desembainha sua espada e rosna.

Com seus anos de experiência em batalha, Tazri entende que os ataques da criatura dependem de seu tamanho massivo e que, se ela acertar um golpe, seus membros os esmagariam como uma bota em um graveto. Ocorre um estrondo estrondoso quando um galho espesso se choca contra as pedras a um palmo de distância de Tazri.

Não há como ela desviar e aparar isso .

Então, ela muda de tática, atingindo os pontos vulneráveis; as junções de seus membros, seu rosto quando pode, suas raízes quando não pode. Seus companheiros aventureiros fazem um belo trabalho mantendo-o distraído, mas é apenas quando Akiri crava um de seus ganchos na criatura e usa a corda para desequilibrá-la, que Tazri consegue a abertura pela qual estava esperando. Ela enterra sua espada na boca escancarada da criatura.

Ela não emite nenhum som ao morrer. E, de alguma forma, isso inquieta Tazri mais do que qualquer grito de morte.

"Bem", diz Linvala, dobrando suas asas e tirando o cabelo dos olhos. "Inesperado."

"Oh deuses", diz Orah com voz estrangulada. Tazri se vira para ver o clérigo erguendo a mão direita. As pontas de seus dedos estão cobertas por um óleo preto doentio.

"Orah~" Akiri dá um passo à frente. Mas Orah recua.

"Eles estão vindo", diz ele e acena para o final do túnel.

À distância, há outro lampejo vermelho. Depois outro.

"Por Zareth", diz Orah, e encontra o olhar de Akiri. "Por nós ." Com isso, ele avança para o Casulo do Céu, cajado em punho.

Os cinco aventureiros lutam como demônios. Os elementais que encontram são poderosos e estranhamente familiares, com frentes massivas e musgo brilhante. Mas todos foram transformados em uma subversão de seus antigos eus. Outrora guardiões de Zendikar, agora zelotes de Phyrexia. Tazri e os outros derrotam um elemental phyrexianizado, depois dois, depois quatro. Mas há muitos para que apenas um grupo de aventureiros consiga resistir.

"Corram!" Akiri grita e os guia por uma passagem vazia. Pela segunda vez em memória recente, Tazri foge de um inimigo em vez de enfrentá-lo e derrotá-lo. A vergonha arde nela. Nada mais importa se você não detiver Nahiri , ela lembra a si mesma, e corre mais rápido.

Eventualmente, o túnel se abre em uma sala ampla, antiga, vasta e outrora bela. Está coberta por antigos designs kor. Mas Tazri apenas absorve um vislumbre de seus arredores antes que sejam engolidos por lampejos vermelhos vindos de todos os lados. Em instantes, ela e os outros estão cercados por dezenas de elementais vermelhos e pretos, oleosos, que outrora foram a própria alma de Zendikar.

Não há saída.

"Não podemos morrer ainda", Orah arqueja e segura sua arma na mão esquerda. Sua mão direita está quebradiça e branca, suas veias do preto mais profundo.

"Não por muito tempo", concorda Kaza. "Tenho planos para depois disso."

Os elementais se aproximam, retorcidos e implacáveis. A espada de Tazri não vacila, mas ela aperta o halo em seu pescoço e reza para quem estiver ouvindo. Ela consegue sentir o cheiro acre do óleo escorrendo da pele dos elementais.

Não há saída.

Então, à sua esquerda, surge uma luz cegante.

Com um suspiro coletivo, os elementais recuam cambaleantes, confusos e alarmados. Tazri olha e vê Linvala irradiando luz e avançando. Os elementais se abrem diante dela, como a água diante de uma proa. Só então Tazri vê a porta no lado oposto da câmara.

"Corram!" Linvala grita e eles obedecem. Ao redor dela, Tazri está vagamente ciente dos sons de placas de metal batendo na pedra, mas ela não desvia o olhar das portas, não diminui o passo.

Ela agarra as maçanetas e, com uma oração semiconcluída, empurra.

As portas se abrem e Tazri quase desaba de alívio.

Rapidamente, os cinco aventureiros barricam a entrada com qualquer coisa que consigam encontrar. Pedras, ossos, pedaços de madeira quebrados.

"Como?" Tazri pergunta ao anjo enquanto enfia outro pedaço de madeira sob a maçaneta da porta.

"Eu vislumbrei a saída um mero momento antes dos elementais chegarem", responde Linvala com um sorriso astuto. Mas não era isso que Tazri estava perguntando. A luz do anjo~

Depois, pergunte depois. Foque. Sobreviva agora. ela pensa.

É apenas quando tem certeza de que seus inimigos não podem passar, que Tazri para para examinar seus novos arredores.

Ela inspira bruscamente.

Ao redor deles estão as carcaças de todas as criaturas vivas que não sobreviveram à transformação phyrexiana. Cadáveres semi-transformados de metal e carne, apodrecendo, escorrendo, exalando um odor de decomposição e corrupção. Bestas e elementais, tudo o que outrora chamava este Casulo do Céu de lar, agora está pervertido ou erradicado.

Tazri não se pergunta mais por que os túneis estão tão silenciosos.

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Nahiri doutrina outro elemental antes mesmo que ele atravesse o limiar. Quando ela entrou pela primeira vez no Casulo do Céu, os túneis estavam infestados deles. O coração de Zendikar, Nissa chamava as criaturas. Mas o que aquela elfa tola sabe sobre corações?

Aquele primeiro elemental que ela enfrentou era massivo, todo folhas e espinhos, empunhando uma rocha como arma.

Nahiri encarou seu inimigo e riu. Com seus novos poderes, com seus braços como lâminas, ela é uma arma. Em questão de minutos, a coisa verde e macia estava sob suas botas, tornando-se preta enquanto o óleo abençoado da mudança a transformava em uma crente de Phyrexia. Infinitos foram os elementais e as outras criaturas que chegaram para detê-la enquanto ela trabalhava no coração do Casulo do Céu. Um a um, ela converteu a todos.

Ou os matou e deixou seus corpos do lado de fora da câmara, se estivesse se sentindo impaciente.

Desta vez eles não vão me parar. Desta vez eu vou curar Zendikar. Nahiri pensa enquanto derrama mais de seu poder no núcleo do Casulo do Céu. Ela está simplesmente tentando fazer o seu melhor para ajudar seu lar. Sempre tentou.

Quando ela chegou a esta câmara central pela primeira vez, dias atrás, usou a alegria de sua nova transformação e sua nova força para realinhar os edros e ampliar as fendas entre os planos. Milênios atrás, com Ugin e Sorin, ela atraiu os Eldrazi das Eternidades Cegas para Zendikar usando a rede de edros. Agora ela fazia o mesmo, chamando alegremente o Rompe-reinos através dos planos.

Sua alegria recém-descoberta era poderosa, de fato, mas não era o suficiente.

No segundo dia, Nahiri recorreu a velhas táticas e derramou toda a sua raiva na transformação, quase reforjando o Casulo do Céu inteiro e expandindo a rede de edros por vastas extensões do plano. Ela ficou chocada, porém, quando alguns dias depois, sua raiva se esgotou e o trabalho ainda não estava concluído. Então, ela canalizou sua dor, seu luto pelas traições, as perdas, a solidão ao longo dos milênios. Ela estava apenas tentando fazer a coisa certa. Ela está sempre tentando fazer a coisa certa.

Por toda Zendikar, os edros começaram a se reconectar e a pulsar com poder.

E assim, Nahiri aprende que o luto é tão poderoso quanto a raiva. Mas também não é infinito.

O trabalho está quase concluído quando Nahiri gasta o último resquício de seu luto. Sua nova rede se estende pelos oceanos, as fronteiras entre os planos tornaram-se frágeis e finas. Ela está tão perto.

Mas pela primeira vez em sua longa existência, a antiga Planeswalker está vazia de raiva, luto e dor. Nahiri não tem mais nada para dar.

Não. Ela tem uma última coisa a oferecer.

Ela entra na grandiosa e bela rede que construiu e funde-se às pedras no centro, tornando-se sua pedra angular, o coração que une seu trabalho aqui.

Lá, Nahiri começa a derramar sua própria essência em sua gloriosa criação.

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O único caminho que lhes resta é seguir em frente, por mais terrível que possa ser. Há outro conjunto de portas do outro lado da sala. Tazri se aproxima. Ela consegue ouvir o zumbido de poder e o deslocamento de pedras do outro lado.

"A Planeswalker está aqui dentro", diz ela e se move para abrir a porta. Mas ela hesita.

Nahiri é poderosa demais. Que esperança temos? Tazri sabe que a batalha acontece tanto na mente quanto no campo. Mas ainda assim, ela não consegue afastar o pensamento. Atrás dela, Linvala e Akiri hesitam, como se lutassem com dúvidas próprias.

É Kaza quem se adianta e coloca as mãos na maçaneta acima das de Tazri.

"Não temos outro lar", diz ela e abre as imponentes portas de pedra.

Tazri arqueja diante da cena à sua frente. Sua visão lhe dera algum aviso sobre o que esperar e, no entanto, ver com seus próprios olhos; a antiga câmara kor transformada em uma mistura grotesca de metal branco rachado, tendões vermelhos e pedras cinzentas. Óleo brilhante correndo em riachos pelo chão. Tazri testemunhou horrores demais para se assustar facilmente, mas a visão de Nahiri, completada e incrustada no coração do Casulo do Céu, faz seu sangue congelar.

"Pequenos elementais. Fofos", diz Nahiri quando os nota, seus lábios curvados em um sorriso preguiçoso. Mas então seu olhar se fixa em Akiri e seus olhos se estreitam com reconhecimento. "Você ."

Akiri não diz nada. Em vez disso, com a rapidez e a segurança de uma lançadora de cordas, Akiri lança uma faca na garganta da Planeswalker.

A faca nem sequer chega à metade da sala antes de uma pedra a esmagar contra o chão.

"Vocês não podem me parar", rosna Nahiri. A sala começa a tremer.

Tazri avança em direção à Planeswalker corrompida, desembainhando sua espada enquanto corre. Ela desvia de poças de óleo, pedras salientes e metal rachado. Uma placa de granito voa em sua direção pela esquerda e ela se abaixa. Outra voa pela frente e ela rola, e se levanta suavemente. Ela não para de se mover.

Ela está perto, consegue ver as veias ardentes nos braços de Nahiri. Ela ergue sua espada com um rugido. Por Zendikar , ela grita sem palavras enquanto descarrega sua arma.

Ela não sente a pedra se mover sob seus pés até que seja tarde demais.

De repente, ela está voando em direção ao teto em uma velocidade de quebrar ossos. Ela rola para fora da plataforma no último momento e cai no chão com um forte baque . Tazri geme, mais pelo choque do que pela dor. A centímetros dali, há uma poça de óleo preto e ela está crescendo, avançando em sua direção. Ela se levanta rapidamente e ataca novamente.

O chão se inclina, e uma mecha de pedra trançada chicoteia a parte de trás dos joelhos de Tazri. Ela grita, atingindo o chão com força. Novamente, ela se levanta. Novamente, ela ataca.

Pelo canto do olho, Tazri vê Orah e Kaza desviando freneticamente de detritos voadores e pedras afiadas como navalhas. Kaza lança feitiços de bombas de fogo quando pode, embora não tenha muitas chances. Akiri e Linvala avançam, ambas voando, uma com asas e a outra com ganchos. Mas elas também são empurradas para trás por rochas e pela ferocidade absoluta dos ataques de Nahiri.

Uma pedra massiva atinge o quadril de Tazri no meio de um salto, derrubando-a.

Do centro da sala, a Planeswalker sorri com desdém.

Tazri não pode tocar no óleo, ela não consegue alcançar Nahiri. Seu cabelo e sua pele ardem com o calor do poder da Planeswalker. Ela luta, mas sabe em seu coração que é em vão. A imagem diante dela é exatamente a de sua visão, mas não há esperança.

Zendikar está perdida.

O halo em seu pescoço começa a queimar.

Linvala está a apenas cinco passos de distância, mas sua voz soa como se tivesse viajado mil milhas quando o anjo começa a gritar.

De repente, tudo se torna brilhante.

A princípio, Tazri não entende. A câmara brilha com uma luz iridescente. Akiri brilha, e Kaza também. O rosto de Orah é uma expressão de choque enquanto ele agarra sua mão direita infectada, vendo o óleo queimar e sumir. Tazri olha para baixo e fica atônita ao descobrir que ela também está brilhando com um fulgor incandescente, o halo em seu pescoço mais brilhante do que nunca.

Linvala, no entanto, irradia. A luz que emana dela é exatamente como a iluminação momentânea na câmara com os elementais, mas agora mais forte, sem restrições. Tazri mal consegue olhar diretamente para o anjo.

Dentro de sua tumba de pedra, Nahiri grita e o Casulo do Céu treme com sua força.

Mas a luz do anjo atordoou o poder de Phyrexia. De repente, as pedras e os fragmentos de metal branco ficam suspensos, imóveis. O óleo ao redor de seus pés está secando. Nahiri pragueja enquanto as runas ardentes em seu corpo se apagam.

Vá. Ataque agora. Uma voz sussurra, vinda de baixo de seu queixo. Tazri toca o halo em seu pescoço e obedece.

Uma última vez, ela avança contra a Planeswalker phyrexiana.

Seus aliados — não, seus amigos — correm ao seu lado: Kaza lançando feitiços para distrair Nahiri enquanto Akiri lança seu gancho, emaranhando os braços da litomante. Tazri vê sua abertura, mas sabe que sua espada será inútil contra o metal e a pedra que envolvem a Planeswalker.

Arte de: Artur Nakhodkin

Use-me , sussurra o halo. Rápido!

Tazri arranca o halo de seu pescoço e, em um movimento desesperado, lança-o contra a Planeswalker sepultada.

Há um clarão. Há gritos — de Nahiri, de Orah, de Linvala, talvez o dela própria. Então, a luz radiante desaparece.

Por um momento, há apenas silêncio.

No centro da sala, a pedra angular se quebra e Nahiri desmorona de seu abraço de pedra e metal. Ela cai no chão com um gemido. Por um breve instante, Tazri jura que uma expressão de horror atravessa seu rosto quando ela vê suas mãos de espada.

Então, a Planeswalker se recupera, levantando-se, um rosnado contorcendo suas feições. "Não ", diz ela e ergue os braços.

Mas ela não é mais a peça central, mantendo este Casulo do Céu pervertido unido apenas por poder e vontade.

Antes que Nahiri possa desencadear seu ataque, ocorre um estrondo, um estalo ensurdecedor vindo das profundezas do Casulo do Céu. Um olhar de surpresa cruza o rosto da Planeswalker, antes que todos, incluindo Nahiri, sejam derrubados.

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Akiri sabe como soa um colapso total, como ele se sente. O pânico lhe corta a respiração e, por um momento, é quase como se ela estivesse de volta àquele outro Casulo do Céu com Nahiri, a minutos de perder Zareth.

Mas não, isto é diferente. Ela está aqui, lutando por seu lar, e o chão em que está pisando está desmoronando. Ela precisa se mover. Agora .

Então, Akiri corre. Ela pega o halo de Tazri do chão, e então Tazri pela cintura, e desenrola suas cordas. Um segundo antes do chão ceder inteiramente, ela lança seus ganchos e eles voam pelo vazio. Eles atingem com força a pedra fora da câmara. Acima deles, há outro estalo ensurdecedor e o teto começa a desabar.

Elas correm para frente, balançando-se sobre vãos e esquivando-se, tudo ação e reação. Akiri olha para a esquerda e vê Linvala voando ao seu lado, ainda brilhando com radiância, mas mais fraca do que antes. Ela olha para a direita e fica aliviada ao ver Kaza e Orah juntos, voando no cajado mágico de Kaza. Exatamente como naquele outro Casulo do Céu.

Foque. Akiri afasta a memória e corre mais rápido. Não há espaço para o passado ou distrações agora. O túnel por onde caminharam horas antes está mal estável, estrondos altos ecoam ao redor deles.

Mas Akiri consegue ver o céu à frente.

Ela agarra Tazri novamente. "Pule!" ela grita.

Então, elas estão caindo. O vento rasga impiedosamente seu cabelo e suas roupas. Seu estômago se aperta com o vazio repentino. A descida rápida. Ela sente o aperto de morte de Tazri em sua cintura se intensificar.

Mas Akiri é uma mestre lançadora de cordas e, no meio de seu arco de queda, ela lança sua corda. Elas se prendem a um edro giratório e, em um instante, a queda perigosa torna-se um arco suave.

Elas deslizam e pousam em segurança em uma borda onde o solo flutuante está estável no momento.

Só então Akiri olha para trás.

O Casulo do Céu de Emeria está caindo em direção à terra. A Planeswalker corrompida presa em seu interior.

"Você acha que nós a detivemos?" Tazri diz, sua voz cansada e rouca.

Akiri olha para a vasta invasão que ocorre abaixo. Os soldados mecânicos tropeçam levemente, não mais marchando em fileiras organizadas. "Talvez", diz ela.

Pois a lançadora de cordas já enfrentou este inimigo antes e sabe que ela é mais obstinada que a pedra.

Mas Akiri olha para cima. O céu de Zendikar não é mais vermelho e gorduroso. Agora, ele brilha com uma luz suave e iridescente. Embora as chances estejam contra eles, eles encontraram sua mais tênue esperança.

E com ela, ela e seus amigos lutarão para salvar seu lar.

Episódio 9: Os Velhos Pecados de Nova Phyrexia

Séculos atrás, os anjos afastaram o óleo da não vida em Nova Capenna. Por séculos, o povo de Nova Capenna esteve a salvo do avanço do inimigo. Eles confiaram esse conhecimento sobre o inimigo às suas irmãs em outros planos — assim, o Multiverso permaneceu vigilante sobre a ameaça iminente. Era bom.

Não é mais o suficiente. Suas salvaguardas falharam.

Agora, o Multiverso clama por ajuda.

Outro anjo — corrompido e sombrio — veio a Nova Capenna para colher os frutos semeados pelo pecado de seu povo. Ela abre caminho através das defesas da cidade como um fazendeiro debulhando trigo. Edifícios que permaneceram de pé por gerações desmoronaram em momentos; vidro e sangue revestem as sarjetas; máquinas de guerra rugem por ruas que outrora fervilhavam com carros.

A pedra ganha vida. Anjos que esperaram séculos para servir novamente ouvem o chamado do clarim para a batalha. Pelo que esperaram, se não por isso? Armas radiantes cortam os cascos de monstruosidades imponentes. Asas protegem aqueles que fogem do ataque de porcelana do inimigo. Por horas, eles emprestam sua força. Aqueles despedaçados por armamentos phyrexianos desmaterializam-se por fim — como Halo, aquela essência angélica cintilante, eles ainda podem servir.

Mas os exércitos de Phyrexia fervilham aos dez mil, e há muito menos anjos em Nova Capenna do que antes.

Felizmente, eles não são seus únicos protetores.

Onde os anjos repelem o inimigo e protegem as forças capennas, há demônios e diabos para tomar a ofensiva. Aqui um serafim infunde uma torre com Halo; ali, um demônio decepa as cabeças daqueles que a escalam. Poucas coisas são mais repugnantes do que demônios, e haverá um preço por tudo isso mais tarde — mas é um preço que os anjos de Nova Capenna estão dispostos a pagar se isso mantiver seus protegidos a salvo.

A mais jovem entre esses anjos, Giada, quer ajudar. Mas ela é pequena demais para se juntar ao combate corpo a corpo, recém-formada demais para o front de batalha. Tudo o que ela pode fazer é observar das torres e gritar para os outros onde são mais necessários. Apesar disso, ela não consegue evitar sentir que há algo que está perdendo.

Ela tem certeza de que saberá quando vir. Anjos são movidos pela certeza, seus irmãos mais velhos lhe disseram.

Mais adentro da cidade vai Atraxa, seu exército em seu rastro. O funcionamento intrincado dos Altos do Parque não impede o balanço de sua foice.

Rebitadores cobertos de suor escondem-se em quaisquer vigas que conseguem encontrar. Suas mãos rápidas desmontam o trabalho de seus antepassados. Ferramentas usadas para forjar conexões agora são usadas para rompê-las violentamente em jorros de chama.

O anjo corrompido não os vê neste trabalho — eles são pequenos demais, numerosos demais, díspares demais. Estão abaixo de sua percepção.

No fim, isso é a sua ruína.

Uma explosão rasga as estruturas da cidade. Estando ela nas profundezas da estrutura do Mezzio, ela não percebe que a torre começou a tombar até que seja tarde demais. No fim, não é o escudo dos anjos que a mata, nem as maquinações dos demônios: é a própria cidade. A torre reluzente de vidro e aço de Nova Capenna desmorona sobre ela, solta de seus poderosos pilares e sistemas de suspensão. De seu posto, os anjos assistem a séculos de trabalho mortal colidirem contra a terra.

A essência de Giada borbulha de excitação, mas ainda não é o momento certo para ela intervir. Há alguém de quem ela espera ouvir notícias.

Os outros não perdem tempo. As defesas de Nova Capenna não devem estar confinadas apenas à cidade. Se o Multiverso deve sobreviver, os anjos devem zelar por ele e lutar contra Phyrexia com tudo o que possuem.

A morte de Atraxa mudou Nova Phyrexia — e a Árvore da Invasão está mudando com ela. Os anjos sentem isso como os mortais poderiam sentir a terra tremendo sob seus pés. Os espinhos estão se retraindo de volta ao seu lar, deixando el caminho aberto para ataques.

Sua visão de Nova Phyrexia além dos portais muda para a visão de outro lugar — um lugar com um mar cor de vinho escuro, um lugar onde o céu brilha com as crenças de seu povo. E embora não existam anjos em Theros, eles não podem negar que o lugar precisa desesperadamente de ajuda. Fazer a coisa certa sem considerar a própria segurança, ver além das necessidades de poucos: é isso que significa proteger o Multiverso.

Giada sorri. Este é o começo das coisas — o começo do que ela estava esperando. Ela grita apressadamente para os outros: é aqui que somos necessários, é para cá que temos de ir! Ajudem-nos se puderem!

Os anjos voam pelo ar, lançando-se em velocidade inimaginável em direção ao portal. Do outro lado, eles irrompem bem acima do mar. Os anjos deslocados dessa forma não sentem medo, hesitação ou arrependimento — eles simplesmente fazem o que sempre fizeram.

Eles protegem.

Como partículas de poeira, eles viajam nos ventos em direção ao seu destino. Alguns envolvem a garganta de um monstro marinho que se debate, segurando-o no lugar por tempo suficiente para que uma tripulação de marinheiros decepe suas cabeças. Outros seguem para os templos. Os deuses que chamam esses templos de lar não importam; suplicantes em busca de proteção logo a encontram. O óleo negro espalhado pelo braço de uma mulher em fuga evita milagrosamente suas feridas; um lançador de dardos vira-se no segundo antes de se encontrar espetado.

Arte de: Dominik Mayer

Há um deus que percebe a chegada deles. Brilhante como o sol da manhã, o conspurcado Heliode resplandece, os anjos etéreos ameaçando queimar sob sua vista. No entanto, eles se aventuram mais perto, e mais perto, e mais perto, pois escalando atrás dele está uma mulher que precisa de ajuda tanto quanto odeia pedi-la. Tão distraído está o deus que ele não percebe a forma envolta em violeta de Kaya sobre sua carapaça corrompida. Quando por fim ela crava uma adaga em sua garganta — bem, os anjos cuidam para que o jato de óleo negro nunca a toque. Enquanto o deus se desvanece, a mulher pousa mais uma vez no templo. Ajani está lá para encontrá-la — mas o que uma matadora de deuses tem a temer de um mero mortal?

O coração sem forma de Giada bate mais rápido. Cada passo é um passo para mais perto de sua antiga amiga.

Mais uma vez os portais de Nova Capenna mudam, desta vez para miríades de planos, alguns novos para os anjos, outros familiares — todos nos estertores desesperados de uma luta que não podem vencer sozinhos. Ainda bem que eles não estão mais sozinhos.

"Atacar!" grita Giada.

Trombetas de guerra ecoam por toda Nova Capenna, e os anjos espalham-se para onde são mais necessários. Em planos onde são adorados, em planos onde são odiados, em planos onde são completamente desconhecidos — eles fazem o que sempre fizeram.

Quando por fim os portais se voltam para Nova Phyrexia, Giada sabe exatamente o que fazer. El momento finalmente chegou. Ali, em plena vista, está Elspeth Tirel.

Estou tão feliz em ver você , ela chama.

Elspeth Tirel está ocupada demais para fazer mais do que lançar um olhar em direção ao portal: há milhares de phyrexianos investindo contra a plataforma diante dela. A luta consome a maior parte de sua atenção. Mesmo assim, quando seu olhar desliza em direção à superfície, há um pequeno sorriso em seus lábios. Giada. Eu também estou feliz em ver você.

Ela já aprendeu a falar da maneira correta, não aprendeu? Aquece o espírito de Giada ver Elspeth brilhando tão intensamente. Você se saiu tão bem.

Obrigada , Elspeth responde. Ela crava sua espada através de uma serpente-lâmina alada, partindo-a ao meio. Mas ainda há trabalho a ser feito.

É exatamente o que eu queria lhe dizer. Alguns de nós estamos vindo para ajudar.

A serpente cai no chão, mas Elspeth permanece em voo. Uma trepadeira de cobre envolve seu braço da espada. Ela a decepa com um golpe pesado. Qualquer ajuda que você possa enviar, eu aceitarei de bom grado.

Giada lembra-se de como é sorrir abertamente. Embora não possa nesta forma, ela sente isso em seu espírito.

Ela prepara outro chamado.

Aqueles que forem para Nova Phyrexia não retornarão. É um preço pequeno a pagar. Alguém deve zelar por eles — alguém deve estancar o sangramento.

"Atacar!"

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Em Dominária, dizia-se frequentemente que os zhalfirianos não conheciam o medo, mas os zhalfirianos diziam o contrário. No que lhes dizia respeito, eles conheciam o medo melhor do que qualquer outra pessoa. Você poderia encontrar o medo sentado junto às fogueiras ao cair da noite. Todo pai que enviava um filho para a guerra conversava com o medo pelas manhãs e à noite. O medo estava com você quando inspecionava seus campos e se perguntava se haveria o suficiente para a próxima temporada. A verdade é esta: quando você conhece o medo e o convida para sua casa, quando trata o medo como trataria qualquer outra pessoa, o medo não pode mais assustá-lo. Sua comunidade cuidará dos seus medos, e você cuidará dos deles.

O Multiverso tem medo de Nova Phyrexia.

Pois bem. Que Zhalfir cuide disso.

Arte de: Chris Rallis

Armados até os dentes, sorridentes e ansiosos ao enfrentarem o inimigo — os clãs de guerra estão mais do que felizes em encontrar os phyrexianos. Enquanto a barricada de Koth vem abaixo, os zhalfirianos avançam. Teferi flagra Koth olhando para eles com confusão. "Espere, de onde vocês vieram? O que está acontecendo?"

Teferi sorri para ele. O orgulho cresce em seu peito. "Zhalfir. Wrenn nos encontrou. Estamos aqui para ajudar." Ao redor deles, o teto começa a desmoronar, o chão está tremendo. Teferi não se incomoda. "Os dois planos estão trocando de lugar — Nova Phyrexia está sendo lançada no abismo, e Zhalfir está~ finalmente voltando para casa. Ela acolherá você e os seus, se você permitir."

Koth olha para as forças reunidas. Sua expressão é difícil de ler — determinação, alívio e tristeza, todos esculpem suas marcas em seu ferro. "Então vamos garantir que Phyrexia nunca se esqueça de nós. Mirrianos, deixem suas marcas!"

Não restam muitos mirrianos — mas aqueles que podem lutar estão mais do que felizes em se juntar ao ataque.

Um véu de luz multicolorida pousa sobre as vestes vibrantes do exército como a bênção de um deus distante. O poder formiga em sua pele. Eles sabem o perigo que o óleo negro representa para eles. Eles sabem como combatê-lo. Lanças perfuram serpentes phyrexianas e as pregam na superfície da plataforma; pedras arremessadas esmagam-nas sob os pés. Chuvas de fogo derretem o inimigo no lugar; sopros de gelo tornam-nos quebradiços; o golpe de um grande martelo despedaça-os em centenas de pedaços.

Por anos, Zhalfir esperou a chance de provar seu valor contra essas escórias argentadas. Agora que estão no calor da luta, há uma alegria orgulhosa no ar. Sidars iniciam seus cânticos, chamados e respostas ecoando das bocas de Askari, Akinji e Altali:

"Vocês não podem quebrar —"

"— o que foi tecido em conjunto!"

A bravura é tão potente quanto qualquer armadura. Após apenas alguns minutos no campo, os zhalfirianos abrem uma brecha nas forças do exército phyrexiano, enquanto seus curandeiros cuidam dos mirrianos feridos na plataforma. Na vanguarda cavalga Teferi, seu cajado resplandecente, magia girando ao seu redor. As lanças que voam, os enxames de insetos laminados, os estilhaços dos mortos soprados em pedaços — tudo desacelera ao se aproximar dele. Seus companheiros agarram armas no ar e as lançam de volta contra seus donos. E embora Teferi raramente tenha conhecido um esforço como este, ele o enfrenta com o coração alegre e séculos de habilidade.

Correndo para alcançá-lo estão os outros mirrianos — aqueles que ainda podem lutar. Chandra o aponta para Koth. "Viu? É ele! Aquele é o Teferi! Eu te disse que ele era —"

Ela é interrompida quando o Pretor Vorinclex salta em direção à vanguarda de Teferi. Um momento de hesitação interrompe a respiração de Chandra, mas Vorinclex não vai longe antes de atingir a parede da magia de Teferi. Todos — não importa o quão temíveis — parecem tolos movendo-se em câmera lenta.

Até Koth abre um sorriso com a cena. "Tudo bem. Talvez você estivesse certa." Mas ele também está ocupado. Koth crava ambos os punhos no chão. Duas rachaduras espalham-se em direção aos zhalfirianos, uma de cada lado. "Dê-me uma mão."

Chandra não sabe exatamente o que ele quer, mas assume que ele precisa de fogo. Ela envia labaredas disparando por cada uma das rachaduras. Chamas erguem-se para repelir os golpes iminentes do exército phyrexiano — e transformam as armas ardentes dos Askari em infernos laminados. Apenas alguns segundos depois, Koth levanta os braços num movimento brusco. Estilhaços de metal incandescente caem como a condenação do Multiverso sobre as costas do exército phyrexiano.

Contudo, nem todos encontram seu destino tão facilmente. Mesmo a concentração de Teferi pode oscilar. A luta de Vorinclex contra ela finalmente encontra apoio; ele arranca as mandíbulas da montaria de Teferi e o envia rolando para o chão. Em um piscar de olhos, o pretor está sobre sua presa.

O rugido de Vorinclex anunciou a morte de muitos guerreiros — mas o medo é um velho amigo de Teferi, e ele não sente sua atração agora.

"Olhe para trás."

O pretor vira-se, rosnando.

Uma espada flamejante decepa a cabeça de Vorinclex de seu corpo. Uma das Askari — uma mulher chamada Shella, que frequentemente deixava seus camaradas debaixo da mesa de tanto beber — oferece a Teferi uma mão para levantar. Ele a aceita, agradece a ela, e então ela se vai. Em um campo de batalha, sempre há mais trabalho a ser feito.

É então que ele vê o anjo, pairando apenas um pouco acima. A serenidade de sua expressão esconde a preocupação em seus olhos.

"Você precisará ser mais cuidadoso."

"Elspeth~ ?" pergunta ele. Mas a confusão em seu rosto muda para aceitação, e ele oferece a ela um sorriso no meio do campo de batalha. "Fico feliz que você esteja aqui."

Há algo estranho na maneira como ela olha de volta para ele, como se não entendesse inteiramente como deveria responder. No fim, ela não responde.

Teferi entende. Às vezes as pessoas mudam. Ela ainda é sua amiga — e uma soldado habilidosa. "Algum conselho tático?"

Uma raiz de cobre voa em direção a Elspeth; ela a decepa com um único corte. Ela não lança um olhar sequer a Teferi. "Deixe Nissa comigo. Suas forças precisarão conter Jin-Gitaxias e Norn. Minhas irmãs nos deram um presente. A infecção não pode se instalar enquanto elas estiverem conosco. Não o desperdice."

Elspeth fala em uma voz surpreendentemente normal, como se estivesse discutindo o que vestir em um passeio, em vez de planos vitais para a sobrevivência da vida em todos os planos.

"Entendido", diz ele — mas a essa altura ela já havia partido.

Acima deles, o teto do santuário racha. Trabalho de Wrenn, aposta Teferi: enquanto Zhalfir se move para ocupar o lugar de Nova Phyrexia no Multiverso, Nova Phyrexia está rachando sob a pressão. Estruturas rasgam-se e quebram-se. Placas de metal despencam. Magos zhalfirianos conjuram os ventos para redirecionar as rochas para fora, em direção ao inimigo. Nenhuma quantidade de armadura phyrexiana pode proteger contra as forças da massa e da gravidade — manchas de óleo negro são tudo o que resta daqueles esmagados por baixo. Torres distantes tombam, monumentos estilhaçam-se, tanques racham e o óleo lubrifica a passarela. O chão ronca sob os pés de Teferi.

Estes são os estertores de morte de Phyrexia.

E ali está o seu lamento fúnebre de morte: arremessando soldados de lado com facilidade, consignando-os ao abismo, está Elesh Norn. Sua armadura de porcelana está picada em alguns lugares e completamente fendida em outros, revelando seus tendões fracos e rasgados por baixo. Agigantando-se sobre o exército — até mesmo sobre as máquinas de guerra — ela parece a Teferi como um leão com uma ferida inflamada.

"O que fizemos~ o que eu construí durará para sempre!" ela grita. "Phyrexia nunca morrerá. Vocês estão apenas adiando o inevitável. Por que não conseguem entender isso? Por que não aceitam seus destinos?!"

Teferi envia a ordem através das fileiras para concentrar o fogo na preitora gigante. Uma saraivada de magia — relâmpagos, gelo, fogo, raios de energia verdejante, trevas definhantes — repele-a. Norn cambaleia, balançando-se sobre os pés. A boca de Norn, lubrificada por óleo, fica aberta em choque; ela aperta uma garra contra o conjunto de feridas em seu peito. Quando ela inspeciona o exército mais uma vez, solta outro grito.

"Por que nenhum de vocês está me protegendo!? Eu sou Phyrexia!"

O exército a ouve, e o exército para — mas apenas o suficiente para que seu próprio general se manifeste. Jin-Gitaxias cavalga no topo de uma máquina de guerra colossal. Longa e estreita, ela está adornada com todo tipo de armamento: lâminas, espigões, um grande aríete em sua cabeça. Tudo isso para proteger sua carga preciosa: um tanque cheio com sua própria progênie. Criaturas contorcidas como tritões, quase prontas para nascer, pressionam suas faces sem feições contra o vidro. Quando ele fala, o tanque cintila com luz. "Seu ego é um tumor em qualquer talento que você possa ter tido. Nova Phyrexia evoluiu além de você. Mas seus restos podem ter alguma utilidade."

Vê-los voltarem-se uns contra os outros surpreende e alivia Teferi.

Assim como o estrondo familiar da chegada de um Planeswalker — até que ele vê Ajani, gravemente ferido, juntando-se à briga. "Você?" zomba Jin-Gitaxias. "Saia do caminho. Aquela coisa atrás de você é o verdadeiro inimigo de Phyrexia."

"Não", brada Ajani. "Phyrexia permanece unida, ou não permanece de forma alguma."

Teferi não teve tempo de decidir o que fazer antes que as legiões de Jin-Gitaxias descessem sobre Norn e Ajani.

Centuriões golpeiam a armadura dela, arrancando placas em pedaços, enquanto ela esmaga quantos deles consegue. É como se ela estivesse sendo assaltada por um enxame massivo de besouros — todos com dentes afiados e armas ainda mais afiadas. Ajani rasga e golpeia-os, primeiro com seu machado e depois, quando este é arrancado de suas mãos, com suas garras e dentes.

Ele não pode deter a todos. Deixe que eles enfraqueçam Norn.

Ajani salta na frente dela apenas para receber uma rajada desorientadora de magia que o deixa de costas no chão. Cordas e redes são lançadas sobre ele, e guerreiros zhalfirianos avançam com lanças. Em um instinto que ele não consegue nomear, Teferi grita: "Esperem! Peguem aquele vivo!"

Ajani debate-se contra seus grilhões, vertendo sangue e óleo nas cordas, até que outro feitiço o congela solidamente. Obediently, os guerreiros arrastam o leonin subjugado para fora da luta.

Enquanto isso, Jin-Gitaxias deu tanta atenção a Norn que se deixou vulnerável. Os zhalfirianos entendiam os perigos das lutas internas como poucos. Isso os deixou em uma posição única para capitalizar sobre as falhas de seus inimigos — e salvar o que pudessem de seus amigos.

Enquanto Jin-Gitaxias supervisiona o ataque de seu exército a Elesh Norn, Teferi e a vanguarda seguem direto para ele. Garras rasgam aço e ferro; espadas e machados fendem crânios e esternos. Sempre os cânticos de guerra e tambores zhalfirianos lhes conferem vigor. Enquanto Phyrexia morre ao redor deles, os zhalfirianos estão mais vivos do que nunca.

Quando o pretor vira-se para contemplar o esplendor de sua bravura, ele ri, pois não conhece o medo. "É este o melhor que vocês podem reunir? Orgânicos ?" Ele gesticula com sua garra. Espigões disparam dos flancos de sua máquina de guerra, empalando as feras que lutam para quebrá-la. Sangue espirra no vidro enquanto os animais uivam.

"Olhe ao redor", chama Teferi. "Parece-me que Nova Phyrexia é quem está sendo deixada para trás."

Arte de: Chris Rallis

Jin-Gitaxias gesticula mais uma vez. Lâminas emergem das articulações da máquina de guerra. Outro gesto e elas começam a girar. O coração de Teferi afunda. Muitas de suas montarias não sairão vivas desta. Mas valerá a pena se o restante puder sobreviver — haverá tempo para lamentar seus antigos amigos mais tarde.

Teferi esquiva-se do golpe iminente de um centurião. Lâminas, gavinhas e espinhos desaceleram enquanto ele tece seu caminho através do combate corpo a corpo em direção à máquina de guerra. Embora a proeza de Zhalfir seja lendária, isso é algo que só ele pode fazer. Respirando fundo, ele pousa a mão na face plana das lâminas giratórias.

Por um segundo precioso, elas param.

É o suficiente.

"Você não vai machucar Teferi!" grita uma mulher. Teferi olha para cima para vê-la: um membro do próprio clã de guerra, um martelo de guerra massivo erguido bem alto acima da cabeça enquanto ela voa em direção a Jin-Gitaxias. Quando ela o descarrega sobre ele, o vidro da máquina de guerra racha. Um líquido fétido jorra, banhando Teferi em sua imundície. Roupas novas serão um preço pequeno a pagar para ver Jin-Gitaxias despencar em sua própria criação. Ainda menor quando suas próprias criações começarem a devorá-lo.

Teferi limpa o rosto.

Ele olha de volta para a Árvore da Invasão. Koth está supervisionando el portal. A maioria deles já cruzou para Zhalfir — mas alguns permanecem. Koth, Chandra e Karn, todos ficam. E a julgar pelas bordas irregulares do portal, não restará muito tempo para voltar.

É hora de ordenar a retirada; os clãs de guerra já fizeram o suficiente aqui. Teferi sinaliza para os tamboreiros. O ritmo vital sob seus pés muda para algo muito mais sombrio.

Zhalfir sabe o que isso significa. Para que o todo prospere, os indivíduos devem ser mantidos em segurança. Nova Phyrexia está desaparecendo — mas isso não significa que os mirrianos tenham de desaparecer junto com ela. Enquanto viverem, eles podem forjar um novo lar.

"Abram caminho para os mirrianos!" vem o grito do líder de guerra.

Phyrexia não os deixa partir facilmente. Os zhalfirianos na frente repelem os golpes que podem enquanto a retaguarda do exército retira-se através do portal. A cada passo que dão para trás, eles deixam dezenas de phyrexianos mortos para trás. Há zhalfirianos também entre os mortos — mas eles são tratados com reverência. Há aqueles entre o exército cujo único trabalho é garantir que esses corpos retornem para casa — Altali velozes que tecem entre os emaranhados do combate corpo a corpo vestidos de branco brilhante. Os zhalfirianos abrem caminho ao verem seus uniformes para permitir que passem.

Quando Teferi consegue voltar à plataforma, quase todos já foram à frente. Ele consegue ver seu lar esperando para recebê-lo do outro lado — e consegue ver Wrenn, também, projetando-se da superfície da árvore. Sua antiga amiga tornou-se uma delicada estátua de cinzas. Pouquíssimo de sua casca permanece intacto. Teferi engole em seco com a cena. Quando ele olha para os exércitos mais uma vez, o pensamento soa alto em sua mente: nada disso teria acontecido sem a intervenção dela. Deve haver algo que ele possa fazer para ajudar.

E ali, enquanto a estuda, ele consegue ver: uma bolota escondida entre as cinzas.

Ela crescerá forte como ela cresceu em Zhalfir.

Enquanto ele cuidadosamente a colhe das cinzas, Koth grita de trás dele. "Eu trataria de ir embora se fosse você."

Teferi guarda a bolota no bolso e vira-se. Ele balança a cabeça. "Eu fugi uma vez antes de meu plano estar seguro. Nunca mais." Seus olhos caem sobre seu antigo amigo, Karn — ainda vivo, embora despedaçado pela experimentação phyrexiana. Teferi pousa a mão no ombro de Karn enquanto olha para Koth. "Vá em frente."

Mas o jovem é tão teimoso quanto o metal que pontilha sua pele. Ele não vai a lugar algum. E talvez isso seja o melhor: quando uma lança de cobre dispara em direção a Chandra, é Koth quem ergue um escudo para protegê-los. Estranho. Não é do feitio de Chandra deixar algo assim acontecer. Ela aproveitava qualquer desculpa que pudesse para derreter as coisas. Quando o escudo afunda de volta ao chão, o quadro fica mais claro.

Nissa está do outro lado. "Você arruinou tudo ."

"Você não é você mesma —" começa Chandra.

"Não há tempo", diz Koth. "Voltem pelo portal."

"Não. Eu não vou embora sem ela. Ela ainda está aí dentro, eu sei que está." Nissa lança outra rocha contra eles, forçando Chandra a explodi-la. Ela dá um passo à frente de Koth e abre os braços para Nissa. "Se você quer me matar, aqui estou. Mas eu sei que não vai."

Teferi morde o lábio. O otimismo de Chandra não conhece limites — mas pode acabar matando-a aqui.

"Ela ficará bem." É Karn quem fala ao lado de Teferi. "Elspeth está cuidando deles. Posso pedir um favor, Teferi?"

Como se para pontuar a questão, um lampejo de luz anuncia a chegada de Elspeth. Um segundo depois, ela crava o pomo de sua espada dourada na nuca de Nissa. A elfa cai como uma pedra para fora de sua armadura, e do céu.

E Chandra, é claro, está lá para ampará-la.

"Claro, velho amigo", diz Teferi. "O que posso fazer?"

"Ganhe-me mais um momento", diz Karn. Há um tom trêmulo em sua voz, um que Teferi nunca tinha ouvido antes. "Quero sair deste lugar pelo meu próprio poder."

Teferi dificilmente poderia negar-lhe isso. Enquanto ele observa, Karn forma para si um novo corpo, construindo-o camada por camada.

No horizonte, Norn rasgou a maior parte de seu próprio exército. Ela não se ergue mais alta e orgulhosa acima dos outros novos phyrexianos, pois eles lhe tiraram as pernas. Rastejando em direção a eles está uma abominação sem pele. Até seu adorno de cabeça foi estilhaçado, mas ainda assim ela se arrasta para frente. Escavando através dos campos de mortos, ela alcança o portal.

"Não temos muito tempo", diz Teferi.

"Não, não temos", concorda Karn. Ele flexiona sua nova mão — uma coisa talhada grosseiramente, sem nada de sua habilidade artística habitual. "Você deve ir."

"E quanto a você?"

Karn olha para Norn. "Há algo que precisa ser feito. Vá. Diga aos outros que não demoraremos."

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Karn sente-se pesado.

Não é um sentimento novo. No sentido mais objetivo, como um golem, ele sempre foi mais pesado do que qualquer coisa ao seu redor. Nos sentidos subjetivos, as coisas frequentemente não têm sido muito melhores. Desde a morte de Urza, Karn sentiu-se pesado todos os dias de uma forma ou de outra. Em alguns dias, o peso do Multiverso empalidecia em comparação com o que ele sentia. E em alguns dias o que ele sente é o peso do Multiverso.

Este é um desses últimos dias. Observando Elesh Norn rastejar em direção à plataforma, ele está mais ciente do que nunca dos fardos que escolheu carregar. Mirrodin foi sua criação. Tudo o que lhe aconteceu é culpa dele. O que começou como simples ignorância de sua própria composição — trazer o óleo cintilante para Mirrodin — evoluiu para uma ignorância deliberada de seus fracassos. Por muito tempo, ele consignou este lugar ao esquecimento. Depois que Venser deu sua vida para salvar a de Karn, a melhor coisa a fazer parecia ser viver em expiação. Naquela época, ele pensava que deveria haver alguma maneira de consertar Mirrodin — alguma maneira de desfazer todos os seus erros.

Ele entende de forma diferente agora.

Karn lança um olhar para Teferi. O mago está resplandecente com magia, esforçando-se para manter o portal aberto. Após séculos de luta, Teferi finalmente corrigiu os erros de sua juventude.

É o mesmo para Elspeth. Todo aquele tempo fugindo de Phyrexia, todo aquele tempo tentando encontrar um novo lar em outro lugar, e ali estava ela apenas alguns momentos atrás, resplandecente na retidão de seu novo caminho.

Você não pode fugir de seus erros. Você tem que consertá-los. Isso começa enfrentando seus erros.

Karn dá um passo à frente. Na dilatação da bolha temporal de Teferi, o guincho de Norn é o zurro estrondoso de uma trombeta de guerra invisível. O que resta dela é piedoso e pequeno. Se ele partir agora, ela bem poderá morrer devido aos seus ferimentos.

Mas ele não pode ter certeza de que ela morrerá. E se Norn viver, sua ambição também viverá.

Muitos anos atrás, Karn jurou nunca causar dano aos vivos. Ele tinha visto os horrores da guerra e não queria fazer parte deles. El primeira invasão phyrexiana mudou isso, mas essas decisões nunca assentaram bem em seu âmago. Que direito ele tinha de encerrar a vida de outro? Ele, cuja vida era tão artificial? Ele odiava isso. Ele sempre odiou isso. Sempre que possível, ele tentou encontrar outras soluções.

Não há outras soluções para um mal tão pernicioso quanto este.

Para salvar a vida de muitos, ele deve ser exterminado completamente.

Quão pesado é este conhecimento.

Karn pousa a mão no que resta da cabeça de Norn.

Montar algo é um deleite — um quebra-cabeça que o agrada de uma forma que poucas coisas conseguem. A interação de engrenagens e eixos conectados é tão requintada para ele quanto qualquer canção. A música, ele descobriu, é muito parecida com a construção de uma máquina: cada peça de uma orquestra deve funcionar em relação e em conjunto com seus companheiros. Um maestro supervisiona os processos da mesma forma que um engenheiro supervisiona sua criação. Na música e na criação há unidade.

Na destruição, só pode haver solidão.

Ele odeia isso. Enquanto sua magia atua no corpo de Norn, arrancando porcelana de fios, ele é preenchido por uma repulsa animal. Ele quer desviar o olhar. Ele quer parar.

A violência, mesmo a serviço do bem maior, nunca deveria ser facilmente praticada.

Arte de: Scott Murphy

Ele força-se a olhar. A observar o metal desintegrar-se. Ele queima a visão do cadáver de Norn em sua memória.

Ele poderia ter pedido a Teferi. Poderia ter pedido a Koth. Certamente, poderia ter pedido a Elspeth. Mas ele está cansado de ver outros resolverem seus problemas por ele, e pedir que fizessem isso seria o mesmo que matá-la ele mesmo, no fim das contas. Esta é a menor maneira pela qual ele pode assumir a responsabilidade.

Quando termina — quando Elesh Norn é uma mancha vermelha contra a plataforma branca — Karn caminha para o portão.

Teferi cede, e o tempo retoma seu curso. A preocupação obscurece sua expressão quando ele vê a carnificina.

"Vamos", diz Karn.

É outro peso a carregar, outra gravidade sobre ele.

Mas é o primeiro passo em direção a um futuro mais leve.

Zhalfir o recebe.

Episódio 10: Os Ritmos da Vida

Em Kamigawa, um menino volta para casa, coberto pela poeira dos destroços de uma cidade. Quando chega, ele se porta de forma diferente — não mais agraciado com a inocência de olhos arregalados de uma criança. As coisas mudaram.

Sua mãe mudou.

O pai do menino sabe disso no momento em que ouve a voz dela, no momento em que a vê. Seu corpo se foi, substituído por uma sequência de caracteres que brilham em sincronia com uma respiração falsa. Um espírito que paira diante dele, segurando a mão de seu filho.

E, no entanto, é inegavelmente ela.

Um pai pode desejar muitas coisas. Um menino também. Mas o único desejo que compartilham é que sua família possa permanecer unida.

O destino tirou muito deles — mas não tirou esse desejo.

O pai abraça sua família. A mãe volta para casa. E o menino permanece exausto, mas feliz, no meio de tudo isso.

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Em Kaldheim, um elfo está na amurada de um navio requisitado. Ele observa os mares se agitarem diante dele e conta os minutos. Quanto tempo se passou desde que viu seu irmão?

Uma contagem de cem. Uma contagem de duzentos.

Quanto tempo se passou desde que a serpente o arrastou para baixo?

Duzentos e cinquenta.

A luta ao redor deles chegou a uma interrupção milagrosa. Em todos os lugares há comemorações barulhentas, em todos os lugares há música, em todos os lugares seus companheiros celebram uma batalha arduamente vencida.

No entanto, Harald tem ouvidos apenas para o mar.

Trezentos.

Quanto tempo levará até que ele desista?

Quanto tempo levaria até que Tyvar desistisse dele?

Harald nunca precisa responder à pergunta. Na contagem de trezentos e treze, Tyvar Kell irrompe da água agarrado à cabeça inchada da serpente. Sorrindo como sempre, ele dá um tapa na superfície dela. "Você viu, irmão? Você nunca superará isso!"

Harald não costuma comemorar quando se depara com uma vanglória que não pode igualar — mas hoje, ele abrirá uma exceção.

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Em Kaladesh, uma mãe se prepara para a morte. Que esperança ela tem para qualquer outra coisa? Sua única arma é um pedaço de metal afiado que ela recuperou dos destroços de seu plano. Cercada por soldados phyrexianos em uma plataforma acima do reservatório de éterfluxo, ela não tem para onde ir. O zumbido de uma lâmina de metal anuncia seu fim — mas se ela puder ao menos empurrá-los para fora da plataforma enquanto cai, talvez fique seguro por um pouco mais de tempo.

Ela respira fundo. Dá um passo. Prepara-se para a dor do impacto — apenas para a serra zumbinte parar.

Soldados desmoronam como pilhas de gravetos, seus membros de metal caindo da plataforma.

A esperança floresce no peito de Pia. Em toda Ghirapur é o mesmo: os phyrexianos estão caindo. Alguns param no lugar, alguns se desmancham. Aqueles já completados caem no chão como se estivessem em um sono profundo. À distância, seu navio de guerra está despencando do céu.

Eles venceram.

Pia Nalaar não tem certeza da mecânica disso. Ela não sabe como nada disso está acontecendo, embora suspeite que Saheeli a deixará a par mais tarde. O que ela sabe — e o que sempre soube — é que pode confiar em sua filha para resolver as coisas.

Naquela plataforma acima do reservatório, Pia murmura um agradecimento a Chandra.

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Você pode dizer muito com um tambor. Um ritmo conta a história das mercadorias mais recentes do mercado; outro, a chegada de um novo membro da família; um terceiro anuncia a passagem de um ancião. Quando você fala dessa maneira, a mensagem viaja por uma grande distância. O percussionista de outra comunidade pode ouvi-la e levar a notícia ao seu próprio povo, com um floresio para lhes dizer de onde veio. Por séculos, os zhalfirianos sabem disto: o que quer que falem com as palmas das mãos contra o couro esticado logo ressoará pelo plano.

E neste dia a mensagem é simples: Alegrem-se .

Em todos os lugares, os tambores chamam; em todos os lugares, o ritmo preenche os peitos dos zhalfirianos e lhes diz o motivo de sua alegria. Phyrexia jaz quebrada e derrotada além do alcance do tempo. A própria Zhalfir encontrou um novo lar entre os planos, um lugar onde podem mais uma vez receber visitantes.

Visitantes como seu próprio filho errante, Teferi.

Teferi também pode ouvir os tambores. É difícil não sorrir quando o faz. Para ele, foram centenas de anos ausente — centenas de anos nos quais ele poderia ter esquecido a linguagem rítmica de casa. Que alívio estar em uma colina gramada e entendê-la perfeitamente, em vez disso. Cada batida lhe diz que ele pertence a este lugar.

E, em outros dias, ele pode sentir que isso é verdade. Na maioria dos dias.

Hoje a história é mais complicada. Pois enquanto o povo de Zhalfir celebra sua vitória, Teferi lamenta suas perdas.

Levou a maior parte de dois dias para encontrar o lugar perfeito para Wrenn. Enquanto procurava, ele tentava imaginar de que tipo de coisas ela gostaria. Ela preferiria crescer entre os antigos baobás, protegida por essas árvores gigantescas? E quanto aos afiya — seriam eles mais falantes, já que costumava haver tantos deles? Ela admirava a natureza ereta e inabalável da marula, ou estava mais interessada no teixo flexível e místico? Zhalfir tinha tudo isso e muito mais. Qual é o tributo mais adequado para a mulher que salvou o Multiverso?

No meio do segundo dia, ele percebeu que estava fazendo tudo da maneira errada. O truque não era se perguntar sobre as especificidades da coisa.

Com a semente de carvalho na mão, ele pensou em sua amiga e caminhou até que parecesse certo.

Então, ele acabou aqui nesta colina gramada com vista para a cidade. Alguns carvalhos estão a uma distância de canto, ele pensa, e daqui ela poderá ver todo tipo de coisas na aldeia. E, quando estiver crescida, poderá escolher se mudar para onde quiser. Zhalfir a acolherá.

Teferi cava. A terra está quente, o solo escuro e rico. Ele coloca a semente na pequena clareira que fez e depois a cobre. Oferece a ela água de sua própria cabaça. Ele se senta ao lado do pequeno monte e suspira.

Arte de: Gaboleps

"Acho que você gostaria disso", diz ele. "A música, quero dizer."

O monte não diz nada.

"Eu deveria me juntar a eles. Você tem razão. Mas eu queria ter certeza de que você estava bem primeiro."

Lá na aldeia, os flautistas surgiram. Eles também começam a dançar ao redor das fogueiras. Ele os observa por um tempo: os jovens com mais vigor do que habilidade, os casais casados agarrados um ao outro com graça natural, os mirranianos que não conhecem os passos e as crianças que os ensinam. De todos os pontos de vista, é uma visão bela.

"Esperei alguns centenas de anos. Mais uns minutos não farão mal a ninguém. E eu queria agradecer a você, novamente, por tudo o que fez. É~" Ele passa a mão na nuca. "Por favor, não entenda errado, sou grato, mais grato do que jamais fui. Mas é difícil perder outra amiga."

Quando ele busca os rostos ao redor do fogo, muitos deles são familiares. Antigamente, ele conhecia todos nesta aldeia: suas mães, seus pais, quem fazia a melhor comida e de quem a comida era melhor ser servida sorrateiramente ao gado.

Ele viveu por anos sem eles. Séculos. No entanto, para eles, ele se foi há apenas pouco tempo. Há pontes que seus compatriotas nunca poderão cruzar com ele, coisas que nunca poderão entender. Mas a família raramente se entende completamente.

Este lugar — é um lar, e não é. É um lar que ele precisa aprender novamente.

São amigos que ele precisa fazer novamente.

No rastro da guerra contra Phyrexia, isso parece uma tarefa impossível.

Teferi inclina a cabeça para trás. "Eu sei que os outros estão aqui", diz ele. "E~ eu sei, eu deveria ir falar com eles. Ver como estão."

Apenas os tambores respondem. Ele fecha os olhos. Por um longo tempo ele não os abre. Em vez disso, coloca a palma da mão contra a terra e se esforça para senti-la de verdade. Para notar como ainda está um pouco úmida, como se sente quando puxa as folhas de grama, a elasticidade suave da terra abaixo. À distância, ele ouve risadas. Alguém, provavelmente um dos mirranianos, está perguntando como tocar flauta. Segundos depois, uma nota estridente tira todos do ritmo — mas seguem-se mais risos. O estalar de uma fogueira, o vento contra sua pele, o ar fresco do luar como beber água fresca~ todos os seus erros corrigidos.

Há uma dor pinicando os cantos de seus olhos, uma pressão.

Por um tempo, ele se permitirá chorar. Lágrimas por ele e seus anos perdidos, lágrimas por Karn e seu passado perdido, lágrimas por Nissa e Ajani e todos os outros que podem nunca acordar agora que Phyrexia caiu.

E, acima de tudo, há lágrimas por aqueles que não podem se juntar à dança perto do fogo.

Quando ele termina, é o meio da noite. A lua paira no alto do céu. A dança deu lugar à troca de histórias, algo que ele não consegue mais ouvir de onde está. Os zhalfirianos escutam enquanto um dos mirranianos fala. O fogo pinta sua pele esverdeada de dourado, mas o olhar em seus olhos é distante e sofrido. Thrun, eles o chamavam. Ele perguntou por Melira todos os dias desde o fim da guerra.

Todos pagarão o preço pela liberdade nos próximos anos. Teferi inclusive. Ele tem que ir ver os outros.

Ele dá outro tapinha reverente no monte de terra. "Obrigado pela companhia", diz ele. "Da próxima vez, trarei o resto de nossos amigos."

Uma vez em pé, não leva muito tempo para chegar ao seu destino. Aqui na ala dos curandeiros, não há dança. Não pode haver. Em todos os seus dias como menino, a ala nunca esteve tão cheia quanto agora. Camas transbordam para os arredores, galhos moldados para segurar os enfermos. Curandeiros movem-se de um para outro como abelhas dentro de uma colmeia. Aqui os lamentos dos moribundos fornecem um hino fúnebre para contrastar com o ritmo alegre.

Teferi não desvia o olhar de nada disso. Os resultados desta guerra estavam demorando a chegar. Se ele os ignorar agora, presta um desserviço a todos os que a tornaram uma guerra que poderiam vencer. Enquanto procura por seus amigos, ele dedica um tempo para visitar alguns dos feridos e desejar-lhes melhoras. Aqui e ali, quando sabe de algo que possa ajudar, ele auxilia os curandeiros em seus deveres.

Eventualmente, ele entra na estrutura principal propriamente dita. Karn, Koth e os outros são fáceis de localizar dentro dela: estão isolados em sua própria seção. Esta noite, seus novos sóis brilham sobre eles, mas de manhã o toldo acima será puxado e eles ficarão na sombra fresca. Ele se pergunta como Karn se sente sobre esse tipo de coisa, se faz alguma diferença para ele de qualquer maneira.

"~não é um conto de fadas. Você tem que parar de se agarrar a isso."

Ah — aquela voz. Kaya. She deve ter chegado enquanto ele estava fora. Ao contornar a curva para o recinto deles, ele se prepara para o pior.

"Existe um jeito. Eu apenas sei que existe. Tudo o que temos que fazer é encontrá-lo, certo? E ela não está piorando, então não vejo mal nisso."

"E se ela acordar?"

O ar na sala está tenso como a corda de um arco quando Teferi entra. De repente, ele sente os olhos deles sobre ele: Karn, Koth, Chandra e agora Kaya. Mas há outros na sala também. Nissa e Ajani estão ambos deitados em suas próprias camas. Chandra segura a mão de Nissa na sua — ela não se moveu desde que voltaram da Nova Phyrexia. Koth e Karn trabalharam com os curandeiros aqui para remover o máximo possível de metal phyrexiano dela — mas, pelo visto, ela teria que manter um pouco. Ajani, ao lado dela, é uma visão mais recente. Eles ainda não extraíram nada dele.

Exceto por sua respiração e o movimento ocasional de seus olhos, eles estão imóveis. Entre eles — e com alguma ajuda de Saheeli, durante sua breve visita — eles acham que entendem o porquê. Wrenn trocou os lugares de Nova Phyrexia e Zhalfir no Multiverso. Isso significa que a Nova Phyrexia está em algum lugar que nada pode alcançar.

Arte de: Anato Finnstark

"Suponham que vocês sejam a Nova Phyrexia. Vocês vão completar milhares de pessoas em pouco tempo. Qual é a melhor maneira de manter contato com elas?", Saheeli lhes perguntara.

"Algum tipo de sinal", respondeu Kaya. "Um chamado que apenas elas podem ouvir."

Saheeli assentiu. "Exatamente. Mas o que vocês usarão para transmitir seu sinal? O que unifica todos os phyrexianos?"

"Óleo?", arriscou Chandra.

"Isso mesmo. Talvez seja por isso que eles estão tão empenhados em espalhá-lo — para amplificar qualquer sinal que estivessem espalhando em primeiro lugar. Agora que Phyrexia deixou o Multiverso, eles ficaram fora de alcance. O óleo continua ouvindo novas ordens, mas não está recebendo nenhuma. Por que isso? Bem, há uma série de respostas possíveis, todas dignas de estudo. No entanto, em minha opinião de especialista, acho que tudo estava ligado a Norn. Uma megalomaníaca daquela escala não iria querer que mais ninguém tivesse controle sobre seu exército. Imagino que ela fosse a única que podia enviar ordens — e, além disso, que o óleo se torna inerte sem ela. Não iria querer um rival assumindo o controle quando você perde o contato, não é? Então, sem ela~"

"Eles podem dormir para sempre", disse Koth.

"Ou podem acordar", disse Chandra, que soava como se estivesse tentando convencer a si mesma antes de tudo. "A melhor coisa a fazer é esperar."

Isso fora dias atrás. Saheeli já havia partido para Kaladesh novamente. O resto deles? Continuaram esperando.

Claro, nem todos têm a sorte de escapar com vida em animação suspensa. Melira está aqui também. Teferi acena para ela ao entrar — mas ela mal tem forças para reconhecê-lo. Curandeiros fizeram o que puderam para esconder o cheiro de podridão, mas não há como se enganar. Seu ferimento no peito piorou. E, julgando pela palidez de sua pele e pelo olhar vítreo em seus olhos, ela não tem muito tempo. Koth está ao seu lado.

Teferi sente uma pontada de raiva de todos eles, discutindo sobre algo que poderia esperar quando Melira está nesse estado. Felizmente, eles pararam quando ele entrou. "Podemos discutir isso mais tarde, Kaya", diz ele. Ele pega uma pequena tigela e despeja água fresca para Melira. Entrega a Koth, que a ajuda a beber. "Por esta noite — vamos ser gratos por estarmos todos aqui inteiros."

"Certo", diz Kaya. "Desculpe."

"A guerra nos deixou todos no limite", diz Koth. "E não posso dizer que você está errada — temos que decidir o que fazer com eles. Mas talvez~ talvez não esta noite."

"Você tem alguma boa notícia?", Chandra pergunta. Como é típico dela — rápida em se irritar, mas igualmente rápida em perdoar e esquecer.

"Alguma", diz Kaya. "As coisas estão começando a se estabilizar. Em todos os lugares por onde passei, as pessoas estão começando a recuperar o fôlego. Liliana está bem. Vivien também. Tyvar vai se gabar de ter matado uma serpente marinha phyrexiana muito depois de estarmos todos mortos. Kaito está ajudando a Andarilha com os esforços de reconstrução em Kamigawa. Ainda não há sinal de Jace ou Vraska, mas não estou prendendo a esperança por nenhum dos dois."

A conversa prossegue a partir daí. Chandra tem cerca de mil perguntas para fazer e espaço apenas para dez; Kaya está feliz o suficiente para responder o que vier em seu caminho como uma oferta de paz.

Mas essa é a conversa deles. Notícias de planos distantes provavelmente significam pouco para Melira, que passou toda a sua vida nos confins da Nova Phyrexia. "Há algo que eu possa fazer por você?", ele pergunta a ela.

Para sua surpresa, ela oferece um sorriso fraco. "Sabe, é engraçado."

"Dizem que eu sou muito engraçado", ele responde. Koth está olhando feio para ele por isso, mas Teferi sabe o quanto o riso é importante para os doentes — e ela solta uma risadinha.

"Mais ou menos, de uma~ certa maneira", diz Melira. "Eu esperava que você passasse por aqui. Tenho um pedido."

Teferi segura a mão dela. "O que eu puder fazer para ajudar, basta dizer a palavra."

Melira vira a cabeça, movendo-se tão lentamente quanto um cata-vento travado. Seus olhos vítreos pousam em Karn. "Você poderia chamá-lo também?"

Não há necessidade. Karn pode ouvi-los bem o suficiente e aproxima-se pesadamente. Ocorre a Teferi que eles podem ser as pessoas mais miseráveis em Zhalfir agora. Uma espessa nuvem de culpa trava suas gargantas e queima seus olhos. Tudo o que podem fazer é oferecer companhia uns aos outros.

Pelo menos até Melira quebrar o silêncio. Embora ditas em voz baixa, as palavras são brilhantes e claras como um relâmpago. "Eu acho~ acho que tenho uma ideia para consertar os dois."

Koth franze a testa. "Eles se foram, Melira."

"Not totalmente. Se seus corações estiverem intocados, eu talvez consiga fazer algo. O sinal morreu, certo? Então, contanto que possamos limpar seus corpos, eles devem ficar bem."

"~Em teoria", diz Karn. Teferi sempre admirou como alguém tão grande quanto seu velho amigo podia falar em tons sussurrados. "Embora os meios de fazer isso tenham nos escapado."

"Aí é que está", diz ela. "Temos as peças bem aqui, todas se juntaram." Ela faz uma pausa. Teferi não tem certeza se é porque ela está refletindo sobre sua proposta ou porque está cansada demais para continuar falando agora. Antes que ele possa oferecer-lhe um pouco de paz para pensar, ela continua. "Se vamos fazer isso, temos que fazer logo. Não acho que tenho muito mais tempo. Não vai ser fácil e haverá um preço. Mas~ eu quero que as pessoas tenham esperança de que pode acontecer. E talvez daqui a anos alguém descubra uma maneira mais fácil de fazer isso. Uma que não exija a mim ou a Karn. As pessoas precisam dessa esperança."

Teferi abaixa a cabeça. Ao longe, ele ouve os tambores, anunciando a todos que quiserem ouvir que Zhalfir os acolherá. Alegrem-se, dizem eles. Celebrem por terem sobrevivido.

Nem todos sobreviveram. Melira não sobreviverá à noite.

Mas se puderem salvar Nissa e Ajani~ talvez valha a pena tentar. Talvez possam apagar apenas um pouco dessa doença.

"Vamos ouvir o plano", diz Teferi.

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"Aí está você. Você tem tempo para conversar?"

Koth não está acostumado com a forma celestial de Elspeth, mas tem alguma fé de que a mulher por baixo é a mesma. No entanto, apenas alguma. Uma mulher parada no topo de uma árvore, equilibrada em um único pé, observando os arredores em perfeita quietude, dificilmente pode ser considerada humana. Elspeth Tirel nunca olhara para ele com olhos tão límpidos antes.

"Koth. É bom ver você", diz ela. Embora esteja no topo da árvore e ele em sua base, ele a ouve perfeitamente. "Sempre há tempo para conversar, se conversar for o necessário. Dê-me um momento."

Ela desce da árvore, flutuando como uma pena diante dele. Enquanto os tambores continuam, eles seguem em direção a um trecho de grama limpo. Koth não consegue se lembrar da última vez que viu tantas plantas em um só lugar. Talvez nunca. Tudo aqui parece macio e delicado, como se estivesse sob ameaça de seus pés, mas ele tenta não remoer isso. Este lugar não é Mirrodin. Nunca poderá ser Mirrodin. O Mirrodin pelo qual ele lutou está tão morto quanto Elesh Norn.

Mas isso é parte do que ele quer conversar com Elspeth. Assim que estão fora do alcance dos ouvidos, ele respira fundo. Por onde começar? Ele poderia perguntar como ela se tornou~ isto. Agradecê-la por voltar a um lugar como Mirrodin sabendo que poderia matá-la. Eles poderiam falar sobre o que aconteceu lá, naqueles momentos finais, ou poderiam falar sobre o que está acontecendo na ala dos curandeiros agora. Normalmente ele saberia exatamente por onde começar — mas aqui, há apenas coisa demais.

"Você quer um conselho", diz Elspeth.

Ele sente um sorriso puxar seus lábios. "Não esperava que você começasse. Sim. Preciso de um conselho."

Ela não retribui o sorriso, embora haja uma certa suavidade em suas feições. "Esta forma tem suas bênçãos. O que o preocupa?"

"Você sabe sobre o plano da Melira?", pergunta ele. Ele não tem certeza de até onde se estendem essas novas bênçãos.

"Não. Mas sei que ela não estará conosco por muito mais tempo", diz ela. Elspeth olha para os sóis acima deles. "Sentirei muito a perda dela."

Estranho — a tristeza toca sua voz, mas apenas levemente, e nunca chega ao seu rosto. Quando ele conhecera Elspeth, ela chorava com frequência. Vê-la tão composta agora~ Koth sente orgulho, mas parte dele se preocupa com ela. Quando tudo isso acabar, o que restará daqueles que lutaram por Mirrodin? Elspeth é um anjo agora, a resistência sobrevive ensanguentada e quebrada, Melira está prestes a morrer e Karn~

O que eles farão com Melira, depois? Ela será a primeira deles a morrer aqui. Entre os Vulshok, os corpos eram queimados e as cinzas espalhadas. Mas quais eram as tradições aqui? Os zhalfirianos gostariam que ela fosse enterrada sob esta terra macia, para que as raízes pudessem reivindicar seus ossos e os vermes se banquetear com sua carne? Eles podem dizer que é uma honra se reunir à natureza, mas Koth sabe o contrário.

Melira é de Mirrodin. Eles lhe darão uma despedida adequada.

Quando chegar a hora.

Ele aperta os olhos fechados. "Ela quer tentar curar os outros. Ajani e a elfa."

"Devo a Ajani minha vida e muito mais além disso", diz Elspeth com um aceno de cabeça.

"Isso vai matá-la, fazer isso", diz Koth. "E Karn vai queimar o que lhe resta da centelha de Venser também. Eles têm tudo planejado."

Ele não se importa em discutir se Ajani merece redenção; Phyrexia corrompe aqueles que toca. Mas há uma amargura em seu coração quando considera que Ajani pode sair disso com tempo para considerar suas ações. Tantos mirranianos não terão a mesma oportunidade. E ninguém lutou para trazer os corpos de seus irmãos completados de volta — apenas os corpos dos mortos. Por que Ajani e Nissa estão recebendo uma segunda chance na vida quando tantos de seus companheiros não estão?

É algo difícil de engolir. Mais ainda quando os zhalfirianos têm sido nada além de gentis com eles. Refeições frescas todas as noites; novos lares coloridos para cada um deles e muitas visitas para afastar o silêncio; roupas novas e novos amigos. Difícil pedir algo mais do que isso. Mirrodin está morta, mas os mirranianos podem viver, graças a Zhalfir e seu povo. Ele é grato a eles — mais grato do que consegue guardar em sua mente em qualquer momento.

Mas Ajani e Nissa merecem essa mesma misericórdia?

As sobrancelhas de Elspeth se aproximam. "Hmm. Como deve funcionar?"

O fato de ela não perguntar sobre Melira ou Karn o irrita. Ele não consegue manter o tom nivelado quando responde. "Primeiro, ela vai inocular os corpos deles contra novas infecções. Isso é o padrão. Mas então Karn vai arrancar as centelhas deles. E usar a centelha de Venser para~ filtrá-las de alguma forma. Alguma teoria que Venser tinha antes de tudo acontecer. Quando ele as trouxer de volta, Melira limpará as centelhas e então Karn as colocará de volta dentro deles."

Tudo parece arriscado — ainda mais quando Elspeth não responde imediatamente. O silêncio apenas o deixa contemplar todas as formas como as coisas podem dar errado. Ele passa a mão na nuca, o metal áspero uma âncora bem-vinda à realidade. Todo o resto aqui era macio demais, luxuoso demais — até o tecido das roupas que lhe emprestaram. As pessoas aqui eram gentis, valentes e atenciosas — mas nunca conheceriam o sofrimento como ele conhecia. Que essa aspereza sempre o lembre disso.

"Você está com medo", diz Elspeth.

Parte dele quer contestar o ponto — uma grande parte, urrando dentro de seu peito. Mas ele sabe que ela está certa. "Você não está?"

Ela olha para os sóis novamente. "Não."

"Ela vai morrer."

"De uma maneira de sua própria escolha", Elspeth responde. "Uma vez, você me disse que lutaria por Mirrodin mesmo que não restasse Mirrodin. Você ficou, sabendo que poderia morrer, e não me deixou escolha no assunto. Você era meu amigo e deixei Mirrodin pensando que você tinha sido despedaçado por phyrexianos. Por anos, esse pensamento me doeu."

Koth olha para baixo.

"Eu não sinto mais essa dor. Mas a lição permaneceu: todos nós escolhemos como enfrentar nosso fim, e algumas causas valem o preço de uma vida. Melira está disposta a pagar esse preço em nome de outros. Há valor nisso", diz ela. Elspeth coloca as mãos nos ombros dele. "Ela está fazendo essa escolha por si mesma — e para o benefício de outros. Ela estará entre amigos."

"Mas o que fazemos depois?", diz Koth. Finalmente, parece que ele chegou à verdade da questão. "O que vamos fazer aqui?"

Elspeth permanece serena — mas oferece-lhe um sorriso. "Você tentará fazer deste lugar o seu lar. Ele o acolherá, se você permitir."

"Não tenho certeza se sei mais como fazer isso", diz ele. "E não acho que seja tão simples."

"Muitas coisas não são. Mas isso não significa que não valha a pena tentar."

Ela o atrai para um abraço — e ele se vê desabando contra ela, tentando dar sentido à cacofonia em sua cabeça. Elspeth podia ser difícil às vezes, mas isso é algo inteiramente novo. Ele não tem certeza do quanto ela o está ouvindo. Este lugar não é seu lar. Seu lar se foi, para sempre, e ela está apenas~

Ele odeia o quanto o abraço ajuda. Palavras não significam muito, mas pelo menos ela sabe quando alguém precisa ser amparado. "Você~ Você mudou, não mudou?", ele murmura.

"Sim", vem a resposta simples. "Mas sempre serei sua amiga, Koth. Se algum dia precisar de mim, tudo o que tem a fazer é orar." Ele a sente apertando mais forte — e ouve o bater de suas asas. Ela o está levando para algum lugar. A ironia o atinge como um martelo no peito. Anos atrás, ele a afundara no chão para enviá-la a outro lugar. Ele não queria que ela tivesse escolha. Esta noite, ela o ergue pelo ar para fazer a escolha por ele.

O vento chicoteia contra sua pele. "Isto não é um adeus."

"Não, comigo não", diz ela. "Mas você deve um adeus a alguém."

Seus pés tocam o chão novamente. Ela o deixou em frente à ala dos curandeiros. A terra traz consigo o peso do que logo acontecerá.

Não é a terra dele. A terra aqui é macia e elástica, cedendo prontamente demais a ele. Nada aqui é de metal, exceto as coisas que os próprios zhalfirianos fizeram — e mesmo assim, eles preferem osso e vidro onde os Vulshok usariam aço.

Nada neste lugar é um lar. Ele não vê como poderia ser. Talvez Elspeth consiga, de seu lugar exaltado, mas aqui no chão~

"Obrigado", ele grita para Elspeth. Por mais que sua mente ainda fosse uma avalanche, ela ao menos tentara ajudar.

"Sempre", diz ela.

Sempre. Tão fácil para ela dizer. Ela pode ser imortal agora — ela tem toda a eternidade para se sentir em casa. Mas ele?

Koth cruza os braços. Observa Elspeth decolar sob os sóis de Mirrodin. Observa os sóis também, enquanto se movem por um novo firmamento. Saheeli, a cientista, dissera que era provavelmente uma consequência não intencional da sobreposição dos planos.

Uma consequência não intencional — exatamente como ele e os outros mirranianos.

He respira fundo. Isso não será fácil. Mas enquanto esses sóis estiverem no céu, ele poderá enfrentar.

Este lugar não é o lar. Mas há um pouco de lar nele.

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"Vamos fazer isso lá fora. Eu quero~ eu quero estar lá fora quando acontecer."

Diante de tudo o que estão prestes a fazer, o pedido de Melira é simples. Teferi e os outros prometem honrá-lo.

Eles vão para fora: Teferi, Karn, Koth, Chandra, Kaya e Melira. As noites aqui são mais quentes do que os dias em alguns outros planos, mas não é um tipo de calor desagradável. Não, ao pisarem na grama balançante, cada um sente curiosamente como se estivesse entrando na casa de alguém.

A primeira tarefa é estender cobertores para Nissa e Ajani se deitarem. Depois vem o assentá-los. A luz do sol confere aos seus implantes phyrexianos um brilho dourado.

"Você tem certeza de que isso vai funcionar?", Kaya pergunta.

"Não saberemos até tentarmos", diz Chandra, afastando mechas de cabelo do rosto de Nissa. "E vale a pena tentar."

Silêncio, então, que Teferi teme que se torne outra discussão.

No fim, Kaya assente. "Certo. Bem~ ajudarei onde puder."

Ele fica grato por ela não iluminar todas as formas como isso poderia dar errado. Há muitas, e há muitas coisas a serem feitas. Para que isso funcione, todos devem trabalhar em harmonia — tal como os tambores de diferentes comunidades se unem.

O trabalho dele é, em alguns sentidos, o mais fácil, e ele perderá o mínimo através deste processo. Parte dele quase se ressente disso. Não, esse é o pensamento de um jovem, e egoísta além do mais. Ele fará o bem praticando o bem.

Agora mesmo, praticar o bem significa formar uma pequena bolha temporal ao redor deles. Não durará muito. Olhando para os outros, he pergunta se estão prontos.

Koth deita Melira entre Ajani e Nissa. Com os olhos fechados, ela assente.

Karn toma seu lugar em pé acima das cabeças de todos. Seus ombros sobem e descem com uma respiração desnecessária. É difícil não sorrir um pouco ao vê-lo assumindo traços tão humanos — mas este não é um momento para sorrir. Karn perderá quase tanto quanto Melira nisto. Se ele está nervoso, é apenas natural. "Estou disposto a tentar."

"Muito bem", diz Teferi. "Não conseguirei manter isto por muito tempo."

Ele inspira. A vibração suave dos tambores preenche seus pulmões tão certamente quanto o ar. A magia zumbe dentro dele. Seu corpo ainda dói pelos esforços da guerra, mas ele não vacilará quando seus amigos precisarem dele. Não mais.

De repente, o ar se distorce ao redor deles. A grama açoitante desacelera até quase parar. Além da esfera invisível de poder, o mundo exterior continua — mas aqui eles têm apenas o espaço entre duas batidas de um tambor para salvar seus amigos.

Karn age primeiro. Clovando a mão nas partes metálicas de seus corpos, ele arranca algo, algo cintilante e brilhante. Os ouvidos de Teferi zunem conforme a magia de Karn aumenta dentro dele, um motor ganhando vapor. Ou será hesitação? O que ele está prestes a fazer o mudará para sempre. De certa forma, ele está dizendo adeus a um velho amigo para salvar dois novos. Não admira que haja tanta angústia nele.

Teferi se esforça contra as ondas do tempo. Karn fará a escolha certa aqui, ele sabe disso.

Luz vaza de dentro das placas do golem de prata, uma luz tão pálida e reluzente quanto a da lua. Karn fecha os olhos. "Juntos, Venser", diz ele, baixo de uma maneira que só ele consegue ser.

Um estrondo trovejante ameaça derrubar a concentração de Teferi, mas ele se mantém firme. Ele passa e as duas orbes que Karn segurava se foram. Melira pega as mãos de seus companheiros. Ela também começa a brilhar — um brilho que se espalha por Nissa e Ajani. Seu rosto se contorce em concentração.

Primeiro, o leonino.

Cada segundo que não pode passar é um gancho na alma de Teferi. Ele grunhe enquanto se esforça para manter o tempo parado por tempo suficiente para que Melira termine seu trabalho. Enquanto observa, o brilho ondula através de Ajani. Por onde passa, deixa a pele deles mais brilhante e remove o brilho sinistro que Phyrexia imprimiu neles. O metal que resta é quase tão puro quanto prata lunar.

Mas isso é apenas metade do trabalho.

Outro estrondo vê as duas orbes retornando às mãos de Karn — uma inteira e pura, uma desmoronando.

Quando Melira volta sua atenção para a orbe de Nissa, o coração de Teferi afunda. Ela está oscilando. Pior do que isso são as partículas de energia semelhantes a cinzas caindo dela. Teferi está acostumado a ver as coisas acontecerem em câmera lenta; isto é como ver uma folha se decompor diante de seus olhos. Buracos de treliça se abrem enquanto a luz corre através dela.

"Eu não consigo desacelerar isso!", grita Teferi.

"Rápido!", diz Melira.

Kaya a ajuda a levantar, para que ela possa alcançar as orbes. Um único toque e um halo de luz ondula para fora delas.

Está quase na hora, quase.

O violeta envolve Kaya. Ela também crava as mãos nas esferas de luz. Junto com Karn, elas as enviam de volta para seus respectivos hospedeiros.

Teferi desfaz seu feitiço — e cai de joelhos. O suor escorre em sua testa. Os tambores retornam, trazendo consigo notícias que ele está cansado demais para acompanhar. Tudo o que pode fazer é voltar sua atenção para os outros e esperar que o que fizeram valha os sacrifícios que realizaram.

Sua resposta vem quando o olho bom de Ajani se abre, quando a respiração retorna ao seu peito cicatrizado. Apesar de seus ferimentos, ele se força a sentar. "O que~ Onde estou?"

Arte de: Viko Menezes

"Zhalfir", diz Kaya.

"Zhalfir? Isso é impossível", diz ele — mas quanto mais olha ao redor, mais parece perceber que é the verdade. Mas também o cansaço o domina. Ele desaba de volta no chão. "Teferi~ eu o parabenizarei em outra hora. Acho que meu corpo precisa descansar."

Ele adormece antes que Teferi possa dizer muito mais — e ainda bem. Deixe que ele tenha alguns momentos de paz antes que o horror do que fez o atinja.

Karn desaba, uma mão em seu grande peito. As luzes dentro dele diminuíram; apenas o fantasma delas permanece, uma pós-imagem em vermelho e violeta.

"Você está bem?", Teferi chama.

"É que~ eu me sinto mais sozinho", diz Karn. "Sentirei falta dele, mas ficarei bem."

Koth está menos seguro. Ele se ajoelha ao lado de Melira e a puxa para o colo. Ela caiu tão rápido quanto Teferi. A preocupação em sua testa é fácil de ler — assim como a miséria que o compele a fechar os olhos. "Ela se foi."

Kaya coloca uma mão em seu ombro.

Lágrimas escorrem por suas bochechas, mas Koth não as esconde, nem oculta quanta dor está sentindo. Teferi sabe exatamente o tipo de dor que o domina agora. Não é apenas a morte de Melira. É a de todos, sentida ao mesmo tempo — todos os seus amigos, camaradas~ quase todos que ele conheceu. Se foram.

Teferi se levanta. Ele e Karn abraçam Koth enquanto as lágrimas tomam conta. Não há palavras suficientes em momentos como estes. Sua única consolação é que o ferimento de Melira não a incomoda mais — que ela não deve mais viver com medo. Mas dizer isso seria um consolo frio para Koth, então Teferi morde a língua. Companheirismo terá que bastar. O luto é um fardo terrível de carregar sozinho.

No entanto, o ar está pesado de luto. Ao lado deles, Chandra sacode Nissa, a ansiedade aumentando a cada segundo.

"O que aconteceu? Por que ela ainda não acordou? A oscilação~"

"Algo deu errado", diz Teferi. Ele engole em seco. "Não tenho certeza se ela~"

Talvez tenha sido pedir demais. Trazer alguém de volta da phyrexis~ nem mesmo Urza tinha descoberto isso. Quem eram eles para tentar? Não ter outras opções não significava que teriam sucesso. Você poderia dedicar toda a sua vida a um ofício e nunca receber nenhum reconhecimento por isso. Você poderia passar cada minuto de vigília trabalhando para promover uma causa e nunca vê-la dar frutos. Desejar algo tão intensamente que isso ameaça quebrá-lo não significa que você tenha direito a isso.

Mas às vezes~

"Chandra~ ?"

Às vezes, valerá a pena.

Vale a pena estar vivo aqui em Zhalfir. Vale a pena estar cercado por velhos amigos e uma comunidade mais antiga — famílias antigas e novas.

Vale a pena colocar o passado, finalmente, para trás. Construir um novo futuro.

E vale a pena ver isso acontecer para os outros.

Ver a tensão no rosto de Chandra derreter em pura felicidade, vê-la abraçar Nissa apertado e ver Nissa segurá-la por sua vez, ouvir os soluços felizes junto com os desesperados~

Isto é a vida. É por isto que todos lutaram. Pelo que Melira morreu, por que Karn desistiu de sua centelha, por que Teferi passou centenas de anos tentando restaurar seu lar.

Por isto.

"Estou bem aqui", diz Chandra. Ela pressiona seus lábios contra os de Nissa. "Estou bem aqui e não vou a lugar nenhum."

Bom, pensa Teferi.

Ele também não irá a lugar nenhum por um tempo.